sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Aborrecimento, quase poesia



IX: Sinistro Ocorrido em Agosto

 

Entram, matam-me.

Na tevê, estão levando o Quo Vadis.

Curiosos os rumos tomados pelas coisas, quando remetidas a si próprias.

Eu duvidava.

Quando entraram, quando entraram a matar-me, era com isto que eu andava às voltas. Algumas dúvidas. Eu duvidava.

Pensava ter ouvido de uma velha amiga que seu filme favorito em criança era este Quo Vadis.

Faltavam-me as provas, no entanto.

Eu distribuía esta colocação entre minhas amigas, testava.

Também eu fui improvável em criança.

Também eu busquei me vincular, mais tarde, a tantos outros que haviam sido improváveis em criança.

Deborah Kerr atada a um tronco no centro da Arena. Flores atadas à cabeleira ruiva, ao coif improvável.

Bom, isto tudo acabou.

Eis um grande arrependimento que levo comigo para onde quer que me estejam levando. Não reconheço flores, árvores. O mesmo para tecidos, cores, estilos arquitetônicos, materiais de construção.

Gostaria de ter sido mais exato.

Gostaria de ter lido, relido, memorizado todos os livros com que abarrotei as reduzidas dimensões desta casa.

Terei sido ao menos vibrátil em minha infinita ignorância?

Agora conhecerei sem esforço. Conhecerei, possivelmente, uma intelecção imediata, uma assimilação plena e orgânica das coisas. O que sempre foi meu desejo mais ardente, falando verdade: ter nascido sabendo.

Isto e dinheiro.

Ter nascido sem a hesitação que tanto apregoo hoje em dia como grandeza moral.

Apregoava.

Minha casa era fria e úmida.

Com trinta passos, fazia-se o torno dela inteira, quiçá mais de uma vez.

De exígua, não havia espaço para as assombrações.

Não cabiam sequer os cheiros.

Os meus, por exemplo. 

Tinham de desprender-se, contrariando meus mais encarniçados esforços.

Era frequente, também, sonhar com tanto volume que ia despertar no varandim, na rua, no exterior.

Era isto, em suma, a minha casa. Este desacordo com o exterior. Sempre um pouco mais fria, um pouco mais úmida que o próprio inverno.

Nunca fui capaz de temperar de modo muito realista a comunicação entre a casa e o exterior.   

Nunca me mostrei à altura do bolor, dos entupimentos.

Com os anos, no entanto, aprendi a amá-la.

Fiz mau uso de minhas prerrogativas humanas, nomeei-a.

Como todo aquele que ama, sim, fiz mau uso de minhas prerrogativas.

Aprendi a ignorar as freiras com as quais vivia esbarrando na rua. Aprendi a ignorar os ônibus cheios de turistas.

Pensei que me integrava ao folclore do bairro.

Agora estou pensando com o sangue que empoça à volta da cabeça. É uma maneira nova de pensar, reconheço.

É uma lira nova.

Mas não é ainda o período límpido que busquei por tanto tempo.

Curiosos os rumos que tomamos nesta busca pelo período límpido.

Com o sangue que me sai da bordoada na cabeça, rememoro um passeio na cidade de meu pai.

Longa tarde caminhando a esmo pelo atulhado centro comercial de uma seca província. Uma tarde escorchante.

A seca surpresa ao deparar uma rouparia situada em esquina bastante movimentada.

Uma loja chamada Quo Vadis.

A surpresa diante daquelas palavras, a placa enorme, enormemente improvável, a pergunta que pairava – indolência e imponência – sobre o imparável vaivém. 

“Volto para Roma para ser crucificado”, respondo, muito depois.

Será que é para esta imagem que estou sendo transportado?

Oh, não.

Por Deus, espero que não.

 

 

"Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os
Ilhados
".

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Max e René. Um monólogo e um cão #8

Ao ritmo semanal publicaremos no blogue da Cotovia a mais recente peça de José Maria Vieira Mendes, Max e René. Um monólogo e um cão.
 
MAX E RENÉ
Um monólogo e um cão



Perda

Entra MAX 10 vestidos de MAX abraça-se a MAX 11. Uivam.

