segunda-feira, 4 de setembro de 2017

As Palavras das Cidades



Foi em 2004 que publiquei esta croniqueta. Olha, passaram treze anos. (Não leiam treuze, por favor!). E este verão lembrei-me tanto, lembrámo-nos tanto de Barcelona, cidade das palavras. Segue o velho texto, chamava-se  AS PALAVRAS DAS CIDADES, é capaz de vir a ser o título geral destas  historiazinhas que prometi à minha editora, a Cotovia,  passarinho madrugador como agora eu sou.

“Passava das seis da manhã quando fechei a luz, há muito que não ficava noite dentro a ler, corpo e olhos doridos. Estive a ler El  cuaderno gris, diário de Josep Pla daqueles anos barceloneses de 1918 e 1919. São oitocentas páginas em livro de bolso, traduzidas para castelhano, terei lido metade esta noite voluptuosa ao deus dará.
Casinos, escolas de belas-artes, bebedeiras, jornalismo, aulas, bordéis, as ramblas, o horror pela decoração do Palau de la Musica que agora achamos belo, um permanente ir e vir pela cidade tumultuosa, as inquietações, as leituras, aquele desgosto pelo naturalismo de Zola, a surpresa com Jules Renard, o desprezo por Galdós, o interesse por Ayala, a ânsia por uma outra literatura, mas tudo enquanto se vai e se vem da casa de família,  do verão que avança, da Paquita de umas noites, e os encontros durante o dia e toda a noite com os amigos literatos, os encontros das ruas.
São as primeiras páginas de Josep Pla que leio, ele cujas obras completas perfazem quarenta e seis volumes da mais vibrante prosa catalã; não sei se lerei mais, foi o acaso e a curiosidade que, num domingo de Madrid, me fizeram pegar neste livro, mesmo antes de regressar ao comboio.
E que prazer, que volúpia deambular assim, na companhia de um pensamento, na companhia de um homem inquieto, dias banais, dias intensos, dias como os outros ou dias de excepção, ficar assim a passear até ao mar por uma Barcelona que página a página se me torna familiar, já Picasso se fora para Paris e tudo analisara, cubo após refracção, mas ainda Lautrec lhe iluminava o absinto e a manzanilla.

Há cidades que se fazem palavra, e Barcelona conheço-a das ruas mas também das memórias, dos diários, de Biedma e de Federica Montseny, de Gimferrer e Barral. De Merce Rodoreda, claro (a alegria que tive quando descobri que a Praça do Diamante existia mesmo e ali bebi uma horchata!) Às vezes transformam-se em poesia, Montjuich em Biedma, o cinema Rosales  em Cibeles, Madrid foi feito para o Ruy Belo, o Jardim das Amoreiras  para o José Gomes Ferreira, as Avenidas Nova para a Fernanda Botelho - mas muitas vezes são só estas notas avulsas, estes apontamentos, estas entradas de diário que captam a cidade no seu torvelinho, na sua desordem, no encanto banal das suas ruas esquecidas.

E Barcelona transformou-se em letra, poesia, diário, jornal, romances de Marsé finalmente editados entre nós; há cidades mais cinematográficas, Roma de Rosselini ou da Anita Ekberg, Rimini de Fellini, outras que chamaram a si as cores da pintura, Monet no Tamisa.
Mas eu gosto destas cidades, destas terras que se transformam em letra, apenas letra, letra em movimento, letra incerta, cujo rosto mal vemos, o bairro pobre de San Freddiano nos romances de Pratolini,  Novate nos extraordinários textos de Testori,  a Gândara de Carlos de Oliveira. Que poder é este da palavra para tão bem construir cidades, ruas e labirintos de Dublin e Praga, o sul de Faulkner ou o país impensável de Juan Carlos Onetti, a Buenos Aires estrambótica de Arlt?
Mas é a rudeza do diário, a sua deambulação, o seu inacabado o que me acompanha hoje por uma Barcelona de literatos, soldados, pintores e prostitutas, uma Barcelona que se sonha Paris e vibra naqueles anos esquecidos de guerra e revolução. E que hoje me assombra pelas notas aplicadas de um homem que me serviu de guia, mago e amigo.
Para esta noite, já pus ao lado da cama “A Memória das Palavras” do José Gomes Ferreira, só para me lembrar de Lisboa.
E depois ouço Alicia  de Larocha, ao piano, catalã, pequenina, a tocar o segundo concerto de Brahms, como uma noite, há muitos anos e com sala meio vazia, tocou no Coliseu dos Recreios e me fez renascer esta obra que eu julgava caduca.
Barcelona, cidade das letras, cidade da música, cidade dos cabarés.
Ah, Barcelona, cidade da má vida ali ao Paralelo em redor do “El Molino” que os franquistas proibiram fosse “Rojo”, como em Paris podia ser.
Ah, Barcelona, cidade amada pelo meu pai.
Ah, Barcelona, “mapa de tantas sombras”, como tão justamente lhe chamou a nossa amiga e grande escritora Lluisa Cunillé.


Jorge Silva Melo



Jorge Silva Melo nasceu em Lisboa em 1948, estudou na Faculdade de Letras de Lisboa e depois na London Film School. Crítico de cinema e teatro, encenador e actor, fundador, com Luis Miguel Cintra, do Teatro da Cornucópia, estagiário na Schaubühne - com Peter Stein - e no Piccolo Teatro/ Scala de Milão - com George Strehler -, argumentista, professor, tradutor, ensaísta, dramaturgo, realizador de cinema. Dirige, desde 1996, os Artistas Unidos. 


2 comentários:

  1. Os catalães têm uma palavra para a nossa "saudade", portanto não estamos sozinhos como criamos e como queríamos.
    Sobre "palavras e Barcelona" leia-se ainda o artigo de Félix Cucurull dedicado a Salvador Espriu, para a "Colóquio/Letras" (nº9, setembro de 1972). Link:
    http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/do?author&author=CUCURULL,%20FELIXE

    Paulo Costa

    ResponderEliminar
  2. Paulo Costa, falta o acento em críamos. Volta sempre.

    ResponderEliminar