segunda-feira, 22 de maio de 2017

Comer com os Olhos #2


Esta semana circularam várias notícias sobre o Brasil, não muito boas. Uma delas, sobre um raid policial feito na Crackolândia, li-a ontem mesmo antes de dormir. Foi uma escolha bastante estúpida, a de ler aquela notícia, porque como é óbvio não consegui dormir (consegui, mas demorou bastante).


“Crackolândia” é uma palavra inventada (como todas as palavras, acho eu, ou não) para designar aquilo que já lá está: um lugar na cidade conhecido pelo tráfico e consumo de crack. Só conheço a de São Paulo, mas acho que deve haver em todos os lugares onde o consumo de crack existe e é um problema.

Ninguém me preparou, nem poderia, para aquela armadilha (digo “armadilha” porque não foi intencional) que foi a primeira vez que estive na Crackolândia. Por coincidência (ou não) fui com aquela que foi a primeira pessoa que conheci da primeira vez que cheguei a São Paulo, em 1999. Foi horrível chegar a São Paulo. Eu vinha com a cabeça cheia de ideias de como seria o Brasil, todo um Brasil construído à volta das novelas e músicas tropicais e aterrei em Guarulhos, que visualmente era a linha de Sintra vezes mil, em escala mega-metrópole latino Americana, e foi horrível. Passámos de Guarulhos para Santana e aquela sensação do “que raios estou aqui a fazer?!?” não passava. Foram precisos dois dias e as Galerias do Rock (e também um retiro em Pindamonhangaba) para ganhar um sentido e uma impressão que nunca mais (acho eu) se vai embora: São Paulo é o meu sertão.

Quando chegámos a São Paulo, eu e “os portugueses”, fomos recebidos por um grupo de pessoas muito incríveis e conheci pela primeira vez o jogo “o que você prefere?”. Estas pessoas eram, quase todas, vegan como eu, e descobri logo ali um paraíso ao qual voltaria muitos anos depois: saída de um lugar onde só havia um Celeiro e uma fábrica (Cortegaça) onde nos podíamos abastecer eu, junk food lover e designated alarve, estava no paraíso - em SP chamavam “podrão” ao cachorro quente, que tinha TU-DO o que podemos imaginar E puré de batata (!!!) e eu conseguia comer três seguidos. A cidade cheirava a fritos, e isso não era uma coisa má. Havia um restaurante chinês, ao qual voltaria 10 anos depois (quase) todos os sábados, onde havia uma comida nojenta e óptima (era preciso ter sorte para acertar, ou já ter arriscado muito), e no cardápio liam-se coisas como “lulas de soja”, “frango de tofu” e por aí vai. Havia açai. Acho que só dois de nós, “dos portugueses”, curtiram esse sabor meio de terra/meio de whisky (na altura, soube-me assim) que mais ninguém suportou (alguns anos mais tarde, na Praia Grande, vários batidos foram jogados fora por um rapaz que, do outro lado do balcão, não acreditava que alguém escolhesse beber uma coisa com aquele sabor).

Mas também havia música e na verdade era por isso que lá estávamos e passávamos os dias (ou pelo menos muito tempo) nas Galerias do Rock, que eram assim uma espécie (eram mesmo) de um Centro Comercial DO ROCK. Ou seja, de música. Cada andar com o seu estilo, tinha gótico, punk, metal, e claro, hardcore straight edge vegan and whatnot.  Foi aqui, não sei se exactamente “aqui” nas Galerias do Rock mas aqui, em São Paulo, que conheci Racionais e me tornei die hard fã do Mano Brown, um dos poetas mais incríveis. Também passávamos muitas tardes em sebos, a comprar livros e discos, e trouxe para casa o “Ando meio Desligado” dos Mutantes porque um dos meus amigos me cantava (berrava) aos meus ouvidos “eu só quero/que você me queira” TODAS AS MANHÃS e eu achava delicioso (e que eu, à minha maneira idiota e pouco disponível para encarar de frente a dor emocional, gritei uns anos mais tarde aos ouvidos daquela que era a pessoa que eu amava na época, numa cilada afectiva/rejeição da saída daquela pessoa da minha vida).



Foi nesta viagem que fui pela primeira vez à USP e pensei, um dia vou estudar aqui.

Foi nesta viagem que escolhi São Paulo sobre o Rio porque o Rio foi tão desinteressante, e escolhi assim uma vida de comentários, “ah, mas o Rio, aquela cidade incrível e linda” e eu sempre, “São Paulo é que é”, agora mais por teimosia, para ser sincera, porque entretanto o Rio também aconteceu para mim, primeiro em Lisboa, go figure, quando por causa de um trabalho colaborativo entre artistas portugueses e brasileiros (não dava nada por isto) chegaram a Lisboa 4 artistas brasileiros e chegou a casa o Francisco Frazão a dizer, estes solos são incríveis e são numa piscina, vais gostar, dá uma chance” (ele não falou exactamente assim porque não diz coisas como “dá uma chance”, isso é meu, “Dá-lhe uma chance” e “Não nos sonegues”, que em bom rigor até hoje não sei o que quer dizer, só me lembro de nós, no mar de Copacabana, nós todos “os portugueses” abraçados e o Ricardo Avelino a rir e a gritar, e aquele mar meio mole e bom, e sim, é impossível não achar o Rio lindo).

E eu então levei o Francisco Frazão muito a sério e fui, e logo de caras amei o que vi porque vi o Filipe Rocha, que era um actor de teatro incrível já, mas que para mim era o namorado da Shirley Manquinha da “Torre de Babel”, e mais a Thiaré Maia, linda que dói, que era uma das meninas que vivia na casa da mãe do Cauã Reymond (não me lembro do nome desta novela), e havia Michelle Bois, mais discreto, e depois havia Alex Cassal que se tornaria, muito rapidamente, num dos meus heróis, tanto tanto que o meu filho quase que nasce no mesmo dia do que ele, só à força da minha admiração. O Alex que me receberia depois na sua casa no Rio, generosidade pura, e todas as pessoas que por ele entraram na minha vida também: sobretudo a Clara, que me deixou ocupar o seu fogão e cozinhar feijão preto, tantas saudades que eu tinha de casa que a primeira coisa que fazia na casa de alguém era cozinhar, e que topou o meu lado noveleiro e aceitou sem julgamentos, fez mais do que isso: levou-me ao Projac, onde eu quase arrisquei fazer a maquilhagem da Malu Mader quando ela perguntou quem era a maquilhadora e eu quase levantei o braço, pensei “Vale a pena ser presa por isto” (mas depois oprimi-me, em boa hora). (Levou-me também ao Mineirinho e à Academia da Cachaça, lugares de máxima importância, onde comi escondidinho e tomei várias batidas de alguma coisa enquanto celebrava o encontro bonito com Luz.)

Muitos anos depois, de passagem por São Paulo, conheci outra “família do amor” que nos resgatou, a mim e à pessoa com quem viajava, de um cenário assustador num hospital privado em Guarulhos: internada de emergência e na iminência de ser operada antes mesmo de qualquer exame, parecia, a pessoa ao meu lado tremia enquanto eu, eu também tremia internamente com a cabeça a mil, e depois de um telefonema onde alguém gritava “Saia daí agora, Patrícia!” chega uma voz grave que eu, no meio do meu delírio, associei ao Tim Maia e que dizia, “Patrícia, você está calma? Fique calma, que tudo vai dar certo.” [entra “Imunização Racional” como banda sonora deste momento lindo]. Este alguém, esta família, tem um longo historial de acolher pessoas e tantas vezes me recebeu incluindo desta, neste detour forçado que me obrigou a recordar São Paulo e ter a certeza de que, um dia vou estudar aqui.

