terça-feira, 29 de novembro de 2016

Satyricon, de Petrónio


«Cheguei a uma pinacoteca impressionante, repleta de todo o tipo de quadros. De facto, contemplei obras de Zêuxis não vencidas ainda pela corrosão do tempo e examinei, sem conseguir conter um certo calafrio, os esboços de Protógenes, que disputam em realismo com a própria natureza. Cheguei mesmo a prostrar-me em adoração perante a obra de Apeles, conhecida como a que está “assente numa só perna”; era tal a subtileza de contornos das imagens na aproximação ao modelo que julgarias estar perante uma figuração das próprias almas. Aqui, uma águia arrebatava para as alturas do céu o pastor do Ida; ali o cândido Hilas repelia uma Náiade descarada; maldizia Apolo as suas mãos culpadas e rendia homenagem à lira lassa com uma flor acabada de nascer. Rodeado pelos rostos dos amantes representados nos quadros, exclamei, como se me achasse sozinho:
— Então o amor até os próprios deuses atinge! Na sua morada celestial, Júpiter não encontrou quem lhe servisse, mas quando se decidiu a pecar na terra, a ninguém foi ofender. A ninfa que raptou Hilas teria dominado a paixão, se soubesse que Hércules viria a reclamar os seus direitos. Apolo transformou numa flor a sombra do seu amado, e todas as fábulas contemplam abraços sem rival.»


Satyricon, de Petrónio
(versão portuguesa de Delfim F. Leão)

Náiade ou Hilas com uma ninfa (1893), John William Waterhouse

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Heróides (Cartas de amor), de Ovídio


Fílis a Demofoonte
«Que me levem as ondas e em tuas praias me lancem
e diante de teus olhos eu surja, sem sepultura;
para seres mais duro do que ferro e diamante e do que tu próprio,
dirás: “não era assim, ó Fílis, que devias seguir-me”.
Muitas vezes é de venenos que sinto sede, muitas vezes, perecer
de morte sangrenta, trespassada por uma espada, é o que me apraz;
o próprio pescoço, porque assim se ofereceu ao enlace de pérfidos
braços, estreitá-lo numa corda é o que me apetece;
estou decidida a compensar com morte no tempo certo o tenro pudor;
pouca tardança há-de haver na escolha da morte.
Hás-de ficar gravado no meu túmulo como causa odiosa;
este ou outro verso semelhante te darão a conhecer:
“A Fílis, Demofoonte a levou à morte; o hóspede à sua amante;
da morte, forneceu-lhe ele a causa, ela a mão.”

Heróides, de Ovídio (trad. Carlos Ascenso André)

John William Waterhouse, Fílis e Demofoonte (1907)

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Três homens num barco, de Jerome k. jerome

«Fomos buscar os mapas e discutimos os planos. Combinámos partir no sábado seguinte de Kingston. O Harris e eu íamos para lá de manhã e apanhávamos o barco para Chertsey, e o George — que não podia sair da City até à tarde (o George vai dormir para o Banco todos os dias das dez às quatro, excepto aos sábados, dia em que o acordam e o põem na rua às duas) — encontrava-se lá connosco.
Levantava-se a questão de saber se havíamos de “acampar ao ar livre” ou de dormir em albergues. O George e eu éramos a favor de dormir ao ar livre. Dissemos que seria aventureiro e livre, que teria um ar muito bucólico.
Lentamente, a memória dourada do sol morto esbate-se dos corações das tristes e frias nuvens. Silenciosos, como crianças chorosas, os pássaros pararam de cantar e só o grito lamentoso da galinhola e o crocitar rouco do codornizão perturbam o silêncio reverente que rodeia o manto de água onde o dia moribundo exala o último suspiro.
Dos bosques sombrios em ambas as margens, o exército fantasmático da Noite, as sombras cinzentas, avançam sem ruído perseguindo a retaguarda da luz que ainda perdura, e passam com pés silenciosos e invisíveis sobre as ervas ondulantes do rio e sobre os juncos que suspiram; e a Noite, no seu trono sombrio, estende as asas negras sobre o mundo que escurece e, no seu palácio fantasma, iluminado pelas pálidas estrelas, reina em silêncio.»



