quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Tuiuiú

Na verdade, isso que você me propõe é o que eu sempre quis. Quase sempre, isto é, depois que superei a época de querer ser princesa, astronauta da Nasa, cientista da Nasa; esta última durou um pouco mais do que as outras. Depois quis ser bonita ou amiga do Harry Potter. Nasci no final de 1991, tenho vinte cinco anos e meio, hoje é um sábado chuvoso e frio, acordei tarde e continuei na cama, assistindo desenho animado. Fui sozinha à padaria tomar café da manhã ao meio-dia, a chuva me pegou no caminho porque não tenho guarda-chuva, depois voltei à cama e às cobertas para ouvir James Blake e ouvir Frank Ocean. Li um gibi. Estou intensamente tranquila.
Sempre quis, como dizia, sempre quis ser alguma coisa. Nem sempre é fácil ser coisa quando você já é logo de cara uma pessoa, especialmente uma pessoa cujo sobrenome tem mais de três sílabas, isto é, alguém para quem a consistência humana pesa, como pesam os nomes longos. Meu sobrenome materno, “Scarinci”, veio da Itália, da ponta onde a bota embica. Meu avô, de quem herdei o nome, na verdade era romeno, mas foi adotado por um italiano chamado Temístocles que era casado com uma egípcia chamada Eva, eles eram do circo. Meu avô foi adotado pelo circo – que vida extravagante e apaixonantemente triste, solitária e livre e sonolenta como um sonho antigo. Ele passou os anos de amadurecimento sendo serrado ao meio, e não vou dizer se esta era ou não uma metáfora de sua vida. Mal o conheci, para ser sincera. O nome Scarinci, quando veio da Itália, na verdade era Carinci. Mas por causa de uma briga, parte da família decidiu que seria Ex-Carinci, gosto dessa ideia, não assumir um nome novo qualquer, mas assinar seu próprio nome como despertencimento. “Quem é você?”, “Sou Ex-eu”.
Você deve achar que eu sou muito jovem e que falo coisas de uma pessoa muito jovem. Mas este não é o momento para isso. O exercício que você me propôs é o de ser alguma coisa. Alguma coisa bem linda, eu espero, como um umidificador de ar, uma lâmpada, que delícia, um pedaço de madeira. Como é bom pensar em madeira. Na peça do Shakespeare, quando vemos Hamlet pela primeira vez, ele está sozinho, num canto da festa, vestido inteiro de preto, um pouco como eu aos 14 anos. Em seu solilóquio do ato 1, cena 2, diz algo estranho, “Oh that this too too solid flesh would melt”, “que esta carne tão tão sólida derreta”. Algumas edições acham que isso só pode estar errado, e corrigem para “sullied flesh”, “carne impura”. São meio moralistas. Outras colocam uma vírgula separando “too, too”, como se precisarem dar a ênfase dramática da pontuação a algo que já é dramático, mas que é também estranho e perfeito, too too, como um passarinho. Hamlet é sólido. Sente que suas pernas são demasiadamente pernas e seus braços com certeza não são de éter e sua cabeça – como pode sua cabeça? Tão cabeça. Depois, não é de se surpreender que ele passe a odiar a namorada e a mãe, elas têm tanta carne! O que só pode querer dizer que ele é feito de carne também. Nesse começo da peça, enquanto Hamlet ainda é muito jovem, ele diz que seu poema preferido do Drummond é “Relógio de Rosário”, "E nada basta,/ nada é de natureza assim tão casta/ que não macule ou perca sua essência/ ao contacto furioso da existência”.
Que verso lindo e fútil. Fútil sim, tenho um pouco de raiva dele, assim como tenho raiva de alguns homens. É que penso que não há, ou não vale a pena haver essência descolada da existência. Tudo o que é sólido existe e é bom. Pirâmides do Egito, sapatos, as coisas felizes e mudas olhando para nós. Você também. Gostaria de te conhecer. Sou feita de quatro paredes e algumas pedras nos bolsos, dois olhos e uma gata adormecida aos meus pés.





Sofia Nestrovski nasceu em São Paulo, em 1991. Cresceu no meio do milharal dos Estados Unidos, voltou para São Paulo mais tarde. Faz mestrado sobre o poeta William Wordsworth na Universidade de São Paulo, dá cursos sobre Shakespeare, assina uma seção semanal sobre palavras no jornal Nexo, escreve resenhas para a revista Quatro cinco um. Também luta Kung Fu, mas não muito.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Mata-Borrão





