quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Mata-Borrão

D. Zulmira

Puxam-nas para si, e as linhas, de todas as cores, escorregam do tecto para serem lambidas pelas muitas raparigas que, depois, as enfiam nas agulhas. Elas riem risos pequeninos e curtos enquanto espalham os tecidos nos joelhos. Chupam os dedos que se vão picando, ajustam dedais. O ar é uma serpente de suor ácido que aperta a garganta.

O marido de Dona Zulmira, sentado a uma mesa, lê o jornal, vigia o andamento da obra, cose os olhos nas pernas das aprendizas, não gosta dos passos de sua mulher, vinda do andar de baixo.
Não tinha eu ainda lido Jorge Amado nem visto Bergman. Talvez nem ainda soubesse ler. Gostava de subir aquelas escadas de madeira e prantava-me a olhar.

A senhora dona Zulmira era modista, portanto, muito longe da costureira de obra vulgar e, mais longe ainda, da costureira que ia a casa.

Tinha atelier, o seu ateliére, aliás.

Onde se ouve palavras boas de cantar, entretela e tafetá. Refrões rimados de cós e ilhós. Anatomias cândidas com pinças de peito. Remates minuciosos debruados a cetim. Resoluções corajosas nos cortes a toda a volta. Disfarces pueris com drapeados. Mágoas acolchoadas.

Na saleta das provas, as revistas de muito e bom papel são estrangeiras e chamam-se figurino. Manuseadas. D. Zulmira cospe ao de leve no indicador à procura de redingotes, pregas, evasés. Aconselha, em tom de segredo de Estado, os tweeds, as sedas, os moer, os veludos, as flanelas de lã. No pulso, a jóia cravejada de alfinetes incrustados em esponja cor de peito de rola. Um pouco medonha, aquela pulseira.

E tantas as provas. Tecidos riscados a giz preso a um louva-a-deus gigante que é compasso de madeira. Uma arquitecta, ajoelhada, a Dona Zulmira. Risca o pano em escrita cuneiforme.

Depois havia que esperar pelos botões. Vinham de Lisboa, para onde iam a forrar.  

Maria João Forte é socióloga

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Tuiuiú

Já vivi mais de um quarto dos meus cem anos de vida. De novo um verão que começa frio, de novo duas noites sem dormir a cada sete. E eu arrumo a casa, eu limpo a casa, visto minhas meias de seda e levo o lixo para fora: copos e copos de vidro com luz dentro deles, almofadas, âmbar, tapetes aquecidos no Sol. 
Os dias importantes fogem de mim e me deixam aqui com estes, gelatina quente. Sento sozinha no chão da sala, com os pés na sacada, fumando as bitucas de cigarro que as visitas deixaram. Eu nem ao menos sou fumante, mas gosto de poder parecer uma pessoa bem triste. Visto roupas enormes que prometi guardar, e passo calor dentro delas. Sempre tantas roupas por dobrar – uma vez li que na Inglaterra do século 18, uma mulher gastava 42 dias inteiros por ano lavando, secando e remendando roupas, mil e oito horas no total. As estrelas, os céus, a terra, os elementos, plantas, repolhos, animais, insetos, bezerros, louça por lavar. Sempre tanto trabalho.
Meu aniversário foi há menos de um mês, gostaria de ter ganhado um animal de grande porte. Um que me impedisse de sair de casa, que me fizesse perder tudo o que pode haver de importante em qualquer dia que seja, tudo o que acontece no mundo. Ficaríamos aqui dentro, eu e meu animal gigante, compartilhando calor.
***
Levanto e vou ao mercado buscar coisas para o almoço, já tarde. Quando saio do caixa, vejo que começou a chover. Eu também já tive um guarda-chuva um dia, mas isso faz tempo, e além disso, tanto faz. Saio andando com as sacolas numa mão, e com a outra abro o pacote de bolachas de água e sal. Vou por um caminho mais longo porque é menos desolador tomar chuva em ruazinhas do que numa avenida. Comendo bolacha de água e sal, bolacha de chuva. Escuto o vendedor de laranjas no megafone repetindo “laranja é natural”.