TRÊS HOMENS NUM BARCO (já para não falar do cão), de Jerome K. Jerome
Trad. Luísa Feijó

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Judaísmo para todos, de Bernardo Sorj

PROMOÇÕES JUDAICA


«A memória é nossa condição de humanidade, mas também a principal fonte de sofrimento. Somos nossas lembranças. Memorizar é recortar o passado, esquecer quase tudo para poder lembrar de certos eventos e dar-lhes um significado determinado. Se a memória nos enraíza, dando um sentido de continuidade a nossas vidas como indivíduos e como membros de uma comunidade, ela também nos oprime. Retira-nos liberdade, nos obseda, transforma situações de aprendizado em experiências traumáticas e ressentimentos, aprisionando-nos no passado. Mas, se não existe presente sem passado, o passado sempre é vivido e interpretado à luz das realidades do presente. Se a memória não é aleatória nem totalmente maleável, ela constantemente é refeita e palco de conflitos (dentro de cada indivíduo e entre grupos sociais). A preservação da memória é sempre um exercício de poder, da capacidade de impor uma interpretação do sentido do passado.
O Holocausto é um caso exemplar de usos e abusos da construção de uma memória coletiva.»


Judaísmo para todos, de Bernardo Sorj
Colecção Judaica

O dever de memória, Primo Levi

PROMOÇÕES JUDAICA

«O medo da morte, tanto quanto me lembro, não era qualitativamente diferente daquele que sentimos na vida normal. Hoje, apesar de sermos livres, sabemos todos que vamos morrer, e lá também não ignorávamos que a morte acabava por chegar: não daí a dez, vinte ou trinta anos, mas a poucas semanas, um mês. Estranhamente, isso não mudava grande coisa. O pensamento da morte era recalcado, como na vida corrente. A morte não pertencia ao registo das palavras ou dos medos quotidianos; sofríamos tão cruelmente da falta de tudo, de comida, de calor, era tão vital evitar o cansaço e os espancamentos que a morte, que não surgia como um perigo imediato, era escamoteada.»


O dever de memória, Primo Levi
(trad. Esther Mucznik)
Colecção Judaica

Judaísmo Dispersão e Unidade, de Moacyr Scliar

PROMOÇÕES JUDAICA

«O Deus judaico é um deus severo. Não ri, embora não lhe falte um certo espírito lúdico; propõe a seu povo enigmas, desafios. Seus desígnios são misteriosos, insondáveis e surpreendentes, mesmo quando misericordiosos. Depois de esperar muito tempo por um filho, a idosa Sara engravida; não quer acreditar que Deus lhe deu tal prêmio; “Deus me fez sorrir”, ela diz. Por causa disto, dá ao menino o nome de Isaac — derivado de uma palavra hebraica que significa rir: “Todo aquele que ouvir este nome rirá comigo” (Gênesis, 21.6). No caso do sacrifício de Isaac, este elemento de desafio adquire um caráter dramático, terrível; tão terrível que Woody Allen escreveu uma versão mais amena: numa voz grave, solene, Deus ordena a Abraão que leve seu filho ao local de sacrifício, e ele obedece; numa voz grave, solene, manda que suspenda o sacrifício — e ele obedece. Conclusão: as pessoas cumprem qualquer ordem, desde que dada numa voz grave, solene.»

