segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Aborrecimento, quase poesia








Um Poema aos 32

Quero a casa promíscua de espaços
Esta luz, aquele cabimento
Morrer desde já sem a palavra pétala
E relógios para amar claro

Quero riscar cidades de chapéu cinzento
A conversa entre aposentos, brisa
Bosque cenográfico
Cela extrema, unção do cinema

Quero paredes descansadas
Objetos que restem sem estremeção
Dançar a salsa dos presidiários
Redescobrir o nariz ao piano

Quero afiar meu reflexo nas facas
E estar na vida sem qualquer esperança
Novamente o cinema sem vísceras
A noite no deserto imaginado

Com boca de gengibre batucar
O homem de trinta do Sergio Sampaio
Quero ler sem apocalipses
Quero colina e rumor calmo

Quero ser o Drummond dos pederastas
Discreta mãe que ronda os telhados
Quero trânsitos graciosos
De elegia em elegia

Quero escapar de uma ilha nem
Que seja para acabar em outra
Quero mais trinta anos de vida
Estes sem medo





Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os
Ilhados
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