sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Tuiuiú

  
        Um leão, galos e galinhas, animais velozes, tartarugas, um elefante, marsupiais, um aquário de muitas coisas, animais de orelhas compridas, um pássaro que canta no fundo da floresta, outros pássaros, pianistas, fósseis e um cisne. Minha casa é cheia de animais de plástico, miniaturas, e uma gata. Uma vez sonhei que brotavam salamandras das torneiras. Poucos meses depois, sonhei que tinha um minotauro de estimação.
No meu sonho, o minotauro precisava ser mantido à base de carinho, ou fugiria. O meu maior medo era que, na fuga, destruísse minha casa e depois o mundo inteiro. Emily Dickinson escreveu um poema em que diz que um sapo pode morrer de luz. Em outro, sobre quando ela mesma morreu, conta que uma mosca ficou no meio do caminho entre ela e a luz, e o universo deixou de existir. Bom, eu ainda me lembro da sensação de ser pequena o bastante para colocar meus dedos sobre a mesa da sala e ficar com os olhos na altura dela. O que eu via quando olhava para cima era luz sobre luz, a luz da janela refletindo no verniz da mesa e voltando em direção à fonte, indo de encontro consigo mesma. De resto, pessoas e móveis eram gigantes, opacos e não me interessavam.
Ultimamente não tenho bebido água em casa porque meu filtro de barro virou um cemitério de aranhas. É a segunda vez que isto acontece. Na primeira, fui encher meu copo e vi que uma aranha quase transparente de tão minúscula caiu dentro dele. Joguei fora a água e fui enchê-lo de novo; mais uma aranha caiu. Então encontrei uma fileira delas marchando em volta do filtro, indo em direção ao ponto onde as duas metades dele se juntam. As aranhas entravam no filtro por frestas nessa junção, e quando levantei a parte de cima, descobri que havia uma colônia inteira delas dentro d’água. Mortas e incontáveis, eu as bebia há não sei quanto tempo. Limpei o filtro e vedei a fresta. Mas elas voltaram. Vocês que me visitam também já beberam das minhas aranhas.

Em 1855, Walt Whitman disse que poderia morrer com o sol nascendo, se não fosse ele também capaz de irradiar um sol para fora de si. Minha gata caça baratas e moscas, eu mantenho minhas aranhas mortas, minhas plantas têm desmaiado de insolação. Em 1856, Emily Dickinson disse sentir pelas criaturas da natureza um “êxtase de cordialidade”. Eu agora venho todos os dias na casa da Deborah beber água. Hoje nós duas ficamos na sala, olhando para sua gata que olhava para fora da janela. A gata encarava a luz, piscando muito rápido para não desviar o olhar, e a Deborah disse “Pare de se comunicar com o sol, Matilda”. Mas ela nunca para.




Sofia Nestrovski nasceu em São Paulo, em 1991. Cresceu no meio do milharal dos Estados Unidos, voltou para São Paulo mais tarde. Faz mestrado sobre o poeta William Wordsworth na Universidade de São Paulo, dá cursos sobre Shakespeare, assina uma seção semanal sobre palavras no jornal Nexo, escreve resenhas para a revista Quatro cinco um. Também luta Kung Fu, mas não muito.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Mata-Borrão


Nossa Senhora

Andava eu, basalto fora, a boca a saber a lapas. A vida a deixar-se pensar, um abuso quando ela começa nisto. Pensa-me, pensa-me. Submissa ou prepotente. Abana o rabo, rosna, pede festas. Um cão, a vida. E ali, como não lhe dar atenção, no berço de cedro, dossel de cinzas, lençol de enxofre bordado a hortências, pétala a pétala, já cansada, a névoa bordadeira.

Baleias a respirar como quem cospe e eu a fazer-me desentendida. Penduro a vida no ramo de um dragoeiro. Fica aí, espera pelas naus. Vais ver que gostas do cheiro a canela. Qual. Conjuga o verbo biografar em todos os tempos e se há tempo para isso, é ali. O sol cru a aquecer a memória, a enxugar o sal aos olhos. E deste céu primordial cai uma chuva grossa, mitológica, sem vento, sem frio, sem aviso. Páro, não há lugar de abrigo. A lava é uma artista do mais contemporâneo. Quis lá saber das simetrias, brincou a escorregar. Lá em baixo, muito antes do mar que dali não se vê nem se escuta, vi a Nossa Senhora. Devia estar num pingo, como eu. Os cabelos esvoaçantes porque corria desalmadamente, deixando o manto azul esvoaçar também. A Senhora, neste preparo, nada tinha de sereníssima. Fui ao seu encontro. A vida entretanto, ficou expectante. Onde é que esta vai. Deixou de pensar em mim.
Profundo, é verdade, mas breve, o mistério.

