quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Tuiuiú

        
          É difícil. Todos os dias quando eu acordo, tenho que levantar e criar as coisas do mundo, porque nada ainda existe. Convoco-as. As coisas quando surgem não têm medo de encostar em mim. Nem mesmo as que vieram sem tampa. Hoje acordei e fiquei um tempo deitada no chão: já existe o chão, a casa, a vassoura, a sujeira e você. Cinco coisas – e algumas ações por fazer. Não sei se vou fazê-las. A preguiça sempre existiu, então nunca precisou ser inventada. Olho para mim mesma e sei que tenho inúmeros dedos nas mãos, o que significa que às vezes minhas contas saem erradas. Cinco coisas ou muitas. Todas as noites, quando estou dormindo, elas se aproximam e decoram meu nome. Repetem meu nome, quase em silêncio. Mas as coisas se dissolvem nos dias, e por isso estou sempre as criando de novo.

Saí de casa. Caminhei um tempo no sol (meu sol) e criei a terra à minha frente com cada passo que dei. Conheço apenas uma pessoa que fez isso antes. Voltei ensolarada e morna. Como uma pedra do deserto – dessas que você leva no bolso. Encontrei um homem que me perguntou se seu braço direito poderia ser uma espada, se tudo bem. Eu disse “apenas a primeira letra do alfabeto, a letra Alif, pode ser uma espada”. Ele entendeu, mas ficou triste. Então eu lhe dei cabelos compridos, que são lindos.

Você se lembra do dia em que nós dois, juntos, tiramos todas as pedras do seu bolso e as colocamos na mesa? Você me convenceu a cobrir cada uma delas com plástico-filme. E eu aceitei, mas foi dessas coisas que aceitei mesmo me sentindo perversa. Peguei uma delas na mão e a trouxe até meus lábios. Dei-lhe um beijo e nos olhamos, confusas, ninguém riu. Apertei-a por mais um tempo contra minha boca, até que meu calor a fizesse ficar minimamente morna. Passamos muitos dias em silêncio. Nesse período, deitei-a todas as noites no travesseiro ao lado do meu para que sua presença calma guardasse meu sono curto. Um dia, acordei antes que ela soubesse e a ouvi dizendo, sozinha: “eu nunca nasci. Nunca precisei nascer”.


Você não sabe dessa história, ela é secreta. Um dia nós dois seremos felizes, eu e você. Isto é, se depois das pedras, conseguirmos resolver a invenção das frutas. Porque elas sempre morrem; eu as invento com vida demais, é por isso que à medida que ficam mais maduras vão enchendo o ar ao redor de um cheiro cada vez mais forte, um cheiro forte de fruta. Você já deve ter percebido. Elas passam da medida. As frutas multiplicam-se em si, apodrecem de ser tão elas mesmas. Um dia você vai fazer a coisa mais linda de todas, vai girar a mão no ar e inventar o figo. Você vai dizer: “o figo não é uma fruta, é uma flor invertida. Cada semente, cada uma das milhares de sementes que estouram na sua boca ou na minha, na verdade é uma fruta em estado de espera – precisa ser fecundada por uma vespa e então nascer”. Você vai dizer: “o figo tem muito tempo futuro dentro de si. Eu posso te oferecer quantos você quiser”.






Sofia Nestrovski nasceu em São Paulo, em 1991. Cresceu no meio do milharal dos Estados Unidos, voltou para São Paulo mais tarde. Faz mestrado sobre o poeta William Wordsworth na Universidade de São Paulo, dá cursos sobre Shakespeare, assina uma seção semanal sobre palavras no jornal Nexo, escreve resenhas para a revista Quatro cinco um. Também luta Kung Fu, mas não muito.





segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Aborrecimento, quase poesia








Um Poema aos 32

Quero a casa promíscua de espaços
Esta luz, aquele cabimento
Morrer desde já sem a palavra pétala
E relógios para amar claro

Quero riscar cidades de chapéu cinzento
A conversa entre aposentos, brisa
Bosque cenográfico
Cela extrema, unção do cinema

