quinta-feira, 24 de março de 2016

A Ilíada de Homero adaptada para jovens, por Frederico Lourenço

«A Odisseia propõe-nos um mundo simples (e francamente irreal) onde os bons singram e os maus soçobram. O sofrimento humano é visto em termos de castigo divino por erros conscientemente cometidos pelos homens. Na Ilíada, não é assim. A realidade é mais dura: antes de mais, porque é real. A relação entre erro humano e castigo divino não é de todo direta. Por outro lado, a possibilidade de uma vida feliz parece ser frontalmente posta em causa. Não há outra perspetiva para a vida humana além do sofrimento.
No entanto, a Ilíada (que, ao contrário da Odisseia, não admite bem-aventurança depois da morte) propõe uma circunstância redentora para a vida humana: levarmos os nossos objetivos até ao fim, custe o que custar, doa a quem doer, e nunca abdicarmos do bem supremo pelo qual devemos lutar com unhas e dentes (ou, melhor dizendo, lanças e espadas): a nossa própria autoestima. Morrer é uma obviedade tão patente que se torna banal. Viver em conformidade com o respeito que cada ser deve a si mesmo é que torna quem tal alcança único, excecional, heróico. Esses acabam por não morrer, porque é desses que “reza a história” ( = poesia).»


A Ilíada de Homero adaptada para jovens, por Frederico Lourenço
(com desenhos originais de Richard de Luchi)

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