Quando, por certo cansada, começa a subir o vale, começa também a ver-se o andor, os ombros de quem o transporta, depois a banda filarmónica e, por fim, os fiéis. A chuva parou, outra vez sem aviso. Não quis levar a vida com ela. Era uma procissão de uma freguesia. Do lugar onde eu estava, pareceu-me uma aparição.  


Maria João Forte é socióloga

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Aborrecimento, quase poesia



XII: Três Passeios



            Abrindo os braços em discreta atitude de crucificado, consigo abarcar o início e o fim da piscina pública.
            Um gesto que uma criança faria logo antes de pegar no sono, talvez. Uma tentativa de tornar material o percurso de uma noite até a manhã seguinte. De retirar da sombra, da ininteligibilidade, dado caminho.
            Cabeça inclinada para a direita, o que penso enxergar é uma construção rematada.
            Este movimento da cabeça leva um intervalo de dois anos, aproximadamente.
            Dia desses, folheando o Kwaidan, dei com a seguinte fortaleza: “a space of garden”.
            Alguém atravessava, na narrativa, “a space of garden”.
            Formula-se então, agora, um espaço de braços, um trecho de braços, um intervalo de braços.
            “Um intervalo de braços”, anoto às pressas.
            Circulo.
            Estendendo-os assim, como se tivesse as tríplices mãos pregadas a ripas de madeira, consigo representar certa trajetória rumo a um estado de completude.
            Um pensamento que sempre me ocorria quando me via constrangido a consultar os Classificados de qualquer jornal atrás de emprego ou moradia era o da eternidade do círculo.
            Não era um pensamento sumoso. Não impressionava pelo que pudesse conter de desdobrável, de cultivável.
            Impressionava por sua violência.
            Era, antes de mais, pensamento de secura extrema. Uma aproximação de grande silêncio. Um remate. Um remate antes mesmo de começar.
            Despregando as mãos das ripas de madeira e fechando os braços em discreta circunferência, crio um espaço perfeito onde a piscina pública pode existir
            Crio um espaço propiciatório.
            Há uma inauguração na minha mão direita.
            A mão que escreve.
            A mão que circula os Classificados.

***

            “Não saberei mais caminhar nessa cidade”, ele pensa, pesando algumas notícias das quais não conseguira se desviar a tempo.
            Sabe-se que o passado, o pretérito, sugere intimidade. “Rumou então para o bairro onde nasceu e passou grande parte da infância, receando não o reconhecer”. Pode tornar-se uma estratégia: tornar tudo antigo e íntimo, trabalhar por esta viscosidade.
            “Receio reconhecê-lo, receio não reconhecê-lo. Eis o ponto a que chegaram as coisas”.
            O medo, apresentado de certa maneira, pode também tornar-se tático, um ardil, uma forma de enredamento. Certo modo de dizer-se com medo. Uma suavidade, uma decência. Um medo pálido, registrado apenas nos olhos que alternam entre cerrada ausência e a vaporosa tensão do retorno. Um medo profundamente matizado pelo próprio pudor do medo.
            Vejam.
            Uma pessoa tem medo e usa este medo como uma espécie de túnica semitransparente, uns volteios, não mais. Um medo eterizado. Um medo aeriforme. Um medo sem consistência, palpabilidade, um medo que desliza sem fixar-se por sobre a realidade dos objetos. Um medo que, por não reconhecer ameaça direta, não alcança profundamente a necessidade de reagir. Um medo que já não parece dizer nada sobre a perpetuação de si, um medo que parece ter se alçado a patamar diverso, um medo que já não é o medo da dor, da interrupção, da morte.
            Vejam.
Medo sem predicado. Medo que não se resolve nem nas imagens típicas do medo nem nas reações típicas ao medo. Um medo composto, medo medido que não desemboca. Não grita. Não faz demandas. Se já fez algum dia, não importa em nada. 
            Um medo que torna espectral aquele que teme. Medo que nos torna vaporosos e agradáveis. Um medo que é como a nudez. Mas a nudez de um corpo desejado. Um tipo desejado.

