segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Suíte Dama da Noite, de Manoela Sawitzki

«Ele tinha medo; e era ali que ela colhia alguma coragem para si. Aproximava-se mais e mais do limiar que a separava do seu próprio abismo. E sentia-se tentada a seguir até o fim, até a borda frágil, arenosa, e olhar para baixo, para o fundo. Do ponto onde estava, antes de interromper o fluxo, podia enxergar com nitidez o limite: só alcançaria o outro lado se lançando daquela altitude, experimentando a queda livre. Dispensando redes e cordas. E então seria o choque entre o real e o ilusório. Não havia como alcançar o outro lado sem antes quebrar as pernas artificialmente sadias que a trouxeram até ali, sem fratura exposta, hemorragia, e, sobretudo, dor.
Era-lhe raro experimentar a vertigem de estar próxima do limite. Conservava-se a uma distância preventiva de possíveis quedas, planejava cada passo, cada parada. Onde quer que pisasse, ali armava seu lugar seguro como os ciganos armam suas tendas, e assim podia observar em redor, tocar sem ser tocada, ou nem tocar, apenas proteger-se (de quê? ela não sabia, mentindo, calando, e, ao seu modo vicioso, distraindo-se.
Apreciava a solidão que a deixava livre das outras pessoas. Mesmo entre elas, permanecia alheia - nada pedia nem ofertava. Sobre quem insistisse em lhe tirar de onde estivesse, derramava secretamente sua ironia cáustica, afiada, impossível de compartilhar sem ferir. Vertical como uma gota de ácido, disfarçava o riso criminoso num interesse simulado por aquilo que o outro dizia, e o que o outro dizia quase sempre lhe soava banal, incômodo, desinteressante.»

"Suíte Dama da Noite", de Manoela Sawitzki
(Colecção Sabiá)
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«Quando terminei de ler Suíte Dama da Noite, ainda podia ouvir o som da minha própria voz a repetir o nome da protagonista: Júlia Capovilla, Júlia Capovilla, Júlia Capovilla. É que Manoela
Sawitzki constrói personagens de uma forma rara nos dias de hoje; dá-lhes tanta vida que eles extrapolam o livro e vêm habitar nosso mundo real.
O romance conta a história de uma menina que “não achava graça em brincar de amores que não fossem clandestinos”. Júlia vive num mundo de mentiras, que ela mesma inventa, como forma de dar poesia à vida, de suportar suas dores, que não são
poucas: a perda da mãe, o pai que sofreu um derrame, a avó louca. Mas Júlia vai além de inventar: ela acredita em suas
próprias mentiras, como o escritor na ficção. E é assim que passa a vida esperando por Leon, o homem que escolheu para si. Mesmo depois de casada com Klaus, mesmo quando Leon se torna seu amante, Júlia nunca deixa de esperar: como se sem a espera o amor não fosse possível. Nesse seu segundo romance Manoela nos leva a uma viagem de fantasias através de uma prosa impactante, sedutora e segura daquilo que faz.»
Tatiana Salem Levy
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A jornalista, escritora e dramaturga Manoela Sawitzki (1978, Rio Grande do Sul) publicou em 2002 o seu primeiro romance, "Nuvens de Magalhães". Dois anos mais tarde conquistou o terceiro lugar no Prémio Funarte de Dramaturgia, com o seu primeiro texto para teatro, "Calamidade". O mesmo texto foi seleccionado para integrar os ciclos de leituras dramáticas "Tudo é Teatro", realizado no Sesc Copacabana Rio de Janeiro, em 2005, e Letras em Cena, no Museu das Artes de São Paulo (MASP), em 2007. Por "Calamidade", Manoela recebeu o Prémio Açorianos de Teatro - 2006 de Melhor Dramaturgia. Em Setembro de 2006, o texto "Três Vias" ganhou leitura no projecto Letras em Cena, realizado no MASP. Em 2007, outro texto inédito, "Dois Pajens", foi um dos quatro seleccionados para o ciclo de leituras encenadas Dramaturgia Contemporânea, do projecto Dramaturgias, realizado no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo. Escreveu, em parceria com Rodrigo John, o guião da longa-metragem "Rita", cujo argumento elaborado pela dupla recebeu o Prémio Santander Cultural para Projectos de Longa Metragem de 2005.
"Suíte Dama da Noite" é a sua primeira obra publicada em Portugal.

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