Ontem voltei a São Paulo porque saiu esta notícia da Crackolândia; há uns dias já tinha circulado um vídeo em que vários moradores de rua se queixavam sobre a actuação da polícia: uns perderam (foram retirados) os documentos o que, para um morador de rua, é bastante mais horrível do que para outra pessoa, na minha opinião; a outro “levaram até a ração do cachorro”. [Lembro-me, já de regresso e a escrever sobre o meu trabalho, de ter lido a dissertação de Simone Frangella sobre moradores de rua (que se tudo der certo vai contaminar imenso a minha) e de ter achado que de facto a medida do avanço da inteligência das políticas “sociais” (acho que não será a palavra certa, mas não consigo pensar em outra) se traduzia (por exemplo) no facto de (alguns) abrigos em São Paulo terem uma espécie de cacifo para prender e guardar os carros em que os moradores de rua guardam as suas coisas, tinham sobretudo espaço para os cães dos moradores de rua. Para uma pessoa que mora na rua e que tem pouco ou nenhum contacto físico, ter um cão não é só um meio efectivo de estar alerta, descansando (o cão reage a surpresas e isso permite abandonar-se um pouco), é também um aconchego. Em São Paulo descobri que existia such thing as roubo dos cães que ficam presos à porta (do supermercado, do Banco, etc) por moradores de rua, pelo amor/protecção que trazem, e agora que escrevo isto penso que vêem sempre juntos, “amor” e “protecção”, pelo menos da forma como habitualmente os concebemos, não é apenas condição do morador de rua]. Ao ver aqueles vídeos e imagens, foi muito óbvio, aquele primeiro embate, naquele dia em que chorei durante dois só à pala das coisas que tinha visto, e vê-las foi mesmo importante porque estar visível é acontecer/concretizar (foi também em São Paulo que descobri que a híper-visibilidade, a in-yer-face visibilidade é sempre preferível ao esconderijo para os que são alvos (mais) fáceis, naquela que é uma tentativa de construir alianças com quem passa/com quem vê apesar de, infelizmente, esse acordo tácito nem sempre funcionar, e algumas pessoas estão dispostas a aceitar algumas coisas que vêm disfarçadas de “medidas de saúde pública” sem haver muita noção do perigo que é essa ideia de “saúde pública” e as maldades que já se fizeram/fazem em nome de). E nós a chegarmos ali, aos Campos Elíseos (quanta perversidade), nós com as nossas roupas e sacos de panos cheios de discos acabadinhos de sair das lojas da Barão Itapetininga, e depois já não éramos um nós, já era eu a chorar e a fazer força para disfarçar e o meu amigo em cool, vai ser pior se corrermos para trás agora, Pati, e a viramos uma esquina e depois outra e um mini-parque infantil e crianças a rir e eu agora a pensar no “Laughter Out of Place” da Goldstein sobre as favelas no Rio,  e a pensar que raio de título, porque é que ela acha que o riso está deslocado numa favela, este riso é real, e já nem me lembro de como saí dali (foi de táxi) e durante dois dias estava meio que em choque e percebi que não ia ser fácil.



E São Paulo ainda assim na minha memória, como o lugar em que se concretizou definitivamente a ideia comensalidade enquanto experiência de amor, mais, à la Bloch: como o lugar onde se materializa a consubstancialidade (o envenenamento) e o afecto.

Para mim São Paulo - a minha experiência de São Paulo - não é a esquina da Ipiranga com a Av. S. João (e se fosse já era lindo), mas é aquele cruzamento que fica na esquina da aceitação com a busca do novo. E também são (Paulo) todas as pessoas que conseguiram fazer da estranheza um lugar bom. Ontem voltei a São Paulo por um motivo horrível, e de bónus consegui transformar isso em flashback brutal de como encontrei o meu caminho para casa, como se estivesse novamente dentro daquele ônibus da Viação Gato Preto de cada vez que ia buscar alguém ao aeroporto e me animava com a chegada de (da) casa. É isto que São Paulo faz por mim. Não é pouco.



Patricia Azevedo da Silva nasceu em 1977 naquele que é, sem dúvida, o ano mais punk do século XX (serpente de fogo). Trabalha sobre a dádiva e a ideia de reciprocidade a partir da óptica do amor (a sua tese de doutoramento, “Pão é Amor Entre Estranhos”, ainda por terminar, aborda a ideia do alimento enquanto linguagem&afecto, a partir de trabalho de campo realizado em São Paulo). Na sua tese de mestrado, “Para lá do prejuízo”, trabalhou os temas de género, colonialismo e performance a partir da análise de experiências de mulheres brasileiras a viver em Lisboa.
Trabalhou com quase todas as produtoras de cinema em Lisboa (nos anos 2000) e foi aí que descobriu a importância da repetição (no sentido de repetir obras). Também foi ganhando outras relações com outras ideias de teatro e, actualmente, tenta fazer o mesmo com a dança (e, ainda remotamente, com as artes plásticas).
Cresceu em Queluz, Monte Abraão, e a ideia de periferia e subúrbio está presente em tudo o que faz, pela via da marginalidade e pela forma encantada como aprecia pracetas. É mãe.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Aborrecimento, quase poesia


III: Diante de quê?


               É sempre outro, o texto que se arma.

            Premeditava escrever uma lata de coisas sobre a questão do desaparecimento, convencido que está de que ele próprio desapareceu, de que está desaparecendo, de que – de alguma forma – veio dar a esta cidade com vistas a isso. Ocupa-se do assunto há algumas semanas. Espirala-se. De tanto ruminar, o tema por fim se externa, faz uma precipitação, conforma-se numa realidade independente e opressora. Agora é arrostar com coisa vasta demais, intricada demais, e que ele sente confusamente ter arremessado de si próprio.

            Houve momento em que este processo poderia ter sido interrompido? As ideias não caem bem, são como roupas que recusam o portador, saem andando.

            Sinistra ronda sem corpo.

            Reconhece, afinal, a autoridade diante da qual coça as barbas, apatetado, metido no roupão de microfibra bordô que há tempos adotou como pátria primeira: o texto que paira, rapinante, sobre o texto que se escreve; a reflexão gorada; um ror de improvisos elegantes e concisos que lhe escapa, e que lhe escapa exemplarmente.

            Retroceder da canção em vez de atacá-la.

*

            Sempre outro, sempre aquém, o texto a que chegamos. Sempre o mesmo adiamento, envio ao tempo seguinte, outra ocasião, o mesmo giro manco em torno do que deve ser exprimido.

            À volta, a mesma matilha de horas, cada vez mais próxima. E a razão, ao fim e ao cabo, dá-se a elas.

            Teve, em algum momento, certa identidade de porte com a ideia de desaparecer, mas este momento passou. Excedeu-se. Como, de resto, sempre fazem os momentos. Arrebentam o périplo, sangram por todos os lados, azul de realeza a manchar os carpetes.

            Processo pelo qual um pensamento agiganta-se até tornar-se impensável.