Quero paredes descansadas
Objetos que restem sem estremeção
Dançar a salsa dos presidiários
Redescobrir o nariz ao piano

Quero afiar meu reflexo nas facas
E estar na vida sem qualquer esperança
Novamente o cinema sem vísceras
A noite no deserto imaginado

Com boca de gengibre batucar
O homem de trinta do Sergio Sampaio
Quero ler sem apocalipses
Quero colina e rumor calmo

Quero ser o Drummond dos pederastas
Discreta mãe que ronda os telhados
Quero trânsitos graciosos
De elegia em elegia

Quero escapar de uma ilha nem
Que seja para acabar em outra
Quero mais trinta anos de vida
Estes sem medo





Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os
Ilhados
.


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

As Palavras das Cidades

PARA LÁ DAS CIRCUNVALAÇÕES

Uma cidade? Uma cidade não são só os cafés, os boulevards, os plátanos, as montras, os táxis, os eléctricos, os japoneses, os museus, igrejas e teatros, mercados e hortaliças, não, nem só os hotéis, nem só as estações  de comboio enfumaradas que pintou Monet.
Uma cidade, eu vi-a.
Vi-a, sim, da varanda  de uma pensão na Avenida dos Aliados, no Porto, era Agosto, quente, mesmo quente, em 1954, tinha eu acabado de fazer seis anos e o meu pai tinha um Chevrolet com que fomos até La Toja, na Galiza. Ainda era escuro, seriam quatro da manhã .  Que faria eu com a minha mãe nessa varanda  sobre a rua Elísio de Melo, a que sai dos Aliados e vai desembocar na Rua de Ceuta? Seria um ataque de asma, para estar ao colo da minha mãe àquelas horas? Ou só o calor – que, no Porto, quando se abate, é sufocante?
Sei que se viam as oficinas   de um jornal, ”O Comércio do Porto”, isso sei.
E  ainda hoje a vejo, a  essa tipografia, os tipógrafos com batas azuis, automóveis, umas carrinhas, os ardinas descalços, uns mais velhos carregados de jornais, era a hora da saída, era o Porto que amanhecia.
E uma cidade é isso mesmo, Paris, Porto ou Lisboa que também o  maravilhoso Sérgio Godinho canta em canção que me encanta, Lisboa que amanhece.
E essas horas mortas, as cinco da manhã,  canta-as tão bem o indolente Jacques Dutronc, Il est cinq heures/ Paris s´éveille. E como eu gosto dessa cantiga longuíssima que escreveu Claude Lanzman (aquele que anos depois viria a fazer o tremendo “Shoah”): “são cinco da manhã/ é  a hora em que os travestis se vão barbear/  Paris acorda.”
Uma cidade, eu vi-a.
E depois, depois, vi os filmes americanos. E  vieram confirmar-me que era assim mesmo uma cidade, rotativas, jornais, madrugadas, cigarros, nervos, olheiras, discussões, lutas, liberdades. Eram filmes em que se viam jornalistas e se via boxe, sempre a preto e branco, claro. E homens corruptos e homens honrados. E os jornalistas fumavam pela verdade.
Pois, isso era a cidade.
Ainda a conheci.
Mas pronto, os jornais, se ainda saem de manhã, já não são comprados nos cafés, nos cafés já não se fuma, andamos por casa de roupão até mais tarde a beber fake bicas nespresso  e sabemos tudo (tudo?)  pela net – o que é bom e é triste, sozinhos aqui, cada vez mais sozinhos.