Judaísmo Dispersão e Unidade, de Moacyr Scliar
Colecção Judaica

Os cristãos-novos em Portugal no séc. XX, de Samuel Schwarz

PROMOÇÕES JUDAICA
«Na judiaria peninsular luziram a sabedoria e o génio — os seus rabinos, personalidades de cabeça enciclopédica, primam de par nas letras sagradas e profanas, na poesia, na medicina e na filosofia. Deixaram nomes dos mais brilhantes na história da ciência universal. Os seus astrónomos e matemáticos guiaram as empresas náuticas e geográficas — a grande glória dos nossos descobrimentos encabeça-se primariamente no seu génio. A medicina era por assim dizer toda sua: açambarcam a quase totalidade dos nossos grandes médicos do passado. Finos e instruídos, aristocratizam-se como tribo selecta entre os Bené-Israel: o ilustre lsaac Pinto, ao quebrar lanças certeiras contra os remoques de Voltaire, apregoa a distinção inata dos de raiz espanhola e portuguesa entre os judeus de toda a parte. A origem peninsular acusa-se na própria disciplina eclesiástica, obedecendo as suas sinagogas a um rito particular; o dos sephardim, o da nação portuguesa, oposto ao dos askenazim, os judeus de procedência alemã, polaca e eslava. Envaidece-os a descendência da tribo de Judá e do seu estabelecimento na Ibéria em tempo do cativeiro de Babilónia.»
Os cristãos-novos em Portugal no séc. XX, de Samuel Schwarz
Colecção Judaica

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Entre árabes e judeus, de Helena Salem

PROMOÇÕES JUDAICA
«Sempre ouvi dizer que os judeus-alemães estavam tão integrados na Alemanha que muitos nem acreditaram, a princípio, na realidade da perseguição nazista. Depois que superei minhas crises religiosas e tornei-me de esquerda, atéia, houve um tempo também em que me senti igual a todo mundo — ou melhor, a todo mundo que me interessava. Tão igual, talvez, como aqueles judeus-alemães. Até que, no Oriente Médio, e a partir daí, fui “redescobrindo” a diferença. Não, nem a sinagoga, o rabino, ou o projeto sionista passaram a me empolgar. Em verdade, talvez tenha redescoberto a diferença de cada ser humano. Sou judia, mulher, branca, gosto de vinho, literatura, cinema, Chagall etc. etc. etc. Meu vizinho é macrobiótico, não bebe; meu amigo do jornal é casado com outro homem, se amam. Não, mais uma vez não tento neutralizar o fato de ser judia. É que ser judeu, mulher, hetero ou homossexual, preto ou japonês, perdem a solenidade se incorporados como parte da nossa especificidade. Afinal, em sã consciência, quem pode determinar que um é melhor que o outro? Qual seria a referência — se não o poder — de quem pretende julgar? Se vou para a Islândia, eu morro de frio, ou infelicidade, mas o esquimó vive muito bem na terra gelada e certamente até curte. Quem é melhor, lá? E aqui — ontem, hoje, amanhã? Questão de olhar.»


Entre árabes e judeus, de Helena Salem
Colecção Judaica

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Sobre a questão judaica, de Karl Marx

PROMOÇÕES JUDAICA

«A emancipação política do judeu, do cristão, da pessoa religiosa em geral corresponde à emancipação do Estado em relação ao judaísmo, ao cristianismo, à religião em geral. Enquanto Estado, na sua forma e no modo inerente à sua natureza, o Estado emancipa-se da religião na medida em que, enquanto Estado, não professa qualquer religião, na medida em que se reconhece antes como Estado. A emancipação política em relação à religião não corresponde à emancipação já cumprida, à emancipação isenta de contradições, pelo simples facto de a emancipação política não corresponder à emancipação humana já cumprida e isenta de contradições.

Os limites da emancipação política evidenciam-se desde logo pelo mero facto de o Estado conseguir libertar-se de uma barreira sem que o homem, por seu lado, se liberte verdadeiramente dela. O Estado pode, por exemplo, ser um Estado livre, sem que o homem seja um homem livre.»

Sobre a questão judaica, de Karl Marx
(trad. Gilda Encarnação)Colecção Judaica

A decorrer na nossa livraria e no site:


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Ovídio, as mulheres e o amor

★★★★★

Não é só uma obra poética de excelência: "Heróides" é um dos melhores dicionários de mitologia clássica que se pode ter. Jorge Almeida recupera-o, através de uma nova edição, e dá-lhe cinco estrelas.

