quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Tuiuiú

Já vivi mais de um quarto dos meus cem anos de vida. De novo um verão que começa frio, de novo duas noites sem dormir a cada sete. E eu arrumo a casa, eu limpo a casa, visto minhas meias de seda e levo o lixo para fora: copos e copos de vidro com luz dentro deles, almofadas, âmbar, tapetes aquecidos no Sol. 
Os dias importantes fogem de mim e me deixam aqui com estes, gelatina quente. Sento sozinha no chão da sala, com os pés na sacada, fumando as bitucas de cigarro que as visitas deixaram. Eu nem ao menos sou fumante, mas gosto de poder parecer uma pessoa bem triste. Visto roupas enormes que prometi guardar, e passo calor dentro delas. Sempre tantas roupas por dobrar – uma vez li que na Inglaterra do século 18, uma mulher gastava 42 dias inteiros por ano lavando, secando e remendando roupas, mil e oito horas no total. As estrelas, os céus, a terra, os elementos, plantas, repolhos, animais, insetos, bezerros, louça por lavar. Sempre tanto trabalho.
Meu aniversário foi há menos de um mês, gostaria de ter ganhado um animal de grande porte. Um que me impedisse de sair de casa, que me fizesse perder tudo o que pode haver de importante em qualquer dia que seja, tudo o que acontece no mundo. Ficaríamos aqui dentro, eu e meu animal gigante, compartilhando calor.
***
Levanto e vou ao mercado buscar coisas para o almoço, já tarde. Quando saio do caixa, vejo que começou a chover. Eu também já tive um guarda-chuva um dia, mas isso faz tempo, e além disso, tanto faz. Saio andando com as sacolas numa mão, e com a outra abro o pacote de bolachas de água e sal. Vou por um caminho mais longo porque é menos desolador tomar chuva em ruazinhas do que numa avenida. Comendo bolacha de água e sal, bolacha de chuva. Escuto o vendedor de laranjas no megafone repetindo “laranja é natural”.

Ontem fui com minha amiga Milena e seu porquinho da índia no veterinário. No caminho, ela me contou de quando era criança e ia cuidar da horta com os irmãos. Que ela virava um pé de alface. Ficava parada, de cócoras, esperando, e alguém tinha que vir regá-la. Pouco tempo depois, todos aceitaram que ela era um cachorro, e comia no chão, deitada sobre as quatro patas, o rosto dentro do prato. No final de semana ouvi seu irmão dizendo – mas não era comigo que ele falava – que o homem ainda não entendeu seu lugar na natureza. Estava de costas para ele e fiquei satisfeita, continuei regando.


Sofia Nestrovski nasceu em São Paulo, em 1991. Cresceu no meio do milharal dos Estados Unidos, voltou para São Paulo mais tarde. Faz mestrado sobre o poeta William Wordsworth na Universidade de São Paulo, dá cursos sobre Shakespeare, assina uma seção semanal sobre palavras no jornal Nexo, escreve resenhas para a revista Quatro cinco um. Também luta Kung Fu, mas não muito.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Aborrecimento, quase poesia





XIV: A Tirania do Acontecimento

           Tirania do Acontecimento

            Excetuo nascer. Isto foi um incidente que sobreveio a meus pais, não a mim. A mim, se me aconteceram três coisas nesta vida, foi muito.
            A primeira, penso, foi o postal das costas da Esfinge.
            The Back of the Sphinx, lê-se a um canto. E também a data, que já não me lembro. Anos 1930, talvez.
            Quando caiu em minhas mãos, pensei: “Isto nunca me ocorreu”.
Nunca me ocorrera que a Esfinge pudesse ter costas, pudesse ter uma traseira. Nunca me ocorrera que a Esfinge fosse, de fato, uma coisa com lados, com dimensão. Não me ocorrera pensar na Esfinge como algo posto no mundo por mãos de homem.
            Mãos, também eu as tenho.
Eram inseparáveis. Enigma e Esfinge. Tanto que se fundiam para mim numa coisa só, não exatamente material.
Penso que o mistério ganhava. Que havia ali um comércio escuso de representações e que o mistério ganhava.
Mas agora há essa imagem. Um documento. Ela traz consigo uma separação de qualquer espécie. A imagem se coloca como uma cunha entre estas duas coisas, forçando-me a considerá-las insuladamente.
Lembrei de uma anedota contada por um amigo. Sua avó, quando soube que uma filha sua pretendia batizar de André o bebê que esperava, esbravejou: “Neto meu não vai se chamar André, é nome de palhaço”.
Perguntaram-lhe então por que achava isso.
Ela contou que, certa vez, em menina, fora a um circo e vira apresentar-se um palhaço de nome André. E portanto, André era nome de palhaço.
Agora, entre a Esfinge e o que tenho por mistério, há um postal amarelado de anos.
Desde que o tenho, não sou mais a mesma pessoa.
Telefono para amigos depois do jantar. Aflijo-os.
“Adventício, é você?”
“Sei que uma mudança foi posta em marcha, sei que estou me transformando, mas não sei em quê”.