            Um gigante, como se derruba um gigante?

            Talvez com imagens.

            De todo modo, não será combate limpo. Tem a ideia por algo a sabotar com imagens, ritmos, música, trívia. Tem a ideia por algo a implodir por meios escusos, com a astúcia bastante baixa que foi obrigado a desenvolver ao longo da vida, por uma questão de sobrevivência.

            Que imagens arremessar contra a ideia do desaparecimento? Em que imagens resolvê-la?

            Há poucos dias, folheando uma coletânea de Sophia de Mello Breyner Andresen, leu um poema chamado “Praia”. Nele, através dele, chega bastante atônito a uns pássaros atirados contra a luz como pedradas.

          
*

            Posta-se diante da piscina pública em construção.

            (A piscina pública em construção é uma imagem do desaparecimento? Uma canção do desaparecimento?)

            A razão dá-se às horas.

            Sua sede, sua fome, sua desumanidade, em tudo isto não vê senão justeza, uma engrenagem em pleno funcionamento.

            É mesmo belo, quando pensa a fundo.

            Não se compreende a coisa. Não se compreende absolutamente. Sabe-se apenas que funciona.

            E o mundo não se reduz tão mole a uma série de atributos clássicos e signos essenciais. Estamos muito longe agora. Do mar, da luz, da areia, das paredes desadornadas e brancas, das vistas de clareza elementar.

            E no entanto, há estes pássaros, este itinerário violento contra a luz, as pedradas em que se mudam em pleno voo.

            Um pássaro-pedrada fere tanto a noção de pássaro quanto a de pedra.

            Segue despachando notícias de C..., a toca para a qual o conduziu seu caráter eminentemente roedor. Vai enviando circulares ao longo das quais enaltece a eficácia de seus perseguidores, que ainda não lhe apanharam sabe-se lá como.

            Apanharão. Em bom tempo apanharão.

            Relata progressos.
            “Puseram já as telhas e instalaram a eletricidade, mas a piscina segue vazia”.



O autor desta coluna chama-se Ismar Tirelli Neto.

"Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados".

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Comer com os Olhos #1


1. Eu sei.


Eu sei que provavelmente deveria começar estas linhas explicando o título da minha crónica. Crónica que a Fernanda Mira Barros me convidou para escrever, há uns tempos atrás, via Messenger, tenho quase a certeza – sinal dos tempos (é disto que vou falar) e que, combinámos, seria quinzenal. Que o título seria, inicialmente (a Fernanda não sabe disto) Esta noite come-se com os olhos esta noite por causa de uma brincadeira com um título de uma música de um mockumentary que aprecio bastante (Spinal Tap), mas depois disseram-me que não tinha assim tanta graça e que ninguém iria perceber e que seria bastante estúpido usar.

Só que ontem e no dia anterior, à mesma hora, passei no Maria Matos para escutar duas pessoas diferentes a falar sobre – eu poderia dizer ‘questões indígenas’, mas acho que ia falhar o alvo. Uma delas, Viveiros de Castro, já tinha ouvido outras vezes, quase sempre em contexto académico, já lhe conhecia o rizoma e a vaidade. O outro foi début. O outro era o Ailton Krenak, que apesar da fama, me apanhou desprevenida. E afinal era mais sobre isto que me apetecia falar.

Krenak abordou a noção de pessoa, e de mundo, ‘enquanto território partilhado’.  Dos espíritos dos nossos antepassados que animam aquilo que estamos habituados a ver como recursos, e da instituição do sonho. Mas sobretudo falou no seu tempo. Quer dizer, falou noutro tempo. No tempo da pausa. Ele falava e parava e falava de novo e parava de novo e pensava no que dizia e dava-nos tempo para pensar no que dizia também. Aquilo era soothing e eu fiquei louca, porque o meu tempo é o tempo do capitalismo, da rapidez, do multitasking. Gostei muito. Gostei muito daquele abrandamento (“abrandamento” para mim, para ele seria só “ritmo”). E fiquei a pensar sobre alguns significados de  tudo aquilo.


2. A questão do intervalo - a pausa enquanto intervalo - sempre me interessou muito. Há pouco tempo, comecei a gravar (acho que foi uma sessão só ainda, mas o plano é que sejam muitas) o projecto colaborativo entre o Joaquim Albergaria, baterista, e a Gwen Van der Velden, artista plástica; são ambos artistas muito talentosos que, por acaso (or is it?...) também se amam. Meet me in the middle fez-me pensar nessa questão do intervalo, no meio, no espaço entre. Aí eu pensei num texto da Judith Butler, em que ela fala sobre o espaço e a política, ou a política do espaço, e num trecho em que coloca muito claramente que “o [meu] corpo não age sozinho quando age politicamente. Na verdade, a acção emerge do ‘entre.’”  Neste texto, Butler fala da importância do aparecimento do corpo para que a política possa acontecer. A mim interessa-me muito esta a questão da visibilidade, da importância do espaço do reconhecimento. Ver estas conferências (Viveiros de Castro e Ailton Krenak) no espaço de um teatro, no espaço que é por excelência um lugar de visibilidade (e o seu contrário, também) fez-me pensar na importância de ser visto: ser visto é existir. Tornar o corpo visível, ocupar o espaço (público) é um acto político, e é sobretudo político quanto mais representa um intervalo do tempo capitalista na medida em que “[n]o bom emprego do corpo, que permite um bom emprego do tempo, nada deve ficar ocioso ou inútil (...). Um corpo disciplinado é a base de um gesto eficiente” (Foucault). Parar para ouvir pode ser um acto político porque interrompe o tempo da produção.


3. O intervalo enquanto interrupção do tempo capitalista, e a pausa no sentido real de “estás a mandar uma granda pausa”, significa rejeitar o carácter imediato das trocas, então. No mercado, “cada troca é completa. (...) cada relação é pontual e não compromete o futuro (...) e portanto não nos insere num sistema de obrigações” (J. Godbout). Não existindo dívida, não existe obrigação de retribuir. Como aponta Suely Rolnik, essa seria a principal diferença “entre retribuir e pagar uma dívida: retribuir uma doação não tem prazo nem conteúdo previamente definidos”. Para o capitalismo “ser um indivíduo equivale a não dever nada a ninguém” (Berthoud).

Ser um indivíduo pode ter que ver, então, com esta ideia da não obrigação de retribuição. Com a ideia da não geração/manutenção de laços sociais. Ser indivíduo é ser independente e ser independente é não ter dividas, que também é dizer não ter laços. A dádiva - por exemplo, por oposição à troca – a dádiva pressupõe uma reciprocidade, uma contra-dádiva, e isso implica um tempo que não é o imediato, um tempo de (mais ou menos) longa duração, como as cartas, que dependem da resposta para ganhar corpo (para concretizarem a sua natureza, é o que quero dizer). Naquelas pausas, naquele tempo que demorava a pensar e que tão generosamente nos concedia para pensar, Ailton Krenak falou também de uma noção de pessoa que implica todos estes laços, e não é nem com as pessoas que estão aqui, é com as que foram e que ainda virão, e que comunicam (mesmo, não é parábola) através de sonhos. Porque criar laços é um acto político contra o capital.

Esta não era a crónica que tinha pensado escrever. Não era assim que pensava abrir a minha colaboração. Mas depois de ontem, não poderia ser de outra forma.
Se tudo correr bem, agora terão menos um motivo para odiar as segundas-feiras. E mais um (muitos) para odiar o capitalismo.