E agora as redacções saíram das cidades, escaparam-se para lá das circunvalações, os Isaltinos cederam-lhes terrenos longe de nós. Ou fecharam. No Porto já só há um jornal. Eu gostava de dar um salto às redacções,  passar pelo Diário de Lisboa para entregar artigos e receber bilhetes de imprensa para os cinemas e os teatros (ia falar com o senhor Quiñones, tinha lá sempre dois) , cruzar-me com a Isabel da Nóbrega n´A Capital, ela sempre janota e sempre a escrever, reunir com o Francisco Sousa Tavares – ou o Rodolfo Iriarte - quando vieram, por breves tempos, aqui para a Joaquim António de Aguiar, gostava de subir as escadas para ir à redacção do República, era a minha cidade e andava de eléctrico.
E era assim a cidade.
E gostava de ir às editoras. Nesses anos eram todas por aqui, apenas a Europa-América se “modernizara” e fugira da Rua do Alecrim para se instalar, industrial, na estrada de Sintra -  e para lá levara o Villaverde Cabral e depois o Luis Filipe Salgado de Matos. Foi a primeira a desfalcar esta vida das cidades, foi.
O que era bom era ir entregar traduções à Portugália, na Avenida da Liberdade, quase nos Restauradores (um 3º andar?) e cruzar-me com o José Gomes Ferreira ou o Luis Amaro, era bom ir à Ulisseia na Rua da Misericórdia ver se ainda arranjavam um exemplar do Hugh Thomas (“retirado do mercado” claro)  e, antes, ver o António Sérgio, carregadinho  de papéis, entrar na Sá da Costa para ir rever provas. E cumprimentar o Aquilino e o Abel Manta à porta daquela Bertrand. Ou, mais tarde, ir mais longe, à Estampa (à Escola do Exercito) e encontrar o Herberto; ou, mais longe ainda, na Rio de Janeiro, ir às Iniciativas Editoriais e ficar duas horas a falar de Angie Dickinson ou Lee Marvin com o Nuno Brederode (que também sabia tudo sobre o Charles Bronson.)
Sim, Turim é a Einaudi, sim, Genève é a Skira, Milão é o Corriere e a Feltrinelli, Paris é a Gallimard ali mesmo em Saint Germain (já não é) e claro, Richmond não existe sem   os Woolfs e a Hogarth Press nem Bloomsbury sem vislumbrarmos o cruel Eliot sentado no seu escritório da Faber em plena Great Russell Street, Barcelona é a Seix Barral e o escritório do Biedma,  as cidades são os livros a serem feitos e os jornais em hora de fecho, redacções e editoras são camarins sem horários, sempre a funcionar, cheiro das tintas, carmins e de pó de arroz.
Uma cidade são as editoras, os jornais,  papelada, é onde se prepara o dia.
E há a Cotovia! Que ainda é ali mesmo por trás de onde foi o jornal “República”, ainda há uma editora nesta cidade!
Olha, hoje era mesmo isso que me apetecia, descer aqui a Alexandre Herculano e apanhar, lá pelo meio dia, o Fernando Assis Pacheco carregado de livros a caminho d “O Jornal” que também foi na Avenida da Liberdade, dois dedos de má lingua, um abraço grande, era isso mesmo.


