terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O burro de ouro, de Apuleio

«1. Nestes prados de tenra erva, Psique, recostada sobre um leito de suave relva aspergida pelo orvalho, acabou por repousar docemente, uma vez acalmada a enorme perturbação de espírito. E já vivificada por um sono reparador, levanta-se com o ânimo tranquilo. 2. Avista um bosque repleto de numerosas árvores de alto porte, avista ainda uma fonte de águas cristalinas e transparentes. Mesmo ao meio do bosque, perto do lugar de onde brotava a fonte, havia um palácio real, edificado não por mãos humanas, mas antes por artes divinas. 3. Era bem evidente, logo desde a entrada, que se estava perante a morada esplendorosa e agradável de algum deus. Na verdade, o tecto elevado e cuidadosamente trabalhado em madeira de tuia e em marfim, era sustentado por colunas de ouro; as paredes estavam completamente recobertas de prata cinzelada e brindavam o olhar dos visitantes com imagens de feras e de outros animais selvagens do mesmo tipo. 4. Fora pela certa um homem admirável, ou mesmo um semideus ou até seguramente um deus, o obreiro que, com a subtileza de uma arte magnífica, havia dado a forma de feras a tanta prata. 5. Aliás, até os pavimentos, feitos em mosaicos de minúsculas pedras preciosas talhadas à medida, desenhavam nitidamente pinturas de cores variadas. É sem dúvida muitas e muitas vezes feliz quem tem o privilégio de pisar assim gemas e jóias preciosas! 6. Também os restantes aposentos da mansão, tanto no comprimento como na largura, eram de uma preciosidade incalculável e todos os muros, feitos de blocos de ouro maciços, resplandeciam com um fulgor natural, a ponto de a casa poder ter luz própria, se o sol a não quisesse dar, tal era o brilho dos quartos, das galerias e dos próprios banhos. 7. As restantes riquezas reflectiam, de igual forma, o esplendor da mansão, de maneira que até se julgaria, com acerto, que o grande Júpiter havia mandado edificar este palácio celestial, para conviver com os humanos.»

O burro de ouro, de Apuleio
(trad. Delfim Leão)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Odisseia, de Homero

«Quando surgiu a que cedo desponta, a Aurora de róseos dedos,
levantou-se da sua cama o amado filho de Ulisses;
vestindo a roupa, pendurou do ombro uma espada afiada,
e nos pés resplandecentes calçou as belas sandálias.
Ao sair do quarto, assemelhava-se a um deus.
Logo ordenou aos arautos de voz penetrante
que chamassem para a assembleia os Aqueus de longos cabelos.
Aqueles chamaram; e reuniram-se estes com grande rapidez.
Quando estavam já reunidos, todos em conjunto,
dirigiu-se Telémaco à assembleia, segurando na mão
a brônzea lança — mas não ia só: dois galgos o acompanhavam.
E admirável era a graciosidade que sobre ele derramara Atena:
à sua passagem todos o olharam com espanto.
Sentou-se no assento de seu pai; os anciãos cederam-lhe o lugar.»

Odisseia, de Homero
(trad. Frederico Lourenço)


terça-feira, 29 de novembro de 2016

Satyricon, de Petrónio


«Cheguei a uma pinacoteca impressionante, repleta de todo o tipo de quadros. De facto, contemplei obras de Zêuxis não vencidas ainda pela corrosão do tempo e examinei, sem conseguir conter um certo calafrio, os esboços de Protógenes, que disputam em realismo com a própria natureza. Cheguei mesmo a prostrar-me em adoração perante a obra de Apeles, conhecida como a que está “assente numa só perna”; era tal a subtileza de contornos das imagens na aproximação ao modelo que julgarias estar perante uma figuração das próprias almas. Aqui, uma águia arrebatava para as alturas do céu o pastor do Ida; ali o cândido Hilas repelia uma Náiade descarada; maldizia Apolo as suas mãos culpadas e rendia homenagem à lira lassa com uma flor acabada de nascer. Rodeado pelos rostos dos amantes representados nos quadros, exclamei, como se me achasse sozinho:
— Então o amor até os próprios deuses atinge! Na sua morada celestial, Júpiter não encontrou quem lhe servisse, mas quando se decidiu a pecar na terra, a ninguém foi ofender. A ninfa que raptou Hilas teria dominado a paixão, se soubesse que Hércules viria a reclamar os seus direitos. Apolo transformou numa flor a sombra do seu amado, e todas as fábulas contemplam abraços sem rival.»


Satyricon, de Petrónio
(versão portuguesa de Delfim F. Leão)

Náiade ou Hilas com uma ninfa (1893), John William Waterhouse

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Heróides (Cartas de amor), de Ovídio


Fílis a Demofoonte
«Que me levem as ondas e em tuas praias me lancem
e diante de teus olhos eu surja, sem sepultura;
para seres mais duro do que ferro e diamante e do que tu próprio,
dirás: “não era assim, ó Fílis, que devias seguir-me”.
Muitas vezes é de venenos que sinto sede, muitas vezes, perecer
de morte sangrenta, trespassada por uma espada, é o que me apraz;
o próprio pescoço, porque assim se ofereceu ao enlace de pérfidos
braços, estreitá-lo numa corda é o que me apetece;
estou decidida a compensar com morte no tempo certo o tenro pudor;
pouca tardança há-de haver na escolha da morte.
Hás-de ficar gravado no meu túmulo como causa odiosa;
este ou outro verso semelhante te darão a conhecer:
“A Fílis, Demofoonte a levou à morte; o hóspede à sua amante;
da morte, forneceu-lhe ele a causa, ela a mão.”

Heróides, de Ovídio (trad. Carlos Ascenso André)

John William Waterhouse, Fílis e Demofoonte (1907)

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Três homens num barco, de Jerome k. jerome

«Fomos buscar os mapas e discutimos os planos. Combinámos partir no sábado seguinte de Kingston. O Harris e eu íamos para lá de manhã e apanhávamos o barco para Chertsey, e o George — que não podia sair da City até à tarde (o George vai dormir para o Banco todos os dias das dez às quatro, excepto aos sábados, dia em que o acordam e o põem na rua às duas) — encontrava-se lá connosco.
Levantava-se a questão de saber se havíamos de “acampar ao ar livre” ou de dormir em albergues. O George e eu éramos a favor de dormir ao ar livre. Dissemos que seria aventureiro e livre, que teria um ar muito bucólico.
Lentamente, a memória dourada do sol morto esbate-se dos corações das tristes e frias nuvens. Silenciosos, como crianças chorosas, os pássaros pararam de cantar e só o grito lamentoso da galinhola e o crocitar rouco do codornizão perturbam o silêncio reverente que rodeia o manto de água onde o dia moribundo exala o último suspiro.
Dos bosques sombrios em ambas as margens, o exército fantasmático da Noite, as sombras cinzentas, avançam sem ruído perseguindo a retaguarda da luz que ainda perdura, e passam com pés silenciosos e invisíveis sobre as ervas ondulantes do rio e sobre os juncos que suspiram; e a Noite, no seu trono sombrio, estende as asas negras sobre o mundo que escurece e, no seu palácio fantasma, iluminado pelas pálidas estrelas, reina em silêncio.»



