terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Invisível

1

Era uma vez duas irmãs. De repente era só uma, a mais nova. Ela se chamava Sofia, mas se vocês preferirem, pode ter outro nome, algum que seja bom de falar. Papoula, por exemplo. Papoula é ótimo de falar. Mas eu resolvi chamá-la de Sofia, e ficaremos bem desde que vocês saibam que esta é uma decisão minha e vocês não precisam aceitar minhas decisões. Eu só queria que vocês não confundissem a Sofia comigo. É uma complicação que eu criei aqui, e eu gostaria de evitar as complicações, se possível. Mas se coloquem no meu lugar por um instante: meu nome não é Sofia, não para mim, pelo menos, porque quando eu paro e olho e tento agarrá-lo dentro da minha cabeça, ele imediatamente se transforma em Aifos. Aifos Iksvortsen. Como acontece com todas as minhas ideias.
Um dia, muito tempo atrás e muito longe daqui, a Sofia que não sou eu era criança e morava numa casa que ficava na frente de uma grande árvore. A Sofia era exigente, e sabemos disso porque ela lia muito, a ponto de não ser amiga de nenhuma outra criança, nem de ninguém. Então ela vivia sempre sozinha, conversando com as próprias ideias e olhando para o chão. A coisa que ela mais gostava de fazer era fugir de casa. Um dia descobriu que algumas partes na base do tronco da grande árvore do quintal já pareciam isopor — tinham virado uma madeira fofa e desagradável, como as maçãs mais tristes do mundo. Foi nesse isopor que a Sofia conseguiu cavar um vão grande o bastante para entrar e ficar, ficar no coração do tronco. Cabia ela e mais ninguém. A árvore continuava viva. Os animais achavam que ela era a árvore, as plantas talvez achassem também (não tenho certeza) e era muito bom. Que surpreendente que é ficar dentro de uma árvore viva. Ela te cobre mas você não encosta nela, nem quando abre os braços, nem quando planta bananeira. Dentro da árvore. Vocês já entraram num útero? Então. Agora a coisa preferida da Sofia era fugir de casa e ficar escondida na árvore.
A Sofia também achava que fugir de casa era muito bom, porque você arruma uma mochila e nunca mais volta e é tudo culpa dos outros. Nessa mochila tem: uma boneca de plástico de feições redondas, mostarda, e todos os segredos que importam. Por exemplo: o segredo dos gigantes. O segredo é que são gigantes que deixam as marcas de sapato no cimento das calçadas. Só eles são pesados o bastante para marcar o cimento, mas têm pés pequenininhos, do tamanho dos nossos, então saem à noite, quando todos estão dormindo, para não passarem vergonha. Por isso que ninguém nunca viu os gigantes, eles têm vergonha dos pés. Outro segredo: a Sofia é tão bonita por dentro quanto por fora. É difícil encontrar outra pessoa que seja assim. Na maioria dos casos, as outras pessoas são um saco.
Quando a Sofiazinha se escondeu dentro da árvore pela primeira vez, ninguém sabia onde ela tinha ido parar, e todos ficaram desesperados, inclusive sua mãe, apesar de ela ter feito sua sequência completa de tai chi naquela manhã e tai chi é a única coisa que impede as mães de ficarem desesperadas! Vocês não imaginam como seriam as mães sem tai chi! Aquele dia foi ótimo, a Sofia conversou com as minhocas.
No dia seguinte, a Sofia tinha mais alguns segredos acumulados para guardar na sua mochila, mas esses nem eu sei quais são. A verdade é que ela tinha que ir cedo para a escola, então os segredos ficam para depois, eles nem pertencem aqui porque segredos são sempre interessantes e escola é sempre um téééédio. Mas não era tédio que ela dizia, porque naquela época ela falava outra língua, uma que fazia tédio soar muito mais redondo, como deve, porque o tédio é um planeta. Era lá que a Sofia era obrigada a passar a maior parte dos seus dias.  Ficava horas sem saber o que fazer com os próprios braços — se os amarrava à frente, ou deixava pendurados ao lado do corpo, ou se valeria a pena dobrar os cotovelos. E depois que se resolvesse a questão dos braços, o que fazer com a quantidade de tempo que tinha nas mãos? Nos momentos em que a Sofia saía do tédio e vinha para a terra comum, só conseguia falar com muito vibrato, para que todos ao redor soubessem que ela estava sofrendo.

[to be continued em um mês, aqui.]