Jorge Silva Melo



Jorge Silva Melo nasceu em Lisboa em 1948, estudou na Faculdade de Letras de Lisboa e depois na London Film School. Crítico de cinema e teatro, encenador e actor, fundador, com Luis Miguel Cintra, do Teatro da Cornucópia, estagiário na Schaubühne - com Peter Stein - e no Piccolo Teatro/ Scala de Milão - com George Strehler -, argumentista, professor, tradutor, ensaísta, dramaturgo, realizador de cinema. Dirige, desde 1996, os Artistas Unidos. 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Mata-Borrão



Sedon

Poder-vos-ia falar do Minho pitoresco se a pena fosse novecentista. E então, sim. Então os viras, os ouros das mordomas, as contas, os cordões, as arrecadas, os relicários, os corações invertidos, as chinelinhas de verniz, os coletinhos ajeitando o colo roliço, que não há moçoilas como as do nosso Minho, as malgas cheias de verde tinto, que o branco ainda não se dava a conhecer, as esfolhadas de milho - rei, o linho que se planta, se arranca, se esmaga, se espadela, se doba, se fia, se tece em toalhas de altar ou em lençóis pecaminosos de noite primeira ou segunda porque verdade, verdadinha, aquilo no milheiral foi no que deu. Talvez até na romaria, as noites ao relento, os velhos a dormir. 
E então, sim, os jardins encantadores revolvidos a arado e a bois de grandes cornos, um pouco amarelos, mansos. A bem ver, minifúndios talhados a bisel. Quantas vezes a sachola afiada depois da ida à bruxa a confirmar o mau olhado, o mal querer, o mau vizinho do jardim encantador. E elas diligentes, à espera de notícias vindas do lado de lá do mundo, S. Paulo, Rio de Janeiro. E uns chegariam de terno e sapatos brancos, mandando construir uma casa nunca vista de tão grande, maior, muito maior que a dos senhores, porque alta e de beirais com ferro às voltinhas. E outros não chegariam nunca, viúvas ainda quase por casar, tão cedo se meteram nos porões, rasgada a fotografia ao meio pois a outra metade havia de vir na carta, mal o correio desse sinal.

Poder-vos-ia falar do Minho típico se a pena andasse ali por 40. E então, sim. Magras elas, magros eles, a dançar no Verde Gaio em palcos de Lisboa. As ermidas das aldeias mais portuguesas de Portugal, os ranchos folclóricos na voz cava de Pedro Homem de Melo, o galo de Barcelos ainda forjado por oleiros, a cantar cartazes na madrugada do turismo, tão longe ainda de transformações em cortiça, papelão, chita de alcobaça, companheiro de Santo António, ele próprio em tons feéricos ou só azul-clarinho. Em procissão de sardinhas onde o figurado já esqueceu a chaminé algarvia e a ceifeira alentejana.

Poder-vos-ia falar do Minho das minhas férias, se a pena saísse deste Agosto da Graça de 2017. E então sim. Então muitos seriam os retratos que dele trago. Nas lojas de souvenir, as malgas dizem vinho verde, espreitei-lhes o outro lado a ver se dizia sem glúten. Os lenços de namorado estão nas montras das farmácias, das mercearias, das sapatarias, das ourivesarias e das pastelarias. Todavia, aqui vos deixo dois. Estando eu numa piscina de um local silencioso, de sol gentil depois de névoas abençoadas, começo a ouvir missa. Uma braçada e o evangelho, duas braçadas e o começo da homilia, três braçadas e o meio da homilia, quatro braçadas e o fim da homilia. Agora de costas. Ide em paz e o Senhor vos acompanhe. Pode parecer ficção, pode. Mas não foi. A festa era a dois quilómetros e os altifalantes funcionavam muito bem.
O outro momento é a transcrição ipsis verbis de uma fala feminina, quem sabe neta do primeiro Minho que aqui referi. Pus-me a beber binho e fiquei com um sedon.

Oferecida, esta palavra medieva, sinónima de ressaca, há lá outra que melhor descreva essa sede arcaica. Sedão vem de sede, aumentativo muito sábio, mas no Minho é sedon, Devendo ler-se seduõe. Acrescentou, noutro momento, que ele há quem o faça congelado, agora que o sarrabulho quer sanguinho fresco, lá isso.  


Maria João Forte é socióloga

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Aborrecimento, quase poesia



XI: Notas de Aniversário

Não, a cidade já não é o corpo de um homem.
            É, afinal, uma cidade.
            Foram anos até encontrar, descendo por seus olhos, por sua voz de seminário, os cafés com mesas postas do lado de fora.
            A estação sem toldos cinzentos.
            Parece, no entanto, que a encontrei de fato.
            Os olhos nela põem-se eretos.
            Indiferente que já não enxerguem com a mesma nitidez de antes.
Via claro um delírio de cidade.
Agora caminham os olhos e analisamos sua postura (diz-se de certos olhos que rebolam). 
            Há uma cidade a declinar.
            A cortar em fascículos, acontecimentos, traços distintivos.
            Uma cidade a dividir em subterrâneos, postos de abastecimento, pâncreas.
            Há nela uma cidade que pernoita em carros estacionados.
            Tresnoita em copas pequenas e sujas.
            Uma cidade que contenda, gesticula e chora pelas ruelas do centro, certa de passar despercebida. 
            Uma cidade que me contorna nas praças, fazendo que não me vê.
            Há comércios vazios, comprimentos vazios.
            Há mesmo vazios, dimensões inteiramente desprovidas, fundas, lavadas em luzes brancas, como jamais pensáramos encontrar fora de nossos dons imaginativos.
            Há pesadas esquinas sem nada, ninguém.
            E por vezes escuridão tão densa, tão testuda, que chega mesmo a parecer-nos teatral.

