quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Max e René. Um monólogo e um cão # Fim

Funeral
MAX 1 a 12 no funeral.
MAX 12 Estou aqui reunidas para te despedires do amor. René era o amor. E nisso era tudo. É um dia triste, este. O primeiro dia triste desde que chegámos à selva. Perdeste o que te deu vida e existência. Desaparecemos, devagarinho, aos poucos. Perdi braços e pernas, tronco, em breve tudo. Voltaste a ser invisível. Este é o tempo das lágrimas.
Todxs uivam.
MAX 12 Podias contar a história do que estamos a sentir neste momento. Mas essa história só podia ser contada se a René aqui estivesse para a interromper e para a roubar. Fico então calado a recordar. Foi ela que vos deram mais gramáticas e o silêncio e a selva. E isto à vossa volta, cheio de nomes, cheio de verdes, tudo denso, tudo verde. Nunca mais serei invisíveis, nunca mais serás intactas. E por isso, nesta clareira, despeçam-se. Em nome de René, uive-se.
Todxs uivam.

Regresso
MAX, olhos nos olhos

MAX Olham a paisagem. Foi nela que me perdemos. É a paisagem que me desfaz todos os dias e diz o nosso nome. E os estilhaços procuram a vida e existem. Obrigada por me darem contexto e existência. Sem vós eu não seríamos o mesma. Mesmo que me roubes, amor, e nos desfaçam e te transformem em estilhaços, sem nós vós não seria. É isto. E não sei como agradecer. Estou de volta. Chegaste a casa. É este o mundo em que queres viver. Trago tudo contigo. O monólogo não chegou ao fim. Vamos comer a sopa.




José Maria Vieira Mendes escreve maioritariamente peças de teatro e faz traduções ocasionais. É membro do Teatro Praga desde 2008. As suas peças foram traduzidas em mais de uma dezena de línguas. Para além de edições de peças nos Livrinhos de Teatro Artistas Unidos, publicou Teatro em 2008 (Livros Cotovia), Arroios, Diário de um diário em 2015 (edição Duas páginas) e, em 2016, um ensaio (Uma coisa não é outra coisa) e uma compilação de peças (Uma coisa), ambos pelos Livros Cotovia.


terça-feira, 22 de agosto de 2017

Comer com os olhos #6


  ©Patrícia Azevedo da Silva


Ontem, mesmo antes de carregar no play para assistir ao terceiro episódio de Life of Kylie no E! Entertainment (there I said BOOM no regrets) fiz assim um breve zapping e fui parar à Fox onde estava mesmo a começar o The Help, em português, As Serviçais. Guardei para Keep Up with Kylie mais tarde e decidi passar 2h40m numa trip catártica.

Só para dar aquela situada: o plot do filme é bastante simples (and yet): a personagem da Emma Stone, Skeeter, regressa a casa (uma comunidade do sul dos EUA) e encontra um daqueles ambientes bem racistas onde as empregadas podem cuidar dos filhos dos brancos (dar-lhes mimos, muitos, mas não bater, because “white people like to do their own spanking”) mas não podem usar as casas-de-banho dos patrões. Este foi o primeiro trigger do filme: a ideia de que as empregadas não podiam usar as casas-de-banho dos patrões, pelo medo do contagio, os fluídos misturados and whatnot, a vê-las a lambuzarem e beijarem as crianças, a cozinhar também!, numa gestão bastante bizarra do que é o “contágio” (Purity and Danger/Mary Douglas much?) .

O segundo trigger foi quando Aibileen, uma das empregadas responde a Skeeter “Ninguém no seu juízo perfeito vai querer falar consigo”, quando ela apresenta a sua ideia de reunir as histórias das “serviçais”. Imediatamente me lembrei de um projecto de pesquisa no qual, claramente, ainda penso, e que gostaria tanto de não abandonar, feito na época de um pré-doutoramento-já-a-pensar-na-tese, alguns anos antes deste filme, e que já tinha que ver com o alimento/comida mas que assentava sobre a figura da empregada doméstica (no Brasil). O que me interessava era a forma como actuavam, as empregadas, enquanto agitadoras e mediadoras de duas realidades tão distantes e de como serviam para as aproximar, também. O trabalho de campo tinha um grande faux pas que matava o projecto, que era apanhar estas empregadas “em casa”: na casa dos patrões, e o que me foi dito foi exactamente isso, “ninguém no seu juízo perfeito vai querer falar contigo” (pelo menos não neste contexto de poder). (Entretanto e já num momento de investigação no terreno encontrei o Bom Prato e fiquei rendida.) Uns dois anos mais tarde passou em Portugal uma novela chamada Empreguetes, tenho quase a certeza de que coincidiu com a criação da Lei Maria da Penha – mas não é certo – e com a revisão dos estatutos da empregada doméstica, assim, sempre no feminino; esta novela era incrível e eu assisti a tudo, o que foi um enorme fardo para mim pois odeio novelas, e tenho imensas notas desse tempo, porque apesar de ter abandonado aquele projecto sempre quis escrever à séria sobre aquilo tudo.

