segunda-feira, 18 de setembro de 2017

As Palavras das Cidades

PARA LÁ DAS CIRCUNVALAÇÕES

Uma cidade? Uma cidade não são só os cafés, os boulevards, os plátanos, as montras, os táxis, os eléctricos, os japoneses, os museus, igrejas e teatros, mercados e hortaliças, não, nem só os hotéis, nem só as estações  de comboio enfumaradas que pintou Monet.
Uma cidade, eu vi-a.
Vi-a, sim, da varanda  de uma pensão na Avenida dos Aliados, no Porto, era Agosto, quente, mesmo quente, em 1954, tinha eu acabado de fazer seis anos e o meu pai tinha um Chevrolet com que fomos até La Toja, na Galiza. Ainda era escuro, seriam quatro da manhã .  Que faria eu com a minha mãe nessa varanda  sobre a rua Elísio de Melo, a que sai dos Aliados e vai desembocar na Rua de Ceuta? Seria um ataque de asma, para estar ao colo da minha mãe àquelas horas? Ou só o calor – que, no Porto, quando se abate, é sufocante?
Sei que se viam as oficinas   de um jornal, ”O Comércio do Porto”, isso sei.
E  ainda hoje a vejo, a  essa tipografia, os tipógrafos com batas azuis, automóveis, umas carrinhas, os ardinas descalços, uns mais velhos carregados de jornais, era a hora da saída, era o Porto que amanhecia.
E uma cidade é isso mesmo, Paris, Porto ou Lisboa que também o  maravilhoso Sérgio Godinho canta em canção que me encanta, Lisboa que amanhece.
E essas horas mortas, as cinco da manhã,  canta-as tão bem o indolente Jacques Dutronc, Il est cinq heures/ Paris s´éveille. E como eu gosto dessa cantiga longuíssima que escreveu Claude Lanzman (aquele que anos depois viria a fazer o tremendo “Shoah”): “são cinco da manhã/ é  a hora em que os travestis se vão barbear/  Paris acorda.”
Uma cidade, eu vi-a.
E depois, depois, vi os filmes americanos. E  vieram confirmar-me que era assim mesmo uma cidade, rotativas, jornais, madrugadas, cigarros, nervos, olheiras, discussões, lutas, liberdades. Eram filmes em que se viam jornalistas e se via boxe, sempre a preto e branco, claro. E homens corruptos e homens honrados. E os jornalistas fumavam pela verdade.
Pois, isso era a cidade.
Ainda a conheci.
Mas pronto, os jornais, se ainda saem de manhã, já não são comprados nos cafés, nos cafés já não se fuma, andamos por casa de roupão até mais tarde a beber fake bicas nespresso  e sabemos tudo (tudo?)  pela net – o que é bom e é triste, sozinhos aqui, cada vez mais sozinhos.
E agora as redacções saíram das cidades, escaparam-se para lá das circunvalações, os Isaltinos cederam-lhes terrenos longe de nós. Ou fecharam. No Porto já só há um jornal. Eu gostava de dar um salto às redacções,  passar pelo Diário de Lisboa para entregar artigos e receber bilhetes de imprensa para os cinemas e os teatros (ia falar com o senhor Quiñones, tinha lá sempre dois) , cruzar-me com a Isabel da Nóbrega n´A Capital, ela sempre janota e sempre a escrever, reunir com o Francisco Sousa Tavares – ou o Rodolfo Iriarte - quando vieram, por breves tempos, aqui para a Joaquim António de Aguiar, gostava de subir as escadas para ir à redacção do República, era a minha cidade e andava de eléctrico.
E era assim a cidade.
E gostava de ir às editoras. Nesses anos eram todas por aqui, apenas a Europa-América se “modernizara” e fugira da Rua do Alecrim para se instalar, industrial, na estrada de Sintra -  e para lá levara o Villaverde Cabral e depois o Luis Filipe Salgado de Matos. Foi a primeira a desfalcar esta vida das cidades, foi.
O que era bom era ir entregar traduções à Portugália, na Avenida da Liberdade, quase nos Restauradores (um 3º andar?) e cruzar-me com o José Gomes Ferreira ou o Luis Amaro, era bom ir à Ulisseia na Rua da Misericórdia ver se ainda arranjavam um exemplar do Hugh Thomas (“retirado do mercado” claro)  e, antes, ver o António Sérgio, carregadinho  de papéis, entrar na Sá da Costa para ir rever provas. E cumprimentar o Aquilino e o Abel Manta à porta daquela Bertrand. Ou, mais tarde, ir mais longe, à Estampa (à Escola do Exercito) e encontrar o Herberto; ou, mais longe ainda, na Rio de Janeiro, ir às Iniciativas Editoriais e ficar duas horas a falar de Angie Dickinson ou Lee Marvin com o Nuno Brederode (que também sabia tudo sobre o Charles Bronson.)
Sim, Turim é a Einaudi, sim, Genève é a Skira, Milão é o Corriere e a Feltrinelli, Paris é a Gallimard ali mesmo em Saint Germain (já não é) e claro, Richmond não existe sem   os Woolfs e a Hogarth Press nem Bloomsbury sem vislumbrarmos o cruel Eliot sentado no seu escritório da Faber em plena Great Russell Street, Barcelona é a Seix Barral e o escritório do Biedma,  as cidades são os livros a serem feitos e os jornais em hora de fecho, redacções e editoras são camarins sem horários, sempre a funcionar, cheiro das tintas, carmins e de pó de arroz.
Uma cidade são as editoras, os jornais,  papelada, é onde se prepara o dia.
E há a Cotovia! Que ainda é ali mesmo por trás de onde foi o jornal “República”, ainda há uma editora nesta cidade!
Olha, hoje era mesmo isso que me apetecia, descer aqui a Alexandre Herculano e apanhar, lá pelo meio dia, o Fernando Assis Pacheco carregado de livros a caminho d “O Jornal” que também foi na Avenida da Liberdade, dois dedos de má lingua, um abraço grande, era isso mesmo.