TRÊS HOMENS NUM BARCO (já para não falar do cão), de Jerome K. Jerome
Trad. Luísa Feijó

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Judaísmo para todos, de Bernardo Sorj

PROMOÇÕES JUDAICA


«A memória é nossa condição de humanidade, mas também a principal fonte de sofrimento. Somos nossas lembranças. Memorizar é recortar o passado, esquecer quase tudo para poder lembrar de certos eventos e dar-lhes um significado determinado. Se a memória nos enraíza, dando um sentido de continuidade a nossas vidas como indivíduos e como membros de uma comunidade, ela também nos oprime. Retira-nos liberdade, nos obseda, transforma situações de aprendizado em experiências traumáticas e ressentimentos, aprisionando-nos no passado. Mas, se não existe presente sem passado, o passado sempre é vivido e interpretado à luz das realidades do presente. Se a memória não é aleatória nem totalmente maleável, ela constantemente é refeita e palco de conflitos (dentro de cada indivíduo e entre grupos sociais). A preservação da memória é sempre um exercício de poder, da capacidade de impor uma interpretação do sentido do passado.
O Holocausto é um caso exemplar de usos e abusos da construção de uma memória coletiva.»


Judaísmo para todos, de Bernardo Sorj
Colecção Judaica

O dever de memória, Primo Levi

PROMOÇÕES JUDAICA

«O medo da morte, tanto quanto me lembro, não era qualitativamente diferente daquele que sentimos na vida normal. Hoje, apesar de sermos livres, sabemos todos que vamos morrer, e lá também não ignorávamos que a morte acabava por chegar: não daí a dez, vinte ou trinta anos, mas a poucas semanas, um mês. Estranhamente, isso não mudava grande coisa. O pensamento da morte era recalcado, como na vida corrente. A morte não pertencia ao registo das palavras ou dos medos quotidianos; sofríamos tão cruelmente da falta de tudo, de comida, de calor, era tão vital evitar o cansaço e os espancamentos que a morte, que não surgia como um perigo imediato, era escamoteada.»


O dever de memória, Primo Levi
(trad. Esther Mucznik)
Colecção Judaica

Judaísmo Dispersão e Unidade, de Moacyr Scliar

PROMOÇÕES JUDAICA

«O Deus judaico é um deus severo. Não ri, embora não lhe falte um certo espírito lúdico; propõe a seu povo enigmas, desafios. Seus desígnios são misteriosos, insondáveis e surpreendentes, mesmo quando misericordiosos. Depois de esperar muito tempo por um filho, a idosa Sara engravida; não quer acreditar que Deus lhe deu tal prêmio; “Deus me fez sorrir”, ela diz. Por causa disto, dá ao menino o nome de Isaac — derivado de uma palavra hebraica que significa rir: “Todo aquele que ouvir este nome rirá comigo” (Gênesis, 21.6). No caso do sacrifício de Isaac, este elemento de desafio adquire um caráter dramático, terrível; tão terrível que Woody Allen escreveu uma versão mais amena: numa voz grave, solene, Deus ordena a Abraão que leve seu filho ao local de sacrifício, e ele obedece; numa voz grave, solene, manda que suspenda o sacrifício — e ele obedece. Conclusão: as pessoas cumprem qualquer ordem, desde que dada numa voz grave, solene.»

Judaísmo Dispersão e Unidade, de Moacyr Scliar
Colecção Judaica

Os cristãos-novos em Portugal no séc. XX, de Samuel Schwarz

PROMOÇÕES JUDAICA
«Na judiaria peninsular luziram a sabedoria e o génio — os seus rabinos, personalidades de cabeça enciclopédica, primam de par nas letras sagradas e profanas, na poesia, na medicina e na filosofia. Deixaram nomes dos mais brilhantes na história da ciência universal. Os seus astrónomos e matemáticos guiaram as empresas náuticas e geográficas — a grande glória dos nossos descobrimentos encabeça-se primariamente no seu génio. A medicina era por assim dizer toda sua: açambarcam a quase totalidade dos nossos grandes médicos do passado. Finos e instruídos, aristocratizam-se como tribo selecta entre os Bené-Israel: o ilustre lsaac Pinto, ao quebrar lanças certeiras contra os remoques de Voltaire, apregoa a distinção inata dos de raiz espanhola e portuguesa entre os judeus de toda a parte. A origem peninsular acusa-se na própria disciplina eclesiástica, obedecendo as suas sinagogas a um rito particular; o dos sephardim, o da nação portuguesa, oposto ao dos askenazim, os judeus de procedência alemã, polaca e eslava. Envaidece-os a descendência da tribo de Judá e do seu estabelecimento na Ibéria em tempo do cativeiro de Babilónia.»
Os cristãos-novos em Portugal no séc. XX, de Samuel Schwarz
Colecção Judaica

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Entre árabes e judeus, de Helena Salem

PROMOÇÕES JUDAICA
«Sempre ouvi dizer que os judeus-alemães estavam tão integrados na Alemanha que muitos nem acreditaram, a princípio, na realidade da perseguição nazista. Depois que superei minhas crises religiosas e tornei-me de esquerda, atéia, houve um tempo também em que me senti igual a todo mundo — ou melhor, a todo mundo que me interessava. Tão igual, talvez, como aqueles judeus-alemães. Até que, no Oriente Médio, e a partir daí, fui “redescobrindo” a diferença. Não, nem a sinagoga, o rabino, ou o projeto sionista passaram a me empolgar. Em verdade, talvez tenha redescoberto a diferença de cada ser humano. Sou judia, mulher, branca, gosto de vinho, literatura, cinema, Chagall etc. etc. etc. Meu vizinho é macrobiótico, não bebe; meu amigo do jornal é casado com outro homem, se amam. Não, mais uma vez não tento neutralizar o fato de ser judia. É que ser judeu, mulher, hetero ou homossexual, preto ou japonês, perdem a solenidade se incorporados como parte da nossa especificidade. Afinal, em sã consciência, quem pode determinar que um é melhor que o outro? Qual seria a referência — se não o poder — de quem pretende julgar? Se vou para a Islândia, eu morro de frio, ou infelicidade, mas o esquimó vive muito bem na terra gelada e certamente até curte. Quem é melhor, lá? E aqui — ontem, hoje, amanhã? Questão de olhar.»


Entre árabes e judeus, de Helena Salem
Colecção Judaica

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Sobre a questão judaica, de Karl Marx

PROMOÇÕES JUDAICA

«A emancipação política do judeu, do cristão, da pessoa religiosa em geral corresponde à emancipação do Estado em relação ao judaísmo, ao cristianismo, à religião em geral. Enquanto Estado, na sua forma e no modo inerente à sua natureza, o Estado emancipa-se da religião na medida em que, enquanto Estado, não professa qualquer religião, na medida em que se reconhece antes como Estado. A emancipação política em relação à religião não corresponde à emancipação já cumprida, à emancipação isenta de contradições, pelo simples facto de a emancipação política não corresponder à emancipação humana já cumprida e isenta de contradições.

