terça-feira, 29 de agosto de 2017

Mata-Borrão





O mê é que nunca aprendi


Tive doze filhos vivos e outros tantos mortos. Era com um raminho de salsa, com o talo. E olhe que nunca alcancei. Faria se alcançasse! Dizem que a gente emprenha se alcança. Olhe lá!
Tropeçava eu na forma como secava os olhos, passando-lhes os dedos de pele grossa, tratados a lixívia, ó menina a água lava tudo. Tropeçava eu também nas gargalhadas dela, como daquela vez que estava a servir, longe de Lisboa, nuns senhores que tinham terras, bomba de gasolina, uma farmácia e animais. Fazia de tudo, aprendi lá muito. Havia até um rapaz que andava atrás de mim. Fui burra, não o quis. Então eu levava a vianda aos porcos e nasceu um bacorinho. Todos os dias lhe fazia festas e quando ele começou a comer, guardava-lhe tudo o que era bom. O bicho já me conhecia, parecia gente. Mas fez-se gordo e eu já não podia passear com ele na quinta.
Um Domingo, fui à missa e a igreja tinha umas grandes escadas. Estava lá dentro e ouviu-se um barulho que parecia um porco a grunhir. E era ele. Subiu aquilo tudo e entrou, a ver de mim. Chegando a casa, a senhora e o senhor ralharam muito. No Natal não o mataram, tanto lhes pedi. Morreu de velho, ainda comigo lá.
Não sou de padres, mas rezo todas as noites pela pessoa que me ensinou a escrever o nome, o mê é que nunca aprendi, tem muitas voltas. Rezo pelo homem que me vendia o leite fiado, pagava sempre tudo. Ainda hoje, quando vou pagar a luz, é uma alegria. Gosto de pagar as coisas e de rezar por quem me fez bem e já lá está. São alminhas.
Cheirava a cera, a cantiga que cantava vezes sem conta. Já passei a roupa a ferro, já passei o meu vestido, amanhã vou-me casar e o Manel é meu marido.
Ai que os meinhos são para as senhoras. Os meinhos, aquilo que se vê. E dava lustro debaixo das camas, zap, zap, já passei a roupa a ferro.
Isto queria-se era com goma. Os bordados põe-se um turco molhado por baixo. Dá-se-lhe goma, uma farinhazinha. Agora já não. Agora é só aspiradores e esfregonas. Eu gostava era dos amarelos, esfregava-se muito bem, ficavam a luzir, bonitos. E as escadas, com sabão amarelo, parecia gemas. Já passei o meu vestido.
Na minha terra não havia queijo. Mas eu vi uma rapariga a pôr aquilo no pão e pedi à minha mãe. Fazia anos. Ó minha mãe, eu gostava de comer queijo. Ela era boa mulher e o que é que havia de pensar. Ir à mata dos patrões e apanhar cogumelos, a fazer que era queijo. Foi apanhada pelo capataz e tiraram-lhe a féria. Ela ganhava à féria. Agora posso ver muito queijo que não lhe toco. Amanhã vou-me casar.
Andava sempre bêbado e eu apanhava todos os dias. Ia trabalhar negrinha de todo. O pior era quando não tinha reacção. Que culpa tinha eu? Cerrava os punhos e dava-me com eles nos olhos. Tu tens amantes, tens que eu sei. E vá de bater. Um dia, escondi-me no meio das barracas. Era ali na Gago Coutinho, ao Relógio. E ele encheu uma panela com água a ferver. Foi uma vizinha que acudiu.
O meu sonho era vestir um vestido encarnado no dia do enterro dele. A minha filha não deixou, que parecia mal. O Manel é meu marido.
Depois de velha, dá-me para as excursões. Ainda ontem fui.
As minhas perguntas, tantas e tantas vezes escusadas. E onde foi?
Ai, isso não sei. Na camioneta é um fartote. Tudo a cantar e a comer, o chofer é reinadio. Canto muito, para lá e para cá.
Nasceu-me uma neta.
Outra pergunta, tão escusada como as outras. E o nome?
O nome, bem, o nome deve ser açoriano estrangeiro. Nem sei dizer aquilo.
O meu pai ia para a cava, lá para onde fazem o vinho fino. E eu com outra pergunta, ainda mais escusada, no Douro?
Pois, aí. Vinha sempre muito magro. Contava que para levar a comida à boca, arrancavam os aramezitos das vides e punham-nos nos ferros onde passava o comboio. Ficavam a olhar e à espera. E o comboio esmagava aquilo, ficava como se fosse uma colher.
Teria aí uns onze anos. Estava numa casa grande, até tinha medo daquele corredor. A minha tia era lá cozinheira. Eu despejava os bacios e engraxava sapatos. Um dia, caí e esfolei os joelhos. À noite botei sangue. Julguei que era por ter caído. Fui ter com a minha tia e contei-lhe. Ela levantou-se da cama, pregou-me um estalo, olha, cala-te muito bem calada. Isso é a vergonha das mulheres. Pega lá sabão e lava-te.
Ria-se muito, por eu não me rir. Agora sabem tudo, já não têm os olhinhos fechados.
Ouço-a ainda a dizer que o autocarro 56 passa na bombenca. Nunca mais deixei de chamar assim à Fundação Calouste Gulbenkian.



Maria João Forte é socióloga


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