A segunda coisa foi aquele homem parado à saída do metrô. Jamais saberemos – aleluia – se tinha os papéis em dia. Impunha-se ao sobe-e-desce somente por força de imobilidade. Cabal. Perfeita.
Pormenorizá-lo seria tão ingrato quanto descrever a traseira da Esfinge. É possível que trajasse paletó, gravata. Panos cinzentos sem desmentir o dia. É possível que tivesse um relógio. É possível que tivesse rosto longo e equino, queixo afilado, e pelo queixo, uma aspereza de fim de expediente.
Sim, tudo isto é possível. O horário de verão, a pressa dos circunstantes, a procura de abrigo. Bastava-me, no entanto, saber que estava lá, que existia, que se contava entre as coisas do mundo, como de resto ainda me basta.
Talvez não me acreditem. Seus gestos não eram mesmo credíveis. Seu gesto, posto melhor, que era um só: a boca aberta, fazendo como se fosse gritar.
Não era convulsivo. O grito não movia o pescoço, parecia estar preso mais abaixo, no tórax, ali onde a voz não é nem mesmo uma sombra. Embora estivesse a metros de distância, sou capaz de jurar que não emitia sequer um balbucio. Ele tinha, portanto, dois fascínios: a imobilidade e o grito que não vinha.
Fixando-o, senti tremer o maxilar.
Passavam por ele, pelo maxilar, figuras igualmente incaracterísticas. Algumas o metrô acolhia, outras devolvia para a tarde. Uma destas tardes abafadas de verão com todos os bairros contraídos.
Nestes momentos, é nos corpos que as tempestades vão se armar. Sei disso pois à época andava assistindo a muitos documentários sobre relâmpagos e demais fenômenos atmosféricos. Ajudavam-me a pegar no sono.  
Conhecemos, por alguns instantes, o peso das nuvens que breve descarregarão sobre a cidade. Conhecemos as torres escuras que se arrastam sobre as torres. Conhecemos as torres intimamente, porque é nos corpos que elas se arrastam.
Pensei de mim para mim que aquele homem desabava, que já não podia com as aberturas, que as gotas de chuva deviam atingir sua testa como murros. Foi nesta altura que abri o guarda-chuva.  

A terceira coisa foi também homem, mas era outro. Veio me pedir um cigarro no meio de uma praça.
Quanto a isto, meu código de conduta sempre foi o mesmo – dar tudo que me pedem, sem desmentir o dia. Palavra que teria mesmo ido com ele, se me tivesse pedido para acompanhá-lo. Teria ido com ele sem questionamentos de qualquer espécie. Porque era um homem bastante alto. Tão alto que, ao falar, vergava-se um pouco sobre mim.
Estas coisas, se não nos acautelamos, confundem-se facilmente com o amor.
Pensei então, enquanto o rapaz me fazia sombra, que não tinha clareza alguma no tocante às mais simples questões; que não sabia – honestamente – se era do meu interesse, por exemplo, morrer ou seguir vivendo. Vivia, morria, é claro, no passo de todos. Mas os desejos, as vontades, estes escapavam sempre. Já não sabia como era possível estar no mundo sem clareza. Já não sabia como pudera suportá-lo esses anos todos.
Pensei, portanto, em coisas claras. Inscrições em monumentos, cinejornais, dicionários, placas de trânsito, enciclopédias, cardápios, circulares afixadas às paredes de elevadores, guias de toda espécie. Lembrei de um manual de anatomia que vira certa vez num sebo, que não comprara então porque me percebia – como, como? – entendido de corpos.
Pensei em coisas que significavam claramente. Pensei que deveria voltar o quanto antes àquele sebo e comprar o tal manual de anatomia – Anatomia para Artistas, chamava-se –, livro antigo, volumoso, respeitável sob todos os aspectos. Pensei que era tempo de me reiniciar nos corpos, que não os conhecia absolutamente, que os conhecia apenas por pontadas, por pruridos, que isto era um equívoco terrível.
Pensei como se olhasse para cima, olhei. O sujeito levava a chama do isqueiro ao cigarro que eu acabara de lhe passar. Havia na praça uma igreja e sob o olho direito do sujeito uma lágrima tatuada, coisa que me comoveu um bocado. Foi reparar que estava tocado que o homem se voltou e foi ter com mais alguns homens acocorados diante da igreja, todos de gorro.
Naquele momento, não me separei de mim mesmo. Talvez não me acreditem, afinal, teria sido este o curso natural dos acontecimentos. Não segui nem a ele nem a mim mesmo. Permaneci por alguns instantes lá postado, no centro da praça.
Não era exatamente o centro da praça. Mas sempre nos julgamos no centro de qualquer coisa.
Calculei quanto tempo tinha até o fechamento das livrarias. Não era muito e a amiga por quem esperava na praça despontava já por detrás de um gigantesco monumento à República. Contei o ocorrido. Ela me informou que este tipo de tatuagem geralmente pretende indicar ex-presidiários.
“Ah”, aflautei-lhe então.
Eu pensava numa esfinge com a boca aberta. Eu pensava numa esfinge coçando os quartos. 







Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados.


            

terça-feira, 14 de novembro de 2017




Deve ter razão o Kenneth Goldsmith, poeta experimental e idealizador do fabuloso site UbuWeb, quando diz que o verdadeiro flâneur do século 21 não é mais, como no século 19 de Baudelaire, o sujeito que fica vadiando por ruas, avenidas, becos, portos, bares de sua cidade, disponível para uma rápida surpresa passante, mas sim o que vaga horas e horas pelas infovias da web. Na Colômbia passa horas flanando pelas noites brancas de São Petersburgo. No Rio de Janeiro, via Google maps, satélites, street view, observa gentes, lugares, filmes, canções, sites, lives, para um romance que se passa na Austrália, onde jamais pôs os pés.
Mas aquele dia, no centro do Rio de Janeiro, andando, com certo tempo livre, pela Rua México, na esquina com Santa Luzia, me deparo com aqueles olhos-que-vão-além da poeta Luiza Leite brotando enormes sobre uma tigela de cuscuz que tinha acabado de comprar num ambulante. Passamos semanas tentando combinar um encontro e nunca dava certo. Mas os deuses queriam que desse e ali estávamos, esbarrados, por coincidência. Subimos para a Cosmos, sala onde se elaboram hoje algumas das coisas mais criativas em termos de arte ativa. Lá vi o céu do Halley, vi o sal virando mar em cima de uma mesa, a linha reconhecível de Tatiana Podblubny tomando a parede de desenhos. Conversa foi, conversa veio. Ganhei da Luiza o belíssimo livro artesanal Como construir um modelo vivo, dela e da Tatiana, cuja versão eletrônica pode ser vista aqui:



Mas aí já era hora de correr pro MAM, Museu de Arte Moderna, pois precisava encontrar a artista plástica Carla Guagliardi que, como finalista do Prêmio Pipa deste ano, tem um trabalho ali exposto: “Fuga”. Uma linha escarlate que escapa de uma parede de concreto e atravessa tubos dourados fixados em blocos de cimento compondo uma espacialidade nova, uma hipótese espacial, o que me lembrou que quando dava aulas na Biblioteca Parque de Manguinhos, comunidade bastante carente da zona norte do Rio, uma das minhas grandes e gratas surpresas foi ouvir da aluna Eva (13 anos) que sua leitura preferida era a mitologia oriental, em especial a história segundo a qual uma linha escarlate presa ao nosso dedo mínimo nos une a uma outra pessoa em qualquer parte do mundo que, sem ser a outra metade da sua laranja, é o outro extremo da nossa linha escarlate. Um deslumbre essa fuga móvel e imóvel da Carla.




Saímos dali e, ainda na bela passarela que leva do MAM ao centrão, Carla foi me apontando detalhes da cidade que eu nunca tinha percebido. É impressionante passear ao lado de um artista plástico, que vai sempre vendo formas e diferenças onde a gente vê sempre o homogêneo. Uma das raras vezes em que lamentei não ter celular foi durante esse curto passeio, em que ela me mostrava como em meio a tantos bancos de pedra perfeitamente dispostos havia um em que uma pedra meio tombava sobre a outra, ou melhor, subia sobre a outra, e como era justamente ali que duas mulheres escolheram para sentar, ou uma faixa de trânsito que, na avenida Beira Mar, perde o rumo e sobe a calçada.

Além de ficar me mostrando todas essas formas mínimas ou máximas, mas sempre inesperadas, da cidade, Carla seguia me contando como acabou se tornando amiga de Stela do Patrocínio, na Colônia Juliano Moreira, e como acabou realizando as gravações que geraram o “livro de poemas” de Stela, que a tornou conhecida por um maior número de pessoas.
Um barato ouvir Carla falando que a voz de Stela trazia, invisível, porém mais nítida do que qualquer outra pessoa que conheceu, a própria e especial pontuação. “Dava para ouvir suas vírgulas, seus pontos finais ou de exclamação”.
Um poema de Stela:

É dito: pelo chão você não pode ficar
Porque lugar de cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo
Pelas paredes você também não pode
Pelas camas você também não vai poder ficar
Pelo espaço vazio você também não vai poder ficar
Porque lugar de cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo



[Na Wikipedia, a Colônia Juliano Moreira é assim descrita: “A Colônia Juliano Moreira é uma instituição criada em Jacarepaguá,em Taquara e Curicica,[1] na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil, na primeira metade do século XX, destinada a abrigar aqueles classificados como anormais ou indesejáveis, tais quais doentes psiquiátricosalcoólatras e desviantes das mais diversas espécies. Hoje, a área da colônia também serve como residência para milhares de pessoas, além de abrigar o Museu Bispo do Rosário.”]