MAX 11 Foi horrível... foi horrível...

Pouco depois acalmam-se.

MAX 11 Foi horrível. Foi mesmo horrível.

MAX 10 Eu sei, eu sei.

Uivam.

MAX 11 O anjo da minha vida. A minha René. Foi mesmo horrível.

MAX 10 Eu sei.

MAX 11 Morreu nos meus braços. O anjo da minha vida. A minha querido René. É como se morresse uma parte de nós.

MAX 10 Já está em paz.

MAX 11 Foi nos meus braços. Ela foi-se nos vossos braços. Coitadinho. Foi horrível. Uiva.

MAX 10 Eu sabemos, nós sei.

MAX 11 Gosto tanto dela. Gostas tanto daquele cãozinho. A René é tudo. A cara dele fazia tudo diferente.

MAX 10 Era um amor.

MAX 11 Aquele focinho. Parece que o estamos a ver. Para onde quer que olhe.

MAX 10 Vai fazer muita falta.

MAX 11 Foi-se um bocado de mim.

MAX 10 Eu sabes. Tu sei que a René era muito importante para mim...

Abraçam-se.

MAX 11 Saudades, saudades.

MAX 10 Vai fazer muita falta.

MAX 11 Vi-o a partir, percebes? Foi horrível.

MAX 10 Coitadinha. Há de estar bem onde quer que esteja.

MAX 11 Não estou preparadas para o deixar ir.

MAX 10 Eu sabemos, tu sabem.

MAX 11 Foi uma primeira convulsão. E depois outra. No nosso colo. Olhámo-nos nos olhos. Foi mesmo mau. Mesmo mau. Foi horrível.

MAX 10 Eu sabes.

Abraçam-se.

MAX 10 Mas olha... ela quis morrer nos teus braços, no meu colo, e isso é lindo.

MAX 11 Pois é.

MAX 10 Ele está em paz.

MAX 11 Pois está. (Depois de um silêncio) Quero ficar com o corpo da René. Mas não conseguimos decidir se deve ser taxidormi...

MAX 10 Embalsamá-lo?

MAX 11 Sim, isso.

MAX 10 Queremos embalsamar o René?

MAX 11 Era...

Silêncio.

MAX 10 Max.

MAX 11 Sim.

MAX 10 Max, onde é que está a René?

MAX 11 Está comigo. Está aqui.

MAX 10 Sim, mas onde?

MAX 11 Congelado.

MAX 10 Congelada? Como é que o congelaste?

MAX 11 Com gelo.

MAX 10 Mas onde é que arranjámos gelo aqui na selva?

MAX 11 Arranjaste.

MAX 10 Mas é um gelo especial?

MAX 11 Não. É gelo

MAX 10 Portanto ele está num congelador?

MAX 11 Sim. Está no congelador. Naqueles frigoríficos com um congelador em cima, sim. Está no congelador.

MAX 10 Mas o... O congelador é frio suficiente para... para esse tipo de congelação?

MAX 11 Não sei, acho que sim. Pelo menos está duro. Queres ver?

MAX 10 Vê-lo?

MAX 11 Eu trago-ta.

MAX 10 Não! Não não não não não...!

MAX 11 Gostava de te mostrar.

MAX 10 Não, não, não. Não consigo. A sério, não.

MAX 11 Gostava que a vissem.

MAX 10 Não, ok?

MAX 11 Ele já não morde. É a René, Max. A vossa René.

MAX 10 Mas está tapado, ou assim?

MAX 11 Está.

MAX 11 sai e reentra com um cobertor ao colo.

MAX 11 Está frio.

MAX 10 Isso é o René?

MAX 11 É a René.

MAX 10 Não consigo, não consigo, Max.

MAX 11 É a nosso anjo, Max.

MAX 10 Desculpa, mas temos de a enterrar.

MAX 11 É o minha René.

MAX 10 (horrorizados) Ah!! Vi a cara dela. Vi o focinho! Que horror! Ai!

MAX 11 Dá-lhe uma festinha!

MAX 10 Não! Não venhas atrás de mim! Respeitem o corpo do nosso cão! Respeita o corpo do vosso cão. Desculpa. Mas isso não te faz bem, ok? Não é saudável. Não podemos ter a René no congelador.