Patricia Azevedo da Silva nasceu em 1977 naquele que é, sem dúvida, o ano mais punk do século XX (serpente de fogo). Trabalha sobre a dádiva e a ideia de reciprocidade a partir da óptica do amor (a sua tese de doutoramento, “Pão é Amor Entre Estranhos”, ainda por terminar, aborda a ideia do alimento enquanto linguagem&afecto, a partir de trabalho de campo realizado em São Paulo). Na sua tese de mestrado, “Para lá do prejuízo”, trabalhou os temas de género, colonialismo e performance a partir da análise de experiências de mulheres brasileiras a viver em Lisboa.
Trabalhou com quase todas as produtoras de cinema em Lisboa (nos anos 2000) e foi aí que descobriu a importância da repetição (no sentido de repetir obras). Também foi ganhando outras relações com outras ideias de teatro e, actualmente, tenta fazer o mesmo com a dança (e, ainda remotamente, com as artes plásticas).
Cresceu em Queluz, Monte Abraão, e a ideia de periferia e subúrbio está presente em tudo o que faz, pela via da marginalidade e pela forma encantada como aprecia pracetas. É mãe.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Aborrecimento, quase poesia

2: No Café Agridoce


            Penso que vamos todos fartos dessas histórias de cafés. Conhecemos já suas fachadas, seus interiores, suas serventias. Mas não parece haver o que nos livre delas. Dizem-se ainda coisas cinzentas, coisas a meio, feridas de subtexto... Ou então coisas abobadas e doces que o futuro não conseguirá digerir plenamente, e empurrará de volta às nossas bocas em jatos os mais inoportunos...  É preciso, enfim, que tenham lugar, é preciso que estas pequenas misérias tenham lugar. Por ora, ao menos. Nossa impaciência nada pode contra o encapamento da poeira, os letreiros caindo de subliminaridade, os velhos cardápios encadernados em couro... Nada escapa ao significado, à sugestão. Não há descanso. Por onde quer que se olhe, a mesma gente melancólica a entrar em acordos melancólicos, demorando-se nas flores inanes sobre a mesa; pelas paredes, reproduções sensaboronas de cartazes de touradas, dir-se-iam originais, tamanho o desgaste...

            Bom, talvez tenhamos roçado agora numa virtude, afinal. Isto do desgaste ter o poder de mudar reproduções em originais. O tempo a tudo comprime. As mãos, simuladas ou não, destinam-se ao mesmo encarquilhamento. Como já não se pode fumar agora em canto nenhum, trabalharão distraidamente os guardanapos até formarem pequenos cilindros... Vejam: vazios. Engastam-se entre os dedos como que observando misteriosas direções de palco. Somos nós, então, que começamos a nos portar enfumaçadamente. Os braços passam a manifestar pretensões de melodia. De repente fica-se assim, vago, ralentado. Ao fim e ao cabo, é força admitir, pouca coisa nos moveu além de cálculo. A consciência – nada vaga – de um cerimonial. É sempre a última vez que alguém nos vê. É sempre a última vez que vemos alguém.

            É assim que entra uma cabeça. A minha, a princípio. Sobrenadando à pergunta: do que me despeço? Do que exatamente me despeço? À cata já do que memorizar, os olhos, a cabeça, certa de que tudo nestes lugares é dócil, certa de que tudo se prestará ao rapto, certa de que todos os objetos visíveis poderão ser apresentados no futuro como prova irrefutável de que algo extraordinário foi, de fato, vivido. Do que me despeço? De que venho me despedindo, seguidamente, há tanto tempo?

            Do extraordinário. Da noção de extraordinário.

            A cabeça entra. Acompanhada não muito de perto por um corpo, ambos pesados e saltitantes. Mas de maneiras diferentes. Segundo tempos diferentes. Este pequeno descompasso é o que entra.

*

            Entro, caminho conexamente até a uma mesa afastada. São poucos passos, não demoro o olhar nos cartazes. Percebo os arredores apenas o suficiente para constatar que não há mais nenhum cliente no local. Abancado, recuso polidamente o cardápio oferecido pelo garçom; peço-lhe só um café e o açucareiro.

            Ele some. Os garçons somem-se para o transcurso de histórias reais. Ficamos aqui, deste lado do balcão, reino de banalidade e xaropadas. Busco manter-me ereto no silêncio que se abre, enrijeço as costas, procuro colá-las às costas da cadeira, preenchimento completo.

            Tudo à minha volta deve reduzir-se a este contato puro e desarrazoado. Devo perder nisto tanto o corpo quanto as imediações.

            À cabeça, agora involuntariamente erguida, apresenta-se o desafio seguinte: ver da forma mais geral possível, olhar fixamente adiante e não enxergar, deixar isto talvez para os ouvidos, de todo modo, não reter, não isolar nenhum componente, não permitir nenhuma transmissão. Mas os matizes de chalé vão lentamente se comunicando a mim. Apesar dos esforços, sofro já as solicitações de um certo sentimentalismo.

            Concentro então todas as minhas energias em me tornar um couraçado. Até o café chegar, terei me transformado num navio de guerra em repouso. Posto melhor, no próprio repouso dos navios de guerra. Juntarei afinal o corpo à cabeça e será este o resultado. Concentro todas as minhas energias no verbo “torpedear”.

            Espero o café esfriar um pouco.

           Enquanto o café não chega, enquanto não esfria, enquanto não me torno nada, ligeira movimentação na outra extremidade me alerta para o fato de que não estou só, de que não estivera só em nenhum momento desde lá ter posto os pés. Há um rapaz, costas voltadas para mim; há uma moça que o fita, pálida, tão triste. Pergunto-me qual dos dois estará desmanchando as coisas. Isto se estende por alguns minutos até que, sentindo-se observada, a moça fixa os olhos em mim. “Crava” seria termo mais adequado. Sabemos de que tipo de gente se trata porque esta magnífica tristeza nunca dura de um rosto a outro, havendo, neste movimento, como que uma perda de divãs.

            É então que sorrio, sorrio monstruosamente, o rosto em brasa, também os dentes. Por nada neste mundo serei arrastado para dentro daquela memória. Nada me fará tomar parte nisso. Se me quiserem, terão de me apanhar à força. É a pequena resistência que coloco, tornar a cena inoperante, pôr uma trave ao mecanismo. Não, não será desta vez. Se tivesse mais presença de espírito, atearia fogo às barbas. Se tivesse dinheiro, mandaria para lá uma garrafa de Dom Perignon.

*

           Chama-se Café Agridoce. Foi aqui que vi o Mauro pela última vez. Foi aqui que ele me perguntou, o cabelo, como sempre, todo enevoado, se jamais me ocorrera explorar o mundo, ao que prontamente respondi: “Sim, é claro, o tempo todo”.

            Meses depois vim dar a este cu de Judas, de onde nunca mais saí.



O autor desta coluna chama-se Ismar Tirelli Neto.

"Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados".

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Aborrecimento, quase poesia

1: Questões de Autoria


E por que não? Se tantos, no passado, foram já um “ele”, habitaram já um “ele”... K., o Senhor Plume... tantos garotos passeantes do Walser não chegam propriamente a constituir um “eu”... Não, não há entre nós torcionários sedentos de sangue, não temos de que nos envergonhar. Trata-se de uma povoação menor, ignorante dos procedimentos, passando de momento a momento... Orgânicos, naturalmente, mas o que mais? Quem objetivava esta vida, afinal? Quem teria o trabalho de coonestá-la, se eles próprios, fossem indagados acerca da questão, hesitariam infinitamente em dizer qualquer coisa no sentido de afirmá-la enquanto tal?
Temos de narrá-los, mais uma vez, mais uma vez e sempre, reconduzi-los ao salão principal, recosê-los ao tecido do mundo, e no mundo – digamos logo de saída – não há lugar senão para ficções. É uma perversão fundante, a dobra que nos impede de chegar a qualquer absoluto, a dobra que nos devolve e prostra – como se deve – ante todo e qualquer acontecimento... Coisa de que não se apercebem eles, ou se apercebem apenas vagamente.
Ao fim e ao cabo, são nossas as mãos que os empurram até a evidência. Somos nós que os resgatamos, não suportando mais vê-los pelas praças das cidades bracejando atrás de uma forma. Somos nós que penduramos-lhes incidentes, torneios romanescos, um que outro dito de espírito, ideias extravagantes subidas sabe-se lá de que rincão bafiento da mente, alguma via para a revelação, algum talento inconfesso para a vidência, tudo isto para que não pareçam assim tão inteiramente remetidos a si próprios. Porque é vário, o tecido, e porque esta variedade é insaciável, de desaparecer com tudo e com todos.
Não percamos de vista o fato de que estas pessoas, quando morrem, não costumam deixar para trás diários.
Nossa onisciência, enquanto narradores, só vai até aí. É uma “história de vida”, e todos sabemos como estas costumam terminar.
Encarregamo-nos nós de tornar mais belo o caminho para os números.
Encarregamo-nos nós, pela via do personagem, de dignificar de algum modo os que tendem naturalmente ao sumiço, que não conhecem outro tipo de aventura.
E o fazemos apenas porque não existem ainda entrepostos lá muito precisos entre “eu” e “ele”. Uma prática de escrita que se desse entre estes dois continentes é que seria o ideal. É bonito, convirão, sonhar com uma letra oceânica, que não aportasse, enfim, mas conservasse ainda algo da solidez do mar, de uma imagem do mar, de uma compactação do mar... Teremos entretanto de deixar esta investigação para o futuro, certos de que, entre nós, contam-se já alguns infelizes ocupados em trabalhar a terra e afiar os instrumentos.
É também nossa leve suspeita de que algo da pertinência histórica do emprego do “eu” vem se esvaindo, quiçá irreversivelmente, que nos impele de volta a “ele”. Se redige suas “anotações do ano 1920” em pleno – annus miserabilis – 2017, tanto faz. Estamos convictos de que não se trata de um retrocesso, somos suficientemente sóbrios para compreender que em nada avança a dita coisa literária. Um estamento entre tantos. O estamento-ele.
Preambulado já, caminha pelo centro de C... no início do outono. Como de hábito, pensa como um guisado. Na passagem de “eu” a um “outro”, os sentidos de fato se desregraram todos, mas isto não foi sistemático. O sistemático cabe a nós. Sob nossa caritativa batuta, alguns elementos se tornarão mais nítidos e subirão à superfície, formando frases, discretas figurações, paulatinos monólogos.
Este é o primeiro.
“O Malte Laurids Brigge já foi escrito. Era o único livro possível. Este e o Bartleby, também escrito, já faz muito tempo. Isto, no entanto, não deu cabo das palavras. Porque não acabaram logo ali, de uma vez por todas, jamais saberemos. Com o fim da linguagem, teríamos certamente atingindo também o fim dos tempos, e é mais bonito imaginar o fim dos tempos como sendo produto de grande consecução linguística do que de bombas disparadas por idiotas. Mas o fato é que não acabaram. Não foram ainda enunciadas as palavras conducentes ao grande silêncio.  Passou-se outra coisa com elas. Estão como que recuando desde então, muito lentamente, muito lentamente, e é de dentro deste recuo que pareço pensar, falar, comunicar minhas pequenas exigências e conceder meus pequenos favores. É deste recuo que escrevo. Recuo em C..., cidade propícia a este tipo de movimento. Cidade da qual nada sairá de consequente.

C... é a cidade onde desapareci e isto que entrevejo talvez não passe mesmo de um folhetim existencialista da pior espécie. Tenho amigos que me dizem que sou anacrônico até dando bom dia. Tanto pior. Aqui estou tão só como sempre me senti. A antevisão engrenou-se na visão, a princípio correu acidentado, mas agora a coisa toda se suavizou. Não, não sou um desamparado. Sei que daqui a pouco estará tão frio que já não se poderá sair de chinelas à rua. Convém restringir as sortidas diárias ao período da manhã. Convém, apesar do frio que começa a descer sobre a cidade, deixar as poucas janelas de casa abertas por, pelo menos, um par de horas, para que o ar circule e para que se dissipe o cheiro a cigarro. Os lençóis são trocados a cada semana. Tenho alguma situação em praças, parques não muito grandes, restaurantes barateiros da região. Tenho até mesmo uma vizinha que sempre me cumprimenta com a máxima simpatia se calhamos de nos cruzar na rua. Não, não bracejo. Caminho pela cidade de C... no início do outono. Ninguém deverá responder por mim”.

O autor desta coluna chama-se Ismar Tirelli Neto.

"Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados".

sexta-feira, 31 de março de 2017

Folhetim Detectivesco: 5


ONDE SE FALA DE CRIMES SEXY E DE SOMBRAS DO PASSADO - II PARTE

A mulher que estava diante de mim tinha cerca de quarenta anos, era bonita, embora com um aspecto cansado que nem os bons cremes, a hábil –e quase invisível- maquilhagem e o óptimo corte de cabelo conseguiam esconder. Estava bem vestida, de modo clássico. Não havia nela nada que fosse mau ou vulgar. No entanto, era como se tivesse gasto imenso dinheiro para passar despercebida.


Era médica, divorciada, com dois filhos quase-adultos, como agora todos são. Tinha duas moradas, a da casa, na Lapa e a do consultório, numa transversal à 5 de Outubro, que supus indicarem espaços condicentes. Tinha um estupendaço carro. Tinha uma carreira notável.


E, agora, estava ali à minha frente, a fazer um pergunta. Cuja resposta podia fazer rebentar em estilhaços bicudos e afiados aquela vida de Barbie-divorciada-é – uma-médica-de-sucesso.


Isto se os estilhaços não tivessem rebentado há muitos anos.


Rewind: Na casa de família, onde viviam os pais, os irmãos, os sogros e onde eram esperados, por ser véspera de Natal, muitos outros familiares.


Miguel, o pai, médico, suicidou-se com um tiro. Tinha quarenta anos e a minha cliente dez. Foi encontrado pela mulher, Rosarinho, a mãe dos três filhos de ambos. Muita coisa foi-me contada na terceira pessoa, como se ela se distanciasse, como se só conseguisse falar pela boca da avó.

...

Sentada na pequena escrivaninha, foi separando folhas de papel cheias de listas, que amachucava antes de atirar para o vaso de papier-machê. Não gostava de cestos de papéis que fossem notoriamente cestos de papéis.