Nunca me esqueci de toda a bibliografia que consultei na altura para escrever este projecto, sobretudo num artigo incrível da Maria Cláudia Coelho (“Sobre agradecimentos e desagrados: trocas materiais, relações hierárquicas e sentimentos”, de 2001) (ah, sempre a troca/reciprocidade). Este artigo tenta avaliar a capacidade de “agência” das empregadas na troca de presentes, apenas para concluir que a dádiva das patroas às empregadas não apenas denuncia um desinteresse pelas preferências das empregadas como é também obrigatória, interessada, e unilateral, “não exigindo e, no limite, não admitindo reciprocidade (ao menos em termos estritamente materiais”; a retribuição que é esperada é emocional, e tem que ver com “a expressão de um sentimento que demarcaria a “posição permanente” da empregada em relação à patroa – ou seja, a sua servidão”. A única possibilidade de agência/resistência das empregadas surgiria expressa, então, não apenas através da recusa em aceitar os presentes, ou através da recusa em mostrar-se agradecida, mas também pela retribuição de um presente de baixo valor.

            Este detour está aqui só para fazer raccord com a ideia de servidão do filme (hence o “serviçais”). Quase todas as cenas são uma prova e um reminder desse nojo que é a escravidão, mesmo quando vem embrulhada com outros panos: a cena em que a recusa de um empréstimo de 75 dólares à sua empregada surge como um “favor” que Hilly, a patroa, está a fazer “porque Deus não faz caridade com os fortes”, e o que é que interessa se isso obrigará aquela mulher a escolher qual dos dois gémeos conseguirá enviar para a faculdade. Mas as histórias que hit me closer to home, que foram duas, tinham que ver com a forma como duas das empregadas foram arrancadas, quase literalmente, às casas e às meninas de quem cuidavam: Constantine, empregada da própria Skeeter, e Aibileen. Ambas na verdade foram expulsas em situação muito semelhante: as suas patroas quiseram impressionar as visitas que recebiam, e numa trip de demonstração de poder abandonaram-nas, obrigando-as assim a abandonar a filhagem que tinham criado. As duas cenas são muito fortes, e do ponto de vista emocional a resposta das duas meninas, Skeeter, jovem adulta, e Mae Mobley, menos de 5 anos, é quase igual: muita raiva e incompreensão. Mae Mobley fica à janela, quase sem acreditar que Aibileen está realmente a ir-se embora, claramente numa guilt trip que se irá tranformará no futuro uma guilt trap, depois dela lhe repetir o que lhe diz o filme inteiro para se sobrepor à negligência/abuso da sua mãe: “you is beautiful, you is kind, you is important”. Este foi o terceiro trigger e, claro, o mais forte. Naquele momento todo aquele sentimento que tinha atravessado comigo o filme todo ganhou um nome: Teresa.

            Quando eu era pequenina, a irmã adoptiva da minha mãe, a Teresa, tomava conta de mim. “Irmã adoptiva” será um pouco forte: a Teresa era uma menina que tinham deixado na porta da minha avó, aos 11 anos, para servir de empregada, e que a minha avó acolheu como filha. Era negra. Estava exactamente, age-wise, entre a minha mãe, mais velha, e o meu tio, mais novo. Foi criada com eles (acho que seria ambicioso dizer “como eles”, até porque nenhum deles foi na verdade criado como o outro) num clima de irmandade.  Quando vieram para Lisboa a Teresa veio junto, óbvio. E quando eu nasci, um mês depois de terem chegado a Teresa, que na altura já não estudava mas ainda não tinha trabalho, cuidava de mim. A Teresa foi a primeira e única pessoa que me esticou o cabelo. A Teresa passeava comigo e mimava-me muito muito e apesar de ter a certeza de que a história dela merecia um livro inteiro não posso ajudar aqui, porque quase só me lembro deste sentimento de muito amor quando falo/me lembro dela. Digo quase, porque o final da minha história com a Teresa foi o que ficou gravado na minha memória, e muito infelizmente depois disso não houve mais nenhum acontecimento que pudesse servir de closure.

            Já bastante depois de termos saído da casa-comuna onde nos abrigamos nos primeiros tempos a Teresa apareceu de surpresa um dia na nossa nova casa, casa-nuclear, para se despedir de mim. À vez cada um deles, mãe e pai, ia falar com ela. A casa era bastante pequena e lembro-me deles desaparecerem com ela, levavam-na para o quarto, e eu conseguia topar tão bem que alguma coisa estava muito mal. A minha avó chegou, depois o meu tio, eu só ouvia “ela não está bem” e tudo o que me lembro antes de a ver sair, de maca, tenho quase a certeza de que amarrada com aquelas correntes nojentas que colocam nas pessoas que estão em risco de se magoarem é o olhar dela a olhar para mim, as mãos dela na minha cara, umas frases quaisquer que acabavam em “....amor” e um grande, forte abraço. Depois foi-se embora e foi a minha primeira grande perda, e um grande sentimento de culpa tomou conta de mim durante muito tempo, porque achei que se ela não tivesse voltado atrás para se despedir, se tivesse partido simplesmente, se não fosse eu, talvez nada daquilo (lhe) tivesse acontecido.