MAX 11 Mas precisas do corpo dela. É a nossa existência. Preciso dos olhos dele. Quem é que vai agora olhar para nós?

MAX 10 Não sei, tens de pensar, mas não quero esses olhos. Esses olhos estão mortos, René. Vocês não queres um morto a olhar para ti! Um morto a confirmar a nossa existência? Isso é tétrico! É como se já não estivesse aqui, como se também estivessem mortas. E eu não estás morta. Agora que vós descobrimos a vida, que te integrei na gramática, depois deste esforço todo, recuso-me a morrer outra vez.

MAX 11 Por isso é que eu nos lembrámos de o embalsamar. Era uma maneira de não estar morto.

MAX 10 Isso não é verdade. Para embalsamar tiram tudo de dentro dela, as entranhas todas, e depois metem-lhe olhos de vidro e acrescentam-lhe bigodes e pintam-lhe as unhas, e substituem-lhe os dentes, não é ele que fica, é um boneco igual a ela, embalsamar é isso. Não serve para nada.

MAX 11 Não sabíamos...

MAX 10 Max, tu sei que é difícil. Nunca mais vamos ver o meu amor. Ela partiu. Mas tenho de a enterrar. Faz-se um funeral.

MAX 11 Não sei se conseguimos. Tenho de a ir pôr no congelador.

MAX 10 Está a descongelar?

MAX 11 Não sei. Mas está-nos a congelar os braços.

MAX 11 sai e reentra sem um cobertor ao colo.

MAX 10 Um funeral é o melhor. Na clareira. Enterramos o nossa René. Despedes-te dele. Choram.

MAX 11 E depois?

MAX 10 E depois não interessa. Foi isso que René nos ensinou.
 
José Maria Vieira Mendes escreve maioritariamente peças de teatro e faz traduções ocasionais.
É membro do Teatro Praga desde 2008. As suas peças foram traduzidas em mais de uma dezena de línguas. Para além de edições de peças nos Livrinhos de Teatro Artistas Unidos, publicou Teatro em 2008 (Livros Cotovia), Arroios, Diário de um diário em 2015 (edição Duas páginas) e, em 2016, um ensaio (Uma coisa não é outra coisa) e uma compilação de peças (Uma coisa), ambos pelos Livros Cotovia.

 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Max e René. Um monólogo e um cão #7

Ao ritmo semanal publicaremos no blogue da Cotovia a mais recente peça de José Maria Vieira Mendes, Max e René. Um monólogo e um cão.
 
MAX E RENÉ
Um monólogo e um cão


Meio

MAX 8 vestido de MAX.

MAX 8 Max multiplica-se. Juntamo-nos e falas a oito, a nove, a vinte vozes. Quanto mais tempo nesta selva, mais são. E quantos mais são, mais enigmáticas somos. Partiram à procura de palavras e gramática, mas só encontro vozes e mais vozes, cada uma para seu lado. René acompanha-te com olhos de cão, doce sempre. É o outro nome, o que não sou eu. Com a cauda diz que somos um monólogo e ela um cão. Fiquei por aqui, foi onde cheguei. Mas isto não é o fim, chama-se meio. A vida de Max tem tudo a que não tem direito e é sempre mais um e mais uma e mais. E nisto será sempre só um porque eu não somos tu. Sois um monólogo. Mono. Nunca a outra coisa. É esse o meu único limite. E agora que temos René já o posso traçar.

 
Festa

Manhã. MAX 6, 7 e 8 acordam vestidos de MAX.

MAX 6 Isto sim é uma manhã. Com gotas da chuva a secar nas grandes folhas da árvore-polvo, o solo sempre húmido, uma serpente a dormir num tronco e os primeiros raios de sol a aquecer o meu olho. Era capazes de viver aqui para sempre.

MAX 7 Para sempre na selva?

MAX 8 Para sempre é muito tempo.

MAX 6 Não sei o que é.

MAX 8 Hoje é o último dia. Amanhã regressamos. Quando voltar, tens uma sopa quente à espera no teu quarto. Agora que sou, que nos veem, está na altura de pôr à prova a conquista.

