quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Menina a caminho, de Raduan Nassar

«Cultivei por muito tempo uma convicção, a de que a maior aventura humana é dizer o que se pensa. Meu bisavô, vigilante, puxava sempre da algibeira esta moeda antiga: "A diplomacia é a ciência dos sábios". Era um ancião que usava botinas de pelica, camisa de tricoline em fio de Escócia, e gravata escolhida a dedo, em que uma ponta de cor volúvel marcava a austeridade da casemira inglesa. Não dispensava o colete, a corrente do relógio de bolso desenhando no peito escuro um brilhante e enorme anzol de ouro. E o jasmim, ah, o jasmim! Um botão branco de aroma oriental sempre bem-comportado na casa da lapela. E era antes um ritual de elegância quando ajustava os óculos sobre o nariz: a mão quase em concha subia sem pressa até prender um dos aros entre o polegar e o indicador, retendo demoradamente os dedos no metal enquanto testava o foco das lentes. Neste exato momento, seu olhar ia longe, muito longe, como se vislumbrasse meu futuro distante. Talvez fosse essa antevisão que fizesse surgir o esgar fértil no canto dos lábios, era como se ele tivesse acabado de plantar ali a semente provável de um grande regozijo. Apesar da postura solene, o bisavô, quem diria?, era chegado numa gíria, daí que me catava pela cabeça e soprava no meu ouvido: "O negócio é fazer média", e enfatizava a palavra negócio. Só mesmo o bisavô, tão vetusto, tão novíssimo, era precursor: "Nada de porraloquice. Me promete".
(...)
O bisavô é que sabia das coisas, andava devagar, regulando o avanço da botina na ponta da bengala, a fala mansa e escassa, não improvisava, punha silêncios em cada palavra, "interesses é que contam, nada mais." E quando acontecia de estancar de repente o passo, só mesmo o bisavô: "Às favas o que a gente pensa!".»

"Menina a caminho e outros textos", de Raduan Nassar
(Colecção Sabiá)
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Nascido em 1935 em Pindorama, uma cidade interior do estado de São Paulo, Raduan Nassar é filho de emigrantes libaneses. Sendo um dos maiores escritores das letras brasileiras, anunciou em 1984 o seu abandono da vida literária, para se dedicar exclusivamente à actividade rural. Originalíssimo autor de uma obra muito reduzida e depurada, estreou-se em 1975 com "Lavoura arcaica". "Menina a caminho", publicado em 1997, reúne contos dos anos 60 e 70 e ganhou o prémio Jabuti 1998 de Melhor Livro de Contos e Crónicas.
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«Há autores que nos prendem com a sua força fazendo-nos pedir mais, fazendo-nos procurar algo mais, sempre mais um texto, mais uma palavra, além da obra. Menina a Caminho surge assim: uma tentativa de contornar, na obra de Raduan Nassar, o limite intransponível que os seus dois únicos textos constituem.»
Clara Rowland

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