Jorge Silva Melo



Jorge Silva Melo nasceu em Lisboa em 1948, estudou na Faculdade de Letras de Lisboa e depois na London Film School. Crítico de cinema e teatro, encenador e actor, fundador, com Luis Miguel Cintra, do Teatro da Cornucópia, estagiário na Schaubühne - com Peter Stein - e no Piccolo Teatro/ Scala de Milão - com George Strehler -, argumentista, professor, tradutor, ensaísta, dramaturgo, realizador de cinema. Dirige, desde 1996, os Artistas Unidos. 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Mata-Borrão



Sedon

Poder-vos-ia falar do Minho pitoresco se a pena fosse novecentista. E então, sim. Então os viras, os ouros das mordomas, as contas, os cordões, as arrecadas, os relicários, os corações invertidos, as chinelinhas de verniz, os coletinhos ajeitando o colo roliço, que não há moçoilas como as do nosso Minho, as malgas cheias de verde tinto, que o branco ainda não se dava a conhecer, as esfolhadas de milho - rei, o linho que se planta, se arranca, se esmaga, se espadela, se doba, se fia, se tece em toalhas de altar ou em lençóis pecaminosos de noite primeira ou segunda porque verdade, verdadinha, aquilo no milheiral foi no que deu. Talvez até na romaria, as noites ao relento, os velhos a dormir. 
E então, sim, os jardins encantadores revolvidos a arado e a bois de grandes cornos, um pouco amarelos, mansos. A bem ver, minifúndios talhados a bisel. Quantas vezes a sachola afiada depois da ida à bruxa a confirmar o mau olhado, o mal querer, o mau vizinho do jardim encantador. E elas diligentes, à espera de notícias vindas do lado de lá do mundo, S. Paulo, Rio de Janeiro. E uns chegariam de terno e sapatos brancos, mandando construir uma casa nunca vista de tão grande, maior, muito maior que a dos senhores, porque alta e de beirais com ferro às voltinhas. E outros não chegariam nunca, viúvas ainda quase por casar, tão cedo se meteram nos porões, rasgada a fotografia ao meio pois a outra metade havia de vir na carta, mal o correio desse sinal.

Poder-vos-ia falar do Minho típico se a pena andasse ali por 40. E então, sim. Magras elas, magros eles, a dançar no Verde Gaio em palcos de Lisboa. As ermidas das aldeias mais portuguesas de Portugal, os ranchos folclóricos na voz cava de Pedro Homem de Melo, o galo de Barcelos ainda forjado por oleiros, a cantar cartazes na madrugada do turismo, tão longe ainda de transformações em cortiça, papelão, chita de alcobaça, companheiro de Santo António, ele próprio em tons feéricos ou só azul-clarinho. Em procissão de sardinhas onde o figurado já esqueceu a chaminé algarvia e a ceifeira alentejana.

Poder-vos-ia falar do Minho das minhas férias, se a pena saísse deste Agosto da Graça de 2017. E então sim. Então muitos seriam os retratos que dele trago. Nas lojas de souvenir, as malgas dizem vinho verde, espreitei-lhes o outro lado a ver se dizia sem glúten. Os lenços de namorado estão nas montras das farmácias, das mercearias, das sapatarias, das ourivesarias e das pastelarias. Todavia, aqui vos deixo dois. Estando eu numa piscina de um local silencioso, de sol gentil depois de névoas abençoadas, começo a ouvir missa. Uma braçada e o evangelho, duas braçadas e o começo da homilia, três braçadas e o meio da homilia, quatro braçadas e o fim da homilia. Agora de costas. Ide em paz e o Senhor vos acompanhe. Pode parecer ficção, pode. Mas não foi. A festa era a dois quilómetros e os altifalantes funcionavam muito bem.
O outro momento é a transcrição ipsis verbis de uma fala feminina, quem sabe neta do primeiro Minho que aqui referi. Pus-me a beber binho e fiquei com um sedon.

Oferecida, esta palavra medieva, sinónima de ressaca, há lá outra que melhor descreva essa sede arcaica. Sedão vem de sede, aumentativo muito sábio, mas no Minho é sedon, Devendo ler-se seduõe. Acrescentou, noutro momento, que ele há quem o faça congelado, agora que o sarrabulho quer sanguinho fresco, lá isso.  


Maria João Forte é socióloga

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Aborrecimento, quase poesia



XI: Notas de Aniversário

Não, a cidade já não é o corpo de um homem.
            É, afinal, uma cidade.
            Foram anos até encontrar, descendo por seus olhos, por sua voz de seminário, os cafés com mesas postas do lado de fora.
            A estação sem toldos cinzentos.
            Parece, no entanto, que a encontrei de fato.
            Os olhos nela põem-se eretos.
            Indiferente que já não enxerguem com a mesma nitidez de antes.
Via claro um delírio de cidade.
Agora caminham os olhos e analisamos sua postura (diz-se de certos olhos que rebolam). 
            Há uma cidade a declinar.
            A cortar em fascículos, acontecimentos, traços distintivos.
            Uma cidade a dividir em subterrâneos, postos de abastecimento, pâncreas.
            Há nela uma cidade que pernoita em carros estacionados.
            Tresnoita em copas pequenas e sujas.
            Uma cidade que contenda, gesticula e chora pelas ruelas do centro, certa de passar despercebida. 
            Uma cidade que me contorna nas praças, fazendo que não me vê.
            Há comércios vazios, comprimentos vazios.
            Há mesmo vazios, dimensões inteiramente desprovidas, fundas, lavadas em luzes brancas, como jamais pensáramos encontrar fora de nossos dons imaginativos.
            Há pesadas esquinas sem nada, ninguém.
            E por vezes escuridão tão densa, tão testuda, que chega mesmo a parecer-nos teatral.

*

            Faço amanhã 32 anos.
O sangue declara o fim de toda peripécia.
O risoto que cismei de preparar resultou, é claro, cítrico demais.
Empedra-se à altura dos pés.
Não quer mais giro, quer um busto de Homero.
Um belo busto de Homero, é o que quer o sangue, o que querem os pés.  
Mas meus convivas são de uma generosidade a todo transe.
Elogiam-me.
            Querem que eu esteja descansado.
            (Pela manhã, o meu namorado põe sobre mim os belos olhos ramalhudos, liga a cafeteira, sorri).
            Mostram a lua, o bolo, perguntam-me que filme quero rever, o que é isto que estamos ouvindo.
            A lua usina metáforas ainda.
Para fazer-se ao mar mais uma vez, o sangue coloca a condição de avermelhá-lo todo.
Não é a primeira vez que o digo.
Para mim, existe apenas a aventura de manter as coisas em seus devidos lugares.
Tratar do bom preenchimento das palavras.
Fazer com que as coisas não se transformem assim indefinidamente, deter – em algum momento – as sucessivas fusões.
Meu insucesso como cronista deve-se fundamentalmente ao fato de quase não ver ninguém ao longo do dia.
Aqueles que vejo, aqueles que amo, mete-me medo escrever sobre eles, medo de sujá-los.
Para mim, existe apenas este medo.
Detê-los, sujá-los.
Água quente e bicarbonato de sódio costumam dar jeito às manchas de café sobre o carpete.
Não é a primeira vez que o digo.
Faço 32 anos amanhã.


