sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Reedições de Ruy Duarte de Carvalho

Ruy Duarte de Carvalho (Portugal, Santarém, 1941 – Namíbia, Swakopmund, 2010) é autor de cerca de duas dezenas de livros de poesia, ficção, narrativa e ensaio. De 1975 a 1981 realizou filmes para a televisão e para o instituto de cinema angolanos. Em 1982 obteve com um filme, Nelisita, o diploma da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais em Paris e doutorou-se também aí, em 1986, em antropologia social e etnologia. A partir de 1987 ensinou antropologia social nas universidades de Luanda, de São Paulo e de Coimbra, e inquiriu sobretudo junto de sociedades pastoris e agropastoris do sudoeste de Angola e do noroeste da Namíbia.
























“Durante 20 anos, Ruy Duarte de Carvalho não escreveu ficção. Em 1999, no entanto, publicava um livro dificilmente classificável, porque simplesmente mágico: Vou lá visitar pastores é uma ‘exploração epistolar’ sobre as idas e vindas do antropólogo pelo território Kuvale, que se estende para sul passando além do meridiano de Namibe (a antiga Moçâmedes) até às margens do Kunene – uma poética dos nomes e dos lugares. O dispositivo adoptado pelo escritor é engenhosamente ficcional: consiste na ‘transcrição’ de uma colecção de cassetes em que o narrador, pressupondo um interlocutor virtual, desenrola o relato das suas anotações de campanha, penetrando mais e mais no território do Outro (os kuvale), para melhor compreender a essência silenciosa da paisagem: a narrativa, lenta, minuciosa, ‘ricamente lavrada’ (como outrora se diria), toda ela recheada de digressões e reflexões críticas e ensaísticas, funciona como uma espécie de ritual de encantamento, que obriga o leitor a internar-se com ele pela paisagem (terras, gentes, costumes) que é a própria matéria de que se faz o livro.”

António Mega Ferreira, Visão
....................................................

“Em Os Papéis do Inglês, o autor repete um procedimento romanesco semelhante [ao que emprega em Vou lá visitar pastores] (‘escrever a alguém’), que extrapola e estrutura simultaneamente a prosa como pretexto de relato dirigido, neste caso, a uma ‘destinatária que se insinua e instala no texto’. Conta-lhe a história de um personagem conradiano, um caçador inglês que depois de matar um companheiro de profissão grego às margens do rio Kwando, na fronteira com a actual Zâmbia, em 1923, e de se entregar às autoridades portuguesas, que não lhe dão ouvidos, volta ao acampamento e abate a tiro tudo o que vê pela frente, terminando por disparar a arma contra o próprio peito. [...].Uma ficção hesitante que, informada pela antropologia, preza o princípio de que ‘mais que o achado vale sempre a busca’. […]. O que ocorre então é uma narrativa em permanente ‘suspeita perante si mesma’, a questionar-se, interrompendo-se para se revelar, por um processo análogo ao relativismo antropológico: ‘E quem narra não há de ter, ele também, que dar-se a contar?’. [...].E é como se Ruy Duarte de Carvalho se servisse de uma ‘estória angolana’ para fazer também a sua teoria da literatura, de dentro de um país em crise permanente, onde ‘se consome e vive como se o mundo fosse acabar amanhã’.”

Bernardo Carvalho, Folha de S. Paulo




quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Amor e outras histórias, de André Sant'Anna

«A Terra tem belezas incríveis como o pôr-do-sol e o rostinho da filha da Grace Kelly e todas aquelas palavras e aquela música do Roberto Carlos que conta a história do cabeludo que foi abandonado pela namorada e acha que qualquer coisa vai fazer com que a namorada se lembre dele. É bem provável que a namorada do cabeludo nunca se lembre de nada e fique por aí namorando e abandonando cabeludos. Por mais que o cabeludo fale que a culpa é dela, nada vai fazer com que ela se lembre dele. Mas o cabeludo precisa de um consolo e, por isso, ele fica se lembrando da namorada, achando que ela se vai lembrar dele. É a história de todas as músicas sobre homens e mulheres. Elas são muito bonitas.
Aquela música do Paul McCartney que fala de um bobo na montanha, dia após dia. Deve ser muito difícil para o bobo e, por isso, preferiu ser um bobo na montanha e não um lúcido, com os pés no chão, sofrendo o tempo todo por causa da mulher cascavel que ele devia amar muito, dia após dia. Toda essa história podia acabar aí.
Todas aquelas palavras de todos aqueles livros.
Deuses.
Deuses, deuses, todas as palavras.
Toda essa dor do cabeludo que foi abandonado pela namorada.»

"Amor e outras histórias", de André Sant'Anna
(colecção Sabiá)
.........................................................................

André Sant'Anna (1964) nasceu em Belo Horizonte. Morou no Rio de Janeiro, tocou no grupo 'Tao e Qual' de 1980 a 1990, e vive actualmente em São Paulo. É autor de "Amor" (1998), "Sexo" (2000) e "O Paraíso é bem bacana" (2006).
É considerado pelo escritor brasileiro Bernardo Carvalho o mais promissor dos novos escritores brasileiros.
..........................................................................