O mê é que nunca aprendi


Tive doze filhos vivos e outros tantos mortos. Era com um raminho de salsa, com o talo. E olhe que nunca alcancei. Faria se alcançasse! Dizem que a gente emprenha se alcança. Olhe lá!
Tropeçava eu na forma como secava os olhos, passando-lhes os dedos de pele grossa, tratados a lixívia, ó menina a água lava tudo. Tropeçava eu também nas gargalhadas dela, como daquela vez que estava a servir, longe de Lisboa, nuns senhores que tinham terras, bomba de gasolina, uma farmácia e animais. Fazia de tudo, aprendi lá muito. Havia até um rapaz que andava atrás de mim. Fui burra, não o quis. Então eu levava a vianda aos porcos e nasceu um bacorinho. Todos os dias lhe fazia festas e quando ele começou a comer, guardava-lhe tudo o que era bom. O bicho já me conhecia, parecia gente. Mas fez-se gordo e eu já não podia passear com ele na quinta.
Um Domingo, fui à missa e a igreja tinha umas grandes escadas. Estava lá dentro e ouviu-se um barulho que parecia um porco a grunhir. E era ele. Subiu aquilo tudo e entrou, a ver de mim. Chegando a casa, a senhora e o senhor ralharam muito. No Natal não o mataram, tanto lhes pedi. Morreu de velho, ainda comigo lá.
Não sou de padres, mas rezo todas as noites pela pessoa que me ensinou a escrever o nome, o mê é que nunca aprendi, tem muitas voltas. Rezo pelo homem que me vendia o leite fiado, pagava sempre tudo. Ainda hoje, quando vou pagar a luz, é uma alegria. Gosto de pagar as coisas e de rezar por quem me fez bem e já lá está. São alminhas.
Cheirava a cera, a cantiga que cantava vezes sem conta. Já passei a roupa a ferro, já passei o meu vestido, amanhã vou-me casar e o Manel é meu marido.
Ai que os meinhos são para as senhoras. Os meinhos, aquilo que se vê. E dava lustro debaixo das camas, zap, zap, já passei a roupa a ferro.
Isto queria-se era com goma. Os bordados põe-se um turco molhado por baixo. Dá-se-lhe goma, uma farinhazinha. Agora já não. Agora é só aspiradores e esfregonas. Eu gostava era dos amarelos, esfregava-se muito bem, ficavam a luzir, bonitos. E as escadas, com sabão amarelo, parecia gemas. Já passei o meu vestido.
Na minha terra não havia queijo. Mas eu vi uma rapariga a pôr aquilo no pão e pedi à minha mãe. Fazia anos. Ó minha mãe, eu gostava de comer queijo. Ela era boa mulher e o que é que havia de pensar. Ir à mata dos patrões e apanhar cogumelos, a fazer que era queijo. Foi apanhada pelo capataz e tiraram-lhe a féria. Ela ganhava à féria. Agora posso ver muito queijo que não lhe toco. Amanhã vou-me casar.
Andava sempre bêbado e eu apanhava todos os dias. Ia trabalhar negrinha de todo. O pior era quando não tinha reacção. Que culpa tinha eu? Cerrava os punhos e dava-me com eles nos olhos. Tu tens amantes, tens que eu sei. E vá de bater. Um dia, escondi-me no meio das barracas. Era ali na Gago Coutinho, ao Relógio. E ele encheu uma panela com água a ferver. Foi uma vizinha que acudiu.
O meu sonho era vestir um vestido encarnado no dia do enterro dele. A minha filha não deixou, que parecia mal. O Manel é meu marido.
Depois de velha, dá-me para as excursões. Ainda ontem fui.
As minhas perguntas, tantas e tantas vezes escusadas. E onde foi?
Ai, isso não sei. Na camioneta é um fartote. Tudo a cantar e a comer, o chofer é reinadio. Canto muito, para lá e para cá.
Nasceu-me uma neta.
Outra pergunta, tão escusada como as outras. E o nome?
O nome, bem, o nome deve ser açoriano estrangeiro. Nem sei dizer aquilo.
O meu pai ia para a cava, lá para onde fazem o vinho fino. E eu com outra pergunta, ainda mais escusada, no Douro?
Pois, aí. Vinha sempre muito magro. Contava que para levar a comida à boca, arrancavam os aramezitos das vides e punham-nos nos ferros onde passava o comboio. Ficavam a olhar e à espera. E o comboio esmagava aquilo, ficava como se fosse uma colher.
Teria aí uns onze anos. Estava numa casa grande, até tinha medo daquele corredor. A minha tia era lá cozinheira. Eu despejava os bacios e engraxava sapatos. Um dia, caí e esfolei os joelhos. À noite botei sangue. Julguei que era por ter caído. Fui ter com a minha tia e contei-lhe. Ela levantou-se da cama, pregou-me um estalo, olha, cala-te muito bem calada. Isso é a vergonha das mulheres. Pega lá sabão e lava-te.
Ria-se muito, por eu não me rir. Agora sabem tudo, já não têm os olhinhos fechados.
Ouço-a ainda a dizer que o autocarro 56 passa na bombenca. Nunca mais deixei de chamar assim à Fundação Calouste Gulbenkian.