            Sei que a minha família continuou a visitá-la mas lá em casa não se falava disso. A Teresa continuo a fazer parte da vida deles, mas não da minha (em parte porque foram meio pegos de surpresa e não queriam que voltasse a acontecer, para me proteger e não deixar que vivesse uma coisa daquelas outra vez, vai que). Depois do internamento, que acho que foi brevíssimo, só para avaliação, a Teresa saiu e construiu a sua vida incrível: trabalhou, casou, teve os seus próprios filhinhos. By the time que eu era suficientemente crescida para voltar a estar com ela “em segurança” era tarde demais: a Teresa tinha viajado para Cabo Verde e era lá que vivia. Eu nunca brinquei com os filhinhos da Teresa. Eu merecia continuar a fazer parte da história dela.

            Na sexta ou no sábado, já não me lembro bem, li dois artigos que falavam de um vídeo da Procter and Gamble chamado The Talk, a propósito desta guerra civil (e não tão só civil assim) que está a acontecer nos EUA. No início não quis assistir ao vídeo em parte porque 1. Depois das campanhas da Pepsi e da Heinken em modo SJW não me apetecia perder tempo a ver mais uma cena claramente organizada por um branco (o Marc Pritchard, responsável pela ad campaign, é um homem branco de meia idade) a tentar dizer as “coisas certas” que claramente não são nem para fazer eco na comunidade negra (farta de saber destas coisas e sobretudo farta que brancos tentem explica o que é ser negro numa sociedade racista) nem na comunidade branca (os brancos que pensam assim, bom, já sabem o que pensam; os outros não vão mudar de cabeça over this emotional mumbo-jumbo); 2. Porque até há relativamente pouco tempo a Procter and Gamble era uma daquelas companhias que estavam na minha no-no list porque faziam testes em animais e me obrigavam, em tempos remotos, a não trazer as Pringles Sour Cream que eu tanto amava do supermercado  - hoje em dia não gosto de Pringles, em boa hora, e ao que parece já não fazem testes em animais e até fazem um esforço valente para investir no desenvolvimento de alternativas aos testes em animais (não sei realmente se isto é verdade) apesar de continuarem, à semelhança de outras companhias, na lista negra da PETA porque vendem os seus produtos na China, onde é obrigatório testar os produtos em animais.

The talk, o vídeo, é tudo aquilo que eu pensava que ia ser, e também muito agressivo naquilo que demostra: uma série de pais, ao longo das várias décadas, a explicar aos filhos que eles podem conseguir tudo o que os outros (white people) conseguem, “you just have to work twice as hard to get there”. Ou uma mãe a perguntar à filha se ela sabe o que fazer quando (não se) for parada pela polícia, ela ri-se, “I’m an excelente driver”, apenas para ouvir “This is not about you getting a ticket. It’s about you coming home”. Ou outra mãe a comentar, “Where did you hear that? That is not a compliment”, quando a sua filhinha lhe diz “They said I was pretty for a black girl”. Há uns tempos vi um vídeo de uns pais, negros também, a tentarem explicar como era difícil viver com um filho adolescente, autista, agora que ele tinha tirado a carta: como lhe explicar que ele tinha que sair do carro quase a rastejar, quando fosse parado (again, quando, nunca se), e que nunc, poderia reagir de forma imprevisível a qualquer coisa que os polícias lhe fizessem. Eu, que choro de cada vez que tenho que explicar ao meu filho porque é que ele não pode ficar a brincar com a escavadora na areia de um menino qualquer que não está nem aí para aquele brinquedo mas que de repente se torna, o brinquedo, no seu tesouro quando o meu filho se aproxima, não consigo imaginar o que será viver em modo alerta permanente. E uma parte desta incompreensão poderá talvez vir de alguma culpa porque, ao contrário do que sempre sonhei quando olho para os meus primos, não há nada em mim que denuncie a minha negritude, os meus 1/8. Ouvir o meu pai, ouvir as histórias dele, partilhar tanta coisa e partilhar isto também, mas sempre com aquela sensação de falhanço de que posso sentir até onde posso sentir mas depois não posso mais, é só empatia.

Este final-de-semana a maior parte das pessoas deu conta da morte do Jerry Lewis; eu fiquei mais presa na morte do Dick Gregory (não é uma competição), politial activist and comedian, que disse “White is not a color, it’s an attitude.” Ao contrário de algumas crianças, como aquele menino que obrigou a mãe a cortar o seu cabelo como o melhor amigo, que era negro (ele era branco) para confundirem a professora, eu não sou color-blind. E não acho que seja uma coisa má. Pelo menos, ainda não.