*

            Faço amanhã 32 anos.
O sangue declara o fim de toda peripécia.
O risoto que cismei de preparar resultou, é claro, cítrico demais.
Empedra-se à altura dos pés.
Não quer mais giro, quer um busto de Homero.
Um belo busto de Homero, é o que quer o sangue, o que querem os pés.  
Mas meus convivas são de uma generosidade a todo transe.
Elogiam-me.
            Querem que eu esteja descansado.
            (Pela manhã, o meu namorado põe sobre mim os belos olhos ramalhudos, liga a cafeteira, sorri).
            Mostram a lua, o bolo, perguntam-me que filme quero rever, o que é isto que estamos ouvindo.
            A lua usina metáforas ainda.
Para fazer-se ao mar mais uma vez, o sangue coloca a condição de avermelhá-lo todo.
Não é a primeira vez que o digo.
Para mim, existe apenas a aventura de manter as coisas em seus devidos lugares.
Tratar do bom preenchimento das palavras.
Fazer com que as coisas não se transformem assim indefinidamente, deter – em algum momento – as sucessivas fusões.
Meu insucesso como cronista deve-se fundamentalmente ao fato de quase não ver ninguém ao longo do dia.
Aqueles que vejo, aqueles que amo, mete-me medo escrever sobre eles, medo de sujá-los.
Para mim, existe apenas este medo.
Detê-los, sujá-los.
Água quente e bicarbonato de sódio costumam dar jeito às manchas de café sobre o carpete.
Não é a primeira vez que o digo.
Faço 32 anos amanhã.