Ontem fui com minha amiga Milena e seu porquinho da índia no veterinário. No caminho, ela me contou de quando era criança e ia cuidar da horta com os irmãos. Que ela virava um pé de alface. Ficava parada, de cócoras, esperando, e alguém tinha que vir regá-la. Pouco tempo depois, todos aceitaram que ela era um cachorro, e comia no chão, deitada sobre as quatro patas, o rosto dentro do prato. No final de semana ouvi seu irmão dizendo – mas não era comigo que ele falava – que o homem ainda não entendeu seu lugar na natureza. Estava de costas para ele e fiquei satisfeita, continuei regando.


Sofia Nestrovski nasceu em São Paulo, em 1991. Cresceu no meio do milharal dos Estados Unidos, voltou para São Paulo mais tarde. Faz mestrado sobre o poeta William Wordsworth na Universidade de São Paulo, dá cursos sobre Shakespeare, assina uma seção semanal sobre palavras no jornal Nexo, escreve resenhas para a revista Quatro cinco um. Também luta Kung Fu, mas não muito.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Aborrecimento, quase poesia





XIV: A Tirania do Acontecimento

           Tirania do Acontecimento

            Excetuo nascer. Isto foi um incidente que sobreveio a meus pais, não a mim. A mim, se me aconteceram três coisas nesta vida, foi muito.
            A primeira, penso, foi o postal das costas da Esfinge.
            The Back of the Sphinx, lê-se a um canto. E também a data, que já não me lembro. Anos 1930, talvez.
            Quando caiu em minhas mãos, pensei: “Isto nunca me ocorreu”.
Nunca me ocorrera que a Esfinge pudesse ter costas, pudesse ter uma traseira. Nunca me ocorrera que a Esfinge fosse, de fato, uma coisa com lados, com dimensão. Não me ocorrera pensar na Esfinge como algo posto no mundo por mãos de homem.
            Mãos, também eu as tenho.
Eram inseparáveis. Enigma e Esfinge. Tanto que se fundiam para mim numa coisa só, não exatamente material.
Penso que o mistério ganhava. Que havia ali um comércio escuso de representações e que o mistério ganhava.
Mas agora há essa imagem. Um documento. Ela traz consigo uma separação de qualquer espécie. A imagem se coloca como uma cunha entre estas duas coisas, forçando-me a considerá-las insuladamente.
Lembrei de uma anedota contada por um amigo. Sua avó, quando soube que uma filha sua pretendia batizar de André o bebê que esperava, esbravejou: “Neto meu não vai se chamar André, é nome de palhaço”.
Perguntaram-lhe então por que achava isso.
Ela contou que, certa vez, em menina, fora a um circo e vira apresentar-se um palhaço de nome André. E portanto, André era nome de palhaço.
Agora, entre a Esfinge e o que tenho por mistério, há um postal amarelado de anos.
Desde que o tenho, não sou mais a mesma pessoa.
Telefono para amigos depois do jantar. Aflijo-os.
“Adventício, é você?”
“Sei que uma mudança foi posta em marcha, sei que estou me transformando, mas não sei em quê”.