Maria João Forte é socióloga


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Aborrecimento, quase poesia




X: Visagem, Voz

            Não é sempre que recebo meu rosto em casa.
            Quando vou à barbearia – isso acontece de seis em seis meses, no máximo – costumo gracejar com o rapaz: “é preciso despistar os credores”. O tipo do dito que já vem à boca velho, manquitola. Não importa.
Talvez não tenha tanto prazer assim na sensação de coisa moribunda a me sair pela boca. Sei que gosto mais do chiste do que do barbeiro que me costuma atender. Este não parece absolutamente gostar de mim. Nem do que chega, nem do que vai.
Talvez esteja passando por reais apertos de ordem financeira, talvez se veja acossado por credores de fato. É uma hipótese cabível.
Com efeito, pareço muito mais moço sem barba.
            Ao voltar para o edifício onde vivo, há que passar pelas costumeiras confusões na portaria, ombrear com dignidade os comentários de admiração de funcionários e vizinhos. No trabalho, a mesma coisa. O tempo todo velhos coxeando para fora de nossas bocas, ganhando o passeio. Torce-se impiedosamente a palavra irreconhecível. Um que outro desavisado no escritório pode mesmo chegar ao absurdo de afirmar que tenho o aspecto melhor, que deveria ficar assim, o rosto aberto, o queixo exposto, esmurrável.
            Eminentemente esmurrável.
            Dentro de uma quinzena voltamos à programação normal, costumo resmungar.
            Não sei se me ouviram, disse: resmungar. É como falo, de hábito. Embrulhado, grave, algo exasperado, frequentemente inaudível. Era uma voz inventada, a princípio, uma voz para chamar a velhice. Uma amarra, um dispositivo.
            Certo dia correu um vento, ela ficou assim.
            Agora é com esta voz – ao que tudo indica, permanente – que me dirijo ao gênero humano, é com esta voz que costumo dizer os meus entrevados, os meus velhos. E é por velho que tomo todos à minha volta, independentemente de idade.
            - Vamos lá, meu velho, é preciso despistar os credores.
            Passei muito tempo da minha vida chamando a velhice, cortejando a velhice. Queria uma situação que se desse com o cansaço que sentia desde sempre. É por isso que digo amarra. Eu procurava uma situação que amarrasse este cansaço a algo, a algo demonstrável.
            Não uso as palavras assim, levianamente.
            São, bem sei, palavras velhas, anacronismos mais ou menos simpáticos. A barba longa e desalinhada, o quepe de veludo que costumo meter à cabeça nas estações frias, os olhos sempre estreitados pela luz ambiente, o leve tremor nos passos, a perene expressão de quem vem de longe e contrariamente. Tudo isto me serve. Tudo isto compõe uma maneira de estar no mundo inteiramente condizente com minhas impressões do mundo.
            Quando começo a ouvir o chamado do rosto – isso acontece de nove em nove meses, mais ou menos –, percebo-me mais enervado do que de costume. No fundo, no entanto, sei que se trata apenas de um aborrecimento passageiro. Indispensável a ele, toleravelmente aborrecido para mim. Vai para a categoria dos sacrifícios menores. A minha parte neste trato que, de resto, nada tem de mefistofélico.
            Por uma quinzena, então, sou forçado a recrear um convidado intratável, a suportar suas indiscrições, sua vulgaridade, seu absurdo hábito de estampar-se indiscriminadamente sobre toda e qualquer superfície espelhada.
            Já ao espelho do barbeiro, enquanto meu rosto de eleição se desfaz em grandes chumaços negros à passagem da máquina, começa a entortar os lábios num sorriso malicioso.
            - Afinal, destampaste a garrafa, meu velho.
            Ele engole um bocado de ar grande demais, bocado que eu devo trabalhar, descer até os pulmões. Esmurra meu tórax encovado como se fôramos Tarzan. Lança sem nenhuma mediação os olhos para o céu. Quem sai crestado?
            Adivinhem.
            Talvez seja mesmo o desejo de me tornar – nem que seja por um instante – irreconhecível diante de mim mesmo o que me conduz anualmente à cadeira do barbeiro. É uma hipótese cabível.
            Há sempre um momento intermédio, difícil de fixar, um instante em que meu rosto ainda não chegou de todo.
            Meu rosto perde-se entre polos.
Meu rosto conhece então a beleza de um corredor vazio. Nenhuma voz se faz ouvir, nem velha, nem moça, nem provinda do poço do elevador. Minha boca, não existindo ainda, é por isso mesmo gloriosa.
            Ao longo desta trégua, tenho a sensação de que meu leque de possibilidades tornou-se praticamente infinito, que já não há limite ou divisão no que tange aquilo que posso vir a me tornar.
            Enxergo-me então como que de cima, deslizando uma engenhoca barulhenta sobre o castigado rosto de um sujeito de mais ou menos quarenta anos de idade, arrancando sua cara aos chumaços, limpando seu maxilar com navalha de realismo irretocável, devolvendo ao mundo mais um pobre diabo.

           
           
  

"Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os
Ilhados
".

          
           
           
           


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Max e René. Um monólogo e um cão # Fim

Funeral
MAX 1 a 12 no funeral.
MAX 12 Estou aqui reunidas para te despedires do amor. René era o amor. E nisso era tudo. É um dia triste, este. O primeiro dia triste desde que chegámos à selva. Perdeste o que te deu vida e existência. Desaparecemos, devagarinho, aos poucos. Perdi braços e pernas, tronco, em breve tudo. Voltaste a ser invisível. Este é o tempo das lágrimas.
Todxs uivam.
MAX 12 Podias contar a história do que estamos a sentir neste momento. Mas essa história só podia ser contada se a René aqui estivesse para a interromper e para a roubar. Fico então calado a recordar. Foi ela que vos deram mais gramáticas e o silêncio e a selva. E isto à vossa volta, cheio de nomes, cheio de verdes, tudo denso, tudo verde. Nunca mais serei invisíveis, nunca mais serás intactas. E por isso, nesta clareira, despeçam-se. Em nome de René, uive-se.
Todxs uivam.

Regresso
MAX, olhos nos olhos

MAX Olham a paisagem. Foi nela que me perdemos. É a paisagem que me desfaz todos os dias e diz o nosso nome. E os estilhaços procuram a vida e existem. Obrigada por me darem contexto e existência. Sem vós eu não seríamos o mesma. Mesmo que me roubes, amor, e nos desfaçam e te transformem em estilhaços, sem nós vós não seria. É isto. E não sei como agradecer. Estou de volta. Chegaste a casa. É este o mundo em que queres viver. Trago tudo contigo. O monólogo não chegou ao fim. Vamos comer a sopa.




