quarta-feira, 23 de março de 2016

O Lugar Supraceleste, de Frederico Lourenço

Ser escritor

«Há três fases na vida de um escritor. A primeira é querer ser escritor. A segunda é tentar ser escritor. Depois há a terceira fase, para os raros que passam além da segunda: ser escritor. Depois começa o verdadeiro problema. Ser escritor não é automaticamente ser bom escritor.
Mas deixemos o problema de quem é ou não bom escritor, já que abre uma discussão onde pouco há que se possa dizer de objectivo. Não vale a pena eu estar para aqui a dizer que Tolstoi era um bom escritor, pois isso toda a gente já sabe. Também não vale a pena fazer afirmações que provoquem reacções pré-determinadas, como “Eça era um bom escritor” (o que suscita logo “Camilo era muito melhor”). Deborah Devonshire não é certamente melhor escritora que Clarice Lispector, mas ninguém negará que é escritora. Paulo Coelho (tão desdenhado por tantos intelectuais que consomem sem rebuço o equivalente musical de Paulo Coelho e acham isso música de que é uma legítima questão de gosto gostar) — sim, até Paulo Coelho, príncipe dos cabotinos, tem de ser considerado escritor. Não nos importemos, pois, com bons e maus, mas reflictamos apenas sobre o que é ser escritor.

Lev Tolsto
No seu fascinante Livro Azul, Wittgenstein escreve o seguinte: “quando falamos do sítio onde tem lugar o pensamento, temos o direito de dizer que esse sítio é o papel no qual escrevemos”. Umas páginas antes, o filósofo comentara que “o processo de falarmos connosco mesmos pode ser substituído por falarmos em voz alta ou então pela escrita”. Mais à frente, a ideia de que o papel possa ser o local onde se processa o pensamento é compreensivelmente rejeitada por Wittgenstein, mas a noção de que a escrita é o substituto ideal para as pessoas que não querem fazer figura de parvas a falar consigo próprias em voz alta parece -me ser a melhor definição do que é ser escritor.»

O Lugar Supraceleste, de Frederico Lourenço

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