***

            “Não saberei mais caminhar nessa cidade”, pensou.
            E depois:
            “Verei a casa. Felizmente estará livre de nascer, crescer, abandonar. Nenhum vínculo comprovável. Nenhum visgo. Será apenas mais um espaço interdito. Um entre tantos.
Caminharei em círculos em torno da construção. Darei por irrecuperáveis as vistas de suas janelas, a disposição dos móveis, a antiga sufocação.
Verei a casa. Felizmente estará livre de retornos.
Verei a casa enquanto ela muda.
Enquanto se lava, se desveste, enquanto se descontamina.
Não se decompõe.
O que quer que seja que a habite agora deve semelhar em tudo uma espera.
Sua nudez, protegida por paredes cujas nervuras posso ainda sentir nas mãos. Sua nudez sem escândalo, achatada em composição, nada mais. A nudez de um morto. Volumes, massas, espaços vazios. Mesmo o chão. Mesmo o chão não será mais aquele pelo qual nos rastejamos por tantos e tantos anos.  
Não aventuro dizer que a casa tinha uma alma.
Não aventuraria dizer alma em referência ao que quer que fosse.

Mas um corpo, uma carne, isto ela tinha”.








Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Mata-Borrão



Desta que munto le quer

Rei de Portugal e dos Algarves, D’Aquém e D´Além -mar em África; a bem da Nação, cordialmente; os meus melhores cumprimentos; desta que munto le quer.
Porque sou velha, guardo um tempo em que saber ler e escrever era uma habilidade de grupo restrito. As cartas eram escritas a pedido.
Sentadas e quedas iam ditando, sem hesitações. O texto decorado, as ideias pensadas. Como no teatro, mas sem ponto. Como num bordado, a ponto de cruz.
Minha mãe, estimo que esteja bem na companhia de quem mais desejar, que eu cá ando como Deus quer. Saberá que vou aí à festa. Adeus, adeus até à volta do correio. Desta que munto le quer.
Para os namorados escrevia-as eu, sozinha. Quando sozinha tinha acento grave no o.
A introdução, meu amor, trazia o sangue à cara. Quando for à festa, havemos de dançar. Isso não! Riscava-se. Deixam-se as saudades para o final, sem beijos. Arrisco o abraço, amachuca-se o avental debruado a grega e a nervos.
No final, eram lidas pausadamente. Mistério denso, esse das ideias serem ouvidas numa folha pautada que se tirava do bloco, com jeito e determinação. O rrrrrrrrrr do papel a desprender-se fazia parte da coisa. Dessa coisa séria, as cartas a pedido.
Dobrava-se então a folha. Cirúrgica, a unha do polegar no vinco. E se de vincos percebiam elas. Nas calças, nos lençóis, nas cortinas, na massa folhada.
O cerimonial do cuspo deixava a língua áspera, a saber a envelope. Endereços sem rua, sem número. Apenas o nome da aldeia, do concelho e da província. Seriam levantadas na venda onde havia telefone, bacalhau, massa, sabão, ponteiros para as lousas da escola, copinhos grossos e opacos com vinho e bolachas de baunilha.