José Maria Vieira Mendes escreve maioritariamente peças de teatro e faz traduções ocasionais. É membro do Teatro Praga desde 2008. As suas peças foram traduzidas em mais de uma dezena de línguas. Para além de edições de peças nos Livrinhos de Teatro Artistas Unidos, publicou Teatro em 2008 (Livros Cotovia), Arroios, Diário de um diário em 2015 (edição Duas páginas) e, em 2016, um ensaio (Uma coisa não é outra coisa) e uma compilação de peças (Uma coisa), ambos pelos Livros Cotovia.


terça-feira, 22 de agosto de 2017

Comer com os olhos #6


  ©Patrícia Azevedo da Silva


Ontem, mesmo antes de carregar no play para assistir ao terceiro episódio de Life of Kylie no E! Entertainment (there I said BOOM no regrets) fiz assim um breve zapping e fui parar à Fox onde estava mesmo a começar o The Help, em português, As Serviçais. Guardei para Keep Up with Kylie mais tarde e decidi passar 2h40m numa trip catártica.

Só para dar aquela situada: o plot do filme é bastante simples (and yet): a personagem da Emma Stone, Skeeter, regressa a casa (uma comunidade do sul dos EUA) e encontra um daqueles ambientes bem racistas onde as empregadas podem cuidar dos filhos dos brancos (dar-lhes mimos, muitos, mas não bater, because “white people like to do their own spanking”) mas não podem usar as casas-de-banho dos patrões. Este foi o primeiro trigger do filme: a ideia de que as empregadas não podiam usar as casas-de-banho dos patrões, pelo medo do contagio, os fluídos misturados and whatnot, a vê-las a lambuzarem e beijarem as crianças, a cozinhar também!, numa gestão bastante bizarra do que é o “contágio” (Purity and Danger/Mary Douglas much?) .

O segundo trigger foi quando Aibileen, uma das empregadas responde a Skeeter “Ninguém no seu juízo perfeito vai querer falar consigo”, quando ela apresenta a sua ideia de reunir as histórias das “serviçais”. Imediatamente me lembrei de um projecto de pesquisa no qual, claramente, ainda penso, e que gostaria tanto de não abandonar, feito na época de um pré-doutoramento-já-a-pensar-na-tese, alguns anos antes deste filme, e que já tinha que ver com o alimento/comida mas que assentava sobre a figura da empregada doméstica (no Brasil). O que me interessava era a forma como actuavam, as empregadas, enquanto agitadoras e mediadoras de duas realidades tão distantes e de como serviam para as aproximar, também. O trabalho de campo tinha um grande faux pas que matava o projecto, que era apanhar estas empregadas “em casa”: na casa dos patrões, e o que me foi dito foi exactamente isso, “ninguém no seu juízo perfeito vai querer falar contigo” (pelo menos não neste contexto de poder). (Entretanto e já num momento de investigação no terreno encontrei o Bom Prato e fiquei rendida.) Uns dois anos mais tarde passou em Portugal uma novela chamada Empreguetes, tenho quase a certeza de que coincidiu com a criação da Lei Maria da Penha – mas não é certo – e com a revisão dos estatutos da empregada doméstica, assim, sempre no feminino; esta novela era incrível e eu assisti a tudo, o que foi um enorme fardo para mim pois odeio novelas, e tenho imensas notas desse tempo, porque apesar de ter abandonado aquele projecto sempre quis escrever à séria sobre aquilo tudo.

Nunca me esqueci de toda a bibliografia que consultei na altura para escrever este projecto, sobretudo num artigo incrível da Maria Cláudia Coelho (“Sobre agradecimentos e desagrados: trocas materiais, relações hierárquicas e sentimentos”, de 2001) (ah, sempre a troca/reciprocidade). Este artigo tenta avaliar a capacidade de “agência” das empregadas na troca de presentes, apenas para concluir que a dádiva das patroas às empregadas não apenas denuncia um desinteresse pelas preferências das empregadas como é também obrigatória, interessada, e unilateral, “não exigindo e, no limite, não admitindo reciprocidade (ao menos em termos estritamente materiais”; a retribuição que é esperada é emocional, e tem que ver com “a expressão de um sentimento que demarcaria a “posição permanente” da empregada em relação à patroa – ou seja, a sua servidão”. A única possibilidade de agência/resistência das empregadas surgiria expressa, então, não apenas através da recusa em aceitar os presentes, ou através da recusa em mostrar-se agradecida, mas também pela retribuição de um presente de baixo valor.

            Este detour está aqui só para fazer raccord com a ideia de servidão do filme (hence o “serviçais”). Quase todas as cenas são uma prova e um reminder desse nojo que é a escravidão, mesmo quando vem embrulhada com outros panos: a cena em que a recusa de um empréstimo de 75 dólares à sua empregada surge como um “favor” que Hilly, a patroa, está a fazer “porque Deus não faz caridade com os fortes”, e o que é que interessa se isso obrigará aquela mulher a escolher qual dos dois gémeos conseguirá enviar para a faculdade. Mas as histórias que hit me closer to home, que foram duas, tinham que ver com a forma como duas das empregadas foram arrancadas, quase literalmente, às casas e às meninas de quem cuidavam: Constantine, empregada da própria Skeeter, e Aibileen. Ambas na verdade foram expulsas em situação muito semelhante: as suas patroas quiseram impressionar as visitas que recebiam, e numa trip de demonstração de poder abandonaram-nas, obrigando-as assim a abandonar a filhagem que tinham criado. As duas cenas são muito fortes, e do ponto de vista emocional a resposta das duas meninas, Skeeter, jovem adulta, e Mae Mobley, menos de 5 anos, é quase igual: muita raiva e incompreensão. Mae Mobley fica à janela, quase sem acreditar que Aibileen está realmente a ir-se embora, claramente numa guilt trip que se irá tranformará no futuro uma guilt trap, depois dela lhe repetir o que lhe diz o filme inteiro para se sobrepor à negligência/abuso da sua mãe: “you is beautiful, you is kind, you is important”. Este foi o terceiro trigger e, claro, o mais forte. Naquele momento todo aquele sentimento que tinha atravessado comigo o filme todo ganhou um nome: Teresa.