«Os livros de André Sant'Anna destilam uma raiva típica de grandes autores (de Céline a Thomas Bernhard), uma raiva em que não há mais possibilidade de composição e da qual ninguém sai ileso, nem o próprio autor, isolado na independência irredutível de seu projeto.
(...) "Amor" pode ser lido como uma visão planetária, simultaneamente religiosa (no sentido de religar todas as coisas, nem que seja pelo sangue que está por trás de tudo) e anti-religiosa (contra toda a hipocrisia das igrejas, sejam elas quais forem, a começar pela mídia).»
Bernardo de Carvalho, 'Folha de São Paulo'

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Barco a seco, de Rubens Figueiredo

«Existe um limite para tudo. Não é medo, não é convenção. Pelo menos, não é só isso. Marcas invisíveis deslizam no chão, atravessam nosso caminho. Uma fronteira, um litoral, nem sabemos em que nossos pés tropeçam, nem imaginamos em que parede nosso ombro esbarra. Só um louco pode supor que o céu tem o tamanho dos seus olhos. Só uma criança pode acreditar que o mundo inteiro cabe no prato da sua fome.
Por isso não costumo nadar para longe. Não gosto de ver a faixa branca da praia se esconder muito tempo atrás das ondas. Aflige ver de repente as pessoas na areia transformadas em pequenos riscos de carvão. De longe, parecem quase imóveis. Sua vida não passa de uma sugestão, sublinhada às vezes pela corrida diagonal de algum adolescente.»

"Barco a seco", de Rubens Figueiredo
(Colecção Sabiá)
-------------------------------------------------

Rubens Figueiredo (Rio de Janeiro, 1956), professor de Português e Tradução Literária e tradutor, crítico, contista e romancista, publicou nos Livros Cotovia Barco a seco (romance, 2001). Apesar do pudor do seu carácter, e de recusar tanto a aura romântica do escritor de génio como a aura fútil da fama, Rubens Figueiredo é figura de destaque no mundo literário brasileiro,o reconhecimento da sua obra confirma-se em 1999 com o importantíssimo Prémio Jabuti.
------------------------------------------------

«Rubens Figueiredo é um esteta. Com raro talento conduz Barco a Seco com a precisão de uma linguagem cirúrgica, que desvenda os abismos da alma humana, além de construir uma narrativa primorosa…»
Francisco Costa, O Estado de S. Paulo

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Menina a caminho, de Raduan Nassar

«Cultivei por muito tempo uma convicção, a de que a maior aventura humana é dizer o que se pensa. Meu bisavô, vigilante, puxava sempre da algibeira esta moeda antiga: "A diplomacia é a ciência dos sábios". Era um ancião que usava botinas de pelica, camisa de tricoline em fio de Escócia, e gravata escolhida a dedo, em que uma ponta de cor volúvel marcava a austeridade da casemira inglesa. Não dispensava o colete, a corrente do relógio de bolso desenhando no peito escuro um brilhante e enorme anzol de ouro. E o jasmim, ah, o jasmim! Um botão branco de aroma oriental sempre bem-comportado na casa da lapela. E era antes um ritual de elegância quando ajustava os óculos sobre o nariz: a mão quase em concha subia sem pressa até prender um dos aros entre o polegar e o indicador, retendo demoradamente os dedos no metal enquanto testava o foco das lentes. Neste exato momento, seu olhar ia longe, muito longe, como se vislumbrasse meu futuro distante. Talvez fosse essa antevisão que fizesse surgir o esgar fértil no canto dos lábios, era como se ele tivesse acabado de plantar ali a semente provável de um grande regozijo. Apesar da postura solene, o bisavô, quem diria?, era chegado numa gíria, daí que me catava pela cabeça e soprava no meu ouvido: "O negócio é fazer média", e enfatizava a palavra negócio. Só mesmo o bisavô, tão vetusto, tão novíssimo, era precursor: "Nada de porraloquice. Me promete".
(...)
O bisavô é que sabia das coisas, andava devagar, regulando o avanço da botina na ponta da bengala, a fala mansa e escassa, não improvisava, punha silêncios em cada palavra, "interesses é que contam, nada mais." E quando acontecia de estancar de repente o passo, só mesmo o bisavô: "Às favas o que a gente pensa!".»

"Menina a caminho e outros textos", de Raduan Nassar
(Colecção Sabiá)
........................................................................................

Nascido em 1935 em Pindorama, uma cidade interior do estado de São Paulo, Raduan Nassar é filho de emigrantes libaneses. Sendo um dos maiores escritores das letras brasileiras, anunciou em 1984 o seu abandono da vida literária, para se dedicar exclusivamente à actividade rural. Originalíssimo autor de uma obra muito reduzida e depurada, estreou-se em 1975 com "Lavoura arcaica". "Menina a caminho", publicado em 1997, reúne contos dos anos 60 e 70 e ganhou o prémio Jabuti 1998 de Melhor Livro de Contos e Crónicas.
.............................................................