A segunda coisa foi aquele homem parado à saída do metrô. Jamais saberemos – aleluia – se tinha os papéis em dia. Impunha-se ao sobe-e-desce somente por força de imobilidade. Cabal. Perfeita.
Pormenorizá-lo seria tão ingrato quanto descrever a traseira da Esfinge. É possível que trajasse paletó, gravata. Panos cinzentos sem desmentir o dia. É possível que tivesse um relógio. É possível que tivesse rosto longo e equino, queixo afilado, e pelo queixo, uma aspereza de fim de expediente.
Sim, tudo isto é possível. O horário de verão, a pressa dos circunstantes, a procura de abrigo. Bastava-me, no entanto, saber que estava lá, que existia, que se contava entre as coisas do mundo, como de resto ainda me basta.
Talvez não me acreditem. Seus gestos não eram mesmo credíveis. Seu gesto, posto melhor, que era um só: a boca aberta, fazendo como se fosse gritar.
Não era convulsivo. O grito não movia o pescoço, parecia estar preso mais abaixo, no tórax, ali onde a voz não é nem mesmo uma sombra. Embora estivesse a metros de distância, sou capaz de jurar que não emitia sequer um balbucio. Ele tinha, portanto, dois fascínios: a imobilidade e o grito que não vinha.
Fixando-o, senti tremer o maxilar.
Passavam por ele, pelo maxilar, figuras igualmente incaracterísticas. Algumas o metrô acolhia, outras devolvia para a tarde. Uma destas tardes abafadas de verão com todos os bairros contraídos.
Nestes momentos, é nos corpos que as tempestades vão se armar. Sei disso pois à época andava assistindo a muitos documentários sobre relâmpagos e demais fenômenos atmosféricos. Ajudavam-me a pegar no sono.  
Conhecemos, por alguns instantes, o peso das nuvens que breve descarregarão sobre a cidade. Conhecemos as torres escuras que se arrastam sobre as torres. Conhecemos as torres intimamente, porque é nos corpos que elas se arrastam.
Pensei de mim para mim que aquele homem desabava, que já não podia com as aberturas, que as gotas de chuva deviam atingir sua testa como murros. Foi nesta altura que abri o guarda-chuva.  

A terceira coisa foi também homem, mas era outro. Veio me pedir um cigarro no meio de uma praça.
Quanto a isto, meu código de conduta sempre foi o mesmo – dar tudo que me pedem, sem desmentir o dia. Palavra que teria mesmo ido com ele, se me tivesse pedido para acompanhá-lo. Teria ido com ele sem questionamentos de qualquer espécie. Porque era um homem bastante alto. Tão alto que, ao falar, vergava-se um pouco sobre mim.
Estas coisas, se não nos acautelamos, confundem-se facilmente com o amor.
Pensei então, enquanto o rapaz me fazia sombra, que não tinha clareza alguma no tocante às mais simples questões; que não sabia – honestamente – se era do meu interesse, por exemplo, morrer ou seguir vivendo. Vivia, morria, é claro, no passo de todos. Mas os desejos, as vontades, estes escapavam sempre. Já não sabia como era possível estar no mundo sem clareza. Já não sabia como pudera suportá-lo esses anos todos.
Pensei, portanto, em coisas claras. Inscrições em monumentos, cinejornais, dicionários, placas de trânsito, enciclopédias, cardápios, circulares afixadas às paredes de elevadores, guias de toda espécie. Lembrei de um manual de anatomia que vira certa vez num sebo, que não comprara então porque me percebia – como, como? – entendido de corpos.
Pensei em coisas que significavam claramente. Pensei que deveria voltar o quanto antes àquele sebo e comprar o tal manual de anatomia – Anatomia para Artistas, chamava-se –, livro antigo, volumoso, respeitável sob todos os aspectos. Pensei que era tempo de me reiniciar nos corpos, que não os conhecia absolutamente, que os conhecia apenas por pontadas, por pruridos, que isto era um equívoco terrível.
Pensei como se olhasse para cima, olhei. O sujeito levava a chama do isqueiro ao cigarro que eu acabara de lhe passar. Havia na praça uma igreja e sob o olho direito do sujeito uma lágrima tatuada, coisa que me comoveu um bocado. Foi reparar que estava tocado que o homem se voltou e foi ter com mais alguns homens acocorados diante da igreja, todos de gorro.
Naquele momento, não me separei de mim mesmo. Talvez não me acreditem, afinal, teria sido este o curso natural dos acontecimentos. Não segui nem a ele nem a mim mesmo. Permaneci por alguns instantes lá postado, no centro da praça.
Não era exatamente o centro da praça. Mas sempre nos julgamos no centro de qualquer coisa.
Calculei quanto tempo tinha até o fechamento das livrarias. Não era muito e a amiga por quem esperava na praça despontava já por detrás de um gigantesco monumento à República. Contei o ocorrido. Ela me informou que este tipo de tatuagem geralmente pretende indicar ex-presidiários.
“Ah”, aflautei-lhe então.
Eu pensava numa esfinge com a boca aberta. Eu pensava numa esfinge coçando os quartos. 







Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados.


            

terça-feira, 14 de novembro de 2017




Deve ter razão o Kenneth Goldsmith, poeta experimental e idealizador do fabuloso site UbuWeb, quando diz que o verdadeiro flâneur do século 21 não é mais, como no século 19 de Baudelaire, o sujeito que fica vadiando por ruas, avenidas, becos, portos, bares de sua cidade, disponível para uma rápida surpresa passante, mas sim o que vaga horas e horas pelas infovias da web. Na Colômbia passa horas flanando pelas noites brancas de São Petersburgo. No Rio de Janeiro, via Google maps, satélites, street view, observa gentes, lugares, filmes, canções, sites, lives, para um romance que se passa na Austrália, onde jamais pôs os pés.
Mas aquele dia, no centro do Rio de Janeiro, andando, com certo tempo livre, pela Rua México, na esquina com Santa Luzia, me deparo com aqueles olhos-que-vão-além da poeta Luiza Leite brotando enormes sobre uma tigela de cuscuz que tinha acabado de comprar num ambulante. Passamos semanas tentando combinar um encontro e nunca dava certo. Mas os deuses queriam que desse e ali estávamos, esbarrados, por coincidência. Subimos para a Cosmos, sala onde se elaboram hoje algumas das coisas mais criativas em termos de arte ativa. Lá vi o céu do Halley, vi o sal virando mar em cima de uma mesa, a linha reconhecível de Tatiana Podblubny tomando a parede de desenhos. Conversa foi, conversa veio. Ganhei da Luiza o belíssimo livro artesanal Como construir um modelo vivo, dela e da Tatiana, cuja versão eletrônica pode ser vista aqui:



Mas aí já era hora de correr pro MAM, Museu de Arte Moderna, pois precisava encontrar a artista plástica Carla Guagliardi que, como finalista do Prêmio Pipa deste ano, tem um trabalho ali exposto: “Fuga”. Uma linha escarlate que escapa de uma parede de concreto e atravessa tubos dourados fixados em blocos de cimento compondo uma espacialidade nova, uma hipótese espacial, o que me lembrou que quando dava aulas na Biblioteca Parque de Manguinhos, comunidade bastante carente da zona norte do Rio, uma das minhas grandes e gratas surpresas foi ouvir da aluna Eva (13 anos) que sua leitura preferida era a mitologia oriental, em especial a história segundo a qual uma linha escarlate presa ao nosso dedo mínimo nos une a uma outra pessoa em qualquer parte do mundo que, sem ser a outra metade da sua laranja, é o outro extremo da nossa linha escarlate. Um deslumbre essa fuga móvel e imóvel da Carla.




Saímos dali e, ainda na bela passarela que leva do MAM ao centrão, Carla foi me apontando detalhes da cidade que eu nunca tinha percebido. É impressionante passear ao lado de um artista plástico, que vai sempre vendo formas e diferenças onde a gente vê sempre o homogêneo. Uma das raras vezes em que lamentei não ter celular foi durante esse curto passeio, em que ela me mostrava como em meio a tantos bancos de pedra perfeitamente dispostos havia um em que uma pedra meio tombava sobre a outra, ou melhor, subia sobre a outra, e como era justamente ali que duas mulheres escolheram para sentar, ou uma faixa de trânsito que, na avenida Beira Mar, perde o rumo e sobe a calçada.