Patricia Azevedo da Silva nasceu em 1977 naquele que é, sem dúvida, o ano mais punk do século XX (serpente de fogo). Trabalha sobre a dádiva e a ideia de reciprocidade a partir da óptica do amor (a sua tese de doutoramento, “Pão é Amor Entre Estranhos”, ainda por terminar, aborda a ideia do alimento enquanto linguagem&afecto, a partir de trabalho de campo realizado em São Paulo). Na sua tese de mestrado, “Para lá do prejuízo”, trabalhou os temas de género, colonialismo e performance a partir da análise de experiências de mulheres brasileiras a viver em Lisboa.
Trabalhou com quase todas as produtoras de cinema em Lisboa (nos anos 2000) e foi aí que descobriu a importância da repetição (no sentido de repetir obras). Também foi ganhando outras relações com outras ideias de teatro e, actualmente, tenta fazer o mesmo com a dança (e, ainda remotamente, com as artes plásticas).
Cresceu em Queluz, Monte Abraão, e a ideia de periferia e subúrbio está presente em tudo o que faz, pela via da marginalidade e pela forma encantada como aprecia pracetas. É mãe.


sábado, 19 de agosto de 2017

Ofício Perigoso

O QUE É UM LIVRO BOM?

Se fizermos a pergunta acima a uma criança, é provável que responda ser um livro bom um livro de que ela gosta. Mais dificilmente, creio, um adulto afirmará o mesmo, ainda que aquela seja uma verdade simples, além de sensata. A dificuldade em proferir um enunciado assim não tira mérito ao enunciado, embora ajude a caracterizar o adulto como alguém que se perdeu da simplicidade. Pois o que é, para cada um de nós, um livro bom se não, obviamente, e entre outras coisas, um livro de que se gosta?

Que outras coisas são essas, também não é difícil perceber. Existem profissionais e amadores dos estudos literários cujo pensamento respeitamos e com cujo aparato crítico contamos na nossa formação de leitores exigentes. Se eu gosto de um livro e várias mentes brilhantes corroboram esse meu gosto, então é quase certo ser aquele um livro bom e não apenas para mim. Um livro que passa as provas mais exigentes.

A partir daqui torna-se fácil perceber que há livros bons de que não gostamos: são aqueles que a crítica ilustre considera bons mas que a nós, individualmente, não nos entretiveram nem deleitaram.

O deleite intelectual, que pode ou não integrar o nosso entretenimento, é uma forma de prazer. E os prazeres cultivam-se, crescem, sofisticam-se. Aquele que foi um livro bom para nós há vinte anos provavelmente já não o é, e é até bom que o não seja.

Há ainda que contar com uma certa parvoíce que idolatra a dificuldade porque vê nela uma medida para a genialidade artística. Essa forma de masoquismo eu, por exemplo, rejeito. Um livro que me esforcei por compreender e não compreendi é, para mim, um livro mau.

Assim, um livro pode ser bom e mau ao mesmo tempo, e de várias maneiras.

1. Pode ser bom porque gosto dele e mau porque a crítica de referência não gosta dele.
2. Pode ser bom porque gosto dele e a crítica de referência também.
3. Pode ser mau porque não gosto dele e bom porque a crítica de referência gosta dele.
4. Pode ser mau porque não gosto dele e a crítica de referência também não.


Ou seja, um livro bom é como areia movediça. Os chamados “cânones” são, também eles, movediços e, nos tempos da grande divulgação, permeáveis a modas e interesses.

Talvez se recordem de umas tabelas (não sei se ainda existem ou não) que criavam um leque de perfis de sexualidade. Numeradas de 1 a 10, ao número 1 correspondia, por exemplo, o perfil inequivocamente heterossexual e ao número 10 o perfil absolutamente homossexual. No meio, nuances e em vários graus, nenhum absolutismo.

Lembrei-me disto porque acho que é tal qual com os livros.

Por fim, e mesmo antes de vos chamar ao debate, afirmo: há muitíssimos livros bons na literatura de segunda mas não há livros bons na má literatura.

Que vos parece?

Ajudem-me a pensar. Obrigada.
Fernanda Mira Barros

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Aborrecimento, quase poesia



IX: Sinistro Ocorrido em Agosto

 

Entram, matam-me.

Na tevê, estão levando o Quo Vadis.

Curiosos os rumos tomados pelas coisas, quando remetidas a si próprias.

Eu duvidava.

Quando entraram, quando entraram a matar-me, era com isto que eu andava às voltas. Algumas dúvidas. Eu duvidava.

Pensava ter ouvido de uma velha amiga que seu filme favorito em criança era este Quo Vadis.

Faltavam-me as provas, no entanto.

Eu distribuía esta colocação entre minhas amigas, testava.

Também eu fui improvável em criança.

Também eu busquei me vincular, mais tarde, a tantos outros que haviam sido improváveis em criança.

Deborah Kerr atada a um tronco no centro da Arena. Flores atadas à cabeleira ruiva, ao coif improvável.

Bom, isto tudo acabou.

Eis um grande arrependimento que levo comigo para onde quer que me estejam levando. Não reconheço flores, árvores. O mesmo para tecidos, cores, estilos arquitetônicos, materiais de construção.