Entrou na saleta, a que os netos chamavam “o escritório da avó”, sem por isso respeitarem a sua privacidade como faziam com os homens da casa e fechou a porta à chave.


Precisava de uns minutos sozinha. A noite ainda nem tinha começado e já se sentia tão cansada como se todos os preparativos tivessem sido realizados pessoalmente por ela e não apenas-apenas? – superintendidos ou delegados na Deolinda.


É verdade que nada, nem a decisão de por ou não por goma nos guardanapos de linho, em que se entrelaçavam - amorosamente? ternamente? Esperançosamente- pensou -esperançosamente era o termo mais apropriado, a sua inicial e a do marido. M e E. Margarida e Estevão.


Existiam na casa, no sótão, guardados em gavetas de cómodas enormes, em baús, em arcas e mais arcas e mais arcas quantidades inacreditáveis de toalhas de mesa e de banho, de lençois, de dezenas de guardanapos, de panos de tabuleiro, de fronhas de almofada e de travesseiro, em que o E se entrelaçava com outras letras. M e C. De Maria do Carmo, a primeira. A primeira mulher do seu marido, a primeira mãe dos filhos dele, a primeira nora, a primeira senhora da casa. Metros e metros de algodão, de cambraia, de linho, de seda, dobrados entre papel fino, cheios de saquinhos de canfora. Nunca mais foram usados, não se punha a possibilidade de os dar – no fundo, eram herança da Carminho, que nem um lenço levara consigo, ao casar contra a vontade do pai.


Tanto disparate, tanto desperdício – disse para si mesma. Mas não. Era assim. Eram usos e tradições que talvez parecessem cada vez mais anacrónicos à medida que os anos passavam, mas sem os quais, sentia sem saber bem de onde lhe vinha a certeza, coisas muito mais importantes se desmoronariam levando na enxurrada todo um modo de vida, que era a sua vida.


Sentada na pequena escrivaninha, foi separando folhas de papel cheias de listas, que amachucava antes de atirar para o vaso de papier-machê. Não gostava de cestos de papéis que fossem notoriamente cestos de papéis.


Já só sobrava uma folha. O memorando mais pessoal, o que escrevia para si própria. Quem se sentava – e sobretudo quem não se sentava - ao pé de quem. Temas a evitar. Perguntas a fazer e a não fazer.


E as cartas dos pequenos. Sorriu. Com a chegada das crianças, da televisão, dos hábitos dos amigos de colégio, fora cedendo à iconografia americana, à árvore enfeitada, aos presentes embrulhados prontos para distribuir à meia-noite.


Mas as cartas eram dirigidas ao Menino Jesus. O Pai Natal ainda não tinha entrado em sua casa.


Foi passando os pequenos envelopes. Desde que os netos sabiam escrever que guardava os seus pedidos infantis, uma demonstração de ternura que quase a envergonhava. Foi lendo os pedidos, dos quais se encarregava pessoalmente – livros, os bebés-chorões que tinham recentemente chegado às lojas, assim como o Lego e o Mecano. Um carro a pedais, escrito com a letra da irmã- sorriu - um microscópio, um Atlas – o Tomás e o João Pedro estavam a crescer tão depressa!


Parou. No meio dos bilhetes pautados, com desenhos de azevinho, estrelas e anjos, estava uma folha de papel de carta normal, adulta, dobrada em quatro. Quando é que tinha mexido a ultima vez nos pedidos? Na véspera ou na antevéspera? De qualquer modo, alguém colocara aquilo ali, furtivamente, tendo o cuidado de a misturar com as outras.


Desdobrou a folha. As frases estavam escritas a tinta permanente preta. Pouco mais eram que rabiscos, mas julgou reconhecer a letra do filho. João. O meu filho, quando penso em filho é sempre nele que penso. O meu filho. Apesar da Marga, do Filipe e da Teresinha.


“Tentei com todas as minhas forças. E mesmo assim não consegui. Talvez afinal seja um fraco, ao contrário do que todos pensam. E nesta época, ainda por cima. É ridículo pensar nisto. Quero pedir desculpa à Rosarinho…


O texto acabava assim, sem ponto final, sem assinatura. A letra era inegavelmente do filho, mas as palavras, ou o sentido que pareciam fazer, não podiam ser menos características dele.


Que disparate! Uma brincadeira? Um engano e aquilo, fosse o que fosse, não se destinava aos seus olhos?


Levantou-se com a folha na mão, sentindo-se de repente tonta, quase agoniada. Sacudiu o puxador duas vezes até se lembrar de que tinha fechado a porta à chave. Para estar sossegada, quieta, em paz, antes da longa noite que a esperava. Uma premonição, achou depois.


Saiu para o grande hall, para onde davam as portas das salas e a escada para o primeiro andar.


Estranhamente estava deserto, talvez tivessem ido todos descansar um pouco para os quartos, acabar a toilette, nem as criadas se viam, nem as crianças…


Ouviu uma espécie de gemido, como um animal ferido. Não conseguiu identificar o som, só percebeu que vinha de cima, o que fez com que erguesse os olhos para a escadaria. A Rosarinho vinha a descer, devagar, agarrada ao corrimão com as duas mãos, como uma inválida. Sentiu a onda de impaciência física que a nora lhe provocava cada vez com mais intensidade. Já nem a beleza dela lhe causava o efeito que parecia ainda causar nos outros. Com o cabelo louro pelos ombros, os olhos turquesa de gata nas feições perfeitas de criança, o conjunto de camisola e casaquinho de lã creme e as slacks de veludo preto, estava, como sempre, impecável, apropriada para a ocasião mas original, o cabelo preso atrás da orelha deixava uma pequena pérola à vista, e o classicismo do conjunto compensava o facto de ir jantar de calças na véspera de Natal.


Esta capacidade de escolher tão bem a roupa, de aparecer sempre tão bem cuidada, de fazer umas entradas tão…cinematográficas, fazia-a sempre duvidar das misteriosas maleitas e nervosos da nora, mesmo quando o comportamento dela tornava evidente que estava perturbada.


Como neste momento. Suspirou.


- Onde é que está o João, Rosarinho? Sentes-te mal? Vai para a sala que eu peço para te levarem um chá de tília, não vamos para a mesa tão cedo…- uma forma de disfarçar os sentimentos contraditórios era atacar, falar sem parar e tomar decisões. Há anos que se apercebera que eram os outros a moldar o comportamento da mulher do filho. Se não lhe dissesse nada, era capaz de ficar ali na escada, sem subir nem descer. Assim, estaria apropriadamente sentada a beber um chá, o que a tornava aceitável e…enfim. Normal.


Que exagero, repreendeu-se a si própria imediatamente antes de se aperceber que o gemido saia da boca da mulher para quem olhava. Esta parou e soltou uma das mãos, que esfregou lentamente na camisola creme.


- Cuidado, que te estás a sujar toda de baton, - ainda disse, mesmo sabendo que não era de baton que se tratava e que o terror, sim, porque fora terror, mesmo não confessado - que sentiu ao descobrir o bilhete do filho tinha razão de ser e que o inferno ia começar para todos naquela casa. Mas sobretudo, para ela.


...

Interrompi.


-Está bem, percebi tudo. A sua avó sofreu imenso. Vocês, a família próxima, sofreram imenso. O seu pai suicidou-se com um tiro na véspera de Natal mas aconteceu há mais de trinta anos. O que é que quer de mim, exactamente?


