segunda-feira, 14 de março de 2016

Satyricon, de Petrónio


«— Mas então que tiveram vocês para jantar?
— Já te conto, — respondeu ele — se for capaz disso; é que tenho uma memória tão boa, que muitas vezes até me esqueço do meu próprio nome! Ora, em primeiro lugar, tivemos porco coroado com um chouriço, com acompanhamento de morcelas e miúdos de frango muito bem preparados, e naturalmente acelga e pão integral cozido em casa, que eu prefiro ao pão branco: dá-me forças e, além disso, quando estou a fazer as minhas necessidades, não me vêm as lágrimas aos olhos. O prato seguinte foi pastéis de queijo frios, com uma cobertura de mel quente, regado por um vinho hispânico de excelente qualidade. Em boa verdade, aos pastéis nem os provei, mas de mel até me besuntei. À volta havia grãos-de-bico, tremoços, nozes descascadas à discrição e uma maçã para cada pessoa. Mesmo assim, eu agarrei em duas e tenho-as aqui escondidas no guardanapo; é que se não levo algum presente ao meu escravito, tenho logo algazarra. Mas em boa hora a minha patroa mo recorda: puseram à nossa disposição uns nacos de carne de urso; sem pensar, Cintila provou-a e esteve quase a ponto de vomitar as próprias entranhas. Eu, pelo contrário, despachei mais de uma libra, pois tinha o mesmo sabor que o javali. No que me toca é assim: se o urso devora o pobre do homem, muito mais deve o pobre do homem devorar o urso! No final, tivemos queijo fresco, vinho recozido, um caracol por pessoa, tripas aos bocados, fígado no prato, ovos embarretados, rábanos, mostarda e um prato cheio de merda — e pára, Palamedes! Circularam ainda, numa tina, azeitonas picantes, das quais alguns descarados sacaram umas boas três punhadas. Ao presunto, deixámo-lo ir em liberdade.»


Satyricon, de Petrónio
(versão portuguesa de Delfim Leão)
"A Imperatriz Vermelha" (1934), de Josef von Sternberg

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