Além de ficar me mostrando todas essas formas mínimas ou máximas, mas sempre inesperadas, da cidade, Carla seguia me contando como acabou se tornando amiga de Stela do Patrocínio, na Colônia Juliano Moreira, e como acabou realizando as gravações que geraram o “livro de poemas” de Stela, que a tornou conhecida por um maior número de pessoas.
Um barato ouvir Carla falando que a voz de Stela trazia, invisível, porém mais nítida do que qualquer outra pessoa que conheceu, a própria e especial pontuação. “Dava para ouvir suas vírgulas, seus pontos finais ou de exclamação”.
Um poema de Stela:

É dito: pelo chão você não pode ficar
Porque lugar de cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo
Pelas paredes você também não pode
Pelas camas você também não vai poder ficar
Pelo espaço vazio você também não vai poder ficar
Porque lugar de cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo



[Na Wikipedia, a Colônia Juliano Moreira é assim descrita: “A Colônia Juliano Moreira é uma instituição criada em Jacarepaguá,em Taquara e Curicica,[1] na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil, na primeira metade do século XX, destinada a abrigar aqueles classificados como anormais ou indesejáveis, tais quais doentes psiquiátricosalcoólatras e desviantes das mais diversas espécies. Hoje, a área da colônia também serve como residência para milhares de pessoas, além de abrigar o Museu Bispo do Rosário.”]

*


E ocorre que passando pela Biblioteca Nacional esbarramos numa bela concentração de artistas plásticos e interessados em artes plásticas (para mim a alegria maior, contudo, foi encontrar o amigo Deocleciano, aluno também lá da Biblioteca Parque de Manguinhos, que me disse que não perde uma palestra dos ciclos organizados pela Biblioteca Nacional, e a artista plástica ultra-jovem Maria de Laet, uma das que mais me faz pensar para além do pensável, se isso faz algum sentido). Todos estavam ali para assistir o debate sobre artes plásticas com Paulo Sérgio Duarte e Luisa Duarte. Vamos nessa.
Da fala de Paulo Sérgio Duarte, que não vou conseguir reproduzir aqui, recordo que me impressionou a passagem em que disse que via nos artistas de sua geração (Antonio Dias, Waltércio Caldas, Lygia Pape, Sérgio Camargo etc) uma enorme exigência reflexiva somada a uma impressionante contundência plástica, mas que na maior parte dos artistas atuais apesar de também enxergar essa contundência plástica, não via muita exigência reflexiva, que parecia ser substituída agora pelo “tema”, pelo “assunto”.

Mas com o perdão do grande Paulo, o que eu gostei mesmo de ouvir foi a Luisa dizendo que apesar de ter sido formada desde a infância nesse ambiente (Luisa é filha do Paulo), descobrir, aos 15 anos, Nan Goldin e Louise Bourgeois foi uma pequena revolução, um pequeno caminho empoeirado e à margem que foi dar em um outro universo. Só lembrei daquele texto de Bataille que dizia que todos vivemos tirando, todos os dias, poeira das coisas, das mesas, dos livros, e que no dia seguinte ela volta a aparecer ali, o que significa que um dia ela vai vencer.

Tive que sair pouco antes do fim do debate e saí com a cabeça tão sacudida por tudo o que vi e vivi nessas poucas horas de centro da Cidade que pensei que deveria ao menos anotar num papelzinho qualquer essas coisas, que acabaram, hoje, virando esta crônica para um blog que só um flâneur de internet vai ler. Que a escreva justo no dia em que, flanando também ao acaso, no centro da cidade, encontrei na Livraria Berinjela o poeta, irmão, amigo Ricardo Aleixo, que está no Rio de Janeiro para lançar seu potente ANTIBOI, faz muito sentido, pois esse encontro gerou outra caminhada pelo centro da cidade, junto com o grande em todos os sentidos Thadeus Santos, caminhada tão cheia de ideias e afetos que só mesmo reservando outra crônica para ela, porque essa aqui já foi.