*


E ocorre que passando pela Biblioteca Nacional esbarramos numa bela concentração de artistas plásticos e interessados em artes plásticas (para mim a alegria maior, contudo, foi encontrar o amigo Deocleciano, aluno também lá da Biblioteca Parque de Manguinhos, que me disse que não perde uma palestra dos ciclos organizados pela Biblioteca Nacional, e a artista plástica ultra-jovem Maria de Laet, uma das que mais me faz pensar para além do pensável, se isso faz algum sentido). Todos estavam ali para assistir o debate sobre artes plásticas com Paulo Sérgio Duarte e Luisa Duarte. Vamos nessa.
Da fala de Paulo Sérgio Duarte, que não vou conseguir reproduzir aqui, recordo que me impressionou a passagem em que disse que via nos artistas de sua geração (Antonio Dias, Waltércio Caldas, Lygia Pape, Sérgio Camargo etc) uma enorme exigência reflexiva somada a uma impressionante contundência plástica, mas que na maior parte dos artistas atuais apesar de também enxergar essa contundência plástica, não via muita exigência reflexiva, que parecia ser substituída agora pelo “tema”, pelo “assunto”.

Mas com o perdão do grande Paulo, o que eu gostei mesmo de ouvir foi a Luisa dizendo que apesar de ter sido formada desde a infância nesse ambiente (Luisa é filha do Paulo), descobrir, aos 15 anos, Nan Goldin e Louise Bourgeois foi uma pequena revolução, um pequeno caminho empoeirado e à margem que foi dar em um outro universo. Só lembrei daquele texto de Bataille que dizia que todos vivemos tirando, todos os dias, poeira das coisas, das mesas, dos livros, e que no dia seguinte ela volta a aparecer ali, o que significa que um dia ela vai vencer.

Tive que sair pouco antes do fim do debate e saí com a cabeça tão sacudida por tudo o que vi e vivi nessas poucas horas de centro da Cidade que pensei que deveria ao menos anotar num papelzinho qualquer essas coisas, que acabaram, hoje, virando esta crônica para um blog que só um flâneur de internet vai ler. Que a escreva justo no dia em que, flanando também ao acaso, no centro da cidade, encontrei na Livraria Berinjela o poeta, irmão, amigo Ricardo Aleixo, que está no Rio de Janeiro para lançar seu potente ANTIBOI, faz muito sentido, pois esse encontro gerou outra caminhada pelo centro da cidade, junto com o grande em todos os sentidos Thadeus Santos, caminhada tão cheia de ideias e afetos que só mesmo reservando outra crônica para ela, porque essa aqui já foi.



Carlito Azevedo
(Poeta brasileiro, publicado pela Cotovia)

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Mata-Borrão



Nasceu-me uma oliveira

E chegando, anunciou que se fizesse em mim a sua vontade. Nasceu-me então uma oliveira.
Por muito ter vivido, a memória tornou-se fragmentada, contudo, intensa e persistente.
Guardei as vagens negras de alfarroba, envernizadas e muito tristes, lágrimas de um jurássico não datado, roídas nas bocas das mulas, dos burros, dos cavalos, nas mós dos homens.
Guardei figos, como um pastor que não sai do seu lugar. Via o sol que os secava. Pingos de mel mirrados, servidos em bandeja no Olimpo. Deles se fazia queijo ou flores de pétalas recortadas e corolas resistentes, nem sempre amargas. Amêndoas essas transformadas em vapor no inferno do alambique, gota a gota. O cobre, ainda com restos de medronho, a cuspir águas ardentes.
Guardei a cal, lambida pelas osgas, que me vestia e nascia em fornos, na serra, onde havia javalis, raposas e coelhos.
Guardei a paciência das mulheres em cestos de empreita.
Guardei o sabor do xerém, comido a partir dos bordos do prato, salvando a língua do calor. O travo salgado do toucinho na manta aveludada da farinha de milho.
Guardei o medo dos lobisomens, amantes sazonais dos caprichos da lua. Aquele vizinho, afinal tão igual aos outros quando era dia.
Arrancaram-me as telhas, uma a uma. Ofereceram-nas, uma a uma também, aos turistas que, encantados, lhes pareceram muito típicas.


