quarta-feira, 30 de março de 2016

vida: variações III, de Bénédicte Houart

primavera: rajadas de vento
despojam as papoilas das
pétalas recém-adquiridas
por sob pesados agasalhos
corpos bafientos aprontam -se
para apregoar a sua miséria
uma vez mais como jamais
na noite fria cigarras gritam ao desafio
junto às calçadas alcatifadas
de algodão dos choupos requebrados
nas quais deslizo soltando pragas
logo à janela inconsolável
em vão reclamo debruçada por
outro verão antecipado a pele áspera
desidratada as pernas desirmanadas
ao espelho reflicto intrigada
esta carne crua conquanto educada que
por muito pouco não foi tragada
pelo inverno clemente mortificada
talvez um certo subtil dia dissecada
se foi sem dúvida quando eu estava
como de costume catando palavras
na fétida infame infecta porém
quanto florescente lixeira da história
Vincent van Gogh

vida: variações III, de Bénédicte Houart

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