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Mata-Borrão

Embarcadiço


Limpo e polido, seco e brilhante, o prato ainda rodopiava entre a mão e o pano da loiça. Maria Angélica aproveitava esta tarefa para pensar na sua vida, já longa. A dimensão do comboio que a havia de trazer para Lisboa, carregada de cestos e de ai Jesus. Ele a prometer-lhe passeios e uma boa casa, fazes o quê aqui, onde só há pedras e estevas, ovelhas e broa? E agora, faço o quê, aqui? Enfiada numa marquise do tamanho da casa que é do tamanho da marquise, os filhos espalhados por esses caminhos, ele outra vez e sempre no barco, nos contentores, nos cachos de bananas e na cana de açúcar que lhe trazia da Madeira. Agora não lhe traz nada, nem a ele traz. Isso, por acaso ainda bem, que já não podia com estás a ver, quem era aquele, quero o jantar às oito, vou ali ao café, tu é que tens a culpa, havia de ser hoje, malvada a hora, com tantas mulheres e logo tu. Nunca soube muito bem o que era ser embarcadiço. Sapateiro, barbeiro, cavador, tendeiro, padre, cesteiro, isso sim. Lembra…

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