segunda-feira, 2 de maio de 2016

Trabalhar Cansa, de Cesare Pavese

A VOZ
A cada novo dia o silêncio do quarto solitário
fecha-se como o ar sobre o leve marulhar
de cada gesto. A cada novo dia a janela estreita
abre-se imóvel ao ar calado. A voz
rouca e doce não volta no fresco silêncio.

Abre-se o ar imóvel como boca que fosse falar,
e cala-se. Cada dia é sempre o mesmo.
E a voz é a mesma, pois não rompe o silêncio,
rouca e igual para sempre na imobilidade
da recordação. A clara janela acompanha
com o seu breve latejar a calma daquele tempo.

Cada gesto percute a calma daquele tempo.
Se a voz ressoasse, voltaria a dor.Voltariam os gestos no ar pasmado
e palavras palavras à voz submissa.
Se a voz ressoasse, também o breve latejar
do silêncio que dura seria dor.

Voltariam os gestos da dor inútil,
percutindo as coisas no estrépito do tempo.
Mas a voz não volta, e o sussurro longínquo
não enruga a recordação. A luz imóvel
esparze o seu fresco latejar. O silêncio para sempre
cala-se, rouco e submisso, na recordação daquele tempo.
Trabalhar Cansa, de Cesare Pavese
(trad. Carlos Leite)

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