terça-feira, 10 de maio de 2016

Reedições Cotovia:


«Mulheres de xaile levam ao colo bebés com as pálpebras roxas; os rapazes estão parados nas esquinas; as raparigas olham para o outro lado da rua — ilustrações ordinárias, imagens dum livro cujas páginas viramos e tornamos a virar como se, por fim, fôssemos encontrar aquilo que buscamos. Cada rosto, cada loja, cada janela de quarto, bar e praceta escura é uma imagem febrilmente virada — em busca de quê? É o mesmo com os livros. Que buscamos em milhões de páginas? Continuamos esperançosamente a voltar as páginas — oh, aqui está o quarto de Jacob.»

O Quarto de Jacob, de Virgínia Wolf
(trad. Maria Teresa Guerreiro)


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«A narrativa leva-me para a morte.
Acabo aqui, impotente, e nada, nada do que eu pudesse ter feito ou deixado de fazer, querido ou pensado, me teria conduzido a outro destino. Mais do que qualquer outra emoção, mais do que o meu próprio medo, o que lá bem no fundo me ensopa, me corrói, me envenena, é a indiferença dos olímpicos para connosco, seres terrenos. Fracassou o desafio de querer opor a nossa pequena chama à sua frieza de morte. Em vão tentamos fugir às suas violências, há muito tempo que sei isso.»

Cassandra, de Christa Wolf
(trad. João Barrento)

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