MAX 7 Eu por acaso gostamos disto aqui.

MAX 8 Mas vamos voltar. Vieste para aqui para regressar. É um lugar de passagem, não é o vosso lugar.

MAX 6 Não sinto falta de nada fora daqui. Tendes mangas, peixe, couves, banana, bagas, água e toda a alimentação. Amor todos os dias. Nomes para tudo. Existência que nunca mais acaba...

MAX 8 Os nomes vão contigo, basta isso. Saí de dentro de mim. Já não és só eu e sentem a cauda da René a bater na minha cara. Agora é preciso dar lugar a outras.

MAX 6 Tendes razão, mas é difícil aceitar que acabou.

MAX 8 Não acabou nada. Vou só para outro lugar.

MAX 7 Estou a ficar melancólicas. Uiva.

MAX 6 uiva.

MAX 8 Parem com isso! Que disparate. Vais mas é festejar.

Entra MAX 1 e 9 vestidos de MAX.

MAX 1 Vamos festejar.
MAX 9 Tiveram a ideia, vou fazer uma festa.
MAX 1 Celebrar o futuro desconhecido, celebrar a diferença intransponível, celebrar a selva.
MAX 9 Celebrar a visibilidade! Somos visíveis! És feliz. Sou tão felizes, tão felizes, tão feliz!
Uma festa. MAX 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9 celebram.
No final da festa entra MAX 10 de rompante.
MAX 10 A René! O René! A René morreu!!

 
José Maria Vieira Mendes escreve maioritariamente peças de teatro e faz traduções ocasionais.
É membro do Teatro Praga desde 2008. As suas peças foram traduzidas em mais de uma dezena de línguas. Para além de edições de peças nos Livrinhos de Teatro Artistas Unidos, publicou Teatro em 2008 (Livros Cotovia), Arroios, Diário de um diário em 2015 (edição Duas páginas) e, em 2016, um ensaio (Uma coisa não é outra coisa) e uma compilação de peças (Uma coisa), ambos pelos Livros Cotovia.