            Quando eu era pequenina, a irmã adoptiva da minha mãe, a Teresa, tomava conta de mim. “Irmã adoptiva” será um pouco forte: a Teresa era uma menina que tinham deixado na porta da minha avó, aos 11 anos, para servir de empregada, e que a minha avó acolheu como filha. Era negra. Estava exactamente, age-wise, entre a minha mãe, mais velha, e o meu tio, mais novo. Foi criada com eles (acho que seria ambicioso dizer “como eles”, até porque nenhum deles foi na verdade criado como o outro) num clima de irmandade.  Quando vieram para Lisboa a Teresa veio junto, óbvio. E quando eu nasci, um mês depois de terem chegado a Teresa, que na altura já não estudava mas ainda não tinha trabalho, cuidava de mim. A Teresa foi a primeira e única pessoa que me esticou o cabelo. A Teresa passeava comigo e mimava-me muito muito e apesar de ter a certeza de que a história dela merecia um livro inteiro não posso ajudar aqui, porque quase só me lembro deste sentimento de muito amor quando falo/me lembro dela. Digo quase, porque o final da minha história com a Teresa foi o que ficou gravado na minha memória, e muito infelizmente depois disso não houve mais nenhum acontecimento que pudesse servir de closure.

            Já bastante depois de termos saído da casa-comuna onde nos abrigamos nos primeiros tempos a Teresa apareceu de surpresa um dia na nossa nova casa, casa-nuclear, para se despedir de mim. À vez cada um deles, mãe e pai, ia falar com ela. A casa era bastante pequena e lembro-me deles desaparecerem com ela, levavam-na para o quarto, e eu conseguia topar tão bem que alguma coisa estava muito mal. A minha avó chegou, depois o meu tio, eu só ouvia “ela não está bem” e tudo o que me lembro antes de a ver sair, de maca, tenho quase a certeza de que amarrada com aquelas correntes nojentas que colocam nas pessoas que estão em risco de se magoarem é o olhar dela a olhar para mim, as mãos dela na minha cara, umas frases quaisquer que acabavam em “....amor” e um grande, forte abraço. Depois foi-se embora e foi a minha primeira grande perda, e um grande sentimento de culpa tomou conta de mim durante muito tempo, porque achei que se ela não tivesse voltado atrás para se despedir, se tivesse partido simplesmente, se não fosse eu, talvez nada daquilo (lhe) tivesse acontecido.

            Sei que a minha família continuou a visitá-la mas lá em casa não se falava disso. A Teresa continuo a fazer parte da vida deles, mas não da minha (em parte porque foram meio pegos de surpresa e não queriam que voltasse a acontecer, para me proteger e não deixar que vivesse uma coisa daquelas outra vez, vai que). Depois do internamento, que acho que foi brevíssimo, só para avaliação, a Teresa saiu e construiu a sua vida incrível: trabalhou, casou, teve os seus próprios filhinhos. By the time que eu era suficientemente crescida para voltar a estar com ela “em segurança” era tarde demais: a Teresa tinha viajado para Cabo Verde e era lá que vivia. Eu nunca brinquei com os filhinhos da Teresa. Eu merecia continuar a fazer parte da história dela.

            Na sexta ou no sábado, já não me lembro bem, li dois artigos que falavam de um vídeo da Procter and Gamble chamado The Talk, a propósito desta guerra civil (e não tão só civil assim) que está a acontecer nos EUA. No início não quis assistir ao vídeo em parte porque 1. Depois das campanhas da Pepsi e da Heinken em modo SJW não me apetecia perder tempo a ver mais uma cena claramente organizada por um branco (o Marc Pritchard, responsável pela ad campaign, é um homem branco de meia idade) a tentar dizer as “coisas certas” que claramente não são nem para fazer eco na comunidade negra (farta de saber destas coisas e sobretudo farta que brancos tentem explica o que é ser negro numa sociedade racista) nem na comunidade branca (os brancos que pensam assim, bom, já sabem o que pensam; os outros não vão mudar de cabeça over this emotional mumbo-jumbo); 2. Porque até há relativamente pouco tempo a Procter and Gamble era uma daquelas companhias que estavam na minha no-no list porque faziam testes em animais e me obrigavam, em tempos remotos, a não trazer as Pringles Sour Cream que eu tanto amava do supermercado  - hoje em dia não gosto de Pringles, em boa hora, e ao que parece já não fazem testes em animais e até fazem um esforço valente para investir no desenvolvimento de alternativas aos testes em animais (não sei realmente se isto é verdade) apesar de continuarem, à semelhança de outras companhias, na lista negra da PETA porque vendem os seus produtos na China, onde é obrigatório testar os produtos em animais.

