quinta-feira, 5 de maio de 2016

Paisagem com Inundação, de Iosif Brodskii

HINO
Louvado seja o clima
por pôr um limite,
dizem uns, ao tempo

em movimento.

De todas as prisões
a Quatro Estações
tem a melhor alimentação
e gosta da confusão.


Perguntado pelas suas origens
um clima indica o oxigénio,
mas razões não aventa
para a sua omnipresença.


Como Confúcio indiferente,
quase inconsciente,
poderá não nos amar.
mas "Sempre" há-de murmurar.


Porque é finito,
têmo-lo dito e redito
prometedor e cordial.
Mas isso é um sinal.


Dum clima a permanência
é causada pela prevalência
do nada na sua textura
e pela pressão atmosférica.


 "Portrait of the Artist’s Daughter, Julie Manet, at Gorey" (1886),
de Berthe Morisot
Daí que o barómetro,
com o seu byrónico ar,
deva ser, acho portanto,
o nosso único santo.


Porque a exactidão do mercúrio
bate a da memória
(que também é mortal),
o clima é moral.


Quando faz demonstração
da sua má educação,
não culpa os parentes
mas as oceanas correntes.


Ou se acusam de tédio
e de idioma sem remédio,
não recorre ao advogado
e passa a localizado.


Perito em história, por um lado,
também é muito versado
no mistério do futuro
e parece seu demiurgo.


O que de comum tenho
com o antigo romano
não é um César falaz
mas sim o tempo que faz.


Idem, os traços importantes
que partilho com os mutantes
futuros são os contornos
bizarros dos cúmulos.


Louvada seja a entidade
incapaz de inimizade
e também a meticulosidade
em questões de afinidade,


Contudo, se um aspecto
deste altamente abstracto
poema é a sua gratidão
por encontrar audição,


então um hino racional
que um átomo canta afinal
para o resto da matéria devera
agradar a esta última deveras.

in Paisagem com Inundação, de Iosif Brodskii
*tradução de Carlos Leite

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