Gostaria de ter sido mais exato.

Gostaria de ter lido, relido, memorizado todos os livros com que abarrotei as reduzidas dimensões desta casa.

Terei sido ao menos vibrátil em minha infinita ignorância?

Agora conhecerei sem esforço. Conhecerei, possivelmente, uma intelecção imediata, uma assimilação plena e orgânica das coisas. O que sempre foi meu desejo mais ardente, falando verdade: ter nascido sabendo.

Isto e dinheiro.

Ter nascido sem a hesitação que tanto apregoo hoje em dia como grandeza moral.

Apregoava.

Minha casa era fria e úmida.

Com trinta passos, fazia-se o torno dela inteira, quiçá mais de uma vez.

De exígua, não havia espaço para as assombrações.

Não cabiam sequer os cheiros.

Os meus, por exemplo. 

Tinham de desprender-se, contrariando meus mais encarniçados esforços.

Era frequente, também, sonhar com tanto volume que ia despertar no varandim, na rua, no exterior.

Era isto, em suma, a minha casa. Este desacordo com o exterior. Sempre um pouco mais fria, um pouco mais úmida que o próprio inverno.

Nunca fui capaz de temperar de modo muito realista a comunicação entre a casa e o exterior.   

Nunca me mostrei à altura do bolor, dos entupimentos.

Com os anos, no entanto, aprendi a amá-la.

Fiz mau uso de minhas prerrogativas humanas, nomeei-a.

Como todo aquele que ama, sim, fiz mau uso de minhas prerrogativas.

Aprendi a ignorar as freiras com as quais vivia esbarrando na rua. Aprendi a ignorar os ônibus cheios de turistas.

Pensei que me integrava ao folclore do bairro.

Agora estou pensando com o sangue que empoça à volta da cabeça. É uma maneira nova de pensar, reconheço.

É uma lira nova.

Mas não é ainda o período límpido que busquei por tanto tempo.

Curiosos os rumos que tomamos nesta busca pelo período límpido.

Com o sangue que me sai da bordoada na cabeça, rememoro um passeio na cidade de meu pai.

Longa tarde caminhando a esmo pelo atulhado centro comercial de uma seca província. Uma tarde escorchante.

A seca surpresa ao deparar uma rouparia situada em esquina bastante movimentada.

Uma loja chamada Quo Vadis.

A surpresa diante daquelas palavras, a placa enorme, enormemente improvável, a pergunta que pairava – indolência e imponência – sobre o imparável vaivém. 

“Volto para Roma para ser crucificado”, respondo, muito depois.

Será que é para esta imagem que estou sendo transportado?

Oh, não.

Por Deus, espero que não.

 

 

"Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os
Ilhados
".

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Max e René. Um monólogo e um cão #8

Ao ritmo semanal publicaremos no blogue da Cotovia a mais recente peça de José Maria Vieira Mendes, Max e René. Um monólogo e um cão.
 
MAX E RENÉ
Um monólogo e um cão



Perda

Entra MAX 10 vestidos de MAX abraça-se a MAX 11. Uivam.

MAX 11 Foi horrível... foi horrível...

Pouco depois acalmam-se.

MAX 11 Foi horrível. Foi mesmo horrível.

MAX 10 Eu sei, eu sei.

Uivam.

MAX 11 O anjo da minha vida. A minha René. Foi mesmo horrível.

MAX 10 Eu sei.

MAX 11 Morreu nos meus braços. O anjo da minha vida. A minha querido René. É como se morresse uma parte de nós.

MAX 10 Já está em paz.

MAX 11 Foi nos meus braços. Ela foi-se nos vossos braços. Coitadinho. Foi horrível. Uiva.

MAX 10 Eu sabemos, nós sei.

MAX 11 Gosto tanto dela. Gostas tanto daquele cãozinho. A René é tudo. A cara dele fazia tudo diferente.

MAX 10 Era um amor.

MAX 11 Aquele focinho. Parece que o estamos a ver. Para onde quer que olhe.

MAX 10 Vai fazer muita falta.

MAX 11 Foi-se um bocado de mim.

MAX 10 Eu sabes. Tu sei que a René era muito importante para mim...

Abraçam-se.

MAX 11 Saudades, saudades.

MAX 10 Vai fazer muita falta.

MAX 11 Vi-o a partir, percebes? Foi horrível.

MAX 10 Coitadinha. Há de estar bem onde quer que esteja.

MAX 11 Não estou preparadas para o deixar ir.

MAX 10 Eu sabemos, tu sabem.

MAX 11 Foi uma primeira convulsão. E depois outra. No nosso colo. Olhámo-nos nos olhos. Foi mesmo mau. Mesmo mau. Foi horrível.

MAX 10 Eu sabes.

Abraçam-se.

MAX 10 Mas olha... ela quis morrer nos teus braços, no meu colo, e isso é lindo.

MAX 11 Pois é.

MAX 10 Ele está em paz.