Sofia Nestrovski nasceu em São Paulo, em 1991. Cresceu no meio do milharal dos Estados Unidos, voltou para São Paulo mais tarde. Faz mestrado sobre o poeta William Wordsworth na Universidade de São Paulo, dá cursos sobre Shakespeare, assina uma seção semanal sobre palavras no jornal Nexo, escreve resenhas para a revista Quatro cinco um. Também luta Kung Fu, mas não muito.


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Aborrecimento, quase poesia





XV: As conversas

“Que fazem as conversas?”.
            “Meandram. As conversas meandram de sombrinha em punho. Fazem footing.”
            “Que operações são postas em marcha?”
            “Paranças, vaguear à procura de banco vago, debruçar-se a parapeitos...”.
            “Encantar-se”.
            “As conversas focinham. Focinham, desordenadas, atrás de uma Arquipalavra”.
            “Aquela que a silenciará, aquela que colocará fim”.
            “As conversas, as pessoas. Tudo pede ser silenciado.”
            “É isto que corre por debaixo das conversas?”
            “Penso que sim”.
            “Mas as pessoas são os cafés, os terraços. São onde se conversa”.
            “Também eu. Há muito que penso nos sonhos como habitações, como espaços físicos. Às vezes, é como se eu pudesse tocar no papel de parede”.
            “Os raminhos traçam as veias e as artérias”.
            “Os raminhos são os nervos”.
            “Antes das conversas, não estaremos em silêncio?”
            “Não é bem o silêncio. É um inacabamento qualquer. Um estado de insaciedade”.
            “Que relação se pode estabelecer entre esta insaciedade e o escambo de signos e significantes a que se nomeia diálogo?”
            “Come again?”.
            “O que são amenidades?”
            “Não sei. Há tempos não tenho conversas amenas”.
            “Nos elevadores?”
            “Não tenho o costume de apanhá-los cheios”.
            “Gostaria de ter mais conversas amenas?”
            “Sim, mas por que admiti-lo em público? Seria como uma capitulação. Seria como confessar publicamente desejos de ligeireza. Não quero ser visto como um homem frívolo e barato”.
            “Repita alto e bom som”.
            “Alto e bom som”.
            “As conversas não encontram alguma coisa”.
            “É uma ótima definição”.
            “As conversas não encontram alguma coisa”.
            “Perdem uma carteira, um broche, um documento importante”.
            “Uma chave”.
            “A aldeia inteira”.
            “Como é difícil decompor um diálogo, não? Parece-me quase impossível isolar seus elementos constitutivos”.
            “Com efeito, parece mais fácil compô-los do que decompô-los. Tão fácil que tem um ar de trapaça”.
            “Certas pessoas parecem mesmo fadadas a construir, a não parar jamais”.
            “Isto me escandaliza”.
“O bom das conversas é ver como preenchem”.
            “Não é? Se ao menos isto fosse a vida. Uma maneira de ganhar o pão”.
            “Você estaria disposto a algo parecido? A conversar indefinidamente, a falar, a falar sem cessação, só para manter sobre a cabeça um teto; sobre o pescoço, uma cabeça?”
            “Por que não? Há precedentes. Além do mais, sinto que não me sairia mal entre os frequentadores do Algonquin”.
            “Então é uma arte?”
            “Sim”.
            “Mas é uma arte servil?”
            “É uma arte de corte, sem dúvida”.
            “Tenho a impressão de que aqui só se conversa sobre duas coisas. Finanças e saúde. Sempre com alarme. As pessoas precisam pagar boletos. As pessoas precisam fazer exames. Sempre essa toada. Quando não é isto, fala-se da saúde dos outros, das finanças dos outros”.
            “Com alarme?”
            “Com alarme e prazer”.
            “Bom, isto já foi dito. As conversas perdem a carteira. São onde se perdem as carteiras. Os exames. Os papéis importantes”.
            “A saúde. Idílios praianos. Estâncias de veraneio. Horas descomplicadas de amor”.
“Bom, resta sempre a possibilidade da mentira, da invenção”.
“Idealmente, sim”.
“Não me compreenda mal. Não gosto que me mintam.”
“Eu tampouco”.
 “Tomo tudo ao pé da letra. Dizem-me as coisas mais delirantes. Não apuro. Não questiono. Recebo notícias de fraudes sem grande surpresa. Parece-me, por assim dizer, parte da coisa toda”.
“Boa solução. Assim caminha-se pela vida sem tantos esbarrões”.

           
           
                       
           






Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados.