quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A chave de casa, de Tatiana Salem Levy

«Esta noite, tive um sonho estranho. Um pesadelo. Chegava à casa do meu avô na Turquia, uma casa grande, bonita, bem antiga, cheia de detalhes na parede, como um vestido bordado. Um tom meio salmonado afirmava que fora pintada há pouco. A porta — feita com uma madeira escura, talhada, formando desenhos dentro de desenhos — ocupava quase a metade da parede. E a fechadura, quase imperceptível, em vez de se encontrar, como de costume, à direita da aldrava, ficava no canto esquerdo da porta, próxima à dobradiça. Mergulhei a mão na bolsa, segura de ter a chave de casa, mas para meu espanto não tinha uma chave, tinha várias, uma dezena talvez. Todas enormes! Proporcionais à porta, mas não à fechadura. Joguei a bolsa no chão e, num desespero, pus-me a procurar entre tantas chaves a que pudesse ter o formato certo. Só que quanto mais eu procurava, mais chaves apareciam, e no final já devia estar cercada por uma centena delas. Repetia a mim mesma: não é possível, ela tem de estar aqui, eu sei que está aqui.
De repente, escutei um rangido forte, era a porta sendo aberta. Um homem que devia ter a idade do meu pai apareceu, convidando-me para entrar. É aqui, venha, entre na sua casa. Tomei um susto. De onde vinha essa pessoa falando português? Venha, ele repetiu. Quando entrei, a casa estava repleta de
pessoas de todas as idades, de crianças a idosos, todos com um certo ar familiar. Os homens portavam uma kipá, e as mulheres — nem todas —, um lenço branco sobre as costas. Cercaram-me imediatamente, me abraçando, me acolhendo: esta é a sua casa, eles diziam. A mesa estava farta, com pães, mel, maçã, matsá, vinho, boios, queijos, burrecas, pinhonate e amêndoas. Venha, sente-se à mesa, preparamos deliciosos quitutes para você. Não tinha fome, mas o cheiro estava tão convidativo que não resisti. Comecei pelas burrecas: de queijo e de berinjela. Mas não tardou para que eu percebesse que era a única a comer, que era, na verdade, a única sentada à mesa. Enquanto isso, todos me observavam de pé, como se eu fosse um bicho estranho, um animal exótico vindo da selva. Parei de mastigar, procurando algum rosto conhecido. Tive medo. Todos notaram e começaram a rir. Alcancei a porta em um só tempo, queria sair de lá, tinha certeza de que estava na casa errada. De repente ouvi uma voz grave afirmando: esta é a sua família! Tentei abrir a porta, mas ela estava novamente trancada, e eu não tinha mais nenhuma chave comigo. As gargalhadas aumentavam cada vez mais, enquanto eu berrava: cadê a chave? Onde a coloquei?
Acordei com o corpo encharcado de suor, deitada na minha cama, no meu quarto, na minha casa.»

"A chave de casa", de Tatiana Salem Levy
(Colecção Sabiá)
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Tatiana Salem Levy é doutorada em Letras e tradutora. Nasceu em Lisboa em 1979 e foi para o Rio de Janeiro aos nove meses, onde mora actualmente. Publicou contos na revista "Ficções 11" (2003) e nas antologias "Paralelos" (2004) e "25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira" (2204).
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«As questões do nome, do território familiar e da pátria surgem tematizadas como ponto de partida de uma busca. Mas esta história de uma migração é um contraponto de uma imobilidade – o outro pólo a que a narradora se vê destinada. E, cruzando-se com esta 'quête' identitária, há uma história de paixão, com um enorme fervor sexual.»
António Guerreiro

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