segunda-feira, 16 de maio de 2016

Metamorfoses, de Ovídio






















«DE FORMAS mudadas em novos corpos leva-me o engenho
a falar. Ó deuses, inspirai a minha empresa (pois vós
a mudastes também), e conduzi ininterrupto o meu canto
desde a origem primordial do mundo até aos meus dias.
ANTES do mar e das terras e do céu, que tudo cobre,
um só era o aspecto da natureza no orbe inteiro:
Caos lhe chamaram. Era uma massa informe e confusa,
nada a não ser um peso inerte, nela amontoando-se
as sementes discordantes de coisas desconexas.
Não havia ainda qualquer Titã a oferecer luz ao mundo,
nem a Febe nova, crescendo, restaurava os seus cornos,
nem a Terra estava então suspensa no ar que a envolvia,
em equilíbrio pelo próprio peso, nem Anfitrite estendera
os seus braços a toda a volta da longa margem das terras.
Mas ainda que houvesse ali terra, e mar, e atmosfera,
a terra era então instável, as ondas não navegáveis,
e a atmosfera sem luz. Nada conservava a sua forma,
cada coisa opunha-se à outra, pois num mesmo corpo
o frio guerreava o quente, o húmido lutava com o seco,
o mole com o duro, o peso com a ausência de peso.
Um deus, ou a natureza já mais benigna, pôs fim à disputa.»

Metamorfoses, de Ovídio
(tradução de Paulo Farmhouse Alberto)

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