 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Comer com os olhos #5


©Patrícia Azevedo da Silva
 


Ultimamente tenho sentido muito medo. Medo de tudo e muitas vezes. Todos os dias choro, mas é quase sempre com histórias fofinhas e de sucesso (agora mesmo foi com uma mãe elefante que entrou em pânico porque o seu bebé escorregou e caiu nuns carris de sacar água de um poço e alguns tigres estavam a aproximar-se, então uma outra família de elefantes voltou atras para distrair os tigres enquanto a mãe, à bruta, libertou o filhinho; correu tudo muito certo).
Só houve duas outras vezes na vida em que senti um medo que era tão real tão real que me paralisou. Das duas vezes fugi para o Brasil, o que me salvou, mas infelizmente essa senhora elegante que me alimentava estes golpes e agilizava as viagens entre 2 a 7 dias, a minha querida avózinha, já não anda por aqui (pelo menos não de forma a conseguir planejar tudo). Por isso fiz o melhor que sei, e fugi de férias para o mar. Works for me.
Antes das férias, assisti ao documentário da Paula Rêgo que passou no canal 2, e que em inglês se chama Secrets and Stories (já soube que não, mas na minha cabeça este título tem qualquer coisa de Mike Leigh/Secrets and Lies). Muitas coisas me impressionaram neste documentário: a relação dela com a mãe (Rêgo conta que, quando era pequena, costumava colocar um cavalete atrás do cavalete da mãe e pintavam as duas, e apesar da mãe nunca ter sido particularmente encorajadora, aquela era a sua tentativa de criar ali um bond qualquer); a relação com os filhos, claro, porque também é muito disso que o filme vai à procura (é realizado pelo seu filho, o mais novo de três), e fica mais ou menos claro (ficou para mim) que talvez a relação de Rêgo com eles não fosse assim a mais quentinha (também provavelmente alimentada pelasb expectativas e ideias sociais/contextuais do que deve ser uma mãe), e além do comentário da filha do meio, que diz que a sensação deles é que tinham sido sempre actores secundários dessa história de amor que era a dos pais, há ali um momento ackward quando o filho lembra Rêgo de que um dia comentou com ele que o trabalho era a coisa mais importante do mundo - o que me impressionou foi a forma como ele disse aquilo como se, agora com distância, estivesse à procura que a mãe reconhecesse que afinal talvez o mais importante fossem eles, os filhos, e ela, felicíssima, retorna: "Eu disse isso? Ainda bem que disse. Porque é a verdade". (Estou a escrever de cabeça, não sei se foi exactamente assim.); a relação com o marido, intensa e gigante, de cumplicidade e aquelas coisas meio twisted que acontecem quando pessoas que têm o mesmo craft se juntam; e, também e talvez acima de tudo (não porque me tenha impressionado mais mas porque é o mais importante para Rêgo, e nesse sentido para respeitar os seus desejos), a sua relação com o seu trabalho.
Aquilo era uma grande maluquice. Eu achei que era em bom. Sobretudo as imagens da casa da Ericeira, com ela a ir pintar para a adega ou celeiro ou que raio lá era, com os filhinhos espalhadas por ali a brincar no jardim, não vou mentir, era um pouco o meu sonho de vida agora. E no meio daquilo tudo a melhor parte foi quando conta que um dia (acho que nessa mesma casa) desceu as escadas e apanhou o marido a beijar outra mulher e correu a chorar a contar isso à sua melhor amiga. À medida que lhe contava, a sua amiga começou a chorar também, e aí ela percebeu que os dois, o marido e a melhor amiga, estavam a traí-la: aquele não era um choro de empatia. Rêgo descobriu então que essa amiga estava apaixonada pelo seu marido e que tentava imenso que ele deixasse a família para ficar com ela.
Então a Paula Rêgo pulled a Lemonade! Rêgo estava na altura a fazer o seu quadro "Cães de Barcelona" (Rêgo conta que ficou chocada porque descobriu que em Barcelona às autoridades andavam a espalhar carne envenenada pelas ruas, para matar os cães vadios – e pelo caminho, outros vadios) e não sabia o que colocar em cima (da pintura), e acabou por colocar uma figura monstruosa, que seria a sua "amiga". Até onde sei Victor Willing, marido de Rêgo, não respondeu em modo Jay-Z's 4:44 mas comentou, mais tarde, que aquele quadro representava aquela que tinha sido uma ameaça à sua família. O quadro, de alguma forma (ou de todas as formas) foi uma maneira de perceber o que "(Rêgo) pensava sobre si mesma, sobre ele, e sobre tudo". Acho que, aplicado a todo a sua obra, Rêgo diz que através do trabalho "pode sair a raiva toda que a gente tem". E esta raiva e esta forma de lidar com a vida pode servir para combater os medos: logo no início Rêgo diz que sempre foi deprimida e que se lembra, quando era pequenina, de ter medo de tudo. O que contrasta muito (e ela reconhece-o) com a forma como viveu o resto da vida: a ida para Londres, o romance com o marido, ter suportado uma gravidez e um parto (o primeiro) sozinha (com o apoio sobretudo do pai, dela, mas sem o apoio do pai da criança), os amantes, e sobretudo a sua relação com o trabalho.
Como mulher, e não sei se bem totalmente consciente, Rêgo foi um pouco punk. Nunca pensei que a Paula Rêgo e a Beyoncé pudessem ter tanto em comum. 
 




Patricia Azevedo da Silva nasceu em 1977 naquele que é, sem dúvida, o ano mais punk do século XX (serpente de fogo). Trabalha sobre a dádiva e a ideia de reciprocidade a partir da óptica do amor (a sua tese de doutoramento, “Pão é Amor Entre Estranhos”, ainda por terminar, aborda a ideia do alimento enquanto linguagem&afecto, a partir de trabalho de campo realizado em São Paulo). Na sua tese de mestrado, “Para lá do prejuízo”, trabalhou os temas de género, colonialismo e performance a partir da análise de experiências de mulheres brasileiras a viver em Lisboa.
Trabalhou com quase todas as produtoras de cinema em Lisboa (nos anos 2000) e foi aí que descobriu a importância da repetição (no sentido de repetir obras). Também foi ganhando outras relações com outras ideias de teatro e, actualmente, tenta fazer o mesmo com a dança (e, ainda remotamente, com as artes plásticas).
Cresceu em Queluz, Monte Abraão, e a ideia de periferia e subúrbio está presente em tudo o que faz, pela via da marginalidade e pela forma encantada como aprecia pracetas. É mãe.