(a pedir pelas alminhas que não fosse o que eu pensava. Claro que era)


-Quero que me diga quem matou o meu pai. Porque eu tenho a certeza de que ele não se suicidou.


Apeteceu-me abaná-la.


-Quem é que estava na casa? A sua avó, as crianças, os empregados, os seus primos mais velhos e uns convidados deles, a dormirem... pouco provável, não acha. E quem mais?


-Ninguém... só... só a minha mãe.


Ficámos em silêncio, enquanto ela digeria a história. A mãe dela, que assim que surpreendeu o marido a ensaiar bilhetinhos informando da decisão de abandonar a família, tirou uma arma do armário onde estavam guardadas, carregou-a e matou o marido. A seguir pôs a arma em cima da secretária, retirou as cartas que ele estava a escrever, escolheu a que não estava manchada de sangue e pô-la entre os bilhetes que se encontravam na secretária da sogra.


Voltou para o quarto, tomou banho, arranjou-se cuidadosamente, voltou ao escritório do marido, verificou se estava tudo como o tinha deixado, a dramática cena, a cabeça para trás, o sangue na parede. Sangue. Tocou numa mancha.


E desceu a escada para a sogra a ver. Mulher eficaz. Que enganou toda a gente.


Agora, era com esta realidade que a minha cliente tinha que se haver. Ela parecia mais calma do que a maior parte das pessoas no seu lugar. Talvez, no fundo, desconfiasse da verdade há muito tempo.


Passou-me um cheque, guardou a factura cuidadosamente. Demos um aperto de mão. Não voltei a vê-la.


FIM


(A autora deste Folhetim, até aqui anónimo, chama-se Teresa Font)

terça-feira, 28 de março de 2017

Folhetim Detectivesco: 4

ONDE SE FALA DE CRIMES SEXY E DE SOMBRAS DO PASSADO.

Há crimes que são sexy e crimes que não o são. Esperem! Lá estão a dizer coisas antes de ouvir... Esta classificação não exclui outras adjectivações. Crimes que são em iguais doses terríveis, assustadores, sanguinários, injustos, inexplicáveis – ou explicáveis e por vezes é a explicação que causa o maior horror. Mas todos cabem nestas ou noutras classificações.

E depois uns são sexy e outros não.

Lamento. Mas não fui eu que inventei a humanidade. Posto isto.


O que os torna sexy? Muita coisa. O mistério. O horror, a violência. A -ou as- vitimas. Por exemplo, os crimes do Estripador são sexy. Não? Desculpem? Até hoje fazem-se filmes e escrevem-se livros. Há mil teorias. E porquê? Quer dizer, não era de certeza uma novidade, naquela época e naquela zona aparecerem mulheres que se prostituíam estripadas. Ou deitadas ao rio. Ou estranguladas. Ou tudo junto. Mas depois, descobria-se o culpado – o chulo, o amante, o bandido, o tratante num instantinho. E se não se descobrisse, olha, paciência, menos uma desgraçada na rua. Da amargura. Mesmo que não se falasse muito nisso.


Os crimes do Estripador são diferentes porque o perpetrador (ui! Mas é assim que se diz) construiu uma história com eles. Deu-lhes coesão, reclamou a autoria, desafiou a polícia a descobri-lo. Forneceu o frisson do medo a quem estava sossegado e seguro na sua casa vitoriana em Kensington. O ‘ah e se fossemos nós?’. Mas não podemos ser nós porque nós somos pessoas boas e respeitáveis, cumpridoras dos seus deveres para com a sociedade e a igreja. Sim? Sim.


O Estripador forneceu ao “público em geral” o medo sem o risco. Tchan tchan! (também me estou a rir. Mas é verdade)


Convém sublinhar, as vítimas eram mulheres. Uma determinada espécie de mulheres. Que as pobrezinhas fossem feias, desfeitas pela vida que levavam, doentes? Ora. Sexo, culpa, horror, mistério. Falta o quê? Dinheiro, acertaram. E não é indispensável a vítima ser mulher. Mas abrilhanta.


E, last but not least, pôs toda a gente à espera do próximo crime. O quê, pessoas honradas, mães de família respeitáveis, a desejar que mais uma pobre de Cristo fosse esventrada? Sim senhores. Não só à espera, mas ansiosos.


(isto é um interlúdio pretensioso, mas todos aqueles ‘mementos’ vitorianos, as mãozinhas, os pezinhos dos infantes, lívidos no mármore, sempre me fizeram imaginar o pater familas a entrar na nurserie e a desatar à machadada… Pronto. Eu às vezes sou afectada pelo ofício, não sou de pau, sim? Nem de mármore. Felizmente)


Neste caso, esse móbil, o dinheiro, não seria importante.


Diz que – e eu vou voltar a esta premissa muitas vezes – as explicações mais simples são as mais prováveis. Assim, a minha explicação é que Jack the Ripper foi o primeiro serial killer da criminologia moderna. Os psicopatas não precisam de razões lógicas. Têm as deles e servem-lhes perfeitamente.


Posto isto, vou contar-lhes o crime mais sexy-enfim, um dos mais sexies – que me apareceu numa carreira não muito longa-lailailai, às senhoras não se pergunta a idade, excepto a polícia, que pergunta tudo, não se enganem – mas preenchida de acontecimentos interessantes. Posso dizer isto à vontade, porque o julgamento será vosso.


“Uma tragédia no Natal

A 24 de Dezembro de 1987, há dez anos, um membro daquilo a que se chama, nem sempre com acerto, ‘jet set’, foi encontrado morto na sua casa, XXXXXXXX, Lisboa. Sendo um médico conhecido e pertencente a uma família conhecida, o caso despertou grande curiosidade, embora se tenham desenvolvido grandes esforços para abafar as notícias. O acontecimento chocou todos os próximos, mas após rigorosas investigações, o veredicto de suicídio foi aceite. Apesar da discrição dos familiares e amigos, o incidente continuou sempre envolto numa nuvem de dúvidas e suspeitas. Nunca foi, no entanto, possível encontrar o mínimo indício que permitisse reabrir este caso. Infelizmente, parece que a Justiça continua a ser desigual para ricos e pobres”
in xxxxxxx, 1997”


Um processo discreto, uma indemnização avultada e algumas mudanças no quadro do jornal encerraram o assunto.


Até hoje. Até ao dia em que tenho uma testemunha impossível de ignorar à minha frente. Aqui, no meu escritório. Daquelas que diz: – ‘Diga o seu preço’. Daquelas que diz; – ‘Eu estava lá e vi’. Daquelas que diz: – ‘Eu preciso de saber. Ou morro’.


Daquelas que são um lindo serviço.


Conto o resto na próxima vez. Espero que estejam ansiosos.

(cont.)

terça-feira, 21 de março de 2017

Folhetim Detectivesco: 3

ONDE SE FALA DE CRIMES, DE GATOS E DE SENHORAS.

Dedico-me a descobrir coisas. Histórias, culpas, quadros roubados. E crimes, também os há.

E, lamento o desassossego que trago, também há crimes que nunca são descobertos. E não falo do Nelo que, na Buraca, um belo dia de sol mata o cunhado e dois amigos à porta de um café manhoso e depois na televisão aparece a irmã muito chorosa e os vizinhos a dizer que ele era uma pessoa sensível e prestável, pena aquele pecadilho de matar gente.