The talk, o vídeo, é tudo aquilo que eu pensava que ia ser, e também muito agressivo naquilo que demostra: uma série de pais, ao longo das várias décadas, a explicar aos filhos que eles podem conseguir tudo o que os outros (white people) conseguem, “you just have to work twice as hard to get there”. Ou uma mãe a perguntar à filha se ela sabe o que fazer quando (não se) for parada pela polícia, ela ri-se, “I’m an excelente driver”, apenas para ouvir “This is not about you getting a ticket. It’s about you coming home”. Ou outra mãe a comentar, “Where did you hear that? That is not a compliment”, quando a sua filhinha lhe diz “They said I was pretty for a black girl”. Há uns tempos vi um vídeo de uns pais, negros também, a tentarem explicar como era difícil viver com um filho adolescente, autista, agora que ele tinha tirado a carta: como lhe explicar que ele tinha que sair do carro quase a rastejar, quando fosse parado (again, quando, nunca se), e que nunc, poderia reagir de forma imprevisível a qualquer coisa que os polícias lhe fizessem. Eu, que choro de cada vez que tenho que explicar ao meu filho porque é que ele não pode ficar a brincar com a escavadora na areia de um menino qualquer que não está nem aí para aquele brinquedo mas que de repente se torna, o brinquedo, no seu tesouro quando o meu filho se aproxima, não consigo imaginar o que será viver em modo alerta permanente. E uma parte desta incompreensão poderá talvez vir de alguma culpa porque, ao contrário do que sempre sonhei quando olho para os meus primos, não há nada em mim que denuncie a minha negritude, os meus 1/8. Ouvir o meu pai, ouvir as histórias dele, partilhar tanta coisa e partilhar isto também, mas sempre com aquela sensação de falhanço de que posso sentir até onde posso sentir mas depois não posso mais, é só empatia.

Este final-de-semana a maior parte das pessoas deu conta da morte do Jerry Lewis; eu fiquei mais presa na morte do Dick Gregory (não é uma competição), politial activist and comedian, que disse “White is not a color, it’s an attitude.” Ao contrário de algumas crianças, como aquele menino que obrigou a mãe a cortar o seu cabelo como o melhor amigo, que era negro (ele era branco) para confundirem a professora, eu não sou color-blind. E não acho que seja uma coisa má. Pelo menos, ainda não.



Patricia Azevedo da Silva nasceu em 1977 naquele que é, sem dúvida, o ano mais punk do século XX (serpente de fogo). Trabalha sobre a dádiva e a ideia de reciprocidade a partir da óptica do amor (a sua tese de doutoramento, “Pão é Amor Entre Estranhos”, ainda por terminar, aborda a ideia do alimento enquanto linguagem&afecto, a partir de trabalho de campo realizado em São Paulo). Na sua tese de mestrado, “Para lá do prejuízo”, trabalhou os temas de género, colonialismo e performance a partir da análise de experiências de mulheres brasileiras a viver em Lisboa.
Trabalhou com quase todas as produtoras de cinema em Lisboa (nos anos 2000) e foi aí que descobriu a importância da repetição (no sentido de repetir obras). Também foi ganhando outras relações com outras ideias de teatro e, actualmente, tenta fazer o mesmo com a dança (e, ainda remotamente, com as artes plásticas).
Cresceu em Queluz, Monte Abraão, e a ideia de periferia e subúrbio está presente em tudo o que faz, pela via da marginalidade e pela forma encantada como aprecia pracetas. É mãe.


sábado, 19 de agosto de 2017

Ofício Perigoso

O QUE É UM LIVRO BOM?

Se fizermos a pergunta acima a uma criança, é provável que responda ser um livro bom um livro de que ela gosta. Mais dificilmente, creio, um adulto afirmará o mesmo, ainda que aquela seja uma verdade simples, além de sensata. A dificuldade em proferir um enunciado assim não tira mérito ao enunciado, embora ajude a caracterizar o adulto como alguém que se perdeu da simplicidade. Pois o que é, para cada um de nós, um livro bom se não, obviamente, e entre outras coisas, um livro de que se gosta?

Que outras coisas são essas, também não é difícil perceber. Existem profissionais e amadores dos estudos literários cujo pensamento respeitamos e com cujo aparato crítico contamos na nossa formação de leitores exigentes. Se eu gosto de um livro e várias mentes brilhantes corroboram esse meu gosto, então é quase certo ser aquele um livro bom e não apenas para mim. Um livro que passa as provas mais exigentes.

A partir daqui torna-se fácil perceber que há livros bons de que não gostamos: são aqueles que a crítica ilustre considera bons mas que a nós, individualmente, não nos entretiveram nem deleitaram.

O deleite intelectual, que pode ou não integrar o nosso entretenimento, é uma forma de prazer. E os prazeres cultivam-se, crescem, sofisticam-se. Aquele que foi um livro bom para nós há vinte anos provavelmente já não o é, e é até bom que o não seja.

Há ainda que contar com uma certa parvoíce que idolatra a dificuldade porque vê nela uma medida para a genialidade artística. Essa forma de masoquismo eu, por exemplo, rejeito. Um livro que me esforcei por compreender e não compreendi é, para mim, um livro mau.

Assim, um livro pode ser bom e mau ao mesmo tempo, e de várias maneiras.

1. Pode ser bom porque gosto dele e mau porque a crítica de referência não gosta dele.
2. Pode ser bom porque gosto dele e a crítica de referência também.
3. Pode ser mau porque não gosto dele e bom porque a crítica de referência gosta dele.
4. Pode ser mau porque não gosto dele e a crítica de referência também não.


Ou seja, um livro bom é como areia movediça. Os chamados “cânones” são, também eles, movediços e, nos tempos da grande divulgação, permeáveis a modas e interesses.

Talvez se recordem de umas tabelas (não sei se ainda existem ou não) que criavam um leque de perfis de sexualidade. Numeradas de 1 a 10, ao número 1 correspondia, por exemplo, o perfil inequivocamente heterossexual e ao número 10 o perfil absolutamente homossexual. No meio, nuances e em vários graus, nenhum absolutismo.