 

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Max e René. Um monólogo e um cão #6

Ao ritmo semanal publicaremos no blogue da Cotovia a mais recente peça de José Maria Vieira Mendes, Max e René. Um monólogo e um cão.
MAX E RENÉ
Um monólogo e um cão
 
Assembleia
MAX 1, MAX 2, MAX 3, MAX 4, MAX 5 e MAX 6 vestidos de MAX
MAX 1 Juntas, nesta clareira, é altura de tomar uma decisão. Estás há tempo indeterminado nesta selva inóspita e hospitaleira, rodeados de verde e mais verde com apontamentos rubros, a conviver com ruídos, sons batraquiantes, chilrear incessante ao pôr-do-sol, tucanos, grilos e sei lá mais, de modos que sugiro que o período de reflexão terminou e é tempo de expor resultados. Tornámo-nos muitos e isto cheira-te que não vai parar de aumentar pelo que, enfim, enfrente-se o assunto e responda-se à pergunta.
MAX 2 Qual?
MAX 1 Quem somos eu afinal? Aceitam-se propostas. Está aberta a sessão.
MAX 3 Eu tem uma proposta.
MAX 1 Inscreva-se. Nome.
MAX 3 Max.
MAX 1 Alguém que tome nota das inscrições.
MAX 4 Não podem ser tu?
MAX 1 Nós conduzes os trabalhos.
MAX 5 Eu podemos.
MAX 1 Grato. Mais alguém se quer inscrever?
MAX 6 (levantando o braço) Tu!
MAX 1 Nome.
MAX 6 Max.
MAX 1 (para MAX 5) Está anotado?
MAX 5 Certíssimo.
MAX 1 Então passemos à apresentação das propostas. A primeira inscrição...
MAX 5 Max!
MAX 1 Queira fazer o favor, Max.
MAX 6 Qual Max?
MAX 3 Deve ser nós.
MAX 6 Ao mesmo tempo?
MAX 3 (apontando para MAX 6) Não, eu.
MAX 6 (apontando para si próprio) Quem, tu?otou.
retnscriç atençso.im, enfrentemos o assuntMAX 1 Tanto faz, comecem. Propostas para a nossa identidade, vá. Quem são vós?
MAX 3 Ninguém.
Burburinho na assembleia.
MAX 1 Quer apresentar argumentos?
MAX 3 Não.
MAX 1 Próximo.
MAX 6 Eu consideras que sois variedade.
MAX 2 Isso é uma abstração.
MAX 6 Mas...
MAX 4 É inútil.
MAX 3 Disparate.
MAX 2 Com certeza.
MAX 6 Mas é verdade.
MAX 2 Se nos é permitido...
MAX 1 (para MAX 5) Está inscritas?
MAX 5 Tenho aqui “Max”.
MAX 1 (para MAX 2) E qual é o vosso nome?
MAX 2 Max.
MAX 1 Então diga.
MAX 2 Julgo que a resposta está no meu nome. Tu somos Max!
MAX 4 Mas isso é absurdo, é redundante.
MAX 1 Não acrescenta. Precisa-se de mais.
MAX 6 Tipo?
MAX 4 Tipo és palavra, pessoa, cão, planta...?
MAX 2 Nada disso, é só Max.
MAX 5 Já sei, sou monstro!
MAX 3 Não somos nada.
MAX 4 Nada e ninguém não leva a nada, insisto.
MAX 3 (para MAX 4) Referia-me ao monstro, não és monstro.
MAX 5 Foi só uma proposta.
MAX 2 Quem é que disse monstro?
MAX 6 Fomos nós.
MAX 1 Pedia que tivessem em atenção a ordem das inscrições e que não entrássemos num diálogo pouco produtivo.
MAX 5 Qual produção?
MAX 6 Qual ordem?
MAX 1 A que o secretário anotou.
MAX 6 Não há ordem. Foi para isso que para aqui vieram.
MAX 1 Mas há um mínimo.
MAX 3 Não há nada. Não há nada. Nem ninguém. Tipo... não somos nada.
MAX 2 Está caladas, já chega de nada!
MAX 4 Deixem-nos ser! Exijo liberdade.
MAX 1 É o que dá a desordem.
MAX 4 Eu queres ser em mutação. Não nos vou deixar capturar por essa retórica limitadora.