Não. Esses estão tramados desde o princípio. Desde que nasceram.

Vou contar uma história.

Encontrava a Mafalda em todo o lado e como ela ia a muito mais sítios do que eu, suponho que estaria mesmo em todo o lado.


Era, é, que ainda anda aí, bonita. Loira, petite, cuidada, suave. Tinha umas unhas, não sei bem dizer porquê, inquietantes. Um bocado bicudas de mais. Não me perguntem, não sei. Aquelas unhas preocupavam-me.


Não havia maledicência sobre ela, personificava o equilíbrio certo entre mosca-morta e mulher desejável para ser interessante sem ter interesse nenhum. Ah, não. Havia uma coisa. O marido, um médico mais velho do que ela, conhecido e riquíssimo, tinha alergia a gatos. E ela tinha uma gata. E adorava a gata. Kitty, chama-se a gata.


Havia algumas anedotas sobre o assunto. Recorrentes sempre que ela aparecia com um novo carro ou jóia – ui, aqueles Cartier Oriental – ou vison (gracinhas tipo-achas que matou a gata?).


Despeitados, enfim. Um dia o marido morre. Inesperadamente mas sem nada que provoque dúvidas. Trabalho a mais, whisky a mais, talvez amantes a mais, falava-se numa rapariga nova ultimamente, ai eles não medem, viagra se calhar, com um coração cansado. Puf. Out marido.


A Mafalda portou-se, como era de esperar, impecavelmente. Espantosa em cinzentos, pérolas minúsculas, óculos escuros. Passado aquele período que antes se chamava ‘de nojo’, foi reaparecendo. E foi sendo cortejada, pretendida, requestada, por uma notável quantidade de notáveis da nossa praça. Pudera, viúva (portanto ‘carente’, esta palavra desculpem, mais valia esfregar as unhas num quadro de giz, mas as coisas são como são), rica, nova e bonita.


Aos magotes. Até ela ter escolhido um. Um eleito entre todos. Como descrevê-lo? Imaginem o Tomás Palma Bravo do Delfim passados muitos anos. Cabelo branco. Engatatão. Carros todos coisos. Anel de brasão e roupa à la publicidade RL. Com toques Prince of Wales. Uma desgraça, claro. Mas a Mafalda, talvez por cansaço, escolheu-o.


Pouco tempo depois a ligação era ‘the talk of the town’. Que ele punha e dispunha. Que davam jantares todas as semanas. Que retirou de casa dela algumas peças esplêndidas para as substituir por outras, a seu gosto. Que a ridicularizava, levemente, ó muito levemente, em frente de terceiros. Por fim, que tinha feito um ultimato: – ‘Não gosto desta gata. A gata ou eu, Mafalda, tenha paciência’.


Caiu da janela do mirante, ele. A casa de férias da Mafalda, no Estoril, tinha um mirante altíssimo, sobre as rochas. Parece que estavam a fazer um jantar ‘for two’, romântico, quando a Kitty saltou para o lado de fora da janela. Assustado e prestimoso, ele debruçou-se demasiado. Puf e tal. Déjà vu.


Entre as habilidades da Mafalda, que sempre se suspeitou que tinha algumas, contava-se que, na longínqua e louca adolescência, fazia ‘coisas extraordinárias com a língua’. A dela, não falo da língua natal, tão maltratada hoje. Estamos a imaginar, mas. Tirar o anel de um dedo, atirá-lo para o lado. Um brinquedo, a gatinha, a janela sobre o precipício. O brasão do senhorito, o que disparate é este, Mafalda, essa maldita gata que venha cá.


Pois. Eu não contava isto se não houvesse testemunhas, pessoas nas quais confio, que me disseram ter a impressão, quando foram ver a Mafalda – que está cada vez mais sozinha e parece cada vez mais feliz – , que disseram, repito, que a gata, afastada das visitas, parecia brincar com qualquer coisa. Um brinquedinho de gato. Dourado. Pequeno. Assim como um anel.

Durmam bem.

terça-feira, 14 de março de 2017

Folhetim Detectivesco: 2

ONDE SE FALA DE QUARTEIRÕES E DE SEMIÓTICA.

A primeira casa onde vivi fazia parte de um quarteirão.

Um quarteirão não quer dizer “temos que andar mais quilómetros para chegar aquela loja/praça/museu/exposição, estamos em sangue, por favor e se nos enfiássemos num táxi e fossemos comer, de qualquer modo estou farta de t-shirts giras, edifícios fantásticos, Caravaggios e o Van Gogh e as múmias que se lixem”.

Descrevi isto assim para dar ‘l’air du temps’.


O quarteirão onde vivi era limitado por quatro ruas, quatro filas de prédios que formavam um quadrado impecável no exterior. Tinha uma entrada, com uma chave ciosamente guardada por não sei quem. O interior eram as traseiras das casa, os locais onde se fazia o trabalho infindável, cozinhar, lavar roupa, engomar roupa, dar lanche às crianças.


E os quintais. Pelos quintais conheciam-se as pessoas. No nosso havia flores, algumas que não tornei a ver. Amores-perfeitos, gladíolos açucenas, todos fúnebres. E uma trepadeira de rosas. E árvores, que tinham o nosso nome. As minhas eram ameixoeiras e nunca comi melhores ameixas do que essas, amarelas e douradas ao sol. As outras, não quero lembrá-las agora.


Uma maria-rapaz que vive grande parte da vida dentro de um quarteirão, observa muita coisa. Talvez tenha começado aí. Eu lia empoleirada em árvores, caminhava sobre muros, passava de uns espaços para os outros, conhecia as rotinas mais do que as pessoas.


Era uma gata, a tomar todos os espaços como meus. Também aprendi a ser dissimulada. Porque, uma vez, disse ao jantar: – “ O pai da Teresinha vai casar com a Fiona, não vai?”


(‘casar’ foi amoroso, eu era uma criança. A mãe da Teresinha, a tia Eugénia, era uma doente crónica. Tudo lhe dava achaques e tudo, mas tudo, impedia que a Teresinha e o pai da Teresinha fizessem fosse o que fosse. Que ela piorava. Então, contrataram uma miss, a Fiona, uma inglesa leitosa, vagamente parecida com a Faithfull. E com vinte e quatro anos. E com umas mini-saias do caraças. E eu comecei a ver, nas corda da roupa, além das respeitáveis ‘cintas’ da mãe da Teresinha e o, pronto, ‘underware’ da Teresinha, muito parecido com o meu as cuequinhas de renda coloridas, da Fiona. Q.E.D.)


Levei uma descompostura. Duas semanas depois, o pai da Teresinha fez um bruto desfalque no banco onde sempre trabalhara pacatamente. Sumiu-se e a Fiona com ele. Deixou a mulher e a filha numa situação terrível. Mas, bem. Numa situação terrível já estava a mulher, coitadinha.

1ª Lição – Não abusem da paciência dos outros.

2ª Lição – O que é óbvio vê-se. Obviamente.

3ª Lição – Lá por seres amiga da Teresinha não quer dizer que o pai dela não seja um ladrão e um adúltero que se marimba na filha.


Estava formada. Mas tive que crescer, aos doze anos não se pode ser detective. Não se pode ser nada, de resto.


E, depois aconteceram-me coisas. Vou contar. Hoje não.