terça-feira, 29 de novembro de 2016

Satyricon, de Petrónio


«Cheguei a uma pinacoteca impressionante, repleta de todo o tipo de quadros. De facto, contemplei obras de Zêuxis não vencidas ainda pela corrosão do tempo e examinei, sem conseguir conter um certo calafrio, os esboços de Protógenes, que disputam em realismo com a própria natureza. Cheguei mesmo a prostrar-me em adoração perante a obra de Apeles, conhecida como a que está “assente numa só perna”; era tal a subtileza de contornos das imagens na aproximação ao modelo que julgarias estar perante uma figuração das próprias almas. Aqui, uma águia arrebatava para as alturas do céu o pastor do Ida; ali o cândido Hilas repelia uma Náiade descarada; maldizia Apolo as suas mãos culpadas e rendia homenagem à lira lassa com uma flor acabada de nascer. Rodeado pelos rostos dos amantes representados nos quadros, exclamei, como se me achasse sozinho:
— Então o amor até os próprios deuses atinge! Na sua morada celestial, Júpiter não encontrou quem lhe servisse, mas quando se decidiu a pecar na terra, a ninguém foi ofender. A ninfa que raptou Hilas teria dominado a paixão, se soubesse que Hércules viria a reclamar os seus direitos. Apolo transformou numa flor a sombra do seu amado, e todas as fábulas contemplam abraços sem rival.»


Satyricon, de Petrónio
(versão portuguesa de Delfim F. Leão)

Náiade ou Hilas com uma ninfa (1893), John William Waterhouse

Sem comentários:

Enviar um comentário