Jorge Almeida

Na introdução à sua tradução de Heróides do poeta romano Ovídio, Carlos Ascenso André refere-se a esta colectânea de poemas como um “estranho livro”. O tradutor parece relacionar esta ‘estranheza’ com a originalidade inegável do texto de Ovídio, qualidade imediatameA Arte de Amar e em Amores, mas sim no facto de, muito provavelmente, pela primeira vez na história da literatura ocidental um poeta ter escrito uma colectânea em que cada poema (pelo menos 18 dos 21) se apresenta como uma carta escrita por uma mulher ao seu amado, apesar de muitas destas vozes parecerem saber que as cartas que escrevem nunca chegarão a ser lidas.
nte reconhecível a qualquer leitor com um conhecimento mediano da literatura da Antiguidade clássica. Esta originalidade não está, certamente, na escolha do tema principal dos poemas, o amor, até porque este já fora tratado quer pela tradição literária anterior a Ovídio quer pelo próprio poeta em
Neste conjunto de cartas são abordados os mitos mais famosos da antiguidade, desde a guerra de Tróia, responsável por tantas tragédias amorosas, à apetência indecorosa dos deuses por relações extraconjugais, pois as autoras dessas cartas são também elas figuras mitológicas (exceptuando Safo), ainda que sofram por amor da mesma forma que os leitores romanos contemporâneos de Ovídio ou que os leitores contemporâneos desta recensão crítica à tradução agora publicada pela Cotovia. Os queixumes de uma rainha de Cartago abandonada por um herói troiano a quem deu abrigo são acima de tudo os queixumes de uma mulher abandonada por um homem aparentemente ingrato e o falso pudor de uma filha de Júpiter no momento em que é cortejada por um príncipe bárbaro obedece a preceitos ainda hoje em voga.
Nestas epístolas poéticas abundam o ciúme, a humilhação própria e alheia, o desejo físico, a infidelidade, o delírio, as estratégias de sedução, os insultos, as súplicas, a comiseração, o perdão, etc., e tudo isto pela pena de um poeta que continua a ser uma referência no que toca à poesia amorosa, graças sobretudo à sua riqueza imagética (que atingirá o seu fulgor máximo nas Metamorfoses, mas que já se encontra aqui presente, nomeadamente na carta em que Hipermnestra, de punhal na mão junto ao pescoço do seu marido, avança e hesita, num momento, aliás, profundamente hamletiano) e à sua capacidade para abordar sentimentos humanos sempre de uma forma singular; isto é, singular não apenas porque o seu talento poético é ímpar, mas sobretudo pelo cuidado que tem em mostrar que a experiência amorosa é simultaneamente universal e pessoal, na medida em que apresenta tópicos comuns a todas as relações amorosas sem deixar de sublinhar as idiossincrasias de cada caso.
O melhor elogio que se pode fazer à tão citada ‘voz feminina’ presente no conjunto de cartas que constitui Heróides é que esta não é única, mas sim tão plural quanto o número de ‘autoras’. A mulher ovidiana que ama e sofre por amor não é uma, mas mil, porque mil são as formas de amar e sofrer por amor: daí que a súplica sincera de Hermíone ao seu prometido Orestes em nada seja comparável à súplica quase formal de Medeia a Jasão no momento em que esta sente que só a vingança sangrenta pode fazer justiça ao seu sofrimento de mulher abandonada. Ovídio é, assim, mais um poeta ‘feminista’ por dar a cada protagonista das suas cartas uma voz diferente da voz das suas outras companheiras na desgraça amorosa do que por simplesmente dar o protagonismo a figuras mitológicas do sexo feminino, ou seja, por tratar cada mulher como única na sua singularidade.