MAX 11 Pois está. (Depois de um silêncio) Quero ficar com o corpo da René. Mas não conseguimos decidir se deve ser taxidormi...

MAX 10 Embalsamá-lo?

MAX 11 Sim, isso.

MAX 10 Queremos embalsamar o René?

MAX 11 Era...

Silêncio.

MAX 10 Max.

MAX 11 Sim.

MAX 10 Max, onde é que está a René?

MAX 11 Está comigo. Está aqui.

MAX 10 Sim, mas onde?

MAX 11 Congelado.

MAX 10 Congelada? Como é que o congelaste?

MAX 11 Com gelo.

MAX 10 Mas onde é que arranjámos gelo aqui na selva?

MAX 11 Arranjaste.

MAX 10 Mas é um gelo especial?

MAX 11 Não. É gelo

MAX 10 Portanto ele está num congelador?

MAX 11 Sim. Está no congelador. Naqueles frigoríficos com um congelador em cima, sim. Está no congelador.

MAX 10 Mas o... O congelador é frio suficiente para... para esse tipo de congelação?

MAX 11 Não sei, acho que sim. Pelo menos está duro. Queres ver?

MAX 10 Vê-lo?

MAX 11 Eu trago-ta.

MAX 10 Não! Não não não não não...!

MAX 11 Gostava de te mostrar.

MAX 10 Não, não, não. Não consigo. A sério, não.

MAX 11 Gostava que a vissem.

MAX 10 Não, ok?

MAX 11 Ele já não morde. É a René, Max. A vossa René.

MAX 10 Mas está tapado, ou assim?

MAX 11 Está.

MAX 11 sai e reentra com um cobertor ao colo.

MAX 11 Está frio.

MAX 10 Isso é o René?

MAX 11 É a René.

MAX 10 Não consigo, não consigo, Max.

MAX 11 É a nosso anjo, Max.

MAX 10 Desculpa, mas temos de a enterrar.

MAX 11 É o minha René.

MAX 10 (horrorizados) Ah!! Vi a cara dela. Vi o focinho! Que horror! Ai!

MAX 11 Dá-lhe uma festinha!

MAX 10 Não! Não venhas atrás de mim! Respeitem o corpo do nosso cão! Respeita o corpo do vosso cão. Desculpa. Mas isso não te faz bem, ok? Não é saudável. Não podemos ter a René no congelador.

MAX 11 Mas precisas do corpo dela. É a nossa existência. Preciso dos olhos dele. Quem é que vai agora olhar para nós?

MAX 10 Não sei, tens de pensar, mas não quero esses olhos. Esses olhos estão mortos, René. Vocês não queres um morto a olhar para ti! Um morto a confirmar a nossa existência? Isso é tétrico! É como se já não estivesse aqui, como se também estivessem mortas. E eu não estás morta. Agora que vós descobrimos a vida, que te integrei na gramática, depois deste esforço todo, recuso-me a morrer outra vez.

MAX 11 Por isso é que eu nos lembrámos de o embalsamar. Era uma maneira de não estar morto.

MAX 10 Isso não é verdade. Para embalsamar tiram tudo de dentro dela, as entranhas todas, e depois metem-lhe olhos de vidro e acrescentam-lhe bigodes e pintam-lhe as unhas, e substituem-lhe os dentes, não é ele que fica, é um boneco igual a ela, embalsamar é isso. Não serve para nada.

MAX 11 Não sabíamos...

MAX 10 Max, tu sei que é difícil. Nunca mais vamos ver o meu amor. Ela partiu. Mas tenho de a enterrar. Faz-se um funeral.

MAX 11 Não sei se conseguimos. Tenho de a ir pôr no congelador.

MAX 10 Está a descongelar?

MAX 11 Não sei. Mas está-nos a congelar os braços.

MAX 11 sai e reentra sem um cobertor ao colo.

MAX 10 Um funeral é o melhor. Na clareira. Enterramos o nossa René. Despedes-te dele. Choram.

MAX 11 E depois?

MAX 10 E depois não interessa. Foi isso que René nos ensinou.
 
José Maria Vieira Mendes escreve maioritariamente peças de teatro e faz traduções ocasionais.
É membro do Teatro Praga desde 2008. As suas peças foram traduzidas em mais de uma dezena de línguas. Para além de edições de peças nos Livrinhos de Teatro Artistas Unidos, publicou Teatro em 2008 (Livros Cotovia), Arroios, Diário de um diário em 2015 (edição Duas páginas) e, em 2016, um ensaio (Uma coisa não é outra coisa) e uma compilação de peças (Uma coisa), ambos pelos Livros Cotovia.

 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Max e René. Um monólogo e um cão #7

Ao ritmo semanal publicaremos no blogue da Cotovia a mais recente peça de José Maria Vieira Mendes, Max e René. Um monólogo e um cão.
 
MAX E RENÉ
Um monólogo e um cão


Meio

MAX 8 vestido de MAX.

