quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Solte os cachorros, de Adélia Prado


«Pai que estais no céu e dentro do meu coração, inclinai vossos ouvidos para o meu sofrimento e tende misericórdia de mim que tenho casa de cimento e vidro e não posso dormir no campo sob um manto de estrelas. Coisa dolorosa feita de barro e poeira, o homem no seu quarto, de noite, pelejando para escrever no papel, com lápis, nó e tropeço, a dor do seu peito. É que nada apazigua, Deus me deixa sofrer. Mesmo depois que inauguraram com meu nome o Centro de Educação Para Mães e Moças, nem a mais mínima miséria se afastou de mim, Fico querendo a Bíblia muito mais velha que já é, porque quanto mais velha, mais perto de Deus, cujo lugar é o princípio. Não tem sentido o que digo?»

"Solte os cachorros", de Adélia Prado
(Colecção Sabiá)
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Adélia Prado nasceu em 1935, em Divinópolis, Minas Gerais. "Bagagem" é o seu primeiro livro de poesia, publicado no Brasil em 1976, e em Portugal em 2002, pela Cotovia. O presente "Solte os cachorros" é um livro de contos de 1979, editado pela Cotovia em 2003 - ano em que também se publicou "Com licença poética", uma antologia organizada por Abel Barros Baptista.
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«Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis. Como é que eu posso demonstrar Adélia, se ela ainda está inédita e só uns poucos do país literário sabem da existência desta grande poeta-mulher?», escrevia Carlos Drummond de Andrade, em 1975, sobre a autora que se destaca tanto na prosa como na poesia.

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