*

            Com 32 anos, consigo já inventar um de meus cinco irmãos.
            Uma ninharia, mas é de notar.
            Alguns vão dependurados em montanhas. Outros adentram salões encerados, põem-se à frente de uma congérie de seis ou sete indivíduos sentados em posição de lótus, dizem coisas vagas e alentadoras, ocasionalmente justas, mas apenas ocasionalmente.  
            Alguns já relanceiam para seus filhos pequenos, que caminham próximos demais da borda da piscina. Tratam, nos dias úteis, do papelório referente à dissolução de famílias em pequenos escritórios brancos e bafientos.  
            Alguns marcam em suas agendas uma visita a uma cidade próxima, para a revisão do aparelho auditivo.
            Alguns manuseiam catanas. Alguns passam a tarde dedilhando Greensleeves ao violão.
            Alguns sonham ainda, bem-aventurados, são de uma pureza indescritível.
            Impossível, portanto, de descrever.  
            Entre estas figuras, porém, uma se recorta clara (como um cristal? Como uma imagem?).
            G., uns doze anos mais moço, recreador em hotéis que atendem a região, que passa grande parte do ano em dormitórios improvisados em recantos de horrorosas construções neoclássicas.
            Dias e dias inventando brincadeiras para filhos de fazendeiros.
            Complementa renda produzindo eventos. Raves e coisas assim.
            Provavelmente trafica. Mas nada sórdido.
            Vejo os extensos gramados onde ele se dirige às crianças, sempre aos berros, sempre um pouco mais enérgico que as próprias crianças.
            Sobre todas estas coisas vejo sempre sóis de grande abatimento. Quando há chuvas, são concentradas e torrenciais. Em seguida, uma grossa camada de poeira de barro assenta sobre todas as superfícies, preenche cada ruga do corpo e da paisagem.
            Mas as rugas são assunto meu.
            Há chaves para ver este meu irmão. A juventude. Grande espontaneidade. Caráter agregador. Saúde e astúcia transbordantes. Um descabimento de energia no corpo bem-apanhado. Um rosto como se estivesse sempre a perguntar: “e agora, que vamos fazer agora? ”.
            Que cidade, que festa genial? Que programa?
Falando verdade, um rosto que raramente coloca perguntas.
Mas que se desenha com uma expectação descomplicada, contínua e geral.
Penso que G. é um homem feliz, um homem genuinamente feliz.
Um homem que escapou.
E que nesta escapada, não causou a ninguém nenhum dano irreparável, não se mostrou nem mais nem menos imoral que toda a gente.
Pelo menos é o que parece.
Não desgraçou ninguém, não se desgraçou. Não se tornou um miserável.
            Mesmo quando está na cidade, é raro vê-lo.
            É solicitado por todos. Deseja responder. Dar fluxo. 
            Há sempre algum amigo que acaba de bater com o carro, que acaba de safar-se por um triz.
            Já quis escrever sobre este meu irmão diversas vezes. Lembro, por exemplo, de perguntar-lhe insistentemente sobre o Natal dos recreadores, de pedir uma narrativa. Antes de responder, olhava discretamente para trás, certificando-se de que todas as luzes da casa estavam apagadas. Em seguida, acendia um cigarro de palha com meu isqueiro.
“Não é nada. O que você quer saber? ”
Não, ninguém parece lá muito triste de estar longe dos seus. Há telefonemas, trocas de mensagens, estas coisas. Depois, no refeitório do hotel, come-se com os outros funcionários. A ceia é farta, pelo que posso entender, condizente. Os da equipe de recreação, no mais dos casos ainda mais jovens que G., já estão quase todos empilecados à hora da refeição. Começam a entornar assim que se veem livres das crianças. Mas isto não é só no Natal.
Enquanto fala, seu telefone não para de vibrar, emitir sons. Solicitado sempre, mesmo nestes momentos mais, por assim dizer, contemplativos.
O que você quer saber, então? O que você procura? Alguma melancolia subjacente? Imagens exemplares de alienação, amargura? Uma falta misteriosa? Um excesso igualmente misterioso?
É meu irmão mais nítido, o irmão que pode passar meses sem dar as caras, que quase nunca está lá onde se reúnem os seus, mesmo quando consegue uma folga para visitar a cidade.
O irmão que conduz as crianças por um gramado.
Flautista de Hamelin.
Futuro senador.
O irmão que nos sorri, vivíssimo, ao pegar de uma gaveta do armário da cozinha as chaves do carro do pai.



"Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os
Ilhados
".


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

As Palavras das Cidades



Foi em 2004 que publiquei esta croniqueta. Olha, passaram treze anos. (Não leiam treuze, por favor!). E este verão lembrei-me tanto, lembrámo-nos tanto de Barcelona, cidade das palavras. Segue o velho texto, chamava-se  AS PALAVRAS DAS CIDADES, é capaz de vir a ser o título geral destas  historiazinhas que prometi à minha editora, a Cotovia,  passarinho madrugador como agora eu sou.

“Passava das seis da manhã quando fechei a luz, há muito que não ficava noite dentro a ler, corpo e olhos doridos. Estive a ler El  cuaderno gris, diário de Josep Pla daqueles anos barceloneses de 1918 e 1919. São oitocentas páginas em livro de bolso, traduzidas para castelhano, terei lido metade esta noite voluptuosa ao deus dará.
Casinos, escolas de belas-artes, bebedeiras, jornalismo, aulas, bordéis, as ramblas, o horror pela decoração do Palau de la Musica que agora achamos belo, um permanente ir e vir pela cidade tumultuosa, as inquietações, as leituras, aquele desgosto pelo naturalismo de Zola, a surpresa com Jules Renard, o desprezo por Galdós, o interesse por Ayala, a ânsia por uma outra literatura, mas tudo enquanto se vai e se vem da casa de família,  do verão que avança, da Paquita de umas noites, e os encontros durante o dia e toda a noite com os amigos literatos, os encontros das ruas.
São as primeiras páginas de Josep Pla que leio, ele cujas obras completas perfazem quarenta e seis volumes da mais vibrante prosa catalã; não sei se lerei mais, foi o acaso e a curiosidade que, num domingo de Madrid, me fizeram pegar neste livro, mesmo antes de regressar ao comboio.
E que prazer, que volúpia deambular assim, na companhia de um pensamento, na companhia de um homem inquieto, dias banais, dias intensos, dias como os outros ou dias de excepção, ficar assim a passear até ao mar por uma Barcelona que página a página se me torna familiar, já Picasso se fora para Paris e tudo analisara, cubo após refracção, mas ainda Lautrec lhe iluminava o absinto e a manzanilla.