«Há autores que nos prendem com a sua força fazendo-nos pedir mais, fazendo-nos procurar algo mais, sempre mais um texto, mais uma palavra, além da obra. Menina a Caminho surge assim: uma tentativa de contornar, na obra de Raduan Nassar, o limite intransponível que os seus dois únicos textos constituem.»
Clara Rowland

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O vôo da madrugada, de Sérgio Sant'Anna

Um conto abstrato
«Um conto de palavras que valessem mais por sua modulação que por seu significado. Um conto abstrato e concreto como uma composição tocada por um grupo instrumental; límpido e obscuro, espiral azul num campo de narcisos defronte a uma torre a descortinar um lago assombrado em que o atirar uma pedra espraia a água em lentos círculos sob os quais nada um peixe turvo que é visto por ninguém e no entanto existe como algas no fundo do oceano.
Um conto-rastro de uma lesma também evento do universo qual a luz de um quasar a bilhões de anos-luz; um conto em que os vocábulos são como notas indeterminadas numa pauta; que é como o bater suave e espaçado de um sino propagando-se nos corredores de um mosteiro; um texto gongórico feito de literatura pura, tedioso e entorpecedor em suas frases farfalhantes, lantejoulas fúteis e herméticas, condenado por aqueles que exigem da literatura uma mensagem clara e são capazes de execrar em nome disso.
Um conto lasso e elegante como um gato roçando o pêlo na perna de uma moça que bebe à mesa de um café parisiense um licor de artemísia enquanto lê um filósofo anacrônico da existência; um conto que é como uma ponte de ornamentos num rio enevoado em cujo curso um casal se beija num bote que desliza à deriva vagarosamente. Um conto recendendo a nenúfares e jasmim, vicioso como um círculo vicioso, às vezes agudo como um estilete que desenhasse formas sobre uma pele sem feri-la.
Um conto de semântica distorcida, de sons insuspeitados como o de cordas soadas pelo vento feito música do Uatki ou de Smetak, ou de instrumentos balineses cujos nomes são eles mesmos música: kazar, hemang, jogagan, kempur, réong, gangsa, ou mais ainda o nome sânscrito da Tarangalîla Symphonie, de Messiaen. Um anticonto sem psicologia talvez melancólico como um estudo de piano à tarde.
Um conto jogo de espelhos a refletir ao infinito um torso de mulher no instante em que mãos lhe acariciam os seios criando a sensação de capturar uma felicidade para sempre. Serão os seus reflexos manifestações do corpo, ou antes a repetição infinda de imagens que se libertaram de sua fonte?
Um conto em que espreitam as figuras mais guardadas do desejo, como a menina que se trancou no armário com o menino
na festa dos dez anos, as mãos dadas, as respirações se misturando e os vestidos a tocar os rostos com a textura acetinada do segredo, evitando-se as palavras ou os movimentos
bruscos para que não avance o tempo e se aparte o amor que se levará pela vida afora.
Um conto noturno com a fulguração de um sonho que, quanto mais se quer, mais se perde; é preciso resistir à tentação das proparoxítonas e do sentido, a vida é uma peça pregada cujo maior mistério é o nada.»

"O vôo da madrugada", de Sérgio Sant'Anna
(Colecção Sabiá)
........................................................................
Sérgio Sant´Anna nasceu no Rio de Janeiro em 1941. É autor de, entre outros, "O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro", "Junk-Box", "A senhorita Simpson", "Breve história do espírito", "Um crime delicado" e "O Monstro" (os dois últimos editados em Portugal pela Cotovia). Foi distinguido com quatro prémios Jabuti.
"O vôo da madrugada" recebeu também o prémio de conto da Associação de Críticos de Arte de São Paulo, tendo alcançado o 2º lugar do Prémio PT de Literatura Brasileira.
.........................................................................
«Sérgio Sant'Anna, inteligente demais para produzir meras historinhas, prefere mergulhar nas infinitas possibilidades da palavra escrita em busca de um mínimo de verdade. E com raro talento.»
Caio Fernando Abreu, Veja