Em cada um destes amores lendários, Ovídio revela não só um conhecimento preciso das suas particularidades narrativas, mas também uma habilidade especial para os moldar aos interesses da sua poesia. Se a matéria-prima é já de qualidade elevada, o trabalho de Ovídio torna-a ainda melhor. Um dos casos em que isso se nota é na escolha perspicaz que o autor faz do momento das narrativas míticas que quer desenvolver nos seus poemas. Disto mesmo é exemplo maior a carta que Fedra escreve ao seu enteado Hipólito, por quem se apaixonou. Esta carta não escolhe a dimensão trágica deste amor que inspirou tantas obras de arte, não escolhe o suicídio de Fedra ou a vingança de Teseu sobre o seu filho, mas sim o apogeu do sentimento que domina Fedra e que a faz confessar:
Apetece-me partir para o meio dos bosques e cercar os veados com redes
E assanhar-lhes pelos cimos dos montes os cães velozes
Ou brandir com a força do braço o trémulo dardo
Ou depositar o corpo na relva do chão.” 41-44
Este desejo de se comportar irracionalmente à maneira das Bacantes, diz Fedra, é uma maneira de obedecer a “tudo quanto o Amor ordena” (11), lembrando a Hipólito que o Amor “governa e tem poder sobre os deuses que tudo mandam” (12) e que, uma vez que se trata de obedecer ao maior dos poderes, tudo é legítimo, mesmo “a irmã desposar o irmão” (134). Esta legitimidade expande-se para lá da questão moral à volta do incesto, pois é central para a estratégia de persuasão de Fedra nesta carta, que não tem outro fim senão o de seduzir o seu enteado. Para Fedra vale tudo, desde convencer Hipólito de que o facto de trocarem carícias em público só significará aos olhos de terceiros uma felicidade imaculada entre madrasta e enteado até à escolha da narrativa sobre a morte da mãe de Hipólito que lhe dá mais jeito para que este sinta animosidade em relação ao pai e, consequentemente, veja com olhos mais favoráveis a hipótese de a possuir fisicamente.
A consciência de que a única lei que importa realmente cumprir é a lei do Amor é comum a todas as narrativas de Heróides (apesar de surgir de modo mais explícito em certas cartas como a de Fedra) e aparece como alicerce da poesia amorosa de Ovídio, daí que, por exemplo, nos Amores, seja frequente encontrar apelos à infidelidade conjugal, pois o casamento para Ovídio é apenas um contracto legal em que raramente o amor é um sentimento tido em conta no momento em que é estabelecido. Um dos mais famosos casos de infidelidade conjugal, aquele que juntou Páris e Helena e que acabou por levar à guerra de Tróia, é um dos melhores momentos poéticos de Heróides.
Nas duas cartas trocadas entre o futuro casal, Ovídio põe em prática muitos dos preceitos teóricos que apresentara na Arte de Amar, fazendo com que Páris e Helena pareçam os seus leitores mais atentos, uma vez que ambos surgem como mestres na arte de seduzir e na arte de se deixar seduzir. Aproveitando a ausência de Menelau, marido de Helena, para seduzir a mulher mais bela do mundo, Páris envia a Helena uma carta que é uma ofensiva impiedosa para conseguir os seus intentos. Nela diz que são os deuses que lhe mandam conquistar Helena e que ambos têm de obedecer aos deuses, lembra-lhe que é príncipe de Tróia e que vem de boas famílias, promete-lhe que será venerada em Tróia, afirma ser mais belo que o marido pouco cuidadoso de Helena, pergunta-lhe se prefere dormir sozinha numa cama fria a dormir numa cama aquecida por ambos e chega mesmo a ferir o orgulho de Helena dizendo que a fidelidade dela é apenas o resultado de uma moralidade semelhante à de uma campónia ingénua.