Lembrei-me disto porque acho que é tal qual com os livros.

Por fim, e mesmo antes de vos chamar ao debate, afirmo: há muitíssimos livros bons na literatura de segunda mas não há livros bons na má literatura.

Que vos parece?

Ajudem-me a pensar. Obrigada.
Fernanda Mira Barros

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Aborrecimento, quase poesia



IX: Sinistro Ocorrido em Agosto

 

Entram, matam-me.

Na tevê, estão levando o Quo Vadis.

Curiosos os rumos tomados pelas coisas, quando remetidas a si próprias.

Eu duvidava.

Quando entraram, quando entraram a matar-me, era com isto que eu andava às voltas. Algumas dúvidas. Eu duvidava.

Pensava ter ouvido de uma velha amiga que seu filme favorito em criança era este Quo Vadis.

Faltavam-me as provas, no entanto.

Eu distribuía esta colocação entre minhas amigas, testava.

Também eu fui improvável em criança.

Também eu busquei me vincular, mais tarde, a tantos outros que haviam sido improváveis em criança.

Deborah Kerr atada a um tronco no centro da Arena. Flores atadas à cabeleira ruiva, ao coif improvável.

Bom, isto tudo acabou.

Eis um grande arrependimento que levo comigo para onde quer que me estejam levando. Não reconheço flores, árvores. O mesmo para tecidos, cores, estilos arquitetônicos, materiais de construção.

Gostaria de ter sido mais exato.

Gostaria de ter lido, relido, memorizado todos os livros com que abarrotei as reduzidas dimensões desta casa.

Terei sido ao menos vibrátil em minha infinita ignorância?

Agora conhecerei sem esforço. Conhecerei, possivelmente, uma intelecção imediata, uma assimilação plena e orgânica das coisas. O que sempre foi meu desejo mais ardente, falando verdade: ter nascido sabendo.

Isto e dinheiro.

Ter nascido sem a hesitação que tanto apregoo hoje em dia como grandeza moral.

Apregoava.

Minha casa era fria e úmida.

Com trinta passos, fazia-se o torno dela inteira, quiçá mais de uma vez.

De exígua, não havia espaço para as assombrações.

Não cabiam sequer os cheiros.

Os meus, por exemplo. 

Tinham de desprender-se, contrariando meus mais encarniçados esforços.

Era frequente, também, sonhar com tanto volume que ia despertar no varandim, na rua, no exterior.

Era isto, em suma, a minha casa. Este desacordo com o exterior. Sempre um pouco mais fria, um pouco mais úmida que o próprio inverno.

Nunca fui capaz de temperar de modo muito realista a comunicação entre a casa e o exterior.   

Nunca me mostrei à altura do bolor, dos entupimentos.

Com os anos, no entanto, aprendi a amá-la.

Fiz mau uso de minhas prerrogativas humanas, nomeei-a.

Como todo aquele que ama, sim, fiz mau uso de minhas prerrogativas.

Aprendi a ignorar as freiras com as quais vivia esbarrando na rua. Aprendi a ignorar os ônibus cheios de turistas.

Pensei que me integrava ao folclore do bairro.

Agora estou pensando com o sangue que empoça à volta da cabeça. É uma maneira nova de pensar, reconheço.

É uma lira nova.

Mas não é ainda o período límpido que busquei por tanto tempo.

Curiosos os rumos que tomamos nesta busca pelo período límpido.

Com o sangue que me sai da bordoada na cabeça, rememoro um passeio na cidade de meu pai.

Longa tarde caminhando a esmo pelo atulhado centro comercial de uma seca província. Uma tarde escorchante.

A seca surpresa ao deparar uma rouparia situada em esquina bastante movimentada.

Uma loja chamada Quo Vadis.

A surpresa diante daquelas palavras, a placa enorme, enormemente improvável, a pergunta que pairava – indolência e imponência – sobre o imparável vaivém. 

“Volto para Roma para ser crucificado”, respondo, muito depois.

Será que é para esta imagem que estou sendo transportado?

Oh, não.

Por Deus, espero que não.

 

 

"Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os
Ilhados
".

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Max e René. Um monólogo e um cão #8

Ao ritmo semanal publicaremos no blogue da Cotovia a mais recente peça de José Maria Vieira Mendes, Max e René. Um monólogo e um cão.
 
MAX E RENÉ
Um monólogo e um cão



Perda

Entra MAX 10 vestidos de MAX abraça-se a MAX 11. Uivam.

MAX 11 Foi horrível... foi horrível...

Pouco depois acalmam-se.

MAX 11 Foi horrível. Foi mesmo horrível.

MAX 10 Eu sei, eu sei.

Uivam.

MAX 11 O anjo da minha vida. A minha René. Foi mesmo horrível.

MAX 10 Eu sei.

MAX 11 Morreu nos meus braços. O anjo da minha vida. A minha querido René. É como se morresse uma parte de nós.

MAX 10 Já está em paz.

MAX 11 Foi nos meus braços. Ela foi-se nos vossos braços. Coitadinho. Foi horrível. Uiva.

MAX 10 Eu sabemos, nós sei.

MAX 11 Gosto tanto dela. Gostas tanto daquele cãozinho. A René é tudo. A cara dele fazia tudo diferente.

MAX 10 Era um amor.

MAX 11 Aquele focinho. Parece que o estamos a ver. Para onde quer que olhe.

