quarta-feira, 30 de março de 2016

vida: variações III, de Bénédicte Houart

primavera: rajadas de vento
despojam as papoilas das
pétalas recém-adquiridas
por sob pesados agasalhos
corpos bafientos aprontam -se
para apregoar a sua miséria
uma vez mais como jamais
na noite fria cigarras gritam ao desafio
junto às calçadas alcatifadas
de algodão dos choupos requebrados
nas quais deslizo soltando pragas
logo à janela inconsolável
em vão reclamo debruçada por
outro verão antecipado a pele áspera
desidratada as pernas desirmanadas
ao espelho reflicto intrigada
esta carne crua conquanto educada que
por muito pouco não foi tragada
pelo inverno clemente mortificada
talvez um certo subtil dia dissecada
se foi sem dúvida quando eu estava
como de costume catando palavras
na fétida infame infecta porém
quanto florescente lixeira da história
Vincent van Gogh

vida: variações III, de Bénédicte Houart

segunda-feira, 28 de março de 2016

Remédios contra o amor, de Ovídio




















«(...) pôs em movimento o Amor cor de oiro suas asas preciosas 
e disse-me: “a obra a que te propuseste, conclui-a”.

A meus preceitos acorrei, jovens iludidos,
a quem o seu amor levou a completo engano;
aprendei a curar-vos com quem aprendestes a amar;
a mesma mão vos traz o golpe e o socorro.
Produz a terra ervas que dão saúde e produz também ela
ervas nocivas, e perto da ortiga cresce, não raro, a rosa.
O golpe que ela, um dia, havia feito ao filho de Hércules, seu inimigo,
a esse golpe, a lança vinda do Pélion lhe levou a cura.
Mas quanto foi dito aos homens e quanto vos foi dito, ó mulheres,
acreditai: aos vários contendores eu forneço armas;
e, se de tudo isso, algo há que vos não dá jeito,
pode, ao menos, com o exemplo, muitas lições ensinar.
É útil o que me proponho: apagar chamas implacáveis
e não manter o coração escravo do seu vício.»

Remédios contra o amor, de Ovídio
(trad. Carlos Ascenso André)


quinta-feira, 24 de março de 2016

A Ilíada de Homero adaptada para jovens, por Frederico Lourenço

«A Odisseia propõe-nos um mundo simples (e francamente irreal) onde os bons singram e os maus soçobram. O sofrimento humano é visto em termos de castigo divino por erros conscientemente cometidos pelos homens. Na Ilíada, não é assim. A realidade é mais dura: antes de mais, porque é real. A relação entre erro humano e castigo divino não é de todo direta. Por outro lado, a possibilidade de uma vida feliz parece ser frontalmente posta em causa. Não há outra perspetiva para a vida humana além do sofrimento.
No entanto, a Ilíada (que, ao contrário da Odisseia, não admite bem-aventurança depois da morte) propõe uma circunstância redentora para a vida humana: levarmos os nossos objetivos até ao fim, custe o que custar, doa a quem doer, e nunca abdicarmos do bem supremo pelo qual devemos lutar com unhas e dentes (ou, melhor dizendo, lanças e espadas): a nossa própria autoestima. Morrer é uma obviedade tão patente que se torna banal. Viver em conformidade com o respeito que cada ser deve a si mesmo é que torna quem tal alcança único, excecional, heróico. Esses acabam por não morrer, porque é desses que “reza a história” ( = poesia).»


A Ilíada de Homero adaptada para jovens, por Frederico Lourenço
(com desenhos originais de Richard de Luchi)

quarta-feira, 23 de março de 2016

O Lugar Supraceleste, de Frederico Lourenço

Ser escritor

«Há três fases na vida de um escritor. A primeira é querer ser escritor. A segunda é tentar ser escritor. Depois há a terceira fase, para os raros que passam além da segunda: ser escritor. Depois começa o verdadeiro problema. Ser escritor não é automaticamente ser bom escritor.
Mas deixemos o problema de quem é ou não bom escritor, já que abre uma discussão onde pouco há que se possa dizer de objectivo. Não vale a pena eu estar para aqui a dizer que Tolstoi era um bom escritor, pois isso toda a gente já sabe. Também não vale a pena fazer afirmações que provoquem reacções pré-determinadas, como “Eça era um bom escritor” (o que suscita logo “Camilo era muito melhor”). Deborah Devonshire não é certamente melhor escritora que Clarice Lispector, mas ninguém negará que é escritora. Paulo Coelho (tão desdenhado por tantos intelectuais que consomem sem rebuço o equivalente musical de Paulo Coelho e acham isso música de que é uma legítima questão de gosto gostar) — sim, até Paulo Coelho, príncipe dos cabotinos, tem de ser considerado escritor. Não nos importemos, pois, com bons e maus, mas reflictamos apenas sobre o que é ser escritor.

Lev Tolsto
No seu fascinante Livro Azul, Wittgenstein escreve o seguinte: “quando falamos do sítio onde tem lugar o pensamento, temos o direito de dizer que esse sítio é o papel no qual escrevemos”. Umas páginas antes, o filósofo comentara que “o processo de falarmos connosco mesmos pode ser substituído por falarmos em voz alta ou então pela escrita”. Mais à frente, a ideia de que o papel possa ser o local onde se processa o pensamento é compreensivelmente rejeitada por Wittgenstein, mas a noção de que a escrita é o substituto ideal para as pessoas que não querem fazer figura de parvas a falar consigo próprias em voz alta parece -me ser a melhor definição do que é ser escritor.»

O Lugar Supraceleste, de Frederico Lourenço

segunda-feira, 21 de março de 2016

Pode um desejo imenso, de Frederico Lourenço

«Subitamente, com um arrepio de felicidade, Christian ouviu, de dentro da sala, o som inconfundível do cravo de Nuno, que, como nos versos de Sófocles alusivos à lira —
uma voz branda de cordas beliscadas
habita este lugar:
audíveis são os fantasmas de som
que espalha como flores
sobre a terra
— espalhava grinaldas de som argênteo num caleidoscópio sonoro de harmonias ibero-renascentistas. Christian voltou a inspirar o cheiro a algas exalado pelo Tejo. Num enlevo de felicidade redobrada, olhou mais uma vez para o rio e para a névoa de jacarandás em flor por baixo da varanda, salpicando a rua com um tapete de minúsculas flores lilazes.
Na sala, Nuno estava com uma expressão transfigurada: o aspecto angustiado dera lugar a um ar sereno, ligeiramente melancólico; mas era uma melancolia nobre, quinhentista. Tornara-se no espelho da música que estava a tocar.
Christian sentou-se para ouvir.»
Pode um desejo imenso, de Frederico Lourenço

sexta-feira, 18 de março de 2016

Estética da Dança Clássica, de Frederico Lourenço

«Em torno do bailado clássico – uma das realizações cimeiras da arte ocidental – gira, ainda hoje, um vórtice de mal-entendidos. Destes, o mais errado de todos é a suposição, que muitos intelectuais perfilham, de se tratar de uma forma de expressão artística apenas veiculadora de kitsch museológico e, por isso, ultrapassada e há muito postergada para o plano da irrelevância estética pela multiplicidade de técnicas e expressões do corpo a que se convencionou chamar dança moderna. Certo é que, em Portugal, os nomes de Isadora Duncan, Merce Cunningham ou Pina Bausch serão mais familiares do que os nomes de George Balanchine, Frederick Ashton ou Christopher Wheeldon.
Porquê? Talvez em larga medida porque, entre nós, a dança clássica tem conhecido um destino a que não faltaram dificuldades. Não tendo sido no bailado clássico que o prestigiado Ballet Gulbenkian centrou as suas atenções, coube ao meritório projeto da Companhia Nacional de Bailado (a cuja estreia lisboeta assisti no Teatro Nacional de São Carlos, a 17 de dezembro de 1977) travar uma batalha solitária, na qual devemos salientar e enaltecer o extraordinário papel de Armando Jorge. Honra lhe seja feita: entre 1977 e 1992, enquanto diretor da Companhia Nacional de Bailado (CNB), Armando Jorge demonstrou ter uma visão clara, de rasgo internacional, daquilo que é o bailado clássico em toda a sua complexidade estética. Percebeu que a dança clássica, para não cair na vulgaridade ou (pior ainda) no piroso, está dependente da observação minuciosa de incontáveis preceitos de bom gosto, de mil subtilezas de que o público nem se apercebe, mas que são o próprio sopro de vida da dança clássica.»


Estética da Dança Clássica, de Frederico Lourenço

Os Sapatos Vermelhos (1948), Michael Powell e Emeric Pressburger

quarta-feira, 16 de março de 2016

O último Natal de guerra, de Primo Levi

Cheque ao tempo:
«A experiência comum diz -nos que a passagem do tempo, tal como é percebida pelos indivíduos, não coincide com a indicada pelos instrumentos considerados objectivos. Segundo as minhas medições, um minuto passado à frente de um semáforo vermelho é em média 8 vezes mais longo do que um minuto passado em conversa com um amigo; 22 vezes se o amigo for do sexo oposto. Um anúncio na televisão deste Grão-ducado é sentido como tendo uma duração entre 5 e 10 vezes superior ao seu tempo real, que raramente ultrapassa um minuto. Uma hora passada em condições de privação sensorial ganha valores erráticos, que variam entre poucos minutos e 15-18 horas. Uma noite transcorrida em estado de insónia é mais longa do que uma noite passada a dormir, mas não tenho conhecimento de terem sido desenvolvidas, até à data, análises quantitativas. Como todos sabemos, o tempo subjectivo alonga-se consideravelmente se forem consultados com frequência relógios ou cronómetros.
Igualmente comum é a observação de que o tempo subjectivo se alonga durante experiências ou condições pouco agradáveis, como dores de dentes ou enjoos, enxaquecas, longas esperas e situações semelhantes. Pela malignidade intrínseca da natureza e da condição humana, faz -se ao contrário muito breve, ou mesmo evanescente, em condições opostas.»

O último Natal de guerra, de Primo Levi
(tradução de Clara Rowland)


segunda-feira, 14 de março de 2016

Satyricon, de Petrónio


«— Mas então que tiveram vocês para jantar?
— Já te conto, — respondeu ele — se for capaz disso; é que tenho uma memória tão boa, que muitas vezes até me esqueço do meu próprio nome! Ora, em primeiro lugar, tivemos porco coroado com um chouriço, com acompanhamento de morcelas e miúdos de frango muito bem preparados, e naturalmente acelga e pão integral cozido em casa, que eu prefiro ao pão branco: dá-me forças e, além disso, quando estou a fazer as minhas necessidades, não me vêm as lágrimas aos olhos. O prato seguinte foi pastéis de queijo frios, com uma cobertura de mel quente, regado por um vinho hispânico de excelente qualidade. Em boa verdade, aos pastéis nem os provei, mas de mel até me besuntei. À volta havia grãos-de-bico, tremoços, nozes descascadas à discrição e uma maçã para cada pessoa. Mesmo assim, eu agarrei em duas e tenho-as aqui escondidas no guardanapo; é que se não levo algum presente ao meu escravito, tenho logo algazarra. Mas em boa hora a minha patroa mo recorda: puseram à nossa disposição uns nacos de carne de urso; sem pensar, Cintila provou-a e esteve quase a ponto de vomitar as próprias entranhas. Eu, pelo contrário, despachei mais de uma libra, pois tinha o mesmo sabor que o javali. No que me toca é assim: se o urso devora o pobre do homem, muito mais deve o pobre do homem devorar o urso! No final, tivemos queijo fresco, vinho recozido, um caracol por pessoa, tripas aos bocados, fígado no prato, ovos embarretados, rábanos, mostarda e um prato cheio de merda — e pára, Palamedes! Circularam ainda, numa tina, azeitonas picantes, das quais alguns descarados sacaram umas boas três punhadas. Ao presunto, deixámo-lo ir em liberdade.»


Satyricon, de Petrónio
(versão portuguesa de Delfim Leão)
"A Imperatriz Vermelha" (1934), de Josef von Sternberg

quarta-feira, 9 de março de 2016

Seis Contos Morais, de Eric Rohmer

«Para já, não tenho vontade de me ligar seja a quem for. Converso, quando é caso disso, com os meus colegas, mas sempre sobre coisas insignificantes. Não tento cultivar as minhas relações. O ambiente é austero, mas creio que exagero acerca da frieza geral.
Este amor à solidão é invulgar em mim. No estrangeiro ligo-me muito depressa, sem precauções, porque sei que todos os laços são frágeis. Aqui, observo e mantenho as distâncias.


Desde que regressei, comecei a estudar freneticamente. Primeiro, Matemática, com a qual reatei por necessidades profissionais, mas que também cultivo por si mesma, como me acontece, por crises, de dois em dois ou de três em três anos. Um dia, numa livraria onde andava à procura de obras sobre o cálculo das probabilidades, dei uma olhada à prateleira dos livros de bolso e comprei os "Pensamentos" de Pascal. Não os tinha voltado a ler desde o liceu. Pascal é um dos escritores que mais me marcaram. Julgava sabê-lo de cor: de facto, encontrei um texto familiar, mas já não era o mesmo texto. O que eu guardava na memória só fustigava a natureza humana na sua generalidade. O que tinha agora diante dos olhos era algo de intransigente, de excessivo que me condenava, a mim e à minha própria vida, passada ou futura. Sim, algo que me visava muito particularmente a mim.»