Para além destes ataques directos, Ovídio enche a carta de Páris de sugestões muito subtis que continuam esta estratégia de sedução. Nos momentos em que Páris recorda o famoso julgamento em que teve de decidir qual das deusas era a mais bela (concurso vencido por Vénus, devido ao facto de ter prometido a Páris que lhe ofereceria a mulher mais bela do mundo, ou seja, Helena), o autor da carta revela que, perante a nudez das deusas, não receou “observar com o olhar cada uma delas” (74), acrescentando que “se tu fosses presente também nessa disputa, / duvidosa haveria de ser a palma que Vénus levou” (139-140). Estas alusões ao concurso de beleza das deusas servem não só para lisonjear Helena, mas também para lhe provocar ciúmes, mostrando-lhe que foram as deusas que o escolheram para avaliar a beleza de cada uma, truque esse que Páris usa mais explicitamente quando lhe recorda que: “não foram apenas as filhas de reis e de generais que me cobiçaram, / mas até de ninfas me tornei o desvelo e o amor” (95-96), o que, aliás, é comprovado pela carta de revolta que lhe escreve Enone, uma ninfa por ele abandonada e que odeia a sua rival Helena ao ponto de lhe chamar “rameira” (125) e de a acusar de ser uma mulher que se “põe a jeito de ser raptada” (132). A subtileza retórica de Páris surge noutros passos como, por exemplo, neste:
Ficaram à vista, lembro-me bem, os teus seios debaixo da túnica frouxa,
e, na sua nudez, franquearam a porta dos meus olhos,
seios mais resplandecentes que a neve pura ou o leite
ou do que Júpiter, quando possuiu a tua mãe.” (249-252).
Páris e Helena, Jacques-Louis David, 1788
Aparentemente, Páris está apenas a elogiar os seios de Helena, mas, na verdade, está a fazer mais do que isso. Enquanto a comparação entre a brancura dos seios de Helena e a brancura da neve pura e do leite assenta apenas nas meras semelhanças de cor ou numa relação metonímica, o mesmo não se pode dizer da comparação feita com a brancura do cisne em que Júpiter se transformou para possuir sexualmente Leda. Para além de confrontar Helena com uma imagem sexual, Páris lembra-lhe que ela própria é fruto de um acto de infidelidade conjugal, como se lhe quisesse mostrar quão natural e belo é aquilo que obedece apenas à lei do desejo. Se Júpiter tinha a capacidade de disfarçar-se para seduzir, Ovídio tem a capacidade para dar ao discurso de Páris ambiguidades suficientes para o tornar num sedutor implacável. O príncipe troiano seria infalível não fosse o caso de Ovídio dar igual destreza nas artes do amor àquela a quem Páris pretende seduzir (veja-se aqui um exemplo de igualdade entre os sexos raro na poesia da época).
Numa carta que é uma resposta a todas as investidas retóricas de Páris, Helena começa por mostrar-se conhecedora das técnicas usadas por aquele que a pretende conquistar, dizendo-lhe: “pois que a minha mãe te pareceu ser de feição, / para julgares que, com o seu exemplo, eu podia ser vergada” (45-46). Mas nem sempre Helena responde a Páris revelando-lhe que conhece as suas artimanhas, pois, na maioria das vezes, responde-lhe com os mesmos truques: provoca-lhe ciúmes quer lembrando-lhe os beijos que Teseu lhe deu outrora, quer afirmando que actualmente “não é contra minha vontade que Menelau me possui” (112) e ainda trazendo-lhe à memória que não são poucos aqueles que a cobiçam. Ovídio faz com que, no jogo do amor, Helena em nada fique atrás de Páris: à fanfarronice do pretendente, ela não tem receio de mostrar que a sua família é inferior à dela, de lhe fazer notar que Tróia é uma cidade bárbara e de que ele não é o guerreiro temível que diz ser.
Apesar disto, Helena admite que lhe apraz a ideia de ceder à tentação e de se envolver fisicamente com Páris durante a ausência de Menelau, mas que talvez seja demasiado cedo, afirmando, sem rodeios, que acha que prolongar o jogo de sedução mútuo talvez venha a ser melhor para o prazer. Ovídio nunca faz de Helena uma mulher passiva, mesmo quando isso parece acontecer. A dado momento da carta, Helena incentiva Páris a deixar-se de palavras e a passar aos actos, ou seja, a tomá-la à força, dizendo: “Era pela força que a minha candura simplória tinha de ser apeada. / É útil, por vezes, a agressão a quem a padece” (188-189). Este conselho não revela de modo algum a submissão feminina aos desejos masculinos, mas sim a liberdade que Ovídio dá a Helena para que ela possa expressar sem qualquer tipo de condicionamento moral os seus desejos mais íntimos, algo a que Ovídio dá expressão ainda mais ampliada na carta da poeta Safo para Fáon, provavelmente a mais erótica deste conjunto de poemas.
Nesta carta, mais uma em que a voz da protagonista se queixa da ausência do seu amado (tópico, aliás, recorrente na poesia de Safo), encontram-se, para além de versos que abordam criticamente a arte de escrever elegias (“o canto de quem chora”), algumas das maiores virtudes poéticas de Ovídio, como a sua capacidade descritiva e sugestiva. O melhor exemplo será a descrição que Safo faz do sonho que teve e daquilo que a esse sonho se seguiu:
Conheço os beijos que tu costumavas encomendar à minha língua
e tão bem sabias receber e tão bem sabias dar;
faço-te carícias; e palavras bem semelhantes à verdade
são as que digo, e está atenta a minha voz aos meus sentidos.
Mais que isto tenho vergonha de contar; mas tudo acontece
e dá-me prazer e não me é consentido quedar-me na secura.” (129-134)
A ‘secura’ a que Safo aqui se refere é rica do ponto de vista semântico. Excitada pelas visões que teve durante o sonho, Safo vai relatando esse mesmo sonho até ao momento em que confessa ter vergonha de continuar o relato. Esta interrupção parece dever-se ao facto de as palavras de Safo corresponderem ‘à verdade’, isto é, serem a expressão de um desejo sexual íntimo, o que, de acordo com uma certa moralidade, podia ser passível de gerar um sentimento de vergonha. Contudo, Safo é uma mulher ovidiana que sabe que tem de obedecer à lei superior (a lei do Amor) mais do que a qualquer código moral, portanto, não lhe é consentido secar os frutos do Amor interrompendo o relato do prazer, daí que prossiga o poema revelando como, apesar de a luz do dia lhe ter interrompido os sonhos, ela prolongará o prazer através da masturbação sugerida pelo verso “grutas e bosques vou buscando, como se grutas e bosques me valessem” (137). Quer a nível sexual, quer a nível poético, a ‘secura’ está-lhe vedada e Safo tem de continuar a obedecer ao Amor.
Este conjunto de poemas de Ovídio mostra-nos, numa poesia única, mulheres, como Dido, que se comprazem em imaginar a culpa que o seu amado vai sentir quando souber da sua morte, mulheres, como Medeia, que se deleitam na vingança, mulheres como Briseida, que aceitam ser escravas da futura mulher do amado apenas para estarem próximas do objecto do seu amor, mulheres, como Hipsípile, que lançam maldições aos amores futuros daquele que as abandonou, mulheres, como Helena, que enquanto dominam o jogo do amor imploram para ser dominadas… O que Ovídio revela é que, no fundo, imensos são os modos de amar. Se tudo isto for insuficiente para convencer alguém da excelência de Heróides, resta apenas argumentar que este livro de Ovídio, e muito graças às muito úteis e nada fastidiosas notas feitas à tradução, é um dos melhores dicionários de mitologia clássica que se pode possuir, dado que cada carta nos conta muitas outras coisas para além dos amores ali narrados, desde as peripécias da guerra de Tróia (cujo resultado é irrelevante para muitas das autoras das cartas contanto os seus amados se salvem) até à narração das inúmeras tragédias presentes na história de cada uma das famílias amaldiçoadas e que foram uma das principais fontes de inspiração para a cultura Ocidental.

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