Maria João Forte é socióloga

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Aborrecimento, quase poesia


XIII: Um Mito de Origem


            Durante alguns meses, a impressão de isolamento foi quase total.
A vizinha do lado teve um sucesso qualquer na vida e mudou-se. Levou consigo um silêncio estudioso, uma realidade, dedirrósea cabeleira, os trajes de ginástica.
O outro apartamento que limitava com o dela não via inquilino desde a minha chegada. Apenas névoa, névoa e paredes.
O meu, de fundos, sempre por descrever, situado a uma das extremidades de um corredor insaciável de esquivas e cotovelos, como que perdia arredores com o passar do tempo, vogando perigosamente para o centro.
Um centro.
Os demais moradores do andar – por que não dizer do edifício inteiro? – resumiam-se a uma banal fantasmagoria de passos, portas batidas, ondeantes pancadas no encanamento. Decerto, havia entre nós mais eco que som. Talvez eu deva grafá-lo em maiúscula. Era perfeitamente possível ouvir, às tardes de quarta e sexta, a varredura, o arrastar de baldes, o zumbido da enceradeira a deslizar sobre o piso da portaria.
Depois, conformaram-se os demais dias da semana.
Com os elevadores.
Os elevadores corriam silenciosos, sepulcros bem azeitados. Não sei se entre os condôminos havia alguém que tratasse das próprias refeições. Muito me surpreenderia. A região é bem servida de restaurantes populares.  
Em seguida, vieram as ervas, posteriormente tipificadas em boas e más. De suas sementes, que o vento espalhava pelos pátios e terraços como uma pequena e exangue daminha de honra, cresceram bufês vegetarianos, as promoções das pizzarias...
Houve mesmo uma ocasião em que ficamos sem luz.
Digamos que tenha sido a explosão de um transformador aqui pelas redondezas o que nos lançou definitivamente na longa noite do Não-Ser. Tivemos então de usar as escadas, onde Eco estava sempre em vias de se corporificar em algo: um vizinho, um loureiro, uma lata de lixo.
Descia-se pianinho, sob o fio de uma súbita precipitação.  
Já o edifício cujos fundos ocupavam quase toda a vista da minha sacada, este nunca dera mesmo mostras de ser habitado.
Sumida a vizinha, criou-se a vizinhança.
Os Oceanos remoinhados, os Animais...
Estes pareciam calmos, mas ofereciam um problema de escala.
Talvez não estivessem calmos. É concebível que isto tenha se dado antes do surgimento das expressões.
Durante um breve entretempo, então, fomos o Primeiro Homem. O Primeiro Homem a se pronunciar, pelo menos. O Primeiro Homem a não ter o que dizer.
Nós sabemos.
Porque sei que vou morrer – voltaremos a isto mais adiante –, porque sei que tenho em minhas mãos um signo barricado em cujo interior minha morte é incessantemente elaborada e reelaborada, começo a construir um personagem.
Um nexo, uma “consciência”.
Um centro.
Um centro que siga.


            


Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Tuiuiú

  
        Um leão, galos e galinhas, animais velozes, tartarugas, um elefante, marsupiais, um aquário de muitas coisas, animais de orelhas compridas, um pássaro que canta no fundo da floresta, outros pássaros, pianistas, fósseis e um cisne. Minha casa é cheia de animais de plástico, miniaturas, e uma gata. Uma vez sonhei que brotavam salamandras das torneiras. Poucos meses depois, sonhei que tinha um minotauro de estimação.
No meu sonho, o minotauro precisava ser mantido à base de carinho, ou fugiria. O meu maior medo era que, na fuga, destruísse minha casa e depois o mundo inteiro. Emily Dickinson escreveu um poema em que diz que um sapo pode morrer de luz. Em outro, sobre quando ela mesma morreu, conta que uma mosca ficou no meio do caminho entre ela e a luz, e o universo deixou de existir. Bom, eu ainda me lembro da sensação de ser pequena o bastante para colocar meus dedos sobre a mesa da sala e ficar com os olhos na altura dela. O que eu via quando olhava para cima era luz sobre luz, a luz da janela refletindo no verniz da mesa e voltando em direção à fonte, indo de encontro consigo mesma. De resto, pessoas e móveis eram gigantes, opacos e não me interessavam.
Ultimamente não tenho bebido água em casa porque meu filtro de barro virou um cemitério de aranhas. É a segunda vez que isto acontece. Na primeira, fui encher meu copo e vi que uma aranha quase transparente de tão minúscula caiu dentro dele. Joguei fora a água e fui enchê-lo de novo; mais uma aranha caiu. Então encontrei uma fileira delas marchando em volta do filtro, indo em direção ao ponto onde as duas metades dele se juntam. As aranhas entravam no filtro por frestas nessa junção, e quando levantei a parte de cima, descobri que havia uma colônia inteira delas dentro d’água. Mortas e incontáveis, eu as bebia há não sei quanto tempo. Limpei o filtro e vedei a fresta. Mas elas voltaram. Vocês que me visitam também já beberam das minhas aranhas.

Em 1855, Walt Whitman disse que poderia morrer com o sol nascendo, se não fosse ele também capaz de irradiar um sol para fora de si. Minha gata caça baratas e moscas, eu mantenho minhas aranhas mortas, minhas plantas têm desmaiado de insolação. Em 1856, Emily Dickinson disse sentir pelas criaturas da natureza um “êxtase de cordialidade”. Eu agora venho todos os dias na casa da Deborah beber água. Hoje nós duas ficamos na sala, olhando para sua gata que olhava para fora da janela. A gata encarava a luz, piscando muito rápido para não desviar o olhar, e a Deborah disse “Pare de se comunicar com o sol, Matilda”. Mas ela nunca para.