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Ó, de Nuno Ramos

«Vamos aos poucos nos esquecendo deles, dos nossos mortos, enquanto afundam na terra ou são queimados, ou mesmo atirados com pesos ao mar. Somem da nossa vista e transferimos às ogivas de concreto, aos mármores de suas lápides, aos emblemas de pedra ou dispostos na grama . crucifixos de madeira, hexágonos orientais, olhos de peixe, asas de falcão, dedos em figa - o que seria puro desespero. Construímos marcos e monumentos, pequenos oratórios à beira das estradas, cidadelas em miniatura para tentar esquecê-los. Fico pensando se cada casebre não será no fundo uma lápide antecipada, e se jamais um único tijolo foi assentado com propósito diferente deste - se tudo o que pareceria uso prático, abrigo contra as intempéries, interioridade aconchegante, não seria já a pedra da morte futura, que rugia de perto. Túmulos pavimentam o esquecimento, permitindo à vida que faça o que tem de fazer, seguir sem os mortos (o que nos incluirá a todos).
Pois alguma coisa de extremamente positivo na morte deve ser freado em nossos pensamentos e intenções, através das construções tumulares - as novas possibilidades que se abrem para os vivos, o espaço deixado por quem se ausenta, a comida que o morto já não come, o ar que não respira, o banho que não toma, os desejos que não pode mais realizar, a vida inteira que sequer imagina, nem cobiça. Estamos livres dessa tralha, melhor ainda: podemos nos apropriar da tralha do morto, dos instrumentos que preparou ao longo de seus dias, utilizando-os para nossos propósitos. São nossos, agora que morreu, cada um dos artifícios que criou, o jeito de falar, a antiga potência sexual, o modo de conter a raiva; é nossa também a sua casa e seu relógio, a roupa íntima e mesmo algumas das suas lembranças. um morto não pode nada. Talvez cobiçássemos a sua mulher, talvez estivéssemos de olho nos seus bens - mas em geral tudo se dá de modo mais sutil. É contra seus artifícios mais íntimos que nos batemos, isso que parece mais sólido do que a fundação de uma torre alta: o jeito de pronunciar os erres, certa forma de receber no rosto a luz do dia, o ângulo oblíquo de sua pálpebra, em suma, o património profundo de seu estar no mundo, que povoa verdadeiramente este mundo. É isso que a morte carrega, deixando um halo, um talho, uma mordida aos vivos, uma lacuna.»

"Ó", de Nuno Ramos
(Colecção Sabiá)
.........................................

Nuno Ramos nasceu em São Paulo, Brasil, em 1960.. É artista plástico e autor dos livros "Cujo" (1993) e "O pão do corvo" (2001), pela Editora 34, e "Ensaio Geral" (2007), pela Editora Globo. "Ó", publicado em 2008 pela Editora Iluminuras, recebeu o Prémio PT, em Novembro de 2009, e foi editado em Portugal pela Cotovia em 2010.
........................................

«Olhando bem os textos que compõem este livro em sua unidade tão estrita quanto desatada não são contos, nem poemas em prosa, nem crônicas, nem ensaios, nem crítica, nem romance, nem autobiografia etc., sendo, no entanto, tudo isso e mais uma coisa incerta e não-sabida, que o leitor nomeará. Uma vasta fantasia antropológica? Uma crítica da percepção? Um De senectude precoce? Uma meditação sobre a ruína? Uma reflexão espectral da forma-mercadoria? O transe brasileiro no seu limite? Epifania negativa? Uma Carta ao pai, que dói e estala em todas as suas juntas? Uma tese de doutoramento impossível, apresentada a um Departamento de Filosofia do Além? De novo nenhuma dessas coisas e, ao mesmo tempo, todas elas e mais alguma etc.»
José Antonio Pasta

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Suíte Dama da Noite, de Manoela Sawitzki

«Ele tinha medo; e era ali que ela colhia alguma coragem para si. Aproximava-se mais e mais do limiar que a separava do seu próprio abismo. E sentia-se tentada a seguir até o fim, até a borda frágil, arenosa, e olhar para baixo, para o fundo. Do ponto onde estava, antes de interromper o fluxo, podia enxergar com nitidez o limite: só alcançaria o outro lado se lançando daquela altitude, experimentando a queda livre. Dispensando redes e cordas. E então seria o choque entre o real e o ilusório. Não havia como alcançar o outro lado sem antes quebrar as pernas artificialmente sadias que a trouxeram até ali, sem fratura exposta, hemorragia, e, sobretudo, dor.
Era-lhe raro experimentar a vertigem de estar próxima do limite. Conservava-se a uma distância preventiva de possíveis quedas, planejava cada passo, cada parada. Onde quer que pisasse, ali armava seu lugar seguro como os ciganos armam suas tendas, e assim podia observar em redor, tocar sem ser tocada, ou nem tocar, apenas proteger-se (de quê? ela não sabia, mentindo, calando, e, ao seu modo vicioso, distraindo-se.
Apreciava a solidão que a deixava livre das outras pessoas. Mesmo entre elas, permanecia alheia - nada pedia nem ofertava. Sobre quem insistisse em lhe tirar de onde estivesse, derramava secretamente sua ironia cáustica, afiada, impossível de compartilhar sem ferir. Vertical como uma gota de ácido, disfarçava o riso criminoso num interesse simulado por aquilo que o outro dizia, e o que o outro dizia quase sempre lhe soava banal, incômodo, desinteressante.»

"Suíte Dama da Noite", de Manoela Sawitzki
(Colecção Sabiá)
........................................................................

«Quando terminei de ler Suíte Dama da Noite, ainda podia ouvir o som da minha própria voz a repetir o nome da protagonista: Júlia Capovilla, Júlia Capovilla, Júlia Capovilla. É que Manoela
Sawitzki constrói personagens de uma forma rara nos dias de hoje; dá-lhes tanta vida que eles extrapolam o livro e vêm habitar nosso mundo real.
O romance conta a história de uma menina que “não achava graça em brincar de amores que não fossem clandestinos”. Júlia vive num mundo de mentiras, que ela mesma inventa, como forma de dar poesia à vida, de suportar suas dores, que não são
poucas: a perda da mãe, o pai que sofreu um derrame, a avó louca. Mas Júlia vai além de inventar: ela acredita em suas
próprias mentiras, como o escritor na ficção. E é assim que passa a vida esperando por Leon, o homem que escolheu para si. Mesmo depois de casada com Klaus, mesmo quando Leon se torna seu amante, Júlia nunca deixa de esperar: como se sem a espera o amor não fosse possível. Nesse seu segundo romance Manoela nos leva a uma viagem de fantasias através de uma prosa impactante, sedutora e segura daquilo que faz.»
Tatiana Salem Levy
.................................................

A jornalista, escritora e dramaturga Manoela Sawitzki (1978, Rio Grande do Sul) publicou em 2002 o seu primeiro romance, "Nuvens de Magalhães". Dois anos mais tarde conquistou o terceiro lugar no Prémio Funarte de Dramaturgia, com o seu primeiro texto para teatro, "Calamidade". O mesmo texto foi seleccionado para integrar os ciclos de leituras dramáticas "Tudo é Teatro", realizado no Sesc Copacabana Rio de Janeiro, em 2005, e Letras em Cena, no Museu das Artes de São Paulo (MASP), em 2007. Por "Calamidade", Manoela recebeu o Prémio Açorianos de Teatro - 2006 de Melhor Dramaturgia. Em Setembro de 2006, o texto "Três Vias" ganhou leitura no projecto Letras em Cena, realizado no MASP. Em 2007, outro texto inédito, "Dois Pajens", foi um dos quatro seleccionados para o ciclo de leituras encenadas Dramaturgia Contemporânea, do projecto Dramaturgias, realizado no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo. Escreveu, em parceria com Rodrigo John, o guião da longa-metragem "Rita", cujo argumento elaborado pela dupla recebeu o Prémio Santander Cultural para Projectos de Longa Metragem de 2005.
"Suíte Dama da Noite" é a sua primeira obra publicada em Portugal.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Nove noites, de Bernardo Carvalho

«Passei a primeira noite praticamente acordado. O sofrimento do meu pai não me deixava dormir. Ele estertorava, gemia de vez em quando, queria dizer alguma coisa. Eu tentava acalmá-lo em vão. Quando chegamos, as cortinas do leito ao lado estavam fechadas. No meio da noite, o outro paciente também começou a resmungar. Volta e meia uma enfermeira vinha aplicar-lhe alguma injeção. Só de manhã é que o vi pela primeira vez. Tinha os cabelos totalmente brancos, os olhos azuis aguados e era muito magro. Lá pelas dez da manhã, um rapaz entrou no quarto, me deu bom-dia, cumprimentou o velho, puxou uma cadeira, sentou-se ao pé do leito, tirou um livro de uma sacola e começou a ler. Minha irmã ainda não tinha chegado. O rapaz lia em inglês. Para meu espanto, logo reconheci as primeiras linhas de "O companheiro secreto", de Joseph Conrad, um dos meus contos preferidos de adolescência. O rapaz não tinha nenhum sotaque. Nem em português nem em inglês. Era bilíngue. Falava como um americano do Meio-Oeste. "Ainda pude vislumbrar um lampejo do meu chapéu branco deixado para trás, marcando o lugar onde o companheiro secreto da minha cabine e dos meus pensamentos, como se fosse o meu segundo eu, havia imergido na água para cumprir a sua pena: um homem livre, um nadador orgulhoso dando braçadas rumo a um novo destino." Quando terminou o conto, levantou-se, disse ao velho - que, como eu, o havia escutado impassível por mais de duas horas - que voltava no dia seguinte, despediu-se de mim com um gesto de cabeça e foi embora. Fiquei perplexo. Quando a enfermeira voltou, perguntei-lhe quem era o companheiro de quarto do meu pai e ela respondeu que não fazia idéia, era nova naquela ala. A enfermeira da noite certamente poderia me dizer. Naquela noite, eu procurei a chefe de enfermagem do andar. E ela me contou o que sabia. Meu pai dividia o quarto com um americano de oitenta anos, que morava no Brasil havia muito tempo. "Ele não tem ninguém aqui, nenhum parente, nenhum amigo." Estavam tentando encontrar o filho nos Estados Unidos antes que ele morresse. O velho tinha sido mandado de um asilo para o hospital, quando começou a piorar. Estava com câncer. Seus dias estavam contados. Perguntei quem era o rapaz que eu tinha visto naquela manhã, se era da família. Tratava-se de um acompanhante, contratado pela instituição de caridade que mantinha o asilo de onde viera o velho, uma sociedade criada por missionários americanos. "Parece que o rapaz o acompanha há anos", me disse a enfermeira-chefe no corredor.
No dia seguinte, lá estava ele, pontualmente, às dez. Abriu o mesmo livro e dessa vez começou por ler o prefácio de Lord Jim: "Por uma manhã de sol, na banal decoração de uma praia do Oriente, eu o vi passar, impressionante, na nuvem do seu mistério, perfeitamente silencioso. E é bem assim que ele devia ser. Competia a mim, com toda a simpatia de que era capaz, procurar as palavras adequadas a sua atitude. Ele era um dos nossos." Durante duas horas, leu para o velho impassível. Não dava para saber se o doente o entendia ou não. Como no dia anterior, no final de um capítulo, o rapaz se levantou, despediu-se do velho e de mim e foi embora. Eu saí atrás dele. Alcancei-o antes que entrasse no elevador. Perguntei o quanto o velho entendia daquelas sessões de leitura em voz alta todas as manhãs - eu queria saber o quanto o meu pai podia entender do que eu lhe dizia. "Leio sempre as mesmas coisas. Os textos de que ele mais gostava. É o mínimo que posso fazer", o rapaz respondeu, e foi embora.»

"Nove noites", de Bernardo Carvalho
(Colecção Sabiá)
..........................................................

Bernardo Carvalho (n. 1960, Rio de Janeiro) é jornalista e autor de, entre outros, "Aberração" (contos), "Teatro" (romance), "Nove noites" (romance, prémios PT e Machado de Assis, da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro), "Mongólia" (romance, prémio Jabuti e APCA), "O sol se põe em São Paulo" (romance) e "Filho da mãe" (romance) - todos estes editados pela Cotovia. É considerado o mais original escritor brasileiro dos anos 90. Traduzida já para mais de dez idiomas, a sua escrita depurada, urbana e cerebral, em que nada é o que aparenta ser, agarra o leitor como um vício.
....................................................

«"Nove noites", de Bernardo Carvalho, é um livro traiçoeiro. O leitor agarra, não larga e continua com ele na cabeça depois da última página.»

Jorge Coli, Folha de S. Paulo

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Que os mortos enterrem seus mortos, de Samuel Rawet

Lisboa à noite
(1969)
«Foi se entregando à cidade com o mesmo peso que carregava nas outras. Apenas mais displicente. Acordar ao meio-dia. Tomar café na Suíça do Rossio, subir a Avenida da Liberdade, passar a tarde lendo no Parque Eduardo VII, lendo ou remoendo ódios, comendo às sete da noite, voltando à pensão para um cochilo antes de sair aí pelas dez. Um cinema. Os bares. Casas de fado.
— O senhor é brasileiro, e se chama Isac? — A fala carregava nos erres, embora não muito forte. — Veio passear em Lisboa?
— Não! Coçar o saco!
O tipo alto, louro, robusto, à sua esquerda gargalhou forte, sempre a repetir, coçar o saco, coçar o saco, até que perguntou:
— O que é coçar o saco?
Aumentou a gargalhada ao receber a explicação, deu-lhe umas palmadas nas costas, apresentou-se como Johansen, holandês residente em Portugal há quase quinze anos.
— Nunca ouvi esta expressão por estes lados!
— Eu aprendi no Rio, não sei se em Portugal se usa, ainda vou perguntar.
O sueco voltou com a mulher, pediu duas bebidas e desejou happy New Year e merry Christmas a todo mundo, virou um pouco de seu uísque nos copos de cerveja de Isac e Johansen, eufórico, berrando, it's good, it's good, Portiugaaal, e arrastou de novo a mulher para a pista.
Um rápido silêncio enquanto bebiam a mistura, sorrindo.
— O senhor é brasileiro e se chama Isac?
— Judeu!
— Judeu?
— Brasileiro.
— Brasileiro?
Silêncio. Pausa. Johansen pede que lhe troquem o copo e tragam outra cerveja, duas, oferece uma a Isac. Ouve-se um mambo com os músicos fazendo coro. De repente um grito de mulher e uma bofetada no rapazote magricela que a espancara. Estava embriagado. O negro angolano veio da porta, e sem amarrotar a farda levantou-o pela gola e pelo cós das calças,
atravessou com ele o salão, e o que se ouviu depois foi apenas o choque de um corpo com o calçamento da rua. A orquestra continuou o mambo. Isac e Johansen bebiam.
— Judeu?
— Judeu!
— Brasileiro?
Tirou do bolso do blusão o maço de cigarros, ofereceu um a Johansen e este acendeu os dois.»

Que os mortos enterrem seus mortos, de Samuel Rawet
(Colecção Sabiá)
............................................................................................

Samuel Rawet (1929-1984) alfabetizado em hebraico na Polónia, chegou ao Brasil ainda criança, em 1936, fugindo, com a família, da perseguição nazi. Licenciado em Engenharia, em 1963 foi trabalhar para Brasília, onde colaborou na construção de vários edifícios da capital brasileira. Considerado um homem à margem, tanto na literatura quanto na sua opção sexual, a sua prosa revela um mundo atormentado, solitário e irónico.
................................................