Carlito Azevedo
(Poeta brasileiro, publicado pela Cotovia)

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Mata-Borrão



Nasceu-me uma oliveira

E chegando, anunciou que se fizesse em mim a sua vontade. Nasceu-me então uma oliveira.
Por muito ter vivido, a memória tornou-se fragmentada, contudo, intensa e persistente.
Guardei as vagens negras de alfarroba, envernizadas e muito tristes, lágrimas de um jurássico não datado, roídas nas bocas das mulas, dos burros, dos cavalos, nas mós dos homens.
Guardei figos, como um pastor que não sai do seu lugar. Via o sol que os secava. Pingos de mel mirrados, servidos em bandeja no Olimpo. Deles se fazia queijo ou flores de pétalas recortadas e corolas resistentes, nem sempre amargas. Amêndoas essas transformadas em vapor no inferno do alambique, gota a gota. O cobre, ainda com restos de medronho, a cuspir águas ardentes.
Guardei a cal, lambida pelas osgas, que me vestia e nascia em fornos, na serra, onde havia javalis, raposas e coelhos.
Guardei a paciência das mulheres em cestos de empreita.
Guardei o sabor do xerém, comido a partir dos bordos do prato, salvando a língua do calor. O travo salgado do toucinho na manta aveludada da farinha de milho.
Guardei o medo dos lobisomens, amantes sazonais dos caprichos da lua. Aquele vizinho, afinal tão igual aos outros quando era dia.
Arrancaram-me as telhas, uma a uma. Ofereceram-nas, uma a uma também, aos turistas que, encantados, lhes pareceram muito típicas.


Maria João Forte é socióloga

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Aborrecimento, quase poesia


XIII: Um Mito de Origem


            Durante alguns meses, a impressão de isolamento foi quase total.
A vizinha do lado teve um sucesso qualquer na vida e mudou-se. Levou consigo um silêncio estudioso, uma realidade, dedirrósea cabeleira, os trajes de ginástica.
O outro apartamento que limitava com o dela não via inquilino desde a minha chegada. Apenas névoa, névoa e paredes.
O meu, de fundos, sempre por descrever, situado a uma das extremidades de um corredor insaciável de esquivas e cotovelos, como que perdia arredores com o passar do tempo, vogando perigosamente para o centro.
Um centro.
Os demais moradores do andar – por que não dizer do edifício inteiro? – resumiam-se a uma banal fantasmagoria de passos, portas batidas, ondeantes pancadas no encanamento. Decerto, havia entre nós mais eco que som. Talvez eu deva grafá-lo em maiúscula. Era perfeitamente possível ouvir, às tardes de quarta e sexta, a varredura, o arrastar de baldes, o zumbido da enceradeira a deslizar sobre o piso da portaria.
Depois, conformaram-se os demais dias da semana.
Com os elevadores.
Os elevadores corriam silenciosos, sepulcros bem azeitados. Não sei se entre os condôminos havia alguém que tratasse das próprias refeições. Muito me surpreenderia. A região é bem servida de restaurantes populares.  
Em seguida, vieram as ervas, posteriormente tipificadas em boas e más. De suas sementes, que o vento espalhava pelos pátios e terraços como uma pequena e exangue daminha de honra, cresceram bufês vegetarianos, as promoções das pizzarias...
Houve mesmo uma ocasião em que ficamos sem luz.
Digamos que tenha sido a explosão de um transformador aqui pelas redondezas o que nos lançou definitivamente na longa noite do Não-Ser. Tivemos então de usar as escadas, onde Eco estava sempre em vias de se corporificar em algo: um vizinho, um loureiro, uma lata de lixo.
Descia-se pianinho, sob o fio de uma súbita precipitação.  
Já o edifício cujos fundos ocupavam quase toda a vista da minha sacada, este nunca dera mesmo mostras de ser habitado.
Sumida a vizinha, criou-se a vizinhança.
Os Oceanos remoinhados, os Animais...
Estes pareciam calmos, mas ofereciam um problema de escala.
Talvez não estivessem calmos. É concebível que isto tenha se dado antes do surgimento das expressões.
Durante um breve entretempo, então, fomos o Primeiro Homem. O Primeiro Homem a se pronunciar, pelo menos. O Primeiro Homem a não ter o que dizer.
Nós sabemos.
Porque sei que vou morrer – voltaremos a isto mais adiante –, porque sei que tenho em minhas mãos um signo barricado em cujo interior minha morte é incessantemente elaborada e reelaborada, começo a construir um personagem.
Um nexo, uma “consciência”.
Um centro.
Um centro que siga.


            


Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados.