quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Amor e outras histórias, de André Sant'Anna

«A Terra tem belezas incríveis como o pôr-do-sol e o rostinho da filha da Grace Kelly e todas aquelas palavras e aquela música do Roberto Carlos que conta a história do cabeludo que foi abandonado pela namorada e acha que qualquer coisa vai fazer com que a namorada se lembre dele. É bem provável que a namorada do cabeludo nunca se lembre de nada e fique por aí namorando e abandonando cabeludos. Por mais que o cabeludo fale que a culpa é dela, nada vai fazer com que ela se lembre dele. Mas o cabeludo precisa de um consolo e, por isso, ele fica se lembrando da namorada, achando que ela se vai lembrar dele. É a história de todas as músicas sobre homens e mulheres. Elas são muito bonitas.
Aquela música do Paul McCartney que fala de um bobo na montanha, dia após dia. Deve ser muito difícil para o bobo e, por isso, preferiu ser um bobo na montanha e não um lúcido, com os pés no chão, sofrendo o tempo todo por causa da mulher cascavel que ele devia amar muito, dia após dia. Toda essa história podia acabar aí.
Todas aquelas palavras de todos aqueles livros.
Deuses.
Deuses, deuses, todas as palavras.
Toda essa dor do cabeludo que foi abandonado pela namorada.»

"Amor e outras histórias", de André Sant'Anna
(colecção Sabiá)
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André Sant'Anna (1964) nasceu em Belo Horizonte. Morou no Rio de Janeiro, tocou no grupo 'Tao e Qual' de 1980 a 1990, e vive actualmente em São Paulo. É autor de "Amor" (1998), "Sexo" (2000) e "O Paraíso é bem bacana" (2006).
É considerado pelo escritor brasileiro Bernardo Carvalho o mais promissor dos novos escritores brasileiros.
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«Os livros de André Sant'Anna destilam uma raiva típica de grandes autores (de Céline a Thomas Bernhard), uma raiva em que não há mais possibilidade de composição e da qual ninguém sai ileso, nem o próprio autor, isolado na independência irredutível de seu projeto.
(...) "Amor" pode ser lido como uma visão planetária, simultaneamente religiosa (no sentido de religar todas as coisas, nem que seja pelo sangue que está por trás de tudo) e anti-religiosa (contra toda a hipocrisia das igrejas, sejam elas quais forem, a começar pela mídia).»
Bernardo de Carvalho, 'Folha de São Paulo'

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