Seis Contos Morais, de Eric Rohmer
(trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)

segunda-feira, 7 de março de 2016

Escritos sobre arte, de Paul Klee

Os caminhos do estudo da natureza

«O diálogo com a natureza é condição sine qua non para o artista. O artista é um ser humano, é natureza e uma parte da natureza no espaço da natureza.
O número e o tipo de caminhos a percorrer, tanto na produção artística como no mundo da natureza que lhe está associado, mudam apenas com a atitude do ser humano no que se refere ao seu raio de alcance adentro deste espaço.
Os caminhos, muitas vezes, parecem novos, talvez sem, no fundo, o serem. Apenas a sua combinação é nova; verdadeiramente novos, eles são-no quando comparados com o número e o tipo de caminhos de ontem.
Mas, ser novo em relação a ontem é, ainda assim, uma característica revolucionária, ainda que isso não chegue para abalar o grande mundo do passado. Por isso, a alegria trazida por essa novidade não precisa de ser diminuída; a vasta memória histórica apenas deve servir para evitar que procuremos à viva força uma novidade à custa da expressão natural.»


Escritos sobre arte, de Paul Klee
(Tradução de Catarina Pires e Marta Manuel, com revisão de João Barrento)

quarta-feira, 2 de março de 2016

Histórias de Imagens, de Robert Walser

Retrato de uma senhora

«Uma jovem senhora, uma rapariga de cerca de vinte anos, está sentada numa cadeira lendo um livro. Ou talvez tenha acabado de ler avidamente e reflicta agora sobre aquilo que leu. Acontece muitas vezes que aquele que lê tenha de parar, de repente, por todo o tipo de ideias relacionadas com o livro o ocuparem intensamente. A leitora sonha; talvez compare o conteúdo do livro com as suas próprias experiências de vida, pensa nos heróis do livro sentindo‑se ela própria quase como uma heroína.
O quadro é estranho e a pintura delicada e subtil, já que o pintor ultrapassou as fronteiras habituais, num impulso de beleza ousada, superando livremente os limites da perspectiva. Pintando o retrato da jovem senhora, representa também os seus sonhos encantadores e secretos, o seu pensamento e as suas fantasias, a sua imaginação bela e feliz. Pinta também sobre a cabeça ou a cabecinha da leitora, um horizonte distante, leve e delicado, como se fosse precisamente uma construção da fantasia, um relvado verde, rodeado por uma coroa de imponentes castanheiros, sobre a qual está deitado um pastor, que, por sua vez, parece estar a ler um livro, já que não tem mais nada que fazer. O pastor traz vestida uma saia azul escura e em volta deste mandrião satisfeito pastam os cordeiros e as ovelhas e ao alto, no céu limpo desta manhã de verão, voam andorinhas. Vêem‑se algumas pontas de abetos erguer‑se das copas exuberantes e redondas das árvores de folha larga. O verde do relvado é intenso e quente e fala uma linguagem romântico‑aventurosa e este quadro alegre apela‑nos a uma contemplação atenta e tranquila. O pastor ali, distante, no seu pedaço de relva verde, é, sem dúvida, feliz. Será que a rapariga que lê o livro é igualmente feliz? Certamente o mereceria. Todo o ser e todas as vidas na terra deveriam ser felizes. Ninguém deveria ser infeliz.»


Histórias de Imagens, de Robert Walser
(trad. Pedro Sepúlveda)

terça-feira, 1 de março de 2016

A Fonte Grega, de Simone Weil

«Que homens tenham por futuro a morte, é algo contra natura. Logo que a prática da guerra tornou sensível a possibilidade de morte que cada minuto encerra, o pensamento torna-se incapaz de passar de um dia ao dia seguinte sem atravessar a imagem da morte. O espírito sofre então uma tensão que só suporta por pouco tempo; mas cada nova aurora traz a mesma necessidade; os dias acrescentados aos dias fazem anos. A alma é violentada todos os dias. Todas as manhãs a alma mutila-se de toda a aspiração, porque o pensamento não pode viajar no tempo sem passar pela morte. Assim, a guerra apaga qualquer ideia de objectivo, mesmo a ideia dos objectivos da guerra. Apaga o próprio pensamento de pôr termo à guerra. A possibilidade de uma situação assim tão violenta é inconcebível enquanto não a vivemos; o fim é inconcebível quando nela nos encontramos. Por isso nada se faz que conduza a esse fim. Os braços não podem deixar de segurar e de manipular armas na presença de um inimigo armado; o espírito deveria congeminar para encontrar uma saída; perdeu qualquer capacidade de congeminar o quer que seja nesse sentido. Está inteiramente ocupado em violentar-se. Sempre, entre os homens, quer se trate de servidão ou de guerra, as desgraças intoleráveis duram pelo seu próprio peso e parecem, assim vistas de fora, fáceis de carregar; duram porque retiram os recursos necessários para delas sair.»

A Fonte Grega, de Simone Weil
(tradução de Filipe Jarro)