quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Tuiuiú

Na verdade, isso que você me propõe é o que eu sempre quis. Quase sempre, isto é, depois que superei a época de querer ser princesa, astronauta da Nasa, cientista da Nasa; esta última durou um pouco mais do que as outras. Depois quis ser bonita ou amiga do Harry Potter. Nasci no final de 1991, tenho vinte cinco anos e meio, hoje é um sábado chuvoso e frio, acordei tarde e continuei na cama, assistindo desenho animado. Fui sozinha à padaria tomar café da manhã ao meio-dia, a chuva me pegou no caminho porque não tenho guarda-chuva, depois voltei à cama e às cobertas para ouvir James Blake e ouvir Frank Ocean. Li um gibi. Estou intensamente tranquila.
Sempre quis, como dizia, sempre quis ser alguma coisa. Nem sempre é fácil ser coisa quando você já é logo de cara uma pessoa, especialmente uma pessoa cujo sobrenome tem mais de três sílabas, isto é, alguém para quem a consistência humana pesa, como pesam os nomes longos. Meu sobrenome materno, “Scarinci”, veio da Itália, da ponta onde a bota embica. Meu avô, de quem herdei o nome, na verdade era romeno, mas foi adotado por um italiano chamado Temístocles que era casado com uma egípcia chamada Eva, eles eram do circo. Meu avô foi adotado pelo circo – que vida extravagante e apaixonantemente triste, solitária e livre e sonolenta como um sonho antigo. Ele passou os anos de amadurecimento sendo serrado ao meio, e não vou dizer se esta era ou não uma metáfora de sua vida. Mal o conheci, para ser sincera. O nome Scarinci, quando veio da Itália, na verdade era Carinci. Mas por causa de uma briga, parte da família decidiu que seria Ex-Carinci, gosto dessa ideia, não assumir um nome novo qualquer, mas assinar seu próprio nome como despertencimento. “Quem é você?”, “Sou Ex-eu”.
Você deve achar que eu sou muito jovem e que falo coisas de uma pessoa muito jovem. Mas este não é o momento para isso. O exercício que você me propôs é o de ser alguma coisa. Alguma coisa bem linda, eu espero, como um umidificador de ar, uma lâmpada, que delícia, um pedaço de madeira. Como é bom pensar em madeira. Na peça do Shakespeare, quando vemos Hamlet pela primeira vez, ele está sozinho, num canto da festa, vestido inteiro de preto, um pouco como eu aos 14 anos. Em seu solilóquio do ato 1, cena 2, diz algo estranho, “Oh that this too too solid flesh would melt”, “que esta carne tão tão sólida derreta”. Algumas edições acham que isso só pode estar errado, e corrigem para “sullied flesh”, “carne impura”. São meio moralistas. Outras colocam uma vírgula separando “too, too”, como se precisarem dar a ênfase dramática da pontuação a algo que já é dramático, mas que é também estranho e perfeito, too too, como um passarinho. Hamlet é sólido. Sente que suas pernas são demasiadamente pernas e seus braços com certeza não são de éter e sua cabeça – como pode sua cabeça? Tão cabeça. Depois, não é de se surpreender que ele passe a odiar a namorada e a mãe, elas têm tanta carne! O que só pode querer dizer que ele é feito de carne também. Nesse começo da peça, enquanto Hamlet ainda é muito jovem, ele diz que seu poema preferido do Drummond é “Relógio de Rosário”, "E nada basta,/ nada é de natureza assim tão casta/ que não macule ou perca sua essência/ ao contacto furioso da existência”.
Que verso lindo e fútil. Fútil sim, tenho um pouco de raiva dele, assim como tenho raiva de alguns homens. É que penso que não há, ou não vale a pena haver essência descolada da existência. Tudo o que é sólido existe e é bom. Pirâmides do Egito, sapatos, as coisas felizes e mudas olhando para nós. Você também. Gostaria de te conhecer. Sou feita de quatro paredes e algumas pedras nos bolsos, dois olhos e uma gata adormecida aos meus pés.





Sofia Nestrovski nasceu em São Paulo, em 1991. Cresceu no meio do milharal dos Estados Unidos, voltou para São Paulo mais tarde. Faz mestrado sobre o poeta William Wordsworth na Universidade de São Paulo, dá cursos sobre Shakespeare, assina uma seção semanal sobre palavras no jornal Nexo, escreve resenhas para a revista Quatro cinco um. Também luta Kung Fu, mas não muito.

6 comentários:

  1. E eu, que fui aluno do Ex-Carinci e vi Silvana crescer fico aqui no rodapé só admirando, que sorte que tenho.

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    1. Ronai longínquo da minha infância! Essa história do Ex-Carinci é incrível, não? Fiquei sabendo recentemente por uma prima que surgiu do nada - nem o pai, avô da Sofia conhecia! Contado assim pela Sofia é muito comovente!

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    2. Eu também achei incrível a história, gostei demais. Scarinci foi o professor que mais me impactou, na licenciatura, em muito sentidos. Por um lado, para minha sorte, quando ele foi meu professor, teve um surto de "didática" e decidiu escrever as aulas, para que a gente pudesse aprofundar as discussões. Já no primeiro semestre de aulas no curso ele fez a gente ler, como bibliografia de introdução à filosofia, O Pensamento Selvagem, de Levi-Strauss, um livro de Dilthey e outro de Jaspers. Isso era aperitivo. Ele escreveu textos magníficos de introdução à filosofia, que mimeografava à alcool e passava para a gente. Até que teve uma doença que o jogou na cama por semanas e ali morreu um belo livro. Acho que devo a ele o fato de também escrever minhas aulas; outras heranças que tive dele (a forma como ele usava a ironia em aula) foram mais complicadas de administrar. Enfim. Foi um professor inesquecível, o "Seu Carlinhos", como dizia o artesão de Camobi que ele descobriu.

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  2. Tuiuiú é uma bela ave. Quem já morou no pantanal, onde está incrustada Corumbá,sabe disso

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  3. A coluna dá um "show" a todos os tuiuiús que já vi na vida e não foram poucos. A beleza do ser transcrita num texto histórico. Orgulho de receber teu olhar e palavras mesmo que raros! Respeito Zé Maria

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  4. Repito e repito e repito: livro. Mas vou parar de pedir, porque agora é inevitável. Vou só esperar.

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