Maria João Forte é socióloga


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Nem ele sabia


Desde que a li, para aí há uma década, que recorro muitas vezes àquela aula que Eduardo De Filippo deu na Universidade de Roma La Sapienza lá pelos anos finais do tal século passado. Dizia o genial napolitano (autor e actor) que o escritor será o pai da personagem, cria-a muitas vezes à noite, num acto de amor, a personagem demora um certo tempo (nove meses também?) a nascer, lá nasce, e segue a sua vida, e o pai, erotómano como ele próprio era, já está a fazer outra e tantas vezes a outra – que não a contratual - mulher.
Pois, o autor deixa a personagem, esquece-a, ela cresce, vai à sua vida e amadurece, arranja empregos e ganha pão. Mas o actor não, entre ensaios, estreias, viagens de comboio, sozinho no automóvel tentando aprender o texto de cor (sim, os actores gastam gasolina e poluem ambientes só para aprender alexandrinos decadentes), reposições, gravações, remontagens, o actor vive com ela, amancebado, um ano, dois, às vezes dez – é pensar no Sean Connery/ Bond, coitado.
O actor conhece a personagem, sabe-lhe as falas, descobre-lhe os silêncios, empresta-lhe o peito, as pernas, o sexo, o corpo até, despudoradamente nu, encarna aquele que o Autor já arrumou na gaveta alta dos “feitos” assinalado com um X a preto ou vermelho. Para o Actor, não:  a personagem está viva, é ele.
E  conhece-lhe os defeitos, claro, a cobardia, a mesquinhez da Candidinha, a ambição de Lady Macbeth, a avareza de Harpagão, a vaidade de Alceste, a tibieza de Hamlet, conhece isso, são as suas próprias ambição, avareza, cobardia, tibieza, vaidade, são as dele mesmo, actor. E mais, o Actor conhece-lhe os defeitos técnicos que o Autor escondeu para debaixo do tapete: quem faz a Maggie da “Gata em Telhado de Zinco Quente” sabe que Tennessee Williams se esqueceu dela durante quase todo o acto II, quem faz a Maxine  de “A Noite da Iguana” sabe que vai ter de sair de cena a correr gritando “A conta! Têm de me pagar  a conta!” , quando, a bem dizer, ninguém lhe devia nada, e só porque dá jeito ao Autor - e a todos nós - ficar sem ela na cena seguinte.
Pois, diz De Filippo, o Actor é o Confessor da Personagem, conhece-lhe os vícios, os pecados, os defeitos, e absolve-a, encarnando-a, milagre de quem “toma posse” e não é ministro.
É como o tradutor, disse eu no outro dia ao falar da admirável tradução que o Manuel Resende fez de 145 poemas do grego Konstantin Cavafys e que a Flop vai editar por estes dias. Só não traduziu 9, diz ele, “porque não sou capaz”, admirável, raríssima confissão de homem honrado.
E é que traduzir isto é obra de uma vida, foram 25 anos a ir e vir, traduzir e rever, refazer e reler,  encontrar uma solução e desistir, ler de novo e esquecer, deixar de lado e esperar melhores dias: são vinte e cinco anos de labor e indolência, de resistência e alegria, tristeza e intensa alegria.
Sim, ninguém sabe a  explosão de alegria que nos abala quando encontramos a tradução luminosa para uma frase que amamos. Por exemplo (e contei-o à viúva que me deu um beijo) quando, ao dirigir “O Quarto” de Harold Pinter, eu andava abespinhado  com o facto de a Lia Gama (maravilhosa actriz) ter de dizer repetidas vezes “Ó sô Kidd!”, e como dei pulos de mozarteano júbilo ao descobrir que podia dizer “Ó sô Junior!” e assim indicar o duplo sentido daquele nome de família.
Nem imaginam como é angelical a alegria do tradutor ao fazer-se entendido pelo Autor, é como se este o amasse (e é só o que queremos, aqui sentados, notes e noites adentro).
Traduzir (como interpretar) é escrever “transfomando-se o tradutor na coisa amada”, quase às cegas meter-se na música que toca, dançar-lhe a valsa, ao autor.
É ver como ele escreveria nesta nossa língua, é experimentar, é ensaiar.
“Se calhar é porque tenho formação científica”, dizia-me a Glicínia Quartin, “que gosto tanto de representar, é como experimentar, um bocadinho mais disto, umas gotas daquilo... e a vida a crescer...”
Pois é. Confessores, os tradutores e os actores, benditos sejam.
E, com o Manuel Resende, percebemos que Cavafys, o grego de Alexandria morto e remorto, passou agora a escrever em português. Definitivamente. Nem ele sabia... 
Nem Karl Valentin também sabia que tinha a minha cara (e a do Luis), embora o nariz fosse o dele.

Jorge Silva Melo
 
 
 
Jorge Silva Melo nasceu em Lisboa em 1948, estudou na Faculdade de Letras de Lisboa e depois na London Film School. Crítico de cinema e teatro, encenador e actor, fundador, com Luis Miguel Cintra, do Teatro da Cornucópia, estagiário na Schaubühne - com Peter Stein - e no Piccolo Teatro/ Scala de Milão - com George Strehler -, argumentista, professor, tradutor, ensaísta, dramaturgo, realizador de cinema. Dirige, desde 1996, os Artistas Unidos.