Sofia Nestrovski nasceu em São Paulo, em 1991. Cresceu no meio do milharal dos Estados Unidos, voltou para São Paulo mais tarde. Faz mestrado sobre o poeta William Wordsworth na Universidade de São Paulo, dá cursos sobre Shakespeare, assina uma seção semanal sobre palavras no jornal Nexo, escreve resenhas para a revista Quatro cinco um. Também luta Kung Fu, mas não muito.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Mata-Borrão


Nossa Senhora

Andava eu, basalto fora, a boca a saber a lapas. A vida a deixar-se pensar, um abuso quando ela começa nisto. Pensa-me, pensa-me. Submissa ou prepotente. Abana o rabo, rosna, pede festas. Um cão, a vida. E ali, como não lhe dar atenção, no berço de cedro, dossel de cinzas, lençol de enxofre bordado a hortências, pétala a pétala, já cansada, a névoa bordadeira.

Baleias a respirar como quem cospe e eu a fazer-me desentendida. Penduro a vida no ramo de um dragoeiro. Fica aí, espera pelas naus. Vais ver que gostas do cheiro a canela. Qual. Conjuga o verbo biografar em todos os tempos e se há tempo para isso, é ali. O sol cru a aquecer a memória, a enxugar o sal aos olhos. E deste céu primordial cai uma chuva grossa, mitológica, sem vento, sem frio, sem aviso. Páro, não há lugar de abrigo. A lava é uma artista do mais contemporâneo. Quis lá saber das simetrias, brincou a escorregar. Lá em baixo, muito antes do mar que dali não se vê nem se escuta, vi a Nossa Senhora. Devia estar num pingo, como eu. Os cabelos esvoaçantes porque corria desalmadamente, deixando o manto azul esvoaçar também. A Senhora, neste preparo, nada tinha de sereníssima. Fui ao seu encontro. A vida entretanto, ficou expectante. Onde é que esta vai. Deixou de pensar em mim.
Profundo, é verdade, mas breve, o mistério.

Quando, por certo cansada, começa a subir o vale, começa também a ver-se o andor, os ombros de quem o transporta, depois a banda filarmónica e, por fim, os fiéis. A chuva parou, outra vez sem aviso. Não quis levar a vida com ela. Era uma procissão de uma freguesia. Do lugar onde eu estava, pareceu-me uma aparição.  


Maria João Forte é socióloga

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Aborrecimento, quase poesia



XII: Três Passeios



            Abrindo os braços em discreta atitude de crucificado, consigo abarcar o início e o fim da piscina pública.
            Um gesto que uma criança faria logo antes de pegar no sono, talvez. Uma tentativa de tornar material o percurso de uma noite até a manhã seguinte. De retirar da sombra, da ininteligibilidade, dado caminho.
            Cabeça inclinada para a direita, o que penso enxergar é uma construção rematada.
            Este movimento da cabeça leva um intervalo de dois anos, aproximadamente.
            Dia desses, folheando o Kwaidan, dei com a seguinte fortaleza: “a space of garden”.
            Alguém atravessava, na narrativa, “a space of garden”.
            Formula-se então, agora, um espaço de braços, um trecho de braços, um intervalo de braços.
            “Um intervalo de braços”, anoto às pressas.
            Circulo.
            Estendendo-os assim, como se tivesse as tríplices mãos pregadas a ripas de madeira, consigo representar certa trajetória rumo a um estado de completude.
            Um pensamento que sempre me ocorria quando me via constrangido a consultar os Classificados de qualquer jornal atrás de emprego ou moradia era o da eternidade do círculo.
            Não era um pensamento sumoso. Não impressionava pelo que pudesse conter de desdobrável, de cultivável.
            Impressionava por sua violência.
            Era, antes de mais, pensamento de secura extrema. Uma aproximação de grande silêncio. Um remate. Um remate antes mesmo de começar.
            Despregando as mãos das ripas de madeira e fechando os braços em discreta circunferência, crio um espaço perfeito onde a piscina pública pode existir
            Crio um espaço propiciatório.
            Há uma inauguração na minha mão direita.
            A mão que escreve.
            A mão que circula os Classificados.

***

            “Não saberei mais caminhar nessa cidade”, ele pensa, pesando algumas notícias das quais não conseguira se desviar a tempo.
            Sabe-se que o passado, o pretérito, sugere intimidade. “Rumou então para o bairro onde nasceu e passou grande parte da infância, receando não o reconhecer”. Pode tornar-se uma estratégia: tornar tudo antigo e íntimo, trabalhar por esta viscosidade.
            “Receio reconhecê-lo, receio não reconhecê-lo. Eis o ponto a que chegaram as coisas”.
            O medo, apresentado de certa maneira, pode também tornar-se tático, um ardil, uma forma de enredamento. Certo modo de dizer-se com medo. Uma suavidade, uma decência. Um medo pálido, registrado apenas nos olhos que alternam entre cerrada ausência e a vaporosa tensão do retorno. Um medo profundamente matizado pelo próprio pudor do medo.
            Vejam.
            Uma pessoa tem medo e usa este medo como uma espécie de túnica semitransparente, uns volteios, não mais. Um medo eterizado. Um medo aeriforme. Um medo sem consistência, palpabilidade, um medo que desliza sem fixar-se por sobre a realidade dos objetos. Um medo que, por não reconhecer ameaça direta, não alcança profundamente a necessidade de reagir. Um medo que já não parece dizer nada sobre a perpetuação de si, um medo que parece ter se alçado a patamar diverso, um medo que já não é o medo da dor, da interrupção, da morte.
            Vejam.
Medo sem predicado. Medo que não se resolve nem nas imagens típicas do medo nem nas reações típicas ao medo. Um medo composto, medo medido que não desemboca. Não grita. Não faz demandas. Se já fez algum dia, não importa em nada. 
            Um medo que torna espectral aquele que teme. Medo que nos torna vaporosos e agradáveis. Um medo que é como a nudez. Mas a nudez de um corpo desejado. Um tipo desejado.

***

            “Não saberei mais caminhar nessa cidade”, pensou.
            E depois:
            “Verei a casa. Felizmente estará livre de nascer, crescer, abandonar. Nenhum vínculo comprovável. Nenhum visgo. Será apenas mais um espaço interdito. Um entre tantos.
Caminharei em círculos em torno da construção. Darei por irrecuperáveis as vistas de suas janelas, a disposição dos móveis, a antiga sufocação.
Verei a casa. Felizmente estará livre de retornos.
Verei a casa enquanto ela muda.
Enquanto se lava, se desveste, enquanto se descontamina.
Não se decompõe.
O que quer que seja que a habite agora deve semelhar em tudo uma espera.
Sua nudez, protegida por paredes cujas nervuras posso ainda sentir nas mãos. Sua nudez sem escândalo, achatada em composição, nada mais. A nudez de um morto. Volumes, massas, espaços vazios. Mesmo o chão. Mesmo o chão não será mais aquele pelo qual nos rastejamos por tantos e tantos anos.  
Não aventuro dizer que a casa tinha uma alma.
Não aventuraria dizer alma em referência ao que quer que fosse.

Mas um corpo, uma carne, isto ela tinha”.








Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Mata-Borrão



Desta que munto le quer

Rei de Portugal e dos Algarves, D’Aquém e D´Além -mar em África; a bem da Nação, cordialmente; os meus melhores cumprimentos; desta que munto le quer.
Porque sou velha, guardo um tempo em que saber ler e escrever era uma habilidade de grupo restrito. As cartas eram escritas a pedido.
Sentadas e quedas iam ditando, sem hesitações. O texto decorado, as ideias pensadas. Como no teatro, mas sem ponto. Como num bordado, a ponto de cruz.
Minha mãe, estimo que esteja bem na companhia de quem mais desejar, que eu cá ando como Deus quer. Saberá que vou aí à festa. Adeus, adeus até à volta do correio. Desta que munto le quer.
Para os namorados escrevia-as eu, sozinha. Quando sozinha tinha acento grave no o.
A introdução, meu amor, trazia o sangue à cara. Quando for à festa, havemos de dançar. Isso não! Riscava-se. Deixam-se as saudades para o final, sem beijos. Arrisco o abraço, amachuca-se o avental debruado a grega e a nervos.
No final, eram lidas pausadamente. Mistério denso, esse das ideias serem ouvidas numa folha pautada que se tirava do bloco, com jeito e determinação. O rrrrrrrrrr do papel a desprender-se fazia parte da coisa. Dessa coisa séria, as cartas a pedido.
Dobrava-se então a folha. Cirúrgica, a unha do polegar no vinco. E se de vincos percebiam elas. Nas calças, nos lençóis, nas cortinas, na massa folhada.
O cerimonial do cuspo deixava a língua áspera, a saber a envelope. Endereços sem rua, sem número. Apenas o nome da aldeia, do concelho e da província. Seriam levantadas na venda onde havia telefone, bacalhau, massa, sabão, ponteiros para as lousas da escola, copinhos grossos e opacos com vinho e bolachas de baunilha.