Os limites da emancipação política evidenciam-se desde logo pelo mero facto de o Estado conseguir libertar-se de uma barreira sem que o homem, por seu lado, se liberte verdadeiramente dela. O Estado pode, por exemplo, ser um Estado livre, sem que o homem seja um homem livre.»

Sobre a questão judaica, de Karl Marx
(trad. Gilda Encarnação)Colecção Judaica

A decorrer na nossa livraria e no site:


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Ovídio, as mulheres e o amor

★★★★★

Não é só uma obra poética de excelência: "Heróides" é um dos melhores dicionários de mitologia clássica que se pode ter. Jorge Almeida recupera-o, através de uma nova edição, e dá-lhe cinco estrelas.

Jorge Almeida

Na introdução à sua tradução de Heróides do poeta romano Ovídio, Carlos Ascenso André refere-se a esta colectânea de poemas como um “estranho livro”. O tradutor parece relacionar esta ‘estranheza’ com a originalidade inegável do texto de Ovídio, qualidade imediatameA Arte de Amar e em Amores, mas sim no facto de, muito provavelmente, pela primeira vez na história da literatura ocidental um poeta ter escrito uma colectânea em que cada poema (pelo menos 18 dos 21) se apresenta como uma carta escrita por uma mulher ao seu amado, apesar de muitas destas vozes parecerem saber que as cartas que escrevem nunca chegarão a ser lidas.
nte reconhecível a qualquer leitor com um conhecimento mediano da literatura da Antiguidade clássica. Esta originalidade não está, certamente, na escolha do tema principal dos poemas, o amor, até porque este já fora tratado quer pela tradição literária anterior a Ovídio quer pelo próprio poeta em
Neste conjunto de cartas são abordados os mitos mais famosos da antiguidade, desde a guerra de Tróia, responsável por tantas tragédias amorosas, à apetência indecorosa dos deuses por relações extraconjugais, pois as autoras dessas cartas são também elas figuras mitológicas (exceptuando Safo), ainda que sofram por amor da mesma forma que os leitores romanos contemporâneos de Ovídio ou que os leitores contemporâneos desta recensão crítica à tradução agora publicada pela Cotovia. Os queixumes de uma rainha de Cartago abandonada por um herói troiano a quem deu abrigo são acima de tudo os queixumes de uma mulher abandonada por um homem aparentemente ingrato e o falso pudor de uma filha de Júpiter no momento em que é cortejada por um príncipe bárbaro obedece a preceitos ainda hoje em voga.
Nestas epístolas poéticas abundam o ciúme, a humilhação própria e alheia, o desejo físico, a infidelidade, o delírio, as estratégias de sedução, os insultos, as súplicas, a comiseração, o perdão, etc., e tudo isto pela pena de um poeta que continua a ser uma referência no que toca à poesia amorosa, graças sobretudo à sua riqueza imagética (que atingirá o seu fulgor máximo nas Metamorfoses, mas que já se encontra aqui presente, nomeadamente na carta em que Hipermnestra, de punhal na mão junto ao pescoço do seu marido, avança e hesita, num momento, aliás, profundamente hamletiano) e à sua capacidade para abordar sentimentos humanos sempre de uma forma singular; isto é, singular não apenas porque o seu talento poético é ímpar, mas sobretudo pelo cuidado que tem em mostrar que a experiência amorosa é simultaneamente universal e pessoal, na medida em que apresenta tópicos comuns a todas as relações amorosas sem deixar de sublinhar as idiossincrasias de cada caso.
O melhor elogio que se pode fazer à tão citada ‘voz feminina’ presente no conjunto de cartas que constitui Heróides é que esta não é única, mas sim tão plural quanto o número de ‘autoras’. A mulher ovidiana que ama e sofre por amor não é uma, mas mil, porque mil são as formas de amar e sofrer por amor: daí que a súplica sincera de Hermíone ao seu prometido Orestes em nada seja comparável à súplica quase formal de Medeia a Jasão no momento em que esta sente que só a vingança sangrenta pode fazer justiça ao seu sofrimento de mulher abandonada. Ovídio é, assim, mais um poeta ‘feminista’ por dar a cada protagonista das suas cartas uma voz diferente da voz das suas outras companheiras na desgraça amorosa do que por simplesmente dar o protagonismo a figuras mitológicas do sexo feminino, ou seja, por tratar cada mulher como única na sua singularidade.
Em cada um destes amores lendários, Ovídio revela não só um conhecimento preciso das suas particularidades narrativas, mas também uma habilidade especial para os moldar aos interesses da sua poesia. Se a matéria-prima é já de qualidade elevada, o trabalho de Ovídio torna-a ainda melhor. Um dos casos em que isso se nota é na escolha perspicaz que o autor faz do momento das narrativas míticas que quer desenvolver nos seus poemas. Disto mesmo é exemplo maior a carta que Fedra escreve ao seu enteado Hipólito, por quem se apaixonou. Esta carta não escolhe a dimensão trágica deste amor que inspirou tantas obras de arte, não escolhe o suicídio de Fedra ou a vingança de Teseu sobre o seu filho, mas sim o apogeu do sentimento que domina Fedra e que a faz confessar:
Apetece-me partir para o meio dos bosques e cercar os veados com redes
E assanhar-lhes pelos cimos dos montes os cães velozes
Ou brandir com a força do braço o trémulo dardo
Ou depositar o corpo na relva do chão.” 41-44
Este desejo de se comportar irracionalmente à maneira das Bacantes, diz Fedra, é uma maneira de obedecer a “tudo quanto o Amor ordena” (11), lembrando a Hipólito que o Amor “governa e tem poder sobre os deuses que tudo mandam” (12) e que, uma vez que se trata de obedecer ao maior dos poderes, tudo é legítimo, mesmo “a irmã desposar o irmão” (134). Esta legitimidade expande-se para lá da questão moral à volta do incesto, pois é central para a estratégia de persuasão de Fedra nesta carta, que não tem outro fim senão o de seduzir o seu enteado. Para Fedra vale tudo, desde convencer Hipólito de que o facto de trocarem carícias em público só significará aos olhos de terceiros uma felicidade imaculada entre madrasta e enteado até à escolha da narrativa sobre a morte da mãe de Hipólito que lhe dá mais jeito para que este sinta animosidade em relação ao pai e, consequentemente, veja com olhos mais favoráveis a hipótese de a possuir fisicamente.
A consciência de que a única lei que importa realmente cumprir é a lei do Amor é comum a todas as narrativas de Heróides (apesar de surgir de modo mais explícito em certas cartas como a de Fedra) e aparece como alicerce da poesia amorosa de Ovídio, daí que, por exemplo, nos Amores, seja frequente encontrar apelos à infidelidade conjugal, pois o casamento para Ovídio é apenas um contracto legal em que raramente o amor é um sentimento tido em conta no momento em que é estabelecido. Um dos mais famosos casos de infidelidade conjugal, aquele que juntou Páris e Helena e que acabou por levar à guerra de Tróia, é um dos melhores momentos poéticos de Heróides.
Nas duas cartas trocadas entre o futuro casal, Ovídio põe em prática muitos dos preceitos teóricos que apresentara na Arte de Amar, fazendo com que Páris e Helena pareçam os seus leitores mais atentos, uma vez que ambos surgem como mestres na arte de seduzir e na arte de se deixar seduzir. Aproveitando a ausência de Menelau, marido de Helena, para seduzir a mulher mais bela do mundo, Páris envia a Helena uma carta que é uma ofensiva impiedosa para conseguir os seus intentos. Nela diz que são os deuses que lhe mandam conquistar Helena e que ambos têm de obedecer aos deuses, lembra-lhe que é príncipe de Tróia e que vem de boas famílias, promete-lhe que será venerada em Tróia, afirma ser mais belo que o marido pouco cuidadoso de Helena, pergunta-lhe se prefere dormir sozinha numa cama fria a dormir numa cama aquecida por ambos e chega mesmo a ferir o orgulho de Helena dizendo que a fidelidade dela é apenas o resultado de uma moralidade semelhante à de uma campónia ingénua.
