quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O vôo da madrugada, de Sérgio Sant'Anna

Um conto abstrato
«Um conto de palavras que valessem mais por sua modulação que por seu significado. Um conto abstrato e concreto como uma composição tocada por um grupo instrumental; límpido e obscuro, espiral azul num campo de narcisos defronte a uma torre a descortinar um lago assombrado em que o atirar uma pedra espraia a água em lentos círculos sob os quais nada um peixe turvo que é visto por ninguém e no entanto existe como algas no fundo do oceano.
Um conto-rastro de uma lesma também evento do universo qual a luz de um quasar a bilhões de anos-luz; um conto em que os vocábulos são como notas indeterminadas numa pauta; que é como o bater suave e espaçado de um sino propagando-se nos corredores de um mosteiro; um texto gongórico feito de literatura pura, tedioso e entorpecedor em suas frases farfalhantes, lantejoulas fúteis e herméticas, condenado por aqueles que exigem da literatura uma mensagem clara e são capazes de execrar em nome disso.
Um conto lasso e elegante como um gato roçando o pêlo na perna de uma moça que bebe à mesa de um café parisiense um licor de artemísia enquanto lê um filósofo anacrônico da existência; um conto que é como uma ponte de ornamentos num rio enevoado em cujo curso um casal se beija num bote que desliza à deriva vagarosamente. Um conto recendendo a nenúfares e jasmim, vicioso como um círculo vicioso, às vezes agudo como um estilete que desenhasse formas sobre uma pele sem feri-la.
Um conto de semântica distorcida, de sons insuspeitados como o de cordas soadas pelo vento feito música do Uatki ou de Smetak, ou de instrumentos balineses cujos nomes são eles mesmos música: kazar, hemang, jogagan, kempur, réong, gangsa, ou mais ainda o nome sânscrito da Tarangalîla Symphonie, de Messiaen. Um anticonto sem psicologia talvez melancólico como um estudo de piano à tarde.
Um conto jogo de espelhos a refletir ao infinito um torso de mulher no instante em que mãos lhe acariciam os seios criando a sensação de capturar uma felicidade para sempre. Serão os seus reflexos manifestações do corpo, ou antes a repetição infinda de imagens que se libertaram de sua fonte?
Um conto em que espreitam as figuras mais guardadas do desejo, como a menina que se trancou no armário com o menino
na festa dos dez anos, as mãos dadas, as respirações se misturando e os vestidos a tocar os rostos com a textura acetinada do segredo, evitando-se as palavras ou os movimentos
bruscos para que não avance o tempo e se aparte o amor que se levará pela vida afora.
Um conto noturno com a fulguração de um sonho que, quanto mais se quer, mais se perde; é preciso resistir à tentação das proparoxítonas e do sentido, a vida é uma peça pregada cujo maior mistério é o nada.»

"O vôo da madrugada", de Sérgio Sant'Anna
(Colecção Sabiá)
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Sérgio Sant´Anna nasceu no Rio de Janeiro em 1941. É autor de, entre outros, "O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro", "Junk-Box", "A senhorita Simpson", "Breve história do espírito", "Um crime delicado" e "O Monstro" (os dois últimos editados em Portugal pela Cotovia). Foi distinguido com quatro prémios Jabuti.
"O vôo da madrugada" recebeu também o prémio de conto da Associação de Críticos de Arte de São Paulo, tendo alcançado o 2º lugar do Prémio PT de Literatura Brasileira.
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«Sérgio Sant'Anna, inteligente demais para produzir meras historinhas, prefere mergulhar nas infinitas possibilidades da palavra escrita em busca de um mínimo de verdade. E com raro talento.»
Caio Fernando Abreu, Veja

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