sexta-feira, 27 de maio de 2016

Cassandra, de Christa Wolf, no Jornal de Letras


«Enone, que Páris tinha trazido dos montes e que todos na cozinha adoravam, parecia abatida. Servia à mesa, tinham-lhe destinado o par real e o hóspede, e eu percebi que ela se obrigava a sorrir. No corredor apanhei-a quando bebia de um trago uma taça de vinho. Os tremores já tinham começado a manifestar-se em mim, mas ainda conseguia reprimi-los. Não liguei nada às personalidades que se apertavam à nossa volta, e perguntei a Enone o que tinha. O vinho e os cuidados tinham afastado a sua timidez em relação a mim. Páris estava doente, disse com os lábios lívidos, e nenhuma das suas mezinhas ajudava. Enone, que, segundo a criadagem, tinha sido uma ninfa de água na outra vida, conhecia todas as plantas e os seus efeitos no organismo humano, quase todos os doentes no palácio iam ter com ela. Mas a doença de Páris não a conhecia, e metia-lhe medo. Ele amava-a, disso tinha sinais iniludíveis. Mas quando o tinha nos braços ele chamava alto pelo nome de uma outra mulher: Helena, Helena. Afrodite ter-lha-ia prometido. Mas já alguma vez alguém tinha ouvido que Afrodite, a nossa querida deusa do amor, empurrasse um homem para uma mulher que ele não ama? Nem sequer conhece! E que só quer possuir porque ela passa por ser a mais bela de todas as mulheres? E porque possuindo-a ele se tornará o primeiro entre todos os homens?»

Cassandra, de Christa Wolf (trad. João Barrento)
Helena de Tróia (1898), de Evelyn De Morgan

segunda-feira, 23 de maio de 2016

A Feira do Livro de Lisboa está a chegar, e é tempo de visitar os clássicos:

- Ilíada de Homero - tradução de Frederico Lourenço
A Ilíada é o primeiro livro da literatura europeia e, sob certo ponto de vista, nenhum outro livro que se lhe tenha seguido conseguiu superá-lo — nem mesmo a Odisseia. Lida hoje, no século XXI depois de Cristo, a Ilíada mantém inalterada a sua capacidade esmagadora de comover e perturbar. As civilizações passam, mas a cultura sobrevive? É nesse sentido que parece apontar a mensagem deste extraordinário poema. Ler a Ilíada é reclamarmos o lugar que por herança nos cabe no processo de transmissão da cultura ocidental: cada novo leitor acrescenta mais uma etapa, ele mesmo um novo elo.
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- Odisseia de Homero - tradução de Frederico Lourenço
A Odisseia homérica é, a seguir à Bíblia, o livro que mais influência terá exercido, ao longo dos tempos, no imaginário ocidental. Esta tradução da Odisseia veio colmatar uma lacuna evidente: a inexistência, em português actual, de uma tradução vertida do grego, em verso e com a máxima fidelidade ao original, que devolva ao leitor o prazer do texto homérico.

Guerra Junqueiro: A musa dual (antologia)

[Sábios que negais]
[...]
Sobre o grande problema insondável da vida,
Diz-me mais numa encosta uma rosa florida,
Uma abelha a zumbir sobre o mel dum nectário,
Uma ave num ramo, uma cruz num calvário,
Um cardo, um cardo só na aridez das charnecas,
Que as vossas prelecções e as vossas bibliotecas,
Ó sábios que negais a luz da Providência
[...]
("Prometeu libertado", Canto I)

Guerra Junqueiro: A musa dual (antologia), com introdução e organização de A. M. Pires Cabral

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Sonetos, de Florbela Espanca


O MEU SONETO

Em atitudes e em ritmos fleumáticos,
Erguendo as mãos em gestos recolhidos,
Todos brocados fúlgidos, hieráticos,
Em ti andam bailando os meus sentidos…
E os meus olhos serenos, enigmáticos,
Meninos que na estrada andam perdidos,
Dolorosos, tristíssimos, extáticos,
São letras de poemas nunca lidos…
As magnólias abertas dos meus dedos
São mistérios, são filtros, são enredos
Que pecados d’amor trazem de rastros…
E a minha boca, a rútila manhã,
Na Via Láctea, lírica, pagã,
A rir desfolha as pétalas dos astros!…
Sonetos, de Florbela Espanca