*

            Com 32 anos, consigo já inventar um de meus cinco irmãos.
            Uma ninharia, mas é de notar.
            Alguns vão dependurados em montanhas. Outros adentram salões encerados, põem-se à frente de uma congérie de seis ou sete indivíduos sentados em posição de lótus, dizem coisas vagas e alentadoras, ocasionalmente justas, mas apenas ocasionalmente.  
            Alguns já relanceiam para seus filhos pequenos, que caminham próximos demais da borda da piscina. Tratam, nos dias úteis, do papelório referente à dissolução de famílias em pequenos escritórios brancos e bafientos.  
            Alguns marcam em suas agendas uma visita a uma cidade próxima, para a revisão do aparelho auditivo.
            Alguns manuseiam catanas. Alguns passam a tarde dedilhando Greensleeves ao violão.
            Alguns sonham ainda, bem-aventurados, são de uma pureza indescritível.
            Impossível, portanto, de descrever.  
            Entre estas figuras, porém, uma se recorta clara (como um cristal? Como uma imagem?).
            G., uns doze anos mais moço, recreador em hotéis que atendem a região, que passa grande parte do ano em dormitórios improvisados em recantos de horrorosas construções neoclássicas.
            Dias e dias inventando brincadeiras para filhos de fazendeiros.
            Complementa renda produzindo eventos. Raves e coisas assim.
            Provavelmente trafica. Mas nada sórdido.
            Vejo os extensos gramados onde ele se dirige às crianças, sempre aos berros, sempre um pouco mais enérgico que as próprias crianças.
            Sobre todas estas coisas vejo sempre sóis de grande abatimento. Quando há chuvas, são concentradas e torrenciais. Em seguida, uma grossa camada de poeira de barro assenta sobre todas as superfícies, preenche cada ruga do corpo e da paisagem.
            Mas as rugas são assunto meu.
            Há chaves para ver este meu irmão. A juventude. Grande espontaneidade. Caráter agregador. Saúde e astúcia transbordantes. Um descabimento de energia no corpo bem-apanhado. Um rosto como se estivesse sempre a perguntar: “e agora, que vamos fazer agora? ”.
            Que cidade, que festa genial? Que programa?
Falando verdade, um rosto que raramente coloca perguntas.
Mas que se desenha com uma expectação descomplicada, contínua e geral.
Penso que G. é um homem feliz, um homem genuinamente feliz.
Um homem que escapou.
E que nesta escapada, não causou a ninguém nenhum dano irreparável, não se mostrou nem mais nem menos imoral que toda a gente.
Pelo menos é o que parece.
Não desgraçou ninguém, não se desgraçou. Não se tornou um miserável.
            Mesmo quando está na cidade, é raro vê-lo.
            É solicitado por todos. Deseja responder. Dar fluxo. 
            Há sempre algum amigo que acaba de bater com o carro, que acaba de safar-se por um triz.
            Já quis escrever sobre este meu irmão diversas vezes. Lembro, por exemplo, de perguntar-lhe insistentemente sobre o Natal dos recreadores, de pedir uma narrativa. Antes de responder, olhava discretamente para trás, certificando-se de que todas as luzes da casa estavam apagadas. Em seguida, acendia um cigarro de palha com meu isqueiro.
“Não é nada. O que você quer saber? ”
Não, ninguém parece lá muito triste de estar longe dos seus. Há telefonemas, trocas de mensagens, estas coisas. Depois, no refeitório do hotel, come-se com os outros funcionários. A ceia é farta, pelo que posso entender, condizente. Os da equipe de recreação, no mais dos casos ainda mais jovens que G., já estão quase todos empilecados à hora da refeição. Começam a entornar assim que se veem livres das crianças. Mas isto não é só no Natal.
Enquanto fala, seu telefone não para de vibrar, emitir sons. Solicitado sempre, mesmo nestes momentos mais, por assim dizer, contemplativos.
O que você quer saber, então? O que você procura? Alguma melancolia subjacente? Imagens exemplares de alienação, amargura? Uma falta misteriosa? Um excesso igualmente misterioso?
É meu irmão mais nítido, o irmão que pode passar meses sem dar as caras, que quase nunca está lá onde se reúnem os seus, mesmo quando consegue uma folga para visitar a cidade.
O irmão que conduz as crianças por um gramado.
Flautista de Hamelin.
Futuro senador.
O irmão que nos sorri, vivíssimo, ao pegar de uma gaveta do armário da cozinha as chaves do carro do pai.



"Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os
Ilhados
".


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

As Palavras das Cidades



Foi em 2004 que publiquei esta croniqueta. Olha, passaram treze anos. (Não leiam treuze, por favor!). E este verão lembrei-me tanto, lembrámo-nos tanto de Barcelona, cidade das palavras. Segue o velho texto, chamava-se  AS PALAVRAS DAS CIDADES, é capaz de vir a ser o título geral destas  historiazinhas que prometi à minha editora, a Cotovia,  passarinho madrugador como agora eu sou.

“Passava das seis da manhã quando fechei a luz, há muito que não ficava noite dentro a ler, corpo e olhos doridos. Estive a ler El  cuaderno gris, diário de Josep Pla daqueles anos barceloneses de 1918 e 1919. São oitocentas páginas em livro de bolso, traduzidas para castelhano, terei lido metade esta noite voluptuosa ao deus dará.
Casinos, escolas de belas-artes, bebedeiras, jornalismo, aulas, bordéis, as ramblas, o horror pela decoração do Palau de la Musica que agora achamos belo, um permanente ir e vir pela cidade tumultuosa, as inquietações, as leituras, aquele desgosto pelo naturalismo de Zola, a surpresa com Jules Renard, o desprezo por Galdós, o interesse por Ayala, a ânsia por uma outra literatura, mas tudo enquanto se vai e se vem da casa de família,  do verão que avança, da Paquita de umas noites, e os encontros durante o dia e toda a noite com os amigos literatos, os encontros das ruas.
São as primeiras páginas de Josep Pla que leio, ele cujas obras completas perfazem quarenta e seis volumes da mais vibrante prosa catalã; não sei se lerei mais, foi o acaso e a curiosidade que, num domingo de Madrid, me fizeram pegar neste livro, mesmo antes de regressar ao comboio.
E que prazer, que volúpia deambular assim, na companhia de um pensamento, na companhia de um homem inquieto, dias banais, dias intensos, dias como os outros ou dias de excepção, ficar assim a passear até ao mar por uma Barcelona que página a página se me torna familiar, já Picasso se fora para Paris e tudo analisara, cubo após refracção, mas ainda Lautrec lhe iluminava o absinto e a manzanilla.

Há cidades que se fazem palavra, e Barcelona conheço-a das ruas mas também das memórias, dos diários, de Biedma e de Federica Montseny, de Gimferrer e Barral. De Merce Rodoreda, claro (a alegria que tive quando descobri que a Praça do Diamante existia mesmo e ali bebi uma horchata!) Às vezes transformam-se em poesia, Montjuich em Biedma, o cinema Rosales  em Cibeles, Madrid foi feito para o Ruy Belo, o Jardim das Amoreiras  para o José Gomes Ferreira, as Avenidas Nova para a Fernanda Botelho - mas muitas vezes são só estas notas avulsas, estes apontamentos, estas entradas de diário que captam a cidade no seu torvelinho, na sua desordem, no encanto banal das suas ruas esquecidas.

E Barcelona transformou-se em letra, poesia, diário, jornal, romances de Marsé finalmente editados entre nós; há cidades mais cinematográficas, Roma de Rosselini ou da Anita Ekberg, Rimini de Fellini, outras que chamaram a si as cores da pintura, Monet no Tamisa.
Mas eu gosto destas cidades, destas terras que se transformam em letra, apenas letra, letra em movimento, letra incerta, cujo rosto mal vemos, o bairro pobre de San Freddiano nos romances de Pratolini,  Novate nos extraordinários textos de Testori,  a Gândara de Carlos de Oliveira. Que poder é este da palavra para tão bem construir cidades, ruas e labirintos de Dublin e Praga, o sul de Faulkner ou o país impensável de Juan Carlos Onetti, a Buenos Aires estrambótica de Arlt?
Mas é a rudeza do diário, a sua deambulação, o seu inacabado o que me acompanha hoje por uma Barcelona de literatos, soldados, pintores e prostitutas, uma Barcelona que se sonha Paris e vibra naqueles anos esquecidos de guerra e revolução. E que hoje me assombra pelas notas aplicadas de um homem que me serviu de guia, mago e amigo.
Para esta noite, já pus ao lado da cama “A Memória das Palavras” do José Gomes Ferreira, só para me lembrar de Lisboa.
E depois ouço Alicia  de Larocha, ao piano, catalã, pequenina, a tocar o segundo concerto de Brahms, como uma noite, há muitos anos e com sala meio vazia, tocou no Coliseu dos Recreios e me fez renascer esta obra que eu julgava caduca.
Barcelona, cidade das letras, cidade da música, cidade dos cabarés.
Ah, Barcelona, cidade da má vida ali ao Paralelo em redor do “El Molino” que os franquistas proibiram fosse “Rojo”, como em Paris podia ser.
Ah, Barcelona, cidade amada pelo meu pai.
Ah, Barcelona, “mapa de tantas sombras”, como tão justamente lhe chamou a nossa amiga e grande escritora Lluisa Cunillé.


Jorge Silva Melo



Jorge Silva Melo nasceu em Lisboa em 1948, estudou na Faculdade de Letras de Lisboa e depois na London Film School. Crítico de cinema e teatro, encenador e actor, fundador, com Luis Miguel Cintra, do Teatro da Cornucópia, estagiário na Schaubühne - com Peter Stein - e no Piccolo Teatro/ Scala de Milão - com George Strehler -, argumentista, professor, tradutor, ensaísta, dramaturgo, realizador de cinema. Dirige, desde 1996, os Artistas Unidos. 


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Tuiuiú

Na verdade, isso que você me propõe é o que eu sempre quis. Quase sempre, isto é, depois que superei a época de querer ser princesa, astronauta da Nasa, cientista da Nasa; esta última durou um pouco mais do que as outras. Depois quis ser bonita ou amiga do Harry Potter. Nasci no final de 1991, tenho vinte cinco anos e meio, hoje é um sábado chuvoso e frio, acordei tarde e continuei na cama, assistindo desenho animado. Fui sozinha à padaria tomar café da manhã ao meio-dia, a chuva me pegou no caminho porque não tenho guarda-chuva, depois voltei à cama e às cobertas para ouvir James Blake e ouvir Frank Ocean. Li um gibi. Estou intensamente tranquila.
Sempre quis, como dizia, sempre quis ser alguma coisa. Nem sempre é fácil ser coisa quando você já é logo de cara uma pessoa, especialmente uma pessoa cujo sobrenome tem mais de três sílabas, isto é, alguém para quem a consistência humana pesa, como pesam os nomes longos. Meu sobrenome materno, “Scarinci”, veio da Itália, da ponta onde a bota embica. Meu avô, de quem herdei o nome, na verdade era romeno, mas foi adotado por um italiano chamado Temístocles que era casado com uma egípcia chamada Eva, eles eram do circo. Meu avô foi adotado pelo circo – que vida extravagante e apaixonantemente triste, solitária e livre e sonolenta como um sonho antigo. Ele passou os anos de amadurecimento sendo serrado ao meio, e não vou dizer se esta era ou não uma metáfora de sua vida. Mal o conheci, para ser sincera. O nome Scarinci, quando veio da Itália, na verdade era Carinci. Mas por causa de uma briga, parte da família decidiu que seria Ex-Carinci, gosto dessa ideia, não assumir um nome novo qualquer, mas assinar seu próprio nome como despertencimento. “Quem é você?”, “Sou Ex-eu”.
Você deve achar que eu sou muito jovem e que falo coisas de uma pessoa muito jovem. Mas este não é o momento para isso. O exercício que você me propôs é o de ser alguma coisa. Alguma coisa bem linda, eu espero, como um umidificador de ar, uma lâmpada, que delícia, um pedaço de madeira. Como é bom pensar em madeira. Na peça do Shakespeare, quando vemos Hamlet pela primeira vez, ele está sozinho, num canto da festa, vestido inteiro de preto, um pouco como eu aos 14 anos. Em seu solilóquio do ato 1, cena 2, diz algo estranho, “Oh that this too too solid flesh would melt”, “que esta carne tão tão sólida derreta”. Algumas edições acham que isso só pode estar errado, e corrigem para “sullied flesh”, “carne impura”. São meio moralistas. Outras colocam uma vírgula separando “too, too”, como se precisarem dar a ênfase dramática da pontuação a algo que já é dramático, mas que é também estranho e perfeito, too too, como um passarinho. Hamlet é sólido. Sente que suas pernas são demasiadamente pernas e seus braços com certeza não são de éter e sua cabeça – como pode sua cabeça? Tão cabeça. Depois, não é de se surpreender que ele passe a odiar a namorada e a mãe, elas têm tanta carne! O que só pode querer dizer que ele é feito de carne também. Nesse começo da peça, enquanto Hamlet ainda é muito jovem, ele diz que seu poema preferido do Drummond é “Relógio de Rosário”, "E nada basta,/ nada é de natureza assim tão casta/ que não macule ou perca sua essência/ ao contacto furioso da existência”.
Que verso lindo e fútil. Fútil sim, tenho um pouco de raiva dele, assim como tenho raiva de alguns homens. É que penso que não há, ou não vale a pena haver essência descolada da existência. Tudo o que é sólido existe e é bom. Pirâmides do Egito, sapatos, as coisas felizes e mudas olhando para nós. Você também. Gostaria de te conhecer. Sou feita de quatro paredes e algumas pedras nos bolsos, dois olhos e uma gata adormecida aos meus pés.





Sofia Nestrovski nasceu em São Paulo, em 1991. Cresceu no meio do milharal dos Estados Unidos, voltou para São Paulo mais tarde. Faz mestrado sobre o poeta William Wordsworth na Universidade de São Paulo, dá cursos sobre Shakespeare, assina uma seção semanal sobre palavras no jornal Nexo, escreve resenhas para a revista Quatro cinco um. Também luta Kung Fu, mas não muito.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Mata-Borrão





O mê é que nunca aprendi


Tive doze filhos vivos e outros tantos mortos. Era com um raminho de salsa, com o talo. E olhe que nunca alcancei. Faria se alcançasse! Dizem que a gente emprenha se alcança. Olhe lá!
Tropeçava eu na forma como secava os olhos, passando-lhes os dedos de pele grossa, tratados a lixívia, ó menina a água lava tudo. Tropeçava eu também nas gargalhadas dela, como daquela vez que estava a servir, longe de Lisboa, nuns senhores que tinham terras, bomba de gasolina, uma farmácia e animais. Fazia de tudo, aprendi lá muito. Havia até um rapaz que andava atrás de mim. Fui burra, não o quis. Então eu levava a vianda aos porcos e nasceu um bacorinho. Todos os dias lhe fazia festas e quando ele começou a comer, guardava-lhe tudo o que era bom. O bicho já me conhecia, parecia gente. Mas fez-se gordo e eu já não podia passear com ele na quinta.
Um Domingo, fui à missa e a igreja tinha umas grandes escadas. Estava lá dentro e ouviu-se um barulho que parecia um porco a grunhir. E era ele. Subiu aquilo tudo e entrou, a ver de mim. Chegando a casa, a senhora e o senhor ralharam muito. No Natal não o mataram, tanto lhes pedi. Morreu de velho, ainda comigo lá.
Não sou de padres, mas rezo todas as noites pela pessoa que me ensinou a escrever o nome, o mê é que nunca aprendi, tem muitas voltas. Rezo pelo homem que me vendia o leite fiado, pagava sempre tudo. Ainda hoje, quando vou pagar a luz, é uma alegria. Gosto de pagar as coisas e de rezar por quem me fez bem e já lá está. São alminhas.
Cheirava a cera, a cantiga que cantava vezes sem conta. Já passei a roupa a ferro, já passei o meu vestido, amanhã vou-me casar e o Manel é meu marido.
Ai que os meinhos são para as senhoras. Os meinhos, aquilo que se vê. E dava lustro debaixo das camas, zap, zap, já passei a roupa a ferro.
Isto queria-se era com goma. Os bordados põe-se um turco molhado por baixo. Dá-se-lhe goma, uma farinhazinha. Agora já não. Agora é só aspiradores e esfregonas. Eu gostava era dos amarelos, esfregava-se muito bem, ficavam a luzir, bonitos. E as escadas, com sabão amarelo, parecia gemas. Já passei o meu vestido.
Na minha terra não havia queijo. Mas eu vi uma rapariga a pôr aquilo no pão e pedi à minha mãe. Fazia anos. Ó minha mãe, eu gostava de comer queijo. Ela era boa mulher e o que é que havia de pensar. Ir à mata dos patrões e apanhar cogumelos, a fazer que era queijo. Foi apanhada pelo capataz e tiraram-lhe a féria. Ela ganhava à féria. Agora posso ver muito queijo que não lhe toco. Amanhã vou-me casar.
Andava sempre bêbado e eu apanhava todos os dias. Ia trabalhar negrinha de todo. O pior era quando não tinha reacção. Que culpa tinha eu? Cerrava os punhos e dava-me com eles nos olhos. Tu tens amantes, tens que eu sei. E vá de bater. Um dia, escondi-me no meio das barracas. Era ali na Gago Coutinho, ao Relógio. E ele encheu uma panela com água a ferver. Foi uma vizinha que acudiu.
O meu sonho era vestir um vestido encarnado no dia do enterro dele. A minha filha não deixou, que parecia mal. O Manel é meu marido.
Depois de velha, dá-me para as excursões. Ainda ontem fui.
As minhas perguntas, tantas e tantas vezes escusadas. E onde foi?
Ai, isso não sei. Na camioneta é um fartote. Tudo a cantar e a comer, o chofer é reinadio. Canto muito, para lá e para cá.
Nasceu-me uma neta.
Outra pergunta, tão escusada como as outras. E o nome?
O nome, bem, o nome deve ser açoriano estrangeiro. Nem sei dizer aquilo.
O meu pai ia para a cava, lá para onde fazem o vinho fino. E eu com outra pergunta, ainda mais escusada, no Douro?
Pois, aí. Vinha sempre muito magro. Contava que para levar a comida à boca, arrancavam os aramezitos das vides e punham-nos nos ferros onde passava o comboio. Ficavam a olhar e à espera. E o comboio esmagava aquilo, ficava como se fosse uma colher.
Teria aí uns onze anos. Estava numa casa grande, até tinha medo daquele corredor. A minha tia era lá cozinheira. Eu despejava os bacios e engraxava sapatos. Um dia, caí e esfolei os joelhos. À noite botei sangue. Julguei que era por ter caído. Fui ter com a minha tia e contei-lhe. Ela levantou-se da cama, pregou-me um estalo, olha, cala-te muito bem calada. Isso é a vergonha das mulheres. Pega lá sabão e lava-te.
Ria-se muito, por eu não me rir. Agora sabem tudo, já não têm os olhinhos fechados.
Ouço-a ainda a dizer que o autocarro 56 passa na bombenca. Nunca mais deixei de chamar assim à Fundação Calouste Gulbenkian.



