quarta-feira, 16 de março de 2016

O último Natal de guerra, de Primo Levi

Cheque ao tempo:
«A experiência comum diz -nos que a passagem do tempo, tal como é percebida pelos indivíduos, não coincide com a indicada pelos instrumentos considerados objectivos. Segundo as minhas medições, um minuto passado à frente de um semáforo vermelho é em média 8 vezes mais longo do que um minuto passado em conversa com um amigo; 22 vezes se o amigo for do sexo oposto. Um anúncio na televisão deste Grão-ducado é sentido como tendo uma duração entre 5 e 10 vezes superior ao seu tempo real, que raramente ultrapassa um minuto. Uma hora passada em condições de privação sensorial ganha valores erráticos, que variam entre poucos minutos e 15-18 horas. Uma noite transcorrida em estado de insónia é mais longa do que uma noite passada a dormir, mas não tenho conhecimento de terem sido desenvolvidas, até à data, análises quantitativas. Como todos sabemos, o tempo subjectivo alonga-se consideravelmente se forem consultados com frequência relógios ou cronómetros.
Igualmente comum é a observação de que o tempo subjectivo se alonga durante experiências ou condições pouco agradáveis, como dores de dentes ou enjoos, enxaquecas, longas esperas e situações semelhantes. Pela malignidade intrínseca da natureza e da condição humana, faz -se ao contrário muito breve, ou mesmo evanescente, em condições opostas.»

O último Natal de guerra, de Primo Levi
(tradução de Clara Rowland)


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