Para além destes ataques directos, Ovídio enche a carta de Páris de sugestões muito subtis que continuam esta estratégia de sedução. Nos momentos em que Páris recorda o famoso julgamento em que teve de decidir qual das deusas era a mais bela (concurso vencido por Vénus, devido ao facto de ter prometido a Páris que lhe ofereceria a mulher mais bela do mundo, ou seja, Helena), o autor da carta revela que, perante a nudez das deusas, não receou “observar com o olhar cada uma delas” (74), acrescentando que “se tu fosses presente também nessa disputa, / duvidosa haveria de ser a palma que Vénus levou” (139-140). Estas alusões ao concurso de beleza das deusas servem não só para lisonjear Helena, mas também para lhe provocar ciúmes, mostrando-lhe que foram as deusas que o escolheram para avaliar a beleza de cada uma, truque esse que Páris usa mais explicitamente quando lhe recorda que: “não foram apenas as filhas de reis e de generais que me cobiçaram, / mas até de ninfas me tornei o desvelo e o amor” (95-96), o que, aliás, é comprovado pela carta de revolta que lhe escreve Enone, uma ninfa por ele abandonada e que odeia a sua rival Helena ao ponto de lhe chamar “rameira” (125) e de a acusar de ser uma mulher que se “põe a jeito de ser raptada” (132). A subtileza retórica de Páris surge noutros passos como, por exemplo, neste:
Ficaram à vista, lembro-me bem, os teus seios debaixo da túnica frouxa,
e, na sua nudez, franquearam a porta dos meus olhos,
seios mais resplandecentes que a neve pura ou o leite
ou do que Júpiter, quando possuiu a tua mãe.” (249-252).
Páris e Helena, Jacques-Louis David, 1788
Aparentemente, Páris está apenas a elogiar os seios de Helena, mas, na verdade, está a fazer mais do que isso. Enquanto a comparação entre a brancura dos seios de Helena e a brancura da neve pura e do leite assenta apenas nas meras semelhanças de cor ou numa relação metonímica, o mesmo não se pode dizer da comparação feita com a brancura do cisne em que Júpiter se transformou para possuir sexualmente Leda. Para além de confrontar Helena com uma imagem sexual, Páris lembra-lhe que ela própria é fruto de um acto de infidelidade conjugal, como se lhe quisesse mostrar quão natural e belo é aquilo que obedece apenas à lei do desejo. Se Júpiter tinha a capacidade de disfarçar-se para seduzir, Ovídio tem a capacidade para dar ao discurso de Páris ambiguidades suficientes para o tornar num sedutor implacável. O príncipe troiano seria infalível não fosse o caso de Ovídio dar igual destreza nas artes do amor àquela a quem Páris pretende seduzir (veja-se aqui um exemplo de igualdade entre os sexos raro na poesia da época).
Numa carta que é uma resposta a todas as investidas retóricas de Páris, Helena começa por mostrar-se conhecedora das técnicas usadas por aquele que a pretende conquistar, dizendo-lhe: “pois que a minha mãe te pareceu ser de feição, / para julgares que, com o seu exemplo, eu podia ser vergada” (45-46). Mas nem sempre Helena responde a Páris revelando-lhe que conhece as suas artimanhas, pois, na maioria das vezes, responde-lhe com os mesmos truques: provoca-lhe ciúmes quer lembrando-lhe os beijos que Teseu lhe deu outrora, quer afirmando que actualmente “não é contra minha vontade que Menelau me possui” (112) e ainda trazendo-lhe à memória que não são poucos aqueles que a cobiçam. Ovídio faz com que, no jogo do amor, Helena em nada fique atrás de Páris: à fanfarronice do pretendente, ela não tem receio de mostrar que a sua família é inferior à dela, de lhe fazer notar que Tróia é uma cidade bárbara e de que ele não é o guerreiro temível que diz ser.
Apesar disto, Helena admite que lhe apraz a ideia de ceder à tentação e de se envolver fisicamente com Páris durante a ausência de Menelau, mas que talvez seja demasiado cedo, afirmando, sem rodeios, que acha que prolongar o jogo de sedução mútuo talvez venha a ser melhor para o prazer. Ovídio nunca faz de Helena uma mulher passiva, mesmo quando isso parece acontecer. A dado momento da carta, Helena incentiva Páris a deixar-se de palavras e a passar aos actos, ou seja, a tomá-la à força, dizendo: “Era pela força que a minha candura simplória tinha de ser apeada. / É útil, por vezes, a agressão a quem a padece” (188-189). Este conselho não revela de modo algum a submissão feminina aos desejos masculinos, mas sim a liberdade que Ovídio dá a Helena para que ela possa expressar sem qualquer tipo de condicionamento moral os seus desejos mais íntimos, algo a que Ovídio dá expressão ainda mais ampliada na carta da poeta Safo para Fáon, provavelmente a mais erótica deste conjunto de poemas.
Nesta carta, mais uma em que a voz da protagonista se queixa da ausência do seu amado (tópico, aliás, recorrente na poesia de Safo), encontram-se, para além de versos que abordam criticamente a arte de escrever elegias (“o canto de quem chora”), algumas das maiores virtudes poéticas de Ovídio, como a sua capacidade descritiva e sugestiva. O melhor exemplo será a descrição que Safo faz do sonho que teve e daquilo que a esse sonho se seguiu:
Conheço os beijos que tu costumavas encomendar à minha língua
e tão bem sabias receber e tão bem sabias dar;
faço-te carícias; e palavras bem semelhantes à verdade
são as que digo, e está atenta a minha voz aos meus sentidos.
Mais que isto tenho vergonha de contar; mas tudo acontece
e dá-me prazer e não me é consentido quedar-me na secura.” (129-134)
A ‘secura’ a que Safo aqui se refere é rica do ponto de vista semântico. Excitada pelas visões que teve durante o sonho, Safo vai relatando esse mesmo sonho até ao momento em que confessa ter vergonha de continuar o relato. Esta interrupção parece dever-se ao facto de as palavras de Safo corresponderem ‘à verdade’, isto é, serem a expressão de um desejo sexual íntimo, o que, de acordo com uma certa moralidade, podia ser passível de gerar um sentimento de vergonha. Contudo, Safo é uma mulher ovidiana que sabe que tem de obedecer à lei superior (a lei do Amor) mais do que a qualquer código moral, portanto, não lhe é consentido secar os frutos do Amor interrompendo o relato do prazer, daí que prossiga o poema revelando como, apesar de a luz do dia lhe ter interrompido os sonhos, ela prolongará o prazer através da masturbação sugerida pelo verso “grutas e bosques vou buscando, como se grutas e bosques me valessem” (137). Quer a nível sexual, quer a nível poético, a ‘secura’ está-lhe vedada e Safo tem de continuar a obedecer ao Amor.
Este conjunto de poemas de Ovídio mostra-nos, numa poesia única, mulheres, como Dido, que se comprazem em imaginar a culpa que o seu amado vai sentir quando souber da sua morte, mulheres, como Medeia, que se deleitam na vingança, mulheres como Briseida, que aceitam ser escravas da futura mulher do amado apenas para estarem próximas do objecto do seu amor, mulheres, como Hipsípile, que lançam maldições aos amores futuros daquele que as abandonou, mulheres, como Helena, que enquanto dominam o jogo do amor imploram para ser dominadas… O que Ovídio revela é que, no fundo, imensos são os modos de amar. Se tudo isto for insuficiente para convencer alguém da excelência de Heróides, resta apenas argumentar que este livro de Ovídio, e muito graças às muito úteis e nada fastidiosas notas feitas à tradução, é um dos melhores dicionários de mitologia clássica que se pode possuir, dado que cada carta nos conta muitas outras coisas para além dos amores ali narrados, desde as peripécias da guerra de Tróia (cujo resultado é irrelevante para muitas das autoras das cartas contanto os seus amados se salvem) até à narração das inúmeras tragédias presentes na história de cada uma das famílias amaldiçoadas e que foram uma das principais fontes de inspiração para a cultura Ocidental.