MAX 8 Max multiplica-se. Juntamo-nos e falas a oito, a nove, a vinte vozes. Quanto mais tempo nesta selva, mais são. E quantos mais são, mais enigmáticas somos. Partiram à procura de palavras e gramática, mas só encontro vozes e mais vozes, cada uma para seu lado. René acompanha-te com olhos de cão, doce sempre. É o outro nome, o que não sou eu. Com a cauda diz que somos um monólogo e ela um cão. Fiquei por aqui, foi onde cheguei. Mas isto não é o fim, chama-se meio. A vida de Max tem tudo a que não tem direito e é sempre mais um e mais uma e mais. E nisto será sempre só um porque eu não somos tu. Sois um monólogo. Mono. Nunca a outra coisa. É esse o meu único limite. E agora que temos René já o posso traçar.

 
Festa

Manhã. MAX 6, 7 e 8 acordam vestidos de MAX.

MAX 6 Isto sim é uma manhã. Com gotas da chuva a secar nas grandes folhas da árvore-polvo, o solo sempre húmido, uma serpente a dormir num tronco e os primeiros raios de sol a aquecer o meu olho. Era capazes de viver aqui para sempre.

MAX 7 Para sempre na selva?

MAX 8 Para sempre é muito tempo.

MAX 6 Não sei o que é.

MAX 8 Hoje é o último dia. Amanhã regressamos. Quando voltar, tens uma sopa quente à espera no teu quarto. Agora que sou, que nos veem, está na altura de pôr à prova a conquista.

MAX 7 Eu por acaso gostamos disto aqui.

MAX 8 Mas vamos voltar. Vieste para aqui para regressar. É um lugar de passagem, não é o vosso lugar.

MAX 6 Não sinto falta de nada fora daqui. Tendes mangas, peixe, couves, banana, bagas, água e toda a alimentação. Amor todos os dias. Nomes para tudo. Existência que nunca mais acaba...

MAX 8 Os nomes vão contigo, basta isso. Saí de dentro de mim. Já não és só eu e sentem a cauda da René a bater na minha cara. Agora é preciso dar lugar a outras.

MAX 6 Tendes razão, mas é difícil aceitar que acabou.

MAX 8 Não acabou nada. Vou só para outro lugar.

MAX 7 Estou a ficar melancólicas. Uiva.

MAX 6 uiva.

MAX 8 Parem com isso! Que disparate. Vais mas é festejar.

Entra MAX 1 e 9 vestidos de MAX.

MAX 1 Vamos festejar.
MAX 9 Tiveram a ideia, vou fazer uma festa.
MAX 1 Celebrar o futuro desconhecido, celebrar a diferença intransponível, celebrar a selva.
MAX 9 Celebrar a visibilidade! Somos visíveis! És feliz. Sou tão felizes, tão felizes, tão feliz!
Uma festa. MAX 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9 celebram.
No final da festa entra MAX 10 de rompante.
MAX 10 A René! O René! A René morreu!!

 
José Maria Vieira Mendes escreve maioritariamente peças de teatro e faz traduções ocasionais.
É membro do Teatro Praga desde 2008. As suas peças foram traduzidas em mais de uma dezena de línguas. Para além de edições de peças nos Livrinhos de Teatro Artistas Unidos, publicou Teatro em 2008 (Livros Cotovia), Arroios, Diário de um diário em 2015 (edição Duas páginas) e, em 2016, um ensaio (Uma coisa não é outra coisa) e uma compilação de peças (Uma coisa), ambos pelos Livros Cotovia.