«O leitor que se aventurar pelos textos de Rawet logo perceberá que todos os caminhos se dissolvem e se refazem, numa prosa tão árdua quanto saborosa.»
Tatiana Salem Levy

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Dois irmãos, de Milton Hatoum

«Eu não sabia nada de mim, como vim ao mundo, de onde tinha vindo. A origem: as origens. Meu passado, de alguma forma palpitando na vida dos meus antepassados, nada disso eu sabia. Minha infância sem nenhum sinal de origem. É como esquecer uma criança dentro de um barco num rio deserto, até que uma das margens a acolhe. Anos depois, desconfiei: um dos gêmeos era meu pai. Domingas disfarçava quando eu tocava no assunto; deixava-me cheio de dúvida, talvez pensando que um dia eu pudesse descobrir a verdade. Eu sofria com o silêncio dela; nos nossos passeios, quando me acompanhava até o aviário da Matriz ou a beira do rio, começava uma frase mas logo interrompia e me olhava, aflita, vencida por uma fraqueza que coíbe a sinceridade. Muitas vezes ela ensaiou, mas titubeava, hesitava e acabava não dizendo. Quando eu fazia a pergunta, seu olhar logo me silenciava, e eram olhos tristes.
Uma vez, na noite de um sábado, enervada, enfadada pela rotina, ela quis sair de casa, da cidade. Pediu a Zana para passar o domingo fora. A patroa estranhou, mas consentiu, desde que Domingas não voltasse tarde. Foi a única vez que saí de Manaus com minha mãe. Ainda estava escuro quando ela chacoalhou minha rede; já tinha preparado o café da manhã e cantava baixinho uma canção.»

"Dois irmãos", de Milton Hatoum(Colecção Sabiá)
...................................................

Milton Hatoum (1952) nascido em Manaus, é autor dos romances "Relato de um certo Oriente" (1999), "Dois irmãos" (2000) e "Cinzas do Norte" (2005), publicados em Portugal pelos Livros Cotovia. Os três romances foram galardoados com o Prémio Jabuti, tendo "Cinzas do Norte" sido igualmente distinguido com os Prémios PT de Literatura Brasileira e APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). A sua obra está também publicada nos Estados Unidos, Alemanha, Espanha, França, Grécia, Inglaterra, Itália, Holanda e Líbano.
........................................................

«"Dois irmãos" é uma história humana contada num mundo tornado real por um óptimo escritor. Hatoum é maravilhoso com cheiros e cores, com festas e rios, com incompreensões culturais e raivas.»

A. S. Byatt (The Guardian)

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Solte os cachorros, de Adélia Prado


«Pai que estais no céu e dentro do meu coração, inclinai vossos ouvidos para o meu sofrimento e tende misericórdia de mim que tenho casa de cimento e vidro e não posso dormir no campo sob um manto de estrelas. Coisa dolorosa feita de barro e poeira, o homem no seu quarto, de noite, pelejando para escrever no papel, com lápis, nó e tropeço, a dor do seu peito. É que nada apazigua, Deus me deixa sofrer. Mesmo depois que inauguraram com meu nome o Centro de Educação Para Mães e Moças, nem a mais mínima miséria se afastou de mim, Fico querendo a Bíblia muito mais velha que já é, porque quanto mais velha, mais perto de Deus, cujo lugar é o princípio. Não tem sentido o que digo?»

"Solte os cachorros", de Adélia Prado
(Colecção Sabiá)
............................................................
Adélia Prado nasceu em 1935, em Divinópolis, Minas Gerais. "Bagagem" é o seu primeiro livro de poesia, publicado no Brasil em 1976, e em Portugal em 2002, pela Cotovia. O presente "Solte os cachorros" é um livro de contos de 1979, editado pela Cotovia em 2003 - ano em que também se publicou "Com licença poética", uma antologia organizada por Abel Barros Baptista.
............................................................

«Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis. Como é que eu posso demonstrar Adélia, se ela ainda está inédita e só uns poucos do país literário sabem da existência desta grande poeta-mulher?», escrevia Carlos Drummond de Andrade, em 1975, sobre a autora que se destaca tanto na prosa como na poesia.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A chave de casa, de Tatiana Salem Levy