in Observador

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

A decorrer na nossa livraria e no site:


Uma Coisa Não é Outra Coisa, de José Maria Vieira Mendes



NOVA EDIÇÃO COTOVIA



«Não tenho vontade de reduzir a relação entre teatro e literatura às ideias que alimentam uma dualidade e uma tensão histórica ou uma separação gradual entre disciplinas, ou ainda uma progressiva transparência ou diluição dos limites do teatro e da literatura porque perco a oportunidade de reconhecer o espetáculo ou o texto. Mas também não tenho vontade de ignorar a presença dessas preocupações e relações ao longo de uma história feita de um conhecimento que procura certezas e mascara dúvidas em busca de entendimentos partilhados que abarquem o maior número de casos. Não quero ignorar o cético, ignorar Lear. O cético ajuda-nos a detetar quem afirma que o teatro é literatura ou que o teatro não é literatura e a perceber que estes diferentes entendimentos do mundo dependem das vontades dos sujeitos. Reformular o problema significa reabilitar a diferença entre as duas artes e libertá-las do predomínio de uma semântica de antinomias e oposições. Só assim é possível identificar esta diferença óbvia.»

Uma Coisa Não é Outra Coisa, de José Maria Vieira Mendes
(Ensaio)

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Uma Coisa, de José Maria Vieira Mendes

NOVA EDIÇÃO COTOVIA

«PAI: O campo. Cheirem-me lá este ar. Isto sim é ar puro. Aqui pode-se refletir. Tudo mais lento. Abre-me logo o apetite. O que é que se passa contigo?
MÃE: Comigo?
PAI: Estás a tremer. Essas mãos...
MÃE: Não sei. Acho que é a terra por baixo dos meus pés.
PAI: A terra? Qual terra? Não treme nada.
MÃE: Será que sou eu?
PAI: Estás-me a ver a tremer? Estás a ver mais alguém aqui a tremer?
FILHO (em cima de um cavalo, com capacete e armadura de D. Quixote): “Ditosa era e século ditoso aquele em que virão à luz as minhas famosas façanhas, dignas de entalhar em bronze, de esculpir em mármores e pintar em telas para lembrar o futuro. Ó tu, sábio encantador, quem quer que sejas, a quem há de tocar ser cronista desta história peregrina! Rogo-te que não te esqueças do meu bom Rocinante, meu companheiro eterno em todos os meus caminhos e estradas.” Onde é que o sol se põe? É para lá que vamos. Um campo oscilante com o vento a dar. Acordar de manhã e sentir a erva gelada por baixo das botas, ir buscar ovos à capoeira, alimentar a porca, pôr as cabras a pastar. É disso que preciso. Sai-me fogo pela boca.
PAI: Onde é que tu pensas que vais?
FILHO: Queimo quando falo, os meus dentes são labaredas. Aproximamo-nos do acontecimento, do trovão, e a pergunta que importa é: quem vai ficar para contar?
PAI: Contar o quê?
FILHO: As façanhas de Ulisses, as aventuras de D. Quixote, as minhas desgraças e desarticulação. Sou torto, não sei escrever e não estou disposto a aprender. Mas mereço a posteridade.
MÃE: Coitadinho, a adolescência é cruel.
FILHO: “É lógico que o ilógico contradiga a lógica.” Corneille, prefácio de Surena. E a seguir digo: “imagina que não há amanhã, que a vida é hoje e que hoje não existe”. E agora vou dormir.
MÃE: Meu querido filho. Estás tão perdido e confuso. Fausto. Fausto!
PAI: Não me chamo Fausto, chamo-me Polónio.
MÃE: Para onde foram os nossos filhos, Polónio?
PAI: Foram só ali aos arbustos.
MÃE: O que é que eles foram fazer aos arbustos?
PAI: Sei lá.
MÃE: Que futuro é o deles? O que vai ser deles?
PAI: Relaxa, já vêm.
MÃE: A culpa é minha. Passo a semana a trabalhar, deito-me e acordo à espera de me deitar e acordar. Nunca lhes dei a atenção que devia. Conversamos tão pouco, mal nos ouvimos. Sou sempre a última a ir buscá-los à escola. Quando não me esqueço... Sou uma péssima mãe. Sou uma mulher horrível. Não sei cozinhar. Uma mulher não é nada disto. Não sou uma mulher. Não sou feminina. Não sou nada. Não sirvo para nada. Não me tocam. Não sabem o meu nome. Já se esqueceram de mim!
PAI: Então, filha. O que é que tu tens?
MÃE: Entusiasmei-me, desculpa.
PAI: Respira fundo. Já olhaste à tua volta? Olha como é bonito, o campo. Como é tranquilo, sossegado e calmo…
MÃE: Aquilo ali é um pássaro?
PAI: É uma cegonha a passar lentamente.
MÃE: E aquilo?
PAI: São vacas a levar o seu tempo.
MÃE: E ali?
PAI: Cabras a pastar em paz.»