Maria João Forte é socióloga


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Nem ele sabia


Desde que a li, para aí há uma década, que recorro muitas vezes àquela aula que Eduardo De Filippo deu na Universidade de Roma La Sapienza lá pelos anos finais do tal século passado. Dizia o genial napolitano (autor e actor) que o escritor será o pai da personagem, cria-a muitas vezes à noite, num acto de amor, a personagem demora um certo tempo (nove meses também?) a nascer, lá nasce, e segue a sua vida, e o pai, erotómano como ele próprio era, já está a fazer outra e tantas vezes a outra – que não a contratual - mulher.
Pois, o autor deixa a personagem, esquece-a, ela cresce, vai à sua vida e amadurece, arranja empregos e ganha pão. Mas o actor não, entre ensaios, estreias, viagens de comboio, sozinho no automóvel tentando aprender o texto de cor (sim, os actores gastam gasolina e poluem ambientes só para aprender alexandrinos decadentes), reposições, gravações, remontagens, o actor vive com ela, amancebado, um ano, dois, às vezes dez – é pensar no Sean Connery/ Bond, coitado.
O actor conhece a personagem, sabe-lhe as falas, descobre-lhe os silêncios, empresta-lhe o peito, as pernas, o sexo, o corpo até, despudoradamente nu, encarna aquele que o Autor já arrumou na gaveta alta dos “feitos” assinalado com um X a preto ou vermelho. Para o Actor, não:  a personagem está viva, é ele.
E  conhece-lhe os defeitos, claro, a cobardia, a mesquinhez da Candidinha, a ambição de Lady Macbeth, a avareza de Harpagão, a vaidade de Alceste, a tibieza de Hamlet, conhece isso, são as suas próprias ambição, avareza, cobardia, tibieza, vaidade, são as dele mesmo, actor. E mais, o Actor conhece-lhe os defeitos técnicos que o Autor escondeu para debaixo do tapete: quem faz a Maggie da “Gata em Telhado de Zinco Quente” sabe que Tennessee Williams se esqueceu dela durante quase todo o acto II, quem faz a Maxine  de “A Noite da Iguana” sabe que vai ter de sair de cena a correr gritando “A conta! Têm de me pagar  a conta!” , quando, a bem dizer, ninguém lhe devia nada, e só porque dá jeito ao Autor - e a todos nós - ficar sem ela na cena seguinte.
Pois, diz De Filippo, o Actor é o Confessor da Personagem, conhece-lhe os vícios, os pecados, os defeitos, e absolve-a, encarnando-a, milagre de quem “toma posse” e não é ministro.
É como o tradutor, disse eu no outro dia ao falar da admirável tradução que o Manuel Resende fez de 145 poemas do grego Konstantin Cavafys e que a Flop vai editar por estes dias. Só não traduziu 9, diz ele, “porque não sou capaz”, admirável, raríssima confissão de homem honrado.
E é que traduzir isto é obra de uma vida, foram 25 anos a ir e vir, traduzir e rever, refazer e reler,  encontrar uma solução e desistir, ler de novo e esquecer, deixar de lado e esperar melhores dias: são vinte e cinco anos de labor e indolência, de resistência e alegria, tristeza e intensa alegria.
Sim, ninguém sabe a  explosão de alegria que nos abala quando encontramos a tradução luminosa para uma frase que amamos. Por exemplo (e contei-o à viúva que me deu um beijo) quando, ao dirigir “O Quarto” de Harold Pinter, eu andava abespinhado  com o facto de a Lia Gama (maravilhosa actriz) ter de dizer repetidas vezes “Ó sô Kidd!”, e como dei pulos de mozarteano júbilo ao descobrir que podia dizer “Ó sô Junior!” e assim indicar o duplo sentido daquele nome de família.
Nem imaginam como é angelical a alegria do tradutor ao fazer-se entendido pelo Autor, é como se este o amasse (e é só o que queremos, aqui sentados, notes e noites adentro).
Traduzir (como interpretar) é escrever “transfomando-se o tradutor na coisa amada”, quase às cegas meter-se na música que toca, dançar-lhe a valsa, ao autor.
É ver como ele escreveria nesta nossa língua, é experimentar, é ensaiar.
“Se calhar é porque tenho formação científica”, dizia-me a Glicínia Quartin, “que gosto tanto de representar, é como experimentar, um bocadinho mais disto, umas gotas daquilo... e a vida a crescer...”
Pois é. Confessores, os tradutores e os actores, benditos sejam.
E, com o Manuel Resende, percebemos que Cavafys, o grego de Alexandria morto e remorto, passou agora a escrever em português. Definitivamente. Nem ele sabia... 
Nem Karl Valentin também sabia que tinha a minha cara (e a do Luis), embora o nariz fosse o dele.

Jorge Silva Melo
 
 
 
Jorge Silva Melo nasceu em Lisboa em 1948, estudou na Faculdade de Letras de Lisboa e depois na London Film School. Crítico de cinema e teatro, encenador e actor, fundador, com Luis Miguel Cintra, do Teatro da Cornucópia, estagiário na Schaubühne - com Peter Stein - e no Piccolo Teatro/ Scala de Milão - com George Strehler -, argumentista, professor, tradutor, ensaísta, dramaturgo, realizador de cinema. Dirige, desde 1996, os Artistas Unidos.