«Esta noite, tive um sonho estranho. Um pesadelo. Chegava à casa do meu avô na Turquia, uma casa grande, bonita, bem antiga, cheia de detalhes na parede, como um vestido bordado. Um tom meio salmonado afirmava que fora pintada há pouco. A porta — feita com uma madeira escura, talhada, formando desenhos dentro de desenhos — ocupava quase a metade da parede. E a fechadura, quase imperceptível, em vez de se encontrar, como de costume, à direita da aldrava, ficava no canto esquerdo da porta, próxima à dobradiça. Mergulhei a mão na bolsa, segura de ter a chave de casa, mas para meu espanto não tinha uma chave, tinha várias, uma dezena talvez. Todas enormes! Proporcionais à porta, mas não à fechadura. Joguei a bolsa no chão e, num desespero, pus-me a procurar entre tantas chaves a que pudesse ter o formato certo. Só que quanto mais eu procurava, mais chaves apareciam, e no final já devia estar cercada por uma centena delas. Repetia a mim mesma: não é possível, ela tem de estar aqui, eu sei que está aqui.
De repente, escutei um rangido forte, era a porta sendo aberta. Um homem que devia ter a idade do meu pai apareceu, convidando-me para entrar. É aqui, venha, entre na sua casa. Tomei um susto. De onde vinha essa pessoa falando português? Venha, ele repetiu. Quando entrei, a casa estava repleta de
pessoas de todas as idades, de crianças a idosos, todos com um certo ar familiar. Os homens portavam uma kipá, e as mulheres — nem todas —, um lenço branco sobre as costas. Cercaram-me imediatamente, me abraçando, me acolhendo: esta é a sua casa, eles diziam. A mesa estava farta, com pães, mel, maçã, matsá, vinho, boios, queijos, burrecas, pinhonate e amêndoas. Venha, sente-se à mesa, preparamos deliciosos quitutes para você. Não tinha fome, mas o cheiro estava tão convidativo que não resisti. Comecei pelas burrecas: de queijo e de berinjela. Mas não tardou para que eu percebesse que era a única a comer, que era, na verdade, a única sentada à mesa. Enquanto isso, todos me observavam de pé, como se eu fosse um bicho estranho, um animal exótico vindo da selva. Parei de mastigar, procurando algum rosto conhecido. Tive medo. Todos notaram e começaram a rir. Alcancei a porta em um só tempo, queria sair de lá, tinha certeza de que estava na casa errada. De repente ouvi uma voz grave afirmando: esta é a sua família! Tentei abrir a porta, mas ela estava novamente trancada, e eu não tinha mais nenhuma chave comigo. As gargalhadas aumentavam cada vez mais, enquanto eu berrava: cadê a chave? Onde a coloquei?
Acordei com o corpo encharcado de suor, deitada na minha cama, no meu quarto, na minha casa.»

"A chave de casa", de Tatiana Salem Levy
(Colecção Sabiá)
---------------------------------------------------------

Tatiana Salem Levy é doutorada em Letras e tradutora. Nasceu em Lisboa em 1979 e foi para o Rio de Janeiro aos nove meses, onde mora actualmente. Publicou contos na revista "Ficções 11" (2003) e nas antologias "Paralelos" (2004) e "25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira" (2204).
................................................................................

«As questões do nome, do território familiar e da pátria surgem tematizadas como ponto de partida de uma busca. Mas esta história de uma migração é um contraponto de uma imobilidade – o outro pólo a que a narradora se vê destinada. E, cruzando-se com esta 'quête' identitária, há uma história de paixão, com um enorme fervor sexual.»
António Guerreiro

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de assis


BILHETE
«“Não houve nada, mas ele suspeita alguma cousa; está muito sério e não fala; agora saiu. Sorriu uma vez somente, para nhonhô, depois de o fitar muito tempo, carrancudo. Não me tratou mal nem bem. Não sei o que vai acontecer; Deus queira que isto passe. Muita cautela, por ora, muita cautela.”»
QUE SE NÃO ENTENDE
«Eis aí o drama, eis aí a ponta da orelha trágica de Shakespeare. Esse retalhinho de papel, garatujado em partes, machucado das mãos, era um documento de análise, que eu não farei neste capítulo, nem no outro, nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu tirar ao leitor o gosto de notar por si mesmo a frieza, a perspicácia e o ânimo dessas poucas linhas traçadas à pressa; e por trás delas a tempestade de outro cérebro, a raiva dissimulada, o desespero que se constrange e medita, porque
tem de resolver-se na lama, ou no sangue, ou nas lágrimas?
Quanto a mim, se vos disser que li o bilhete três ou quatro vezes, naquele dia, acreditai-o, que é verdade; se vos disser mais que o reli no dia seguinte, antes e depois do almoço, podeis crê-lo, é a realidade pura. Mas se vos disser a comoção que tive, duvidai um pouco da asserção, e não a aceiteis sem provas. Nem então, nem ainda agora cheguei a discernir o que experimentei. Era medo, e não era medo; era dó e não era dó; era vaidade e não era vaidade; enfim, era amor sem amor, isto é, sem delírio; e tudo isso dava uma combinação assaz complexa e vaga, uma cousa que não podereis entender, como eu não entendi. Suponhamos que não disse nada.»

"Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis
(Colecção Curso Breve de Literatura Brasileira)
.................................................................................................

«(...) com Brás Cubas, Machado prolonga a lição de Sterne num aspecto preciso em que o prolongamento impede a repetição: o da materialidade do livro. De facto, tão importante como o predomínio da digressão e da interrupção na escrita do livro, é o princípio de organização material que a permite, a estimula e até a produz onde nem sempre era claro que já existisse: o capítulo curto. Esse capítulo curto é uma das maiores invenções machadianas, a ponto de ter persistido na composição dos seus romances posteriores, já sem ligação a Brás Cubas.Mas foi este quem o teorizou, e aqui mesmo, num capítulo obviamente curto:
"Mas não; não alonguemos este capítulo. Às vezes, esqueço-me a escrever, e a pena vai comendo papel, com grave prejuízo meu, que sou autor. Capítulos compridos quadram melhor a leitores pesadões; e nós não somos um público in-folio, mas in-12, pouco texto, larga margem, tipo elegante, corte dourado e vinhetas… principalmente vinhetas… Não, não alonguemos o capítulo".»


"O romanesco extravagante", posfácio de Abel Barros Baptista