Uma Coisa, de José Maria Vieira Mendes
(Peças)

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Os Devaneios do Caminhante Solitário, de Jean-Jacques Rousseau


Monte Sainte-Victoire e o Viaduto do Vale do Arc River, Paul Cézanne, 1882
«A solidão campestre em que passei os melhores anos da minha juventude, a leitura dos bons livros a que me dediquei por inteiro, fortaleceram as minhas predisposições naturais para os sentimentos afectuosos, e tornaram-me devoto quase à maneira de Fénelon. A meditação em locais retirados, o estudo da natureza, a contemplação do universo, forçam um solitário a voltar-se incessantemente para o autor das coisas e a procurar com suave inquietação a finalidade de tudo o que vê e a causa de tudo o que sente. Quando o meu destino voltou a lançar-me na torrente do mundo, já aí não encontrei nada que pudesse, por um momento que fosse, atrair o meu coração.»

Os Devaneios do Caminhante Solitário, de Jean-Jacques Rousseau
(trad. Henrique de Barros)

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A Agonia do Cristianismo, de Miguel de Unamuno

«A vida é luta, e a solidariedade para a vida é luta e faz-se na luta. Não me cansarei de repetir que aquilo que mais nos une, a nós homens, uns aos outros, são as nossas discórdias. E o que mais une a cada um consigo próprio, aquilo que faz a unidade íntima da nossa vida, são as nossas discórdias íntimas, as contradições interiores das nossas discórdias. Uma pessoa só fica em paz consigo própria, como Dom Quixote, para morrer.
E se isto é a vida física ou corporal, a vida psíquica ou espiritual é, por sua vez, uma luta contra o eterno esquecimento. E contra a história. Porque a história, que é o pensamento de Deus na terra dos homens, carece de uma última finalidade humana, caminha para o esquecimento, para a inconsciência. E todo o esforço do homem consiste em dar finalidade humana à história, finalidade super-humana, como diria Nietzsche, o grande sonhador do absurdo: o cristianismo social.»


A Agonia do Cristianismo, de Miguel de Unamuno
(trad. Artur Guerra)

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O que é a filosofia?, de José Ortega e Gasset


«Recordo ter lido há anos isto num poeta contemporâneo e nosso compatriota, Juan Ramón Jiménez:
Meu jardim tem uma fonte,
e a fonte uma quimera,
e a quimera um amante
que agoniza de tristeza.
Daqui resulta que no mundo onde há jardins há também quimeras, e há-as capazes, nada menos, de deixar à morte um poeta que passa. Se não as há, como é que falamos delas e as distinguimos dos restantes seres e definimos a sua contextura e até as retratamos e esculpimos nas fontes que pulsam nos nossos jardins? E como a quimera é só representante de toda uma fauna semelhante, diríamos que há também centauros e tritões, grifos, sátiros, unicórnios, pégasos e ardentes minotauros. Mas rapidamente — talvez demasiado rapidamente — resolvemos a quimérica questão dizendo que se trata de uma grei fantasmagórica, que não há no Universo ou realmente, a não ser na nossa fantasia ou imaginariamente. Deste modo tiramos a quimera do jardim real onde pretendia existir junto dos cisnes e namoriscar com os poetas, e metemo-la de
ntro de uma mente, de uma alma, de uma psique.»

O que é a filosofia?, de José Ortega e Gasset
(trad. José Bento)

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Heróides (Cartas de amor), de Ovídio



FEDRA A HIPÓLITO

«A saudação que, se lha não enviares tu, vai faltar-lhe a ela,
é o que envia a mulher de Creta ao varão filho da Amazona.
Lê-a por inteiro, seja como for. Em que é que a leitura de uma carta pode ser danosa?
Pode bem haver nela alguma coisa que te seja, ainda, grato.
Com estas linhas, há segredos que são levados por terra e por mar;
observa o inimigo as linhas que do inimigo recebeu.
Três vezes tentei falar-te, três vezes me ficou colada, sem préstimo,
a língua, três vezes, à entrada da boca, se desvaneceu o som.
Até onde nos for consentido e formos capazes, devemos juntar
vergonha ao amor;
aquilo que tive vergonha de dizer, o amor me ordena que o escreva;
tudo quanto o Amor ordena, desprezá-lo não é seguro;
ele governa e tem poder sobre os deuses que tudo mandam.
Ele, no começo, ante a minha hesitação em escrever, disse-me:
“Escreve. Aquele homem de coração de ferro há-de estender-te as mãos, de vencido.”
Que ele me acompanhe, e, tal como inflama, com fogo insaciável, as minhas entranhas,
assim trespasse o teu coração do meu desejo.
Não é por perfídia que vou romper o meu pacto conjugal;
a minha fama, quem dera que o indagasses, está isenta de crime.
Chegou tanto mais forte o amor, quanto mais tardio; ardo por dentro;
ardo, e uma ferida cega atormenta-me o coração.»


Heróides (Cartas de amor), de Ovídio
*Tradução de Carlos Ascenso André

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O filho da mãe, de Bernardo Carvalho

«— Não posso ter filhos. Demorei mais de vinte anos para dizer isso sem ter que me explicar. Esperei as mulheres da nossa geração chegarem à idade de não poder mais ter filhos.
— Então, por quem você veio?
As duas estão sentadas num café da rua Rubinshtein. Não se viam fazia quase quarenta anos. Foram colegas de classe. Ainda estão sob o impacto do acaso e do reconhecimento, embora nem fossem tão próximas na escola.
No início da tarde, Iúlia Stepánova aproveitou a visita ao médico para rever o mercado da travessa Kuzniétchni — uma lembrança de infância, de quando a mãe a levava para comprar verduras e smetana — e depois fazer o que vinha planejando havia dias, desde que recebera o resultado dos exames. Não precisava voltar ao trabalho. Já não reconhecia quase nada naquela parte da cidade. Raramente passava por ali. Fazia vinte anos que não voltava ao consultório do dr. Juravliov. Agora, terá que decidir se quer recomeçar as sessões e passar por tudo de novo. O mundo em volta está mudado — ou em obras, recebendo os últimos retoques. “A cidade vai renascer”, diz um cartaz pendurado num edifício construído no style moderne, uma fantasmagoria típica do início do século XX, cenário recorrente dos seus pesadelos de criança. Há mais policiais nas ruas, por causa dos atentados, mas sobretudo depois do massacre no teatro da rua Dubróvskaia, em Moscou, em outubro passado.
Ao sair do mercado com um pacote de queijo e outro de frutas, ela seguiu por mais três quadras até a rua Raziézjaia e parou diante da entrada soturna de um prédio que permanecia deteriorado a despeito dos preparativos para a comemoração do tricentenário.
A voz do médico ainda ecoava nos seus ouvidos: “Há vinte anos, optamos por um procedimento radical para uma mulher da sua idade, que não tinha filhos, porque não queríamos correr riscos. E durante vinte anos nós lhe demos uma vida de qualidade. Agora, temos um novo problema aqui, está vendo? Não vou lhe dar esperanças. Cabe a você decidir o que vamos fazer”. Ao ouvir a sentença, Iúlia sentiu, pela primeira vez, que não podia morrer sem salvar uma vida.»