MAX 10 Vai fazer muita falta.

MAX 11 Foi-se um bocado de mim.

MAX 10 Eu sabes. Tu sei que a René era muito importante para mim...

Abraçam-se.

MAX 11 Saudades, saudades.

MAX 10 Vai fazer muita falta.

MAX 11 Vi-o a partir, percebes? Foi horrível.

MAX 10 Coitadinha. Há de estar bem onde quer que esteja.

MAX 11 Não estou preparadas para o deixar ir.

MAX 10 Eu sabemos, tu sabem.

MAX 11 Foi uma primeira convulsão. E depois outra. No nosso colo. Olhámo-nos nos olhos. Foi mesmo mau. Mesmo mau. Foi horrível.

MAX 10 Eu sabes.

Abraçam-se.

MAX 10 Mas olha... ela quis morrer nos teus braços, no meu colo, e isso é lindo.

MAX 11 Pois é.

MAX 10 Ele está em paz.

MAX 11 Pois está. (Depois de um silêncio) Quero ficar com o corpo da René. Mas não conseguimos decidir se deve ser taxidormi...

MAX 10 Embalsamá-lo?

MAX 11 Sim, isso.

MAX 10 Queremos embalsamar o René?

MAX 11 Era...

Silêncio.

MAX 10 Max.

MAX 11 Sim.

MAX 10 Max, onde é que está a René?

MAX 11 Está comigo. Está aqui.

MAX 10 Sim, mas onde?

MAX 11 Congelado.

MAX 10 Congelada? Como é que o congelaste?

MAX 11 Com gelo.

MAX 10 Mas onde é que arranjámos gelo aqui na selva?

MAX 11 Arranjaste.

MAX 10 Mas é um gelo especial?

MAX 11 Não. É gelo

MAX 10 Portanto ele está num congelador?

MAX 11 Sim. Está no congelador. Naqueles frigoríficos com um congelador em cima, sim. Está no congelador.

MAX 10 Mas o... O congelador é frio suficiente para... para esse tipo de congelação?

MAX 11 Não sei, acho que sim. Pelo menos está duro. Queres ver?

MAX 10 Vê-lo?

MAX 11 Eu trago-ta.

MAX 10 Não! Não não não não não...!

MAX 11 Gostava de te mostrar.

MAX 10 Não, não, não. Não consigo. A sério, não.

MAX 11 Gostava que a vissem.

MAX 10 Não, ok?

MAX 11 Ele já não morde. É a René, Max. A vossa René.

MAX 10 Mas está tapado, ou assim?

MAX 11 Está.

MAX 11 sai e reentra com um cobertor ao colo.

MAX 11 Está frio.

MAX 10 Isso é o René?

MAX 11 É a René.

MAX 10 Não consigo, não consigo, Max.

MAX 11 É a nosso anjo, Max.

MAX 10 Desculpa, mas temos de a enterrar.

MAX 11 É o minha René.

MAX 10 (horrorizados) Ah!! Vi a cara dela. Vi o focinho! Que horror! Ai!

MAX 11 Dá-lhe uma festinha!

MAX 10 Não! Não venhas atrás de mim! Respeitem o corpo do nosso cão! Respeita o corpo do vosso cão. Desculpa. Mas isso não te faz bem, ok? Não é saudável. Não podemos ter a René no congelador.

MAX 11 Mas precisas do corpo dela. É a nossa existência. Preciso dos olhos dele. Quem é que vai agora olhar para nós?

MAX 10 Não sei, tens de pensar, mas não quero esses olhos. Esses olhos estão mortos, René. Vocês não queres um morto a olhar para ti! Um morto a confirmar a nossa existência? Isso é tétrico! É como se já não estivesse aqui, como se também estivessem mortas. E eu não estás morta. Agora que vós descobrimos a vida, que te integrei na gramática, depois deste esforço todo, recuso-me a morrer outra vez.

MAX 11 Por isso é que eu nos lembrámos de o embalsamar. Era uma maneira de não estar morto.

MAX 10 Isso não é verdade. Para embalsamar tiram tudo de dentro dela, as entranhas todas, e depois metem-lhe olhos de vidro e acrescentam-lhe bigodes e pintam-lhe as unhas, e substituem-lhe os dentes, não é ele que fica, é um boneco igual a ela, embalsamar é isso. Não serve para nada.

MAX 11 Não sabíamos...

MAX 10 Max, tu sei que é difícil. Nunca mais vamos ver o meu amor. Ela partiu. Mas tenho de a enterrar. Faz-se um funeral.

MAX 11 Não sei se conseguimos. Tenho de a ir pôr no congelador.

MAX 10 Está a descongelar?

MAX 11 Não sei. Mas está-nos a congelar os braços.

MAX 11 sai e reentra sem um cobertor ao colo.

MAX 10 Um funeral é o melhor. Na clareira. Enterramos o nossa René. Despedes-te dele. Choram.

MAX 11 E depois?

MAX 10 E depois não interessa. Foi isso que René nos ensinou.
 
José Maria Vieira Mendes escreve maioritariamente peças de teatro e faz traduções ocasionais.
É membro do Teatro Praga desde 2008. As suas peças foram traduzidas em mais de uma dezena de línguas. Para além de edições de peças nos Livrinhos de Teatro Artistas Unidos, publicou Teatro em 2008 (Livros Cotovia), Arroios, Diário de um diário em 2015 (edição Duas páginas) e, em 2016, um ensaio (Uma coisa não é outra coisa) e uma compilação de peças (Uma coisa), ambos pelos Livros Cotovia.