 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Comer com os olhos #5


©Patrícia Azevedo da Silva
 


Ultimamente tenho sentido muito medo. Medo de tudo e muitas vezes. Todos os dias choro, mas é quase sempre com histórias fofinhas e de sucesso (agora mesmo foi com uma mãe elefante que entrou em pânico porque o seu bebé escorregou e caiu nuns carris de sacar água de um poço e alguns tigres estavam a aproximar-se, então uma outra família de elefantes voltou atras para distrair os tigres enquanto a mãe, à bruta, libertou o filhinho; correu tudo muito certo).
Só houve duas outras vezes na vida em que senti um medo que era tão real tão real que me paralisou. Das duas vezes fugi para o Brasil, o que me salvou, mas infelizmente essa senhora elegante que me alimentava estes golpes e agilizava as viagens entre 2 a 7 dias, a minha querida avózinha, já não anda por aqui (pelo menos não de forma a conseguir planejar tudo). Por isso fiz o melhor que sei, e fugi de férias para o mar. Works for me.
Antes das férias, assisti ao documentário da Paula Rêgo que passou no canal 2, e que em inglês se chama Secrets and Stories (já soube que não, mas na minha cabeça este título tem qualquer coisa de Mike Leigh/Secrets and Lies). Muitas coisas me impressionaram neste documentário: a relação dela com a mãe (Rêgo conta que, quando era pequena, costumava colocar um cavalete atrás do cavalete da mãe e pintavam as duas, e apesar da mãe nunca ter sido particularmente encorajadora, aquela era a sua tentativa de criar ali um bond qualquer); a relação com os filhos, claro, porque também é muito disso que o filme vai à procura (é realizado pelo seu filho, o mais novo de três), e fica mais ou menos claro (ficou para mim) que talvez a relação de Rêgo com eles não fosse assim a mais quentinha (também provavelmente alimentada pelasb expectativas e ideias sociais/contextuais do que deve ser uma mãe), e além do comentário da filha do meio, que diz que a sensação deles é que tinham sido sempre actores secundários dessa história de amor que era a dos pais, há ali um momento ackward quando o filho lembra Rêgo de que um dia comentou com ele que o trabalho era a coisa mais importante do mundo - o que me impressionou foi a forma como ele disse aquilo como se, agora com distância, estivesse à procura que a mãe reconhecesse que afinal talvez o mais importante fossem eles, os filhos, e ela, felicíssima, retorna: "Eu disse isso? Ainda bem que disse. Porque é a verdade". (Estou a escrever de cabeça, não sei se foi exactamente assim.); a relação com o marido, intensa e gigante, de cumplicidade e aquelas coisas meio twisted que acontecem quando pessoas que têm o mesmo craft se juntam; e, também e talvez acima de tudo (não porque me tenha impressionado mais mas porque é o mais importante para Rêgo, e nesse sentido para respeitar os seus desejos), a sua relação com o seu trabalho.
Aquilo era uma grande maluquice. Eu achei que era em bom. Sobretudo as imagens da casa da Ericeira, com ela a ir pintar para a adega ou celeiro ou que raio lá era, com os filhinhos espalhadas por ali a brincar no jardim, não vou mentir, era um pouco o meu sonho de vida agora. E no meio daquilo tudo a melhor parte foi quando conta que um dia (acho que nessa mesma casa) desceu as escadas e apanhou o marido a beijar outra mulher e correu a chorar a contar isso à sua melhor amiga. À medida que lhe contava, a sua amiga começou a chorar também, e aí ela percebeu que os dois, o marido e a melhor amiga, estavam a traí-la: aquele não era um choro de empatia. Rêgo descobriu então que essa amiga estava apaixonada pelo seu marido e que tentava imenso que ele deixasse a família para ficar com ela.
Então a Paula Rêgo pulled a Lemonade! Rêgo estava na altura a fazer o seu quadro "Cães de Barcelona" (Rêgo conta que ficou chocada porque descobriu que em Barcelona às autoridades andavam a espalhar carne envenenada pelas ruas, para matar os cães vadios – e pelo caminho, outros vadios) e não sabia o que colocar em cima (da pintura), e acabou por colocar uma figura monstruosa, que seria a sua "amiga". Até onde sei Victor Willing, marido de Rêgo, não respondeu em modo Jay-Z's 4:44 mas comentou, mais tarde, que aquele quadro representava aquela que tinha sido uma ameaça à sua família. O quadro, de alguma forma (ou de todas as formas) foi uma maneira de perceber o que "(Rêgo) pensava sobre si mesma, sobre ele, e sobre tudo". Acho que, aplicado a todo a sua obra, Rêgo diz que através do trabalho "pode sair a raiva toda que a gente tem". E esta raiva e esta forma de lidar com a vida pode servir para combater os medos: logo no início Rêgo diz que sempre foi deprimida e que se lembra, quando era pequenina, de ter medo de tudo. O que contrasta muito (e ela reconhece-o) com a forma como viveu o resto da vida: a ida para Londres, o romance com o marido, ter suportado uma gravidez e um parto (o primeiro) sozinha (com o apoio sobretudo do pai, dela, mas sem o apoio do pai da criança), os amantes, e sobretudo a sua relação com o trabalho.
Como mulher, e não sei se bem totalmente consciente, Rêgo foi um pouco punk. Nunca pensei que a Paula Rêgo e a Beyoncé pudessem ter tanto em comum. 
 




Patricia Azevedo da Silva nasceu em 1977 naquele que é, sem dúvida, o ano mais punk do século XX (serpente de fogo). Trabalha sobre a dádiva e a ideia de reciprocidade a partir da óptica do amor (a sua tese de doutoramento, “Pão é Amor Entre Estranhos”, ainda por terminar, aborda a ideia do alimento enquanto linguagem&afecto, a partir de trabalho de campo realizado em São Paulo). Na sua tese de mestrado, “Para lá do prejuízo”, trabalhou os temas de género, colonialismo e performance a partir da análise de experiências de mulheres brasileiras a viver em Lisboa.
Trabalhou com quase todas as produtoras de cinema em Lisboa (nos anos 2000) e foi aí que descobriu a importância da repetição (no sentido de repetir obras). Também foi ganhando outras relações com outras ideias de teatro e, actualmente, tenta fazer o mesmo com a dança (e, ainda remotamente, com as artes plásticas).
Cresceu em Queluz, Monte Abraão, e a ideia de periferia e subúrbio está presente em tudo o que faz, pela via da marginalidade e pela forma encantada como aprecia pracetas. É mãe.