O filho da mãe, de Bernardo Carvalho

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Teatro Desagradável, de Nelson Rodrigues

«(Herculano chega em casa. Tem um certo cansaço feliz.)
HERCULANO (gritando): Geni! Geni!
(Aparece a criada negra.)
NAZARÉ: Veio mais cedo, dr. Herculano?
HERCULANO: Nazaré, cadê d. Geni?
NAZARÉ: Saiu.
HERCULANO: Mas eu avisei! Telefonei do aeroporto dizendo que já podia tirar o jantar.
NAZARÉ: Pois é.
HERCULANO: Foi aonde?
NAZARÉ: Não disse.
HERCULANO (entre espantado e divertido): Que piada!
NAZARÉ: Ah, mandou entregar isso ao senhor.
(Ao mesmo tempo, Nazaré apanha em cima do móvel um embrulho.)
HERCULANO (falando à criada): Estou com uma fome danada! É um caso sério! Mas o que é?
NAZARÉ: Isso aqui.
HERCULANO (recebendo o embrulho): E, nem ao menos, deixou recado?
NAZARÉ: Comigo não deixou.
(Herculano, intrigadíssimo, abre o embrulho.)
HERCULANO: Fita de gravação! (não entende) Boazinha!
NAZARÉ: D. Geni disse para o senhor não deixar de ouvir o disco.
HERCULANO: Que disco? Ah, a fita! (muda de tom) Nazaré, deixa de brincadeira. Ela está aí, não está aí?
NAZARÉ: Não estou brincando.
HERCULANO (num rompante): Geni! Geni!
NAZARÉ (rindo): Juro!
HERCULANO: Vai buscar o aparelho, vai. Isso é algum palpite. Apanha lá.
(Nazaré obedece.)
HERCULANO: Agora me lembro. Me dá isso aqui. Geni me disse, no telefone, que tinha uma surpresa para mim, não sei o quê. Surpresa.
(Ao mesmo tempo que fala, Herculano está colocando a fita. Sem pressa e divertido.)
HERCULANO (examinando o aparelho): Ela está aí, sim. Aposto a minha cabeça. Quero ser mico de circo. De que você está rindo?
NAZARÉ: Estou rindo, porque o senhor não está acreditando, dr. Herculano. Saiu!
(A fita está colocada. Herculano aperta pela primeira vez o botão. Sons esquisitíssimos de fita invertida. Pára e vira-se para Nazaré.)
HERCULANO: Olha, vai fazer um cafezinho rápido.
NAZARÉ: Carioquinha?
HERCULANO: Bem carioquinha.
NAZARÉ: Melhorou do estômago?
HERCULANO (entretido no aparelho): Assim, assim. Esses médicos são umas bestas! (muda de tom) Melhor um pouco, sei lá. Mesma coisa. Chispa, vai buscar o café.
(Sai Nazaré. Então, sozinho, Herculano assovia e prepara-se para ouvir a gravação. Apaga-se o palco. Nas trevas, ouve-se a voz de Geni.)
GENI: Herculano, quem te fala é uma morta. Eu morri. Me matei.»

"Toda nudez será castigada" in Teatro Desagradável, de Nelson Rodrigues
(selecção das peças por Bernardo Carvalho)

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Vida: Variações III, de Bénédicte Houart

os livros transpiram de corpo a corpo
os leitores rimam uns com os outros
a minha saliva conserva a tua
a mesma frase provoca sobressaltos
diferentes palavras sublinhadas
algumas procuradas no dicionário
lágrimas risos compartilhados
algumas folhas meio rasgadas
os cantos ainda sobredobrados
vidas passadas e carimbadas
nas páginas presentes
as dedadas que as mancharam
as mãos frementes que as viraram

Vida: Variações III, de Bénédicte Houart

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Grosso modo, de Jacinto Lucas Pires

«Ele vira-se, sorri na direção dela mas não exatamente para ela. Não diz nada, a resposta só vai até àquele ponto, uma expressão ambígua, um sorriso lento, cansado. Tem menos dez anos do que ela e já está cansado. Talvez tenha sido isso, essa negra gravidade de gestos num homem tão novo, que primeiro impressionou a mulher quando os dois se conheceram no salão demasiado iluminado do pequeno-almoço. Não que ele parecesse esquisito, do tipo agressivo ou artístico. Não, não apresentava os habituais sinais de perigo. Apenas uma indiferença, um desprendimento raro de ver em alguém com menos de quarenta anos. O modo de não se mexer, não se virar, de não falar demais. Alguém que se está nas tintas para o mundo sem fazer alarde disso. Perfeitamente nas tintas.
“Vamos ao cinema”, diz ela.
E aí, sim, riem-se os dois.
Berlim é um retângulo de luzes desfocadas. À janela do quarto de hotel, a mulher e o homem admiram a elegância com que o céu poisa no cimo dos prédios em frente. O homem-rapaz cheira a cigarro e sabonete e Sofia imagina que está dentro de uma história, a começar uma história nova. Que loucura, o que é que eu estou aqui a fazer? O americano pode muito bem matá-la se quiser. Tem uns olhos não bem azuis, afinal, acinzentados, e ela chama-lhe Pedro. “Peydroh?” diz ele.
Quem os filmasse do fundo do quarto não veria duas pessoas mas a silhueta de um monstro de quatro braços à procura dos bolsos que não tem para esconder as mãos.»


Grosso modo, de Jacinto Lucas Pires

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Heróides, de Ovídio


«Digno de pranto é meu amor; a elegia é o canto de quem chora;
nenhuma lira fica bem a minhas lágrimas.
Ardo, como, quando os Euros desgovernados ateiam o fogo,
se incendeia, de seara em chamas, o fértil campo.
Habita Fáon os campos distantes do Etna, de Tifeu;
possui-me a mim um calor não menor que o fogo do Etna.
E não me ocorre um canto que eu possa acompanhar com cordas
afinadas; o canto é ocupação de quem nada tem que fazer.
E não me são aprazíveis as jovens de Pirra ou de Metimna
nem a turba das demais jovens de Lesbos;
por vulgar tenho Anactória, por vulgar tenho a cândida Cidro;
não é grata ao meu olhar Átis, como antes era,
e centos de outras que não sem pecado eu amei.
Malvado! O que de muitas foi, és o único a possuí-lo!
Tens em ti beleza, tens uma idade azada para o prazer;
ó beleza traiçoeira para meus olhos!
Enverga a lira e a aljava e transformas-te num autêntico Apolo;
ajuntem-se chifres à cabeça e serás Baco;
e Febo amou Dafne, e Baco a de Gnossos;
e não conheciam os metros líricos nem uma nem a outra.»

Heróides, de Ovídio
(trad. Carlos Ascenso André)

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Memorial de Aires, de Machado de Assis

«Sete dias sem uma nota, um fato, uma reflexão; posso dizer oito dias, porque também hoje não tenho que apontar aqui. Escrevo isto só para não perder longamente o costume. Não é mau este costume de escrever o que se pensa e o que se vê, e dizer isso mesmo quando se não vê nem pensa nada.»

Memorial de Aires, Machado de Assis

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Poema "A Lição", de Charles Tomlinson

A LIÇÃO
Este ano, as cotovias
voam tão cedo e tão alto,
significando, dizes, que este Verão
vai ser quente e seco,
e quem sou eu para discutir tal profecia?
Vinte anos aqui passados ainda não
me ensinaram a ler com precisão
nem os sinais do tempo nem os sinais do céu:
continuo com o olhar de um recém-chegado,
um olhar citadino:
contudo há ainda tempo
para aprender mais coisas
sobre a estação e o canto:
Verão após Verão.