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Metamorfoses, de Ovídio






















«DE FORMAS mudadas em novos corpos leva-me o engenho
a falar. Ó deuses, inspirai a minha empresa (pois vós
a mudastes também), e conduzi ininterrupto o meu canto
desde a origem primordial do mundo até aos meus dias.
ANTES do mar e das terras e do céu, que tudo cobre,
um só era o aspecto da natureza no orbe inteiro:
Caos lhe chamaram. Era uma massa informe e confusa,
nada a não ser um peso inerte, nela amontoando-se
as sementes discordantes de coisas desconexas.
Não havia ainda qualquer Titã a oferecer luz ao mundo,
nem a Febe nova, crescendo, restaurava os seus cornos,
nem a Terra estava então suspensa no ar que a envolvia,
em equilíbrio pelo próprio peso, nem Anfitrite estendera
os seus braços a toda a volta da longa margem das terras.
Mas ainda que houvesse ali terra, e mar, e atmosfera,
a terra era então instável, as ondas não navegáveis,
e a atmosfera sem luz. Nada conservava a sua forma,
cada coisa opunha-se à outra, pois num mesmo corpo
o frio guerreava o quente, o húmido lutava com o seco,
o mole com o duro, o peso com a ausência de peso.
Um deus, ou a natureza já mais benigna, pôs fim à disputa.»

Metamorfoses, de Ovídio
(tradução de Paulo Farmhouse Alberto)

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Uma Paciência Selvagem, de Adrienne Rich





















PAISAGEM IDEAL
Tínhamos de aceitar o mundo como nos era dado:
A ama passivamente sentada no parque
Raro abordada por príncipe disfarçado.
As manhãs sucediam-se iguais e nuas
Em salas de ser-eu onde nós acordávamos
Para ver o hoje como o ontem desdobrado.
Os nossos amigos não eram de beleza sobrenatural
Nem falavam com línguas de ouro; os nossos amantes
Atabalhoados quando mais perfeição esperávamos,
Ou escondiam-se em armários, os céus a troar.
O humano erguia-se para sempre nos assombrar,
Maculado, em carne viva, exigindo mais do que podíamos tolerar.
E sempre o tempo a correr como um eléctrico
Pelas ruas de uma cidade estrangeira, ruas
A desembocar em praças amplas e soalheiras
Que nunca reveríamos, nem mapa algum poderia mostrar—
Jamais aquelas fontes na mesma luz lançadas,
As estátuas verdes e brancas, as árvores douradas.
in Uma Paciência Selvagem, de Adrienne Rich
(trad. Maria Irene Ramalho)

terça-feira, 10 de maio de 2016

Reedições Cotovia:


«Mulheres de xaile levam ao colo bebés com as pálpebras roxas; os rapazes estão parados nas esquinas; as raparigas olham para o outro lado da rua — ilustrações ordinárias, imagens dum livro cujas páginas viramos e tornamos a virar como se, por fim, fôssemos encontrar aquilo que buscamos. Cada rosto, cada loja, cada janela de quarto, bar e praceta escura é uma imagem febrilmente virada — em busca de quê? É o mesmo com os livros. Que buscamos em milhões de páginas? Continuamos esperançosamente a voltar as páginas — oh, aqui está o quarto de Jacob.»

O Quarto de Jacob, de Virgínia Wolf
(trad. Maria Teresa Guerreiro)


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«A narrativa leva-me para a morte.
Acabo aqui, impotente, e nada, nada do que eu pudesse ter feito ou deixado de fazer, querido ou pensado, me teria conduzido a outro destino. Mais do que qualquer outra emoção, mais do que o meu próprio medo, o que lá bem no fundo me ensopa, me corrói, me envenena, é a indiferença dos olímpicos para connosco, seres terrenos. Fracassou o desafio de querer opor a nossa pequena chama à sua frieza de morte. Em vão tentamos fugir às suas violências, há muito tempo que sei isso.»

Cassandra, de Christa Wolf
(trad. João Barrento)

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Paisagem com Inundação, de Iosif Brodskii

HINO
Louvado seja o clima
por pôr um limite,
dizem uns, ao tempo

em movimento.

De todas as prisões
a Quatro Estações
tem a melhor alimentação
e gosta da confusão.


Perguntado pelas suas origens
um clima indica o oxigénio,
mas razões não aventa
para a sua omnipresença.


Como Confúcio indiferente,
quase inconsciente,
poderá não nos amar.
mas "Sempre" há-de murmurar.


Porque é finito,
têmo-lo dito e redito
prometedor e cordial.
Mas isso é um sinal.


Dum clima a permanência
é causada pela prevalência
do nada na sua textura
e pela pressão atmosférica.


 "Portrait of the Artist’s Daughter, Julie Manet, at Gorey" (1886),
de Berthe Morisot
Daí que o barómetro,
com o seu byrónico ar,
deva ser, acho portanto,
o nosso único santo.


Porque a exactidão do mercúrio
bate a da memória
(que também é mortal),
o clima é moral.


Quando faz demonstração
da sua má educação,
não culpa os parentes
mas as oceanas correntes.


Ou se acusam de tédio
e de idioma sem remédio,
não recorre ao advogado
e passa a localizado.


Perito em história, por um lado,
também é muito versado
no mistério do futuro
e parece seu demiurgo.


O que de comum tenho
com o antigo romano
não é um César falaz
mas sim o tempo que faz.


Idem, os traços importantes
que partilho com os mutantes
futuros são os contornos
bizarros dos cúmulos.


Louvada seja a entidade
incapaz de inimizade
e também a meticulosidade
em questões de afinidade,


Contudo, se um aspecto
deste altamente abstracto
poema é a sua gratidão
por encontrar audição,


então um hino racional
que um átomo canta afinal
para o resto da matéria devera
agradar a esta última deveras.

in Paisagem com Inundação, de Iosif Brodskii
*tradução de Carlos Leite

terça-feira, 3 de maio de 2016

"O azul do filho morto" e "Bangalô", de Marcelo Mirisola


Dois livros de Marcelo Mirisola em breve na Cotovia, colecção Sabiá:

«Uma vez vovó que sofria — do cocuruto — de maldade, peruagem e de esquecimentos atrozes, acusou uma “negrinha desgraçada” de roubar suas jóias. Eu me lembro deste episódio para lembrar da minha mãe e dos ovos que, de três em três horas, eu, débil mental (“isso”), garoto estranho que vivia olhando pra baixo, fui obrigado a engolir. Eu quero dizer o seguinte: se eu não comesse os malditos ovos as cabeças explodiriam contra as paredes. Ou melhor, a autoridade da minha mãe começava na minha avó e terminava na parede. Educação à Zeloni. Um negócio mais honesto, menos cínico, mais apaixonado e verossímil do que os cubinhos “lúdicos” de Freinet, Piaget & Cia. Ltda. (“exercício lúdico” é a puta que pariu, em qualquer época e circunstância — diga-se de passagem). Eu tive o Zeloni, a família Trapo sem pingo de humor. E tive que “curtir” o desbunde dos 70’s trancado numa “Escola Experimental” para filhos de nazistas endinheirados. As coisas não se encaixavam, nem nos cubinhos nem na minha cabeça, nem fudendo.»

O azul do filho morto, de Marcelo Mirisola

«Vivo dias de “écrivain”. Pra ser sincero, cultivo a bajulação e eu mesmo os invejo: esses vermes. São minha paisagem. Havia decidido, depois de ter feito algumas anotações, não mais especular sobre o ódio e o perdão. Na verdade, já ia dar por encerrada minha patética carreira de escritor maldito. Mas Cris ligou. Ela não vem. A gente falou em cartas que jamais teriam resposta. A garota queria saber o meu e-mail e o que eu andava fazendo. Eu lhe disse que às vezes ficava romântico e que às vezes era apenas um viciado em aspirinas, Nino Rota e barbitúricos fora de moda, tipo benzedrina e sonhos de valsa em papel de celofane. Que gostaria de tê-la ao meu lado. Só isso. 
— tenho cep, Cris. Serve? 
Aí ela anotou meu endereço. O que eu gosto nela é a melancolia e a falsa doçura cuja inconveniência, aliás, ela mesma já havia reconhecido: 
— você vai se decepcionar comigo.»

Bangalô, de Marcelo Mirisola

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Trabalhar Cansa, de Cesare Pavese

A VOZ
A cada novo dia o silêncio do quarto solitário
fecha-se como o ar sobre o leve marulhar
de cada gesto. A cada novo dia a janela estreita
abre-se imóvel ao ar calado. A voz
rouca e doce não volta no fresco silêncio.

Abre-se o ar imóvel como boca que fosse falar,
e cala-se. Cada dia é sempre o mesmo.
E a voz é a mesma, pois não rompe o silêncio,
rouca e igual para sempre na imobilidade
da recordação. A clara janela acompanha
com o seu breve latejar a calma daquele tempo.

Cada gesto percute a calma daquele tempo.
Se a voz ressoasse, voltaria a dor.Voltariam os gestos no ar pasmado
e palavras palavras à voz submissa.
Se a voz ressoasse, também o breve latejar
do silêncio que dura seria dor.

Voltariam os gestos da dor inútil,
percutindo as coisas no estrépito do tempo.
Mas a voz não volta, e o sussurro longínquo
não enruga a recordação. A luz imóvel
esparze o seu fresco latejar. O silêncio para sempre
cala-se, rouco e submisso, na recordação daquele tempo.
Trabalhar Cansa, de Cesare Pavese
(trad. Carlos Leite)