Há cidades que se fazem palavra, e Barcelona conheço-a das ruas mas também das memórias, dos diários, de Biedma e de Federica Montseny, de Gimferrer e Barral. De Merce Rodoreda, claro (a alegria que tive quando descobri que a Praça do Diamante existia mesmo e ali bebi uma horchata!) Às vezes transformam-se em poesia, Montjuich em Biedma, o cinema Rosales  em Cibeles, Madrid foi feito para o Ruy Belo, o Jardim das Amoreiras  para o José Gomes Ferreira, as Avenidas Nova para a Fernanda Botelho - mas muitas vezes são só estas notas avulsas, estes apontamentos, estas entradas de diário que captam a cidade no seu torvelinho, na sua desordem, no encanto banal das suas ruas esquecidas.

E Barcelona transformou-se em letra, poesia, diário, jornal, romances de Marsé finalmente editados entre nós; há cidades mais cinematográficas, Roma de Rosselini ou da Anita Ekberg, Rimini de Fellini, outras que chamaram a si as cores da pintura, Monet no Tamisa.
Mas eu gosto destas cidades, destas terras que se transformam em letra, apenas letra, letra em movimento, letra incerta, cujo rosto mal vemos, o bairro pobre de San Freddiano nos romances de Pratolini,  Novate nos extraordinários textos de Testori,  a Gândara de Carlos de Oliveira. Que poder é este da palavra para tão bem construir cidades, ruas e labirintos de Dublin e Praga, o sul de Faulkner ou o país impensável de Juan Carlos Onetti, a Buenos Aires estrambótica de Arlt?
Mas é a rudeza do diário, a sua deambulação, o seu inacabado o que me acompanha hoje por uma Barcelona de literatos, soldados, pintores e prostitutas, uma Barcelona que se sonha Paris e vibra naqueles anos esquecidos de guerra e revolução. E que hoje me assombra pelas notas aplicadas de um homem que me serviu de guia, mago e amigo.
Para esta noite, já pus ao lado da cama “A Memória das Palavras” do José Gomes Ferreira, só para me lembrar de Lisboa.
E depois ouço Alicia  de Larocha, ao piano, catalã, pequenina, a tocar o segundo concerto de Brahms, como uma noite, há muitos anos e com sala meio vazia, tocou no Coliseu dos Recreios e me fez renascer esta obra que eu julgava caduca.
Barcelona, cidade das letras, cidade da música, cidade dos cabarés.
Ah, Barcelona, cidade da má vida ali ao Paralelo em redor do “El Molino” que os franquistas proibiram fosse “Rojo”, como em Paris podia ser.
Ah, Barcelona, cidade amada pelo meu pai.
Ah, Barcelona, “mapa de tantas sombras”, como tão justamente lhe chamou a nossa amiga e grande escritora Lluisa Cunillé.


Jorge Silva Melo



Jorge Silva Melo nasceu em Lisboa em 1948, estudou na Faculdade de Letras de Lisboa e depois na London Film School. Crítico de cinema e teatro, encenador e actor, fundador, com Luis Miguel Cintra, do Teatro da Cornucópia, estagiário na Schaubühne - com Peter Stein - e no Piccolo Teatro/ Scala de Milão - com George Strehler -, argumentista, professor, tradutor, ensaísta, dramaturgo, realizador de cinema. Dirige, desde 1996, os Artistas Unidos.