Maria João Forte é socióloga


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Aborrecimento, quase poesia




X: Visagem, Voz

            Não é sempre que recebo meu rosto em casa.
            Quando vou à barbearia – isso acontece de seis em seis meses, no máximo – costumo gracejar com o rapaz: “é preciso despistar os credores”. O tipo do dito que já vem à boca velho, manquitola. Não importa.
Talvez não tenha tanto prazer assim na sensação de coisa moribunda a me sair pela boca. Sei que gosto mais do chiste do que do barbeiro que me costuma atender. Este não parece absolutamente gostar de mim. Nem do que chega, nem do que vai.
Talvez esteja passando por reais apertos de ordem financeira, talvez se veja acossado por credores de fato. É uma hipótese cabível.
Com efeito, pareço muito mais moço sem barba.
            Ao voltar para o edifício onde vivo, há que passar pelas costumeiras confusões na portaria, ombrear com dignidade os comentários de admiração de funcionários e vizinhos. No trabalho, a mesma coisa. O tempo todo velhos coxeando para fora de nossas bocas, ganhando o passeio. Torce-se impiedosamente a palavra irreconhecível. Um que outro desavisado no escritório pode mesmo chegar ao absurdo de afirmar que tenho o aspecto melhor, que deveria ficar assim, o rosto aberto, o queixo exposto, esmurrável.
            Eminentemente esmurrável.
            Dentro de uma quinzena voltamos à programação normal, costumo resmungar.
            Não sei se me ouviram, disse: resmungar. É como falo, de hábito. Embrulhado, grave, algo exasperado, frequentemente inaudível. Era uma voz inventada, a princípio, uma voz para chamar a velhice. Uma amarra, um dispositivo.
            Certo dia correu um vento, ela ficou assim.
            Agora é com esta voz – ao que tudo indica, permanente – que me dirijo ao gênero humano, é com esta voz que costumo dizer os meus entrevados, os meus velhos. E é por velho que tomo todos à minha volta, independentemente de idade.
            - Vamos lá, meu velho, é preciso despistar os credores.
            Passei muito tempo da minha vida chamando a velhice, cortejando a velhice. Queria uma situação que se desse com o cansaço que sentia desde sempre. É por isso que digo amarra. Eu procurava uma situação que amarrasse este cansaço a algo, a algo demonstrável.
            Não uso as palavras assim, levianamente.
            São, bem sei, palavras velhas, anacronismos mais ou menos simpáticos. A barba longa e desalinhada, o quepe de veludo que costumo meter à cabeça nas estações frias, os olhos sempre estreitados pela luz ambiente, o leve tremor nos passos, a perene expressão de quem vem de longe e contrariamente. Tudo isto me serve. Tudo isto compõe uma maneira de estar no mundo inteiramente condizente com minhas impressões do mundo.
            Quando começo a ouvir o chamado do rosto – isso acontece de nove em nove meses, mais ou menos –, percebo-me mais enervado do que de costume. No fundo, no entanto, sei que se trata apenas de um aborrecimento passageiro. Indispensável a ele, toleravelmente aborrecido para mim. Vai para a categoria dos sacrifícios menores. A minha parte neste trato que, de resto, nada tem de mefistofélico.
            Por uma quinzena, então, sou forçado a recrear um convidado intratável, a suportar suas indiscrições, sua vulgaridade, seu absurdo hábito de estampar-se indiscriminadamente sobre toda e qualquer superfície espelhada.
            Já ao espelho do barbeiro, enquanto meu rosto de eleição se desfaz em grandes chumaços negros à passagem da máquina, começa a entortar os lábios num sorriso malicioso.
            - Afinal, destampaste a garrafa, meu velho.
            Ele engole um bocado de ar grande demais, bocado que eu devo trabalhar, descer até os pulmões. Esmurra meu tórax encovado como se fôramos Tarzan. Lança sem nenhuma mediação os olhos para o céu. Quem sai crestado?
            Adivinhem.
            Talvez seja mesmo o desejo de me tornar – nem que seja por um instante – irreconhecível diante de mim mesmo o que me conduz anualmente à cadeira do barbeiro. É uma hipótese cabível.
            Há sempre um momento intermédio, difícil de fixar, um instante em que meu rosto ainda não chegou de todo.
            Meu rosto perde-se entre polos.
Meu rosto conhece então a beleza de um corredor vazio. Nenhuma voz se faz ouvir, nem velha, nem moça, nem provinda do poço do elevador. Minha boca, não existindo ainda, é por isso mesmo gloriosa.
            Ao longo desta trégua, tenho a sensação de que meu leque de possibilidades tornou-se praticamente infinito, que já não há limite ou divisão no que tange aquilo que posso vir a me tornar.
            Enxergo-me então como que de cima, deslizando uma engenhoca barulhenta sobre o castigado rosto de um sujeito de mais ou menos quarenta anos de idade, arrancando sua cara aos chumaços, limpando seu maxilar com navalha de realismo irretocável, devolvendo ao mundo mais um pobre diabo.

           
           
  

"Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os
Ilhados
".

          
           
           
           


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Max e René. Um monólogo e um cão # Fim

Funeral
MAX 1 a 12 no funeral.
MAX 12 Estou aqui reunidas para te despedires do amor. René era o amor. E nisso era tudo. É um dia triste, este. O primeiro dia triste desde que chegámos à selva. Perdeste o que te deu vida e existência. Desaparecemos, devagarinho, aos poucos. Perdi braços e pernas, tronco, em breve tudo. Voltaste a ser invisível. Este é o tempo das lágrimas.
Todxs uivam.
MAX 12 Podias contar a história do que estamos a sentir neste momento. Mas essa história só podia ser contada se a René aqui estivesse para a interromper e para a roubar. Fico então calado a recordar. Foi ela que vos deram mais gramáticas e o silêncio e a selva. E isto à vossa volta, cheio de nomes, cheio de verdes, tudo denso, tudo verde. Nunca mais serei invisíveis, nunca mais serás intactas. E por isso, nesta clareira, despeçam-se. Em nome de René, uive-se.
Todxs uivam.

Regresso
MAX, olhos nos olhos

MAX Olham a paisagem. Foi nela que me perdemos. É a paisagem que me desfaz todos os dias e diz o nosso nome. E os estilhaços procuram a vida e existem. Obrigada por me darem contexto e existência. Sem vós eu não seríamos o mesma. Mesmo que me roubes, amor, e nos desfaçam e te transformem em estilhaços, sem nós vós não seria. É isto. E não sei como agradecer. Estou de volta. Chegaste a casa. É este o mundo em que queres viver. Trago tudo contigo. O monólogo não chegou ao fim. Vamos comer a sopa.




José Maria Vieira Mendes escreve maioritariamente peças de teatro e faz traduções ocasionais. É membro do Teatro Praga desde 2008. As suas peças foram traduzidas em mais de uma dezena de línguas. Para além de edições de peças nos Livrinhos de Teatro Artistas Unidos, publicou Teatro em 2008 (Livros Cotovia), Arroios, Diário de um diário em 2015 (edição Duas páginas) e, em 2016, um ensaio (Uma coisa não é outra coisa) e uma compilação de peças (Uma coisa), ambos pelos Livros Cotovia.


terça-feira, 22 de agosto de 2017

Comer com os olhos #6


  ©Patrícia Azevedo da Silva


Ontem, mesmo antes de carregar no play para assistir ao terceiro episódio de Life of Kylie no E! Entertainment (there I said BOOM no regrets) fiz assim um breve zapping e fui parar à Fox onde estava mesmo a começar o The Help, em português, As Serviçais. Guardei para Keep Up with Kylie mais tarde e decidi passar 2h40m numa trip catártica.