Poemas, Charles Tomlinson
(trad. Gualter Cunha)

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Conversa com os estudantes das escolas de arquitectura, Le Corbusier


«Consideraram-nos como agitadores: cientistas, pensadores, sociólogos, artistas. Lá fora – no universo – assistia-se, paralelamente, às conquistas e à devastação de uma revolução técnica de que não poderia deixar de surgir, na hora fatídica, a conclusão filosófica: essa revolução das consciências que nos espera. Ora, técnica e consciência são as duas alavancas da arquitectura, nas quais se apoia a arte de construir. Assistiu-se à fractura, à derrocada de valores seculares, milenares. As velocidades mecânicas difundiam em todos os pontos do território uma nova informação. Uma vez violadas certas relações naturais, o homem viu-se de certo modo desnaturalizado, abandonou as suas vias tradicionais, perdeu pé, acumulou horrores por todo o lado, fruto da sua desqualificação: nas casas, nas ruas, nas cidades, nos subúrbios, nos campos. Um espaço edificado novo e invasor, imundo, burlesco, boçal, nefasto e feio, conspurcou paisagens, cidades e corações. Ultrapassaram-se os piores limites, consumou-se a catástrofe. O homem destes cem anos indestrinçavelmente sublimes e ignóbeis juncou o solo com os detritos da sua acção. A arquitectura está moribunda, viva a arquitectura!»

Conversa com os estudantes das escolas de arquitectura, Le Corbusier  (trad. António Gonçalves)

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A Luz e as Trevas, da Odisseia à Ilíada:






















ODISSEIA DE HOMERO
«O sol lançou-se no céu de bronze, deixando
a bela superfície da água, para dar luz aos imortais
e aos homens na terra dadora de cereais.
Chegaram a Pilos, a cidade bem fundada de Neleu.
Na praia ofereciam-se sacrifícios sagrados de negros touros
a Posídon de azuis cabelos, que abala a terra.
Havia nove bancadas de quinhentos homens sentados;
à frente de cada uma estavam nove touros para o sacrifício.
Foi depois de terem provado as vísceras e terem assado
as coxas para o deus que os outros aportaram à margem,
descendo e dobrando a vela da nau redonda.
Fundearam-na e desembarcaram na praia.
Da nau desembarcou Telémaco, com Atena à sua frente.»
............................................................................................
ILÍADA DE HOMERO
«Quando chegaram ao mesmo sítio para se enfrentarem uns aos outros,
brandiram todos juntos os escudos, as lanças e a fúria de homens
de brônzeas couraças; e os escudos cravados de adornos
embateram uns contra os outros e surgiu um estrépito tremendo.
Então se ouviu o gemido e o grito triunfal dos homens
que matavam e eram mortos. A terra ficou alagada de sangue.Tal como os rios invernosos se precipitam das montanhas,
atirando juntos o enorme caudal para a embocadura de dois vales,
e das poderosas nascentes vêm lançar as águas num oco desfiladeiro,
e lá longe nas montanhas o pastor chega a ouvir-lhes o estrondo — assim era o eco e o terror dos que embatiam uns contra os outros.»

Traduções de Frederico Lourenço
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Frederico Lourenço nasceu em Lisboa, em 1963, e é autor de uma obra que abrange o romance, a poesia e o ensaio. Distinguiu-se igualmente pela tradução de textos clássicos, desde Homero e outros poetas gregos a Goethe e Schiller. Tendo feito a sua formação académica na Universidade de Lisboa, é desde 2009 professor associado da Universidade de Coimbra, em cuja Faculdade de Letras lecciona várias disciplinas no âmbito dos Estudos Clássicos e dos Estudos Artísticos.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O que é a Filosofia?, de José Ortega y Gasset


«O misticismo tende a explorar a profundidade e especula com o abismático; pelo menos, entusiasma-se com as profundidades, sente-se atraído por elas. Pois bem, a tendência da filosofia é de direcção oposta. Não lhe interessa submergir-se no profundo, como a mística, mas, pelo contrário, emergir do profundo até à superfície. Contra o que é costume supor-se, é a filosofia um gigantesco anseio de superfície, quero dizer de trazer para a superfície e tornar patente, claro, evidente se é possível, o que estava subterrâneo, misterioso e latente. Detesta o mistério e os gestos melodramáticos do iniciado, do mistagogo. Pode dizer de si própria o que disse Goethe:

Declaro-me da linhagem desses
que do escuro rumo ao claro aspiram.


A filosofia é um enorme apetite de transparência e uma resoluta vontade de meio-dia. O seu propósito radical é trazer para a superfície, declarar, descobrir o oculto ou velado — na Grécia a filosofia começou por chamar-se alétheia, que significa desocultação, revelação ou desvelação; em suma, manifestação. E manifestar não é senão falar, logos. Se o misticismo é calar, filosofar é dizer: descobrir na grande nudez e transparência da palavra o ser das coisas, dizer o ser — ontologia. Frente ao misticismo, a filosofia gostaria de ser o segredo aos gritos.»


O que é a Filosofia?, de José Ortega y Gasset
(trad. José Bento)

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade

SONHO DE UM SONHO
Sonhei que estava sonhando
e que no meu sonho havia
um outro sonho esculpido.
Os três sonhos superpostos
dir-se-iam apenas elos
de uma infindável cadeia
de mitos organizados
em derredor de um pobre eu.
Eu que, mal de mim! sonhava.
Sonhava que no meu sonho
retinha uma zona lúcida
para concretar o fluido
como abstrair o maciço.
Sonhava que estava alerta,
e mais do que alerta, lúdico,
e receptivo, e magnético,
e em torno a mim se dispunham
possibilidades claras,
e, plástico, o ouro do tempo
vinha cingir-me e dourar-me
para todo o sempre, para
um sempre que ambicionava
mas de todo o ser temia…
Ai de mim! que mal sonhava.
Sonhei que os entes cativos
dessa livre disciplina
plenamente floresciam
permutando no universo
uma dileta substância
e um desejo apaziguado
de ser um com ser milhares,
pois o centro era eu de tudo,
como era cada um dos raios
desfechados para longe,
alcançando além da terra
ignota região lunar,
na perturbadora rota
que antigos não palmilharam
mas ficou traçada em branco
nos mais velhos portulanos
e no pó dos marinheiros
afogados em mar alto.
Sonhei que meu sonho vinha
como a realidade mesma.
Sonhei que o sonho se forma
não do que desejaríamos
ou de quanto silenciamos
em meio a ervas crescidas,
mas do que vigia e fulge
em cada ardente palavra
proferida sem malícia,
aberta como uma flor
se entreabre: radiosamente.
Sonhei que o sonho existia
não dentro, fora de nós,
e era tocá-lo e colhê-lo,
e sem demora sorvê-lo,
gastá-lo sem vão receio
de que um dia se gastara.

in Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade