quarta-feira, 9 de março de 2016

Seis Contos Morais, de Eric Rohmer

«Para já, não tenho vontade de me ligar seja a quem for. Converso, quando é caso disso, com os meus colegas, mas sempre sobre coisas insignificantes. Não tento cultivar as minhas relações. O ambiente é austero, mas creio que exagero acerca da frieza geral.
Este amor à solidão é invulgar em mim. No estrangeiro ligo-me muito depressa, sem precauções, porque sei que todos os laços são frágeis. Aqui, observo e mantenho as distâncias.


Desde que regressei, comecei a estudar freneticamente. Primeiro, Matemática, com a qual reatei por necessidades profissionais, mas que também cultivo por si mesma, como me acontece, por crises, de dois em dois ou de três em três anos. Um dia, numa livraria onde andava à procura de obras sobre o cálculo das probabilidades, dei uma olhada à prateleira dos livros de bolso e comprei os "Pensamentos" de Pascal. Não os tinha voltado a ler desde o liceu. Pascal é um dos escritores que mais me marcaram. Julgava sabê-lo de cor: de facto, encontrei um texto familiar, mas já não era o mesmo texto. O que eu guardava na memória só fustigava a natureza humana na sua generalidade. O que tinha agora diante dos olhos era algo de intransigente, de excessivo que me condenava, a mim e à minha própria vida, passada ou futura. Sim, algo que me visava muito particularmente a mim.»

Seis Contos Morais, de Eric Rohmer
(trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)

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