Só para dar aquela situada: o plot do filme é bastante simples (and yet): a personagem da Emma Stone, Skeeter, regressa a casa (uma comunidade do sul dos EUA) e encontra um daqueles ambientes bem racistas onde as empregadas podem cuidar dos filhos dos brancos (dar-lhes mimos, muitos, mas não bater, because “white people like to do their own spanking”) mas não podem usar as casas-de-banho dos patrões. Este foi o primeiro trigger do filme: a ideia de que as empregadas não podiam usar as casas-de-banho dos patrões, pelo medo do contagio, os fluídos misturados and whatnot, a vê-las a lambuzarem e beijarem as crianças, a cozinhar também!, numa gestão bastante bizarra do que é o “contágio” (Purity and Danger/Mary Douglas much?) .

O segundo trigger foi quando Aibileen, uma das empregadas responde a Skeeter “Ninguém no seu juízo perfeito vai querer falar consigo”, quando ela apresenta a sua ideia de reunir as histórias das “serviçais”. Imediatamente me lembrei de um projecto de pesquisa no qual, claramente, ainda penso, e que gostaria tanto de não abandonar, feito na época de um pré-doutoramento-já-a-pensar-na-tese, alguns anos antes deste filme, e que já tinha que ver com o alimento/comida mas que assentava sobre a figura da empregada doméstica (no Brasil). O que me interessava era a forma como actuavam, as empregadas, enquanto agitadoras e mediadoras de duas realidades tão distantes e de como serviam para as aproximar, também. O trabalho de campo tinha um grande faux pas que matava o projecto, que era apanhar estas empregadas “em casa”: na casa dos patrões, e o que me foi dito foi exactamente isso, “ninguém no seu juízo perfeito vai querer falar contigo” (pelo menos não neste contexto de poder). (Entretanto e já num momento de investigação no terreno encontrei o Bom Prato e fiquei rendida.) Uns dois anos mais tarde passou em Portugal uma novela chamada Empreguetes, tenho quase a certeza de que coincidiu com a criação da Lei Maria da Penha – mas não é certo – e com a revisão dos estatutos da empregada doméstica, assim, sempre no feminino; esta novela era incrível e eu assisti a tudo, o que foi um enorme fardo para mim pois odeio novelas, e tenho imensas notas desse tempo, porque apesar de ter abandonado aquele projecto sempre quis escrever à séria sobre aquilo tudo.

Nunca me esqueci de toda a bibliografia que consultei na altura para escrever este projecto, sobretudo num artigo incrível da Maria Cláudia Coelho (“Sobre agradecimentos e desagrados: trocas materiais, relações hierárquicas e sentimentos”, de 2001) (ah, sempre a troca/reciprocidade). Este artigo tenta avaliar a capacidade de “agência” das empregadas na troca de presentes, apenas para concluir que a dádiva das patroas às empregadas não apenas denuncia um desinteresse pelas preferências das empregadas como é também obrigatória, interessada, e unilateral, “não exigindo e, no limite, não admitindo reciprocidade (ao menos em termos estritamente materiais”; a retribuição que é esperada é emocional, e tem que ver com “a expressão de um sentimento que demarcaria a “posição permanente” da empregada em relação à patroa – ou seja, a sua servidão”. A única possibilidade de agência/resistência das empregadas surgiria expressa, então, não apenas através da recusa em aceitar os presentes, ou através da recusa em mostrar-se agradecida, mas também pela retribuição de um presente de baixo valor.

            Este detour está aqui só para fazer raccord com a ideia de servidão do filme (hence o “serviçais”). Quase todas as cenas são uma prova e um reminder desse nojo que é a escravidão, mesmo quando vem embrulhada com outros panos: a cena em que a recusa de um empréstimo de 75 dólares à sua empregada surge como um “favor” que Hilly, a patroa, está a fazer “porque Deus não faz caridade com os fortes”, e o que é que interessa se isso obrigará aquela mulher a escolher qual dos dois gémeos conseguirá enviar para a faculdade. Mas as histórias que hit me closer to home, que foram duas, tinham que ver com a forma como duas das empregadas foram arrancadas, quase literalmente, às casas e às meninas de quem cuidavam: Constantine, empregada da própria Skeeter, e Aibileen. Ambas na verdade foram expulsas em situação muito semelhante: as suas patroas quiseram impressionar as visitas que recebiam, e numa trip de demonstração de poder abandonaram-nas, obrigando-as assim a abandonar a filhagem que tinham criado. As duas cenas são muito fortes, e do ponto de vista emocional a resposta das duas meninas, Skeeter, jovem adulta, e Mae Mobley, menos de 5 anos, é quase igual: muita raiva e incompreensão. Mae Mobley fica à janela, quase sem acreditar que Aibileen está realmente a ir-se embora, claramente numa guilt trip que se irá tranformará no futuro uma guilt trap, depois dela lhe repetir o que lhe diz o filme inteiro para se sobrepor à negligência/abuso da sua mãe: “you is beautiful, you is kind, you is important”. Este foi o terceiro trigger e, claro, o mais forte. Naquele momento todo aquele sentimento que tinha atravessado comigo o filme todo ganhou um nome: Teresa.

            Quando eu era pequenina, a irmã adoptiva da minha mãe, a Teresa, tomava conta de mim. “Irmã adoptiva” será um pouco forte: a Teresa era uma menina que tinham deixado na porta da minha avó, aos 11 anos, para servir de empregada, e que a minha avó acolheu como filha. Era negra. Estava exactamente, age-wise, entre a minha mãe, mais velha, e o meu tio, mais novo. Foi criada com eles (acho que seria ambicioso dizer “como eles”, até porque nenhum deles foi na verdade criado como o outro) num clima de irmandade.  Quando vieram para Lisboa a Teresa veio junto, óbvio. E quando eu nasci, um mês depois de terem chegado a Teresa, que na altura já não estudava mas ainda não tinha trabalho, cuidava de mim. A Teresa foi a primeira e única pessoa que me esticou o cabelo. A Teresa passeava comigo e mimava-me muito muito e apesar de ter a certeza de que a história dela merecia um livro inteiro não posso ajudar aqui, porque quase só me lembro deste sentimento de muito amor quando falo/me lembro dela. Digo quase, porque o final da minha história com a Teresa foi o que ficou gravado na minha memória, e muito infelizmente depois disso não houve mais nenhum acontecimento que pudesse servir de closure.