MAX 2 Mas qual limitadora! Que mania!
MAX 4 Queremos ser mais, cada vez mais! Max mais!!
MAX 6 Representação é poder!
MAX 3 Muito bem dito!
MAX 4 Estou fartas de ser capturado!
MAX 3 Nós não quero acabar!
MAX 6 Aprovado!
Entra MAX 7 vestidx de MAX. Calam-se todxs.
MAX 7 Boa tarde. Ouvimos burburinho e não pude deixar de aqui vir. O nosso nome é Max, converso com helicônias e urucus, trepo shoreas acima, sois imune a picadas de abelha e quando escurece temos por hábito fumar ervas escolhidas a dedo.
MAX 1 Mas não se inscreveu, não pediu a palavra...
MAX 7 A selva é a casa das vontades e quem quer dormir pode, quem quer comer também pode e no que diz respeito a beber nem se fala.
MAX 1 É só porque convinha manter alguma ordem...
MAX 7 A melhor hora do dia é o amanhecer que é só para alguns, as madrugadoras. Começam a ver-se sombras, o sol esforça-se por entre o verde denso denso e sentes um raio a aquecer o olho. Nessa altura encostas-te a uma folha grande e lisa e húmida e deixo-a coçar-nos a pele das costas até ao arrepio. É uma sensação igual a nada. Bem como o cheiro de uma manga madura sem casca, coisa que não tem explicação nem comparação. A chuva quando cai muda todos os sons e olhas em redor e veem tudo o resto que não somos eu e que existe. E é isto. Encontrei também o teu cão.
MAX 1, 2, 3, 4, 5 e 6 A René?!
MAX 7 Uivava a chamar a lua pareceu-nos. Tornámo-nos amigos e gostas de sentir a cauda da René a bater na vossa cara. Perceberam que gosto tanto que a partir de hoje queremos diariamente a sensação. René veio-te dar contexto. Confirmam-vos ao mesmo tempo que nos roubam, não sabemos explicar melhor. Diz que existes e por isso senti-nos na obrigação de ser honestas e confessar que um dia me vamos embora, René, para outro mundo. Quando o corpo estiver cansado. Por nós ficavam aqui para sempre, mas o corpo não aguenta. É assim. Mas também não está para breve. Acho nós. É suposto demorar um bom bocado. Tipo... Bastante tempo. Espero que seja muito. Não me apetecia ficar já cansados. Max veio para ficar e para atuar. Uiva. A recordação da conversa pôs-nos melancólica, mas passa logo. Não vale a pena perder tempo com o futuro. Basta vivê-lo uma vez, não é preciso duas. Dissemos isto à René que pareceu concordar e lambeu-vos a cara. A René ensina-te o amor.
MAX 1 Mas quem és você?
MAX 7 Max.
MAX 3 Outro? Mas quando é que eu acabo?
MAX 2 E vocês sabes quem somos? Tendes a resposta?
MAX 7 O meu nome é Max e sou um monólogo, claro. E este é um cão, chama-se René e é o vosso amor.
 
José Maria Vieira Mendes escreve maioritariamente peças de teatro e faz traduções ocasionais.
É membro do Teatro Praga desde 2008. As suas peças foram traduzidas em mais de uma dezena de línguas. Para além de edições de peças nos Livrinhos de Teatro Artistas Unidos, publicou Teatro em 2008 (Livros Cotovia), Arroios, Diário de um diário em 2015 (edição Duas páginas) e, em 2016, um ensaio (Uma coisa não é outra coisa) e uma compilação de peças (Uma coisa), ambos pelos Livros Cotovia.