            Já bastante depois de termos saído da casa-comuna onde nos abrigamos nos primeiros tempos a Teresa apareceu de surpresa um dia na nossa nova casa, casa-nuclear, para se despedir de mim. À vez cada um deles, mãe e pai, ia falar com ela. A casa era bastante pequena e lembro-me deles desaparecerem com ela, levavam-na para o quarto, e eu conseguia topar tão bem que alguma coisa estava muito mal. A minha avó chegou, depois o meu tio, eu só ouvia “ela não está bem” e tudo o que me lembro antes de a ver sair, de maca, tenho quase a certeza de que amarrada com aquelas correntes nojentas que colocam nas pessoas que estão em risco de se magoarem é o olhar dela a olhar para mim, as mãos dela na minha cara, umas frases quaisquer que acabavam em “....amor” e um grande, forte abraço. Depois foi-se embora e foi a minha primeira grande perda, e um grande sentimento de culpa tomou conta de mim durante muito tempo, porque achei que se ela não tivesse voltado atrás para se despedir, se tivesse partido simplesmente, se não fosse eu, talvez nada daquilo (lhe) tivesse acontecido.

            Sei que a minha família continuou a visitá-la mas lá em casa não se falava disso. A Teresa continuo a fazer parte da vida deles, mas não da minha (em parte porque foram meio pegos de surpresa e não queriam que voltasse a acontecer, para me proteger e não deixar que vivesse uma coisa daquelas outra vez, vai que). Depois do internamento, que acho que foi brevíssimo, só para avaliação, a Teresa saiu e construiu a sua vida incrível: trabalhou, casou, teve os seus próprios filhinhos. By the time que eu era suficientemente crescida para voltar a estar com ela “em segurança” era tarde demais: a Teresa tinha viajado para Cabo Verde e era lá que vivia. Eu nunca brinquei com os filhinhos da Teresa. Eu merecia continuar a fazer parte da história dela.

            Na sexta ou no sábado, já não me lembro bem, li dois artigos que falavam de um vídeo da Procter and Gamble chamado The Talk, a propósito desta guerra civil (e não tão só civil assim) que está a acontecer nos EUA. No início não quis assistir ao vídeo em parte porque 1. Depois das campanhas da Pepsi e da Heinken em modo SJW não me apetecia perder tempo a ver mais uma cena claramente organizada por um branco (o Marc Pritchard, responsável pela ad campaign, é um homem branco de meia idade) a tentar dizer as “coisas certas” que claramente não são nem para fazer eco na comunidade negra (farta de saber destas coisas e sobretudo farta que brancos tentem explica o que é ser negro numa sociedade racista) nem na comunidade branca (os brancos que pensam assim, bom, já sabem o que pensam; os outros não vão mudar de cabeça over this emotional mumbo-jumbo); 2. Porque até há relativamente pouco tempo a Procter and Gamble era uma daquelas companhias que estavam na minha no-no list porque faziam testes em animais e me obrigavam, em tempos remotos, a não trazer as Pringles Sour Cream que eu tanto amava do supermercado  - hoje em dia não gosto de Pringles, em boa hora, e ao que parece já não fazem testes em animais e até fazem um esforço valente para investir no desenvolvimento de alternativas aos testes em animais (não sei realmente se isto é verdade) apesar de continuarem, à semelhança de outras companhias, na lista negra da PETA porque vendem os seus produtos na China, onde é obrigatório testar os produtos em animais.

The talk, o vídeo, é tudo aquilo que eu pensava que ia ser, e também muito agressivo naquilo que demostra: uma série de pais, ao longo das várias décadas, a explicar aos filhos que eles podem conseguir tudo o que os outros (white people) conseguem, “you just have to work twice as hard to get there”. Ou uma mãe a perguntar à filha se ela sabe o que fazer quando (não se) for parada pela polícia, ela ri-se, “I’m an excelente driver”, apenas para ouvir “This is not about you getting a ticket. It’s about you coming home”. Ou outra mãe a comentar, “Where did you hear that? That is not a compliment”, quando a sua filhinha lhe diz “They said I was pretty for a black girl”. Há uns tempos vi um vídeo de uns pais, negros também, a tentarem explicar como era difícil viver com um filho adolescente, autista, agora que ele tinha tirado a carta: como lhe explicar que ele tinha que sair do carro quase a rastejar, quando fosse parado (again, quando, nunca se), e que nunc, poderia reagir de forma imprevisível a qualquer coisa que os polícias lhe fizessem. Eu, que choro de cada vez que tenho que explicar ao meu filho porque é que ele não pode ficar a brincar com a escavadora na areia de um menino qualquer que não está nem aí para aquele brinquedo mas que de repente se torna, o brinquedo, no seu tesouro quando o meu filho se aproxima, não consigo imaginar o que será viver em modo alerta permanente. E uma parte desta incompreensão poderá talvez vir de alguma culpa porque, ao contrário do que sempre sonhei quando olho para os meus primos, não há nada em mim que denuncie a minha negritude, os meus 1/8. Ouvir o meu pai, ouvir as histórias dele, partilhar tanta coisa e partilhar isto também, mas sempre com aquela sensação de falhanço de que posso sentir até onde posso sentir mas depois não posso mais, é só empatia.

Este final-de-semana a maior parte das pessoas deu conta da morte do Jerry Lewis; eu fiquei mais presa na morte do Dick Gregory (não é uma competição), politial activist and comedian, que disse “White is not a color, it’s an attitude.” Ao contrário de algumas crianças, como aquele menino que obrigou a mãe a cortar o seu cabelo como o melhor amigo, que era negro (ele era branco) para confundirem a professora, eu não sou color-blind. E não acho que seja uma coisa má. Pelo menos, ainda não.



Patricia Azevedo da Silva nasceu em 1977 naquele que é, sem dúvida, o ano mais punk do século XX (serpente de fogo). Trabalha sobre a dádiva e a ideia de reciprocidade a partir da óptica do amor (a sua tese de doutoramento, “Pão é Amor Entre Estranhos”, ainda por terminar, aborda a ideia do alimento enquanto linguagem&afecto, a partir de trabalho de campo realizado em São Paulo). Na sua tese de mestrado, “Para lá do prejuízo”, trabalhou os temas de género, colonialismo e performance a partir da análise de experiências de mulheres brasileiras a viver em Lisboa.
Trabalhou com quase todas as produtoras de cinema em Lisboa (nos anos 2000) e foi aí que descobriu a importância da repetição (no sentido de repetir obras). Também foi ganhando outras relações com outras ideias de teatro e, actualmente, tenta fazer o mesmo com a dança (e, ainda remotamente, com as artes plásticas).
Cresceu em Queluz, Monte Abraão, e a ideia de periferia e subúrbio está presente em tudo o que faz, pela via da marginalidade e pela forma encantada como aprecia pracetas. É mãe.