sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Os Papéis do Inglês, de Ruy Duarte de Carvalho



«Ao acordar de manhã procuro averiguar daquela sensação, algumas vezes experimentada mas quase sempre só recordação longínqua já, de encontrar satisfação por estar vivo e haver um dia à frente para viver. A memória que tenho disso, ou a imagem que ela projecta, remete-me a Londres: disponibilidade, ausência de culpa, um envolvimento exterior simultaneamente propício e distante que me poupava a confrontos maiores, o tédio, ainda assim, de alguma forma alheio, a certeza de quea intensidade e a densidade dos estímulos e dos recursos garantiriam, de alguma forma, contornos suportáveis à presença no mundo. Aqui, talvez, depois de tantos exílios interiores e de tanta auto-flagelação, estarei mais perto de uma experiência equivalente. O acordar é fácil e acompanha a emergência da luz, os pássaros anunciam o dia com folgada antecedência, nada oprime a perspectiva da movimentação, as hipóteses de trabalho são boas, há um jipe lá fora, tenho todas as razões para acreditar que nenhuma hostilidade me cerca, pelo menos num raio de 130 kms. Quando olhar para fora depararei muito provavelmente com silhuetas distantes de mulheres que se deslocam alheias, estou no meio de um espaço que me tem servido de referência pela vida fora, em plena vigência de uma hipótese duramente conquistada à força de determinação e vontade. Por isso me coloco mansa e cautelosamente perante mim mesmo e o que me cerca, não tanto, em consciência, para aproveitar, quanto para me entregar e não estragar, impedir, viciar ou destruir.»

Os Papéis do Inglês, de Ruy Duarte de Carvalho

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Orientalismo, de Edward W. Said

«Comecei por assumir que o Oriente não é um facto inerte da natureza. Não está "ali", do mesmo modo que o Ocidente também não está exactamente "ali". Temos de levar a sério a grande observação de Vico de que os homens fazem a sua própria história, de que o que eles podem conhecer é aquilo que fizeram, e devemos aplicá-la também à geografia: esses lugares, regiões e sectores geográficos que constituem o Oriente e o Ocidente, enquanto entidades geográficas e culturais — para já não dizer históricas — são criações do homem. Por conseguinte, tanto como o Ocidente, o Oriente é uma ideia que tem uma história e uma tradição de pensamento, de imagens, e um vocabulário que lhe deram uma realidade e uma presença "no" e "para" o Ocidente. As duas entidades geográficas, pois, apoiam-se, e até certo ponto reflectem-se uma na outra.
Uma vez dito isto, há que expor uma série de ressalvas pertinentes. Em primeiro lugar, seria errado concluir que o Oriente foi "essencialmente" uma ideia, ou uma criação sem uma realidade correspondente. Quando Disraeli disse no seu romance "Tancred" que o Oriente é uma carreira, queria dizer que para os brilhantes jovens ocidentais estudar o Oriente poderia ser uma paixão absorvente; não se deveria interpretar o que disse como que o Oriente era "apenas" uma carreira para os ocidentais.
(...)
Uma segunda ressalva refere-se às ideias, às culturas e às histórias que não se podem entender nem estudar seriamente sem se estudar ao mesmo tempo a sua força ou, para ser mais preciso, as suas configurações de poder. Acreditar que o Oriente foi criado — ou, como costumo dizer, foi “orientalizado” —, e acreditar que tais coisas ocorrem simplesmente como uma necessidade da imaginação, é faltar à verdade. A relação entre o Ocidente e o Oriente é uma relação de poder, de domínio, com diferentes graus, de uma complexa hegemonia, como o mostra, e bem, o clássico de K. M. Panikkar, "Asia and Western Dominance". O Oriente foi orientalizado não apenas porque se descobriu ser “oriental”, segundo os estereótipos do europeu médio do século XIX, mas também porque "podia" — isto é, poderia ser obrigado a — "tornar-se" oriental. Pouco se pode objectar, por exemplo, a que o encontro de Flaubert com uma cortesã egípcia tenha originado um paradigma da mulher oriental amplamente influente; ela nunca falava de si própria, nunca representava as suas emoções, presença ou história. "Ele" falava por ela e representava-a. Ele era estrangeiro, relativamente rico, homem, e estes eram factores históricos de dominação que lhe permitiam não apenas possuir Kuchuk Hanem fisicamente, mas falar por ela e dizer aos seus leitores de que forma ela era “tipicamente oriental”.»

Orientalismo, Edward W. Said
(trad. Pedro Serra)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Aulas e Conversas, de Ludwig Wittgenstein

«Muita gente tem, numa altura ou noutra, perturbações sérias na sua vida - sérias a ponto de levar a pensamentos de suicídio. É provável que o facto nos apareça como repulsivo, como uma situação demasiado imunda para constituir o tem de uma tragédia. E pode então haver um alívio imenso se se puder mostrar que a nossa vida tem antes o padrão de uma tragédia - a resolução trágica e a repetição de um padrão que foi determinado pela cena primitiva.
Há claro a dificuldade de determinar que cena é a cena primitiva (...). É provável que a análise possa fazer mal. Porque ainda que possamos descobrir no decurso destas diversas coisas acerca de nós mesmos, devemos possuir um sentido crítico muito forte, agudo e persistente para podermos reconhecer e ver através da mitologia que nos é oferecida ou imposta. Existe um incentivo para se dizer, 'Pois, claro, deve ser assim'. Uma mitologia poderosa.»

Aulas e Conversas, Ludwig Wittgenstein
(tradução de Miguel Tamen)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben


Ideia do silêncio
«Numa recolha de fábulas dos fins da Antiguidade lê-se este apólogo: "Os Atenienses tinham por hábito chicotear a rigor todo o candidato a filósofo, e, se ele suportasse pacientemente a flagelação, poderia então ser considerado filósofo. Um dia, um dos que se tinham submetido a esta prova exclamou, depois de ter suportado os golpes em silêncio: 'Agora já sou digno de ser considerado filósofo!' Mas respnderam-lhe, e com razão: 'Tê-lo-ias sido, se tivesses ficado calado.'"
A fábula ensina-nos que a filosofia tem certamente a ver com a experiência do silêncio, mas que o assumir dessa experiência não constitui de modo nenhum a identidade da filosofia. Esta está exposta no silêncio, absolutamente sem identidade, suporta o sem-nome sem encontrar nisto um nome para si própria. O silêncio não é a sua palavra secreta - pelo contrário, a sua palavra cala perfeitamente o próprio silêncio.»



Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben

(trad. João Barrento)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Vida: Variações II, de Bénédicte Houart


crianças acocoradas no cascalho
contando uma a uma as pedrinhas
não, não temos a vida toda
dizem os pais e dirão elas
pois é logo logo a descontar e
as pedrinhas acumulam-se
nos rins na vesícula na cabeça no coração
não falta nada serão só uma
muito pesada que outros numerarão
é logo logo a aprender não há tempo a perder
trata-se apenas de saber descontar bem


Vida: Variações II, Bénédicte Houart
Henri Cartier-Bresson

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Ensaios Escolhidos, de T.S. Eliot


«É proverbialmente mais fácil destruir do que construir; e, como corolário desta afirmação proverbial, é mais fácil para os leitores apreenderem a faceta destrutiva do que a faceta construtiva do pensamento de um autor. Mais ainda: quando um escritor tem habilidade para a crítica destrutiva, o público fica satisfeito com isso. Se não tem uma filosofia construtiva, não se exige; se tem, não se lhe presta atenção. Isto é especialmente verdadeiro se nos ocupamos de críticos da sociedade, desde Arnold até aos dias de hoje. Todos esses críticos são criticados segundo um padrão comum, o mais baixo: o padrão do ataque brilhante a aspectos da sociedade contemporânea, que conhecemos e de que não gostamos. É o padrão mais fácil de adoptar. Porque a crítica trata de coisas concretas do mundo que conhecemos, e o escritor pode meramente ecoar, num fraseado mais elegante, os nossos próprios pensamentos; enquanto o acto de construir trata de coisas difíceis e desconhecidas.»

Ensaios Escolhidos, de T.S. Eliot
(tradução de Maria Adelaide Ramos)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Os Devaneios do Caminhante Solitário, de Jean-Jacques Rousseau




«Eis-me sozinho na terra, sem irmão, parente próximo, amigo, ou companhia a não ser eu próprio. O mais sociável e o mais afectuoso dos homens foi proscrito da sociedade por um acordo unânime. No requinte do seu ódio, procuraram o tormento que fosse mais cruel para a minha alma sensível e quebraram violentamente todos os laços que a eles me ligavam. Eu teria amado os homens apesar do que são. Ao deixarem de o ser mais não fizeram do que furtar-se ao meu afecto. Ei-los, portanto, estrangeiros, desconhecidos, em suma, inexistentes para mim, já que assim o quiseram. Mas eu, desligado deles e de tudo, o que sou afinal? É o que me falta descobrir. (...)
Continuo a pensar que uma indigestão me atormenta, que tenho sonhos maus durante o sono e que vou acordar aliviado do meu sofrimento, entre os meus amigos. Sim, sem dar por isso, devo ter passado da vigília para o sono, ou antes, da vida para a morte.»


Os Devaneios do Caminhante Solitário, de Jean-Jacques Rousseau

(tradução: Henrique de Barros)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Grosso modo, de Jacinto Lucas Pires

"Talvez o que una [estes contos] seja uma vontade de dialogar com o mundo, de haver uma conversa que é explícita com o mundo em que vivemos hoje."

Jacinto Lucas Pires à conversa com Luís Caetano, sobre o livro "Grosso modo", no programa A Ronda da Noite (Antena 2). Para ouvir aqui:





Da Velhice, Cícero



«Não tem a velhice um fim determinado. Enquanto desempenharmos e honrarmos os nossos próprios deveres, assim como desprezarmos a morte, viver-se-á razoavelmente na velhice. Por isso é ela mais espirituosa e mais forte do que a juventude. Tal foi o que Sólon respondeu ao tirano Pisístrato quando este lhe perguntava em que se apoiava para ter a audácia de o enfrentar - diz-se que terá respondido: "na velhice". Mas, o melhor fim para a vida é quando a natureza põe ela mesmo termo à sua própria obra, encontrando-se ainda intactas as faculdades mentais. Assim como se destrói facilmente um navio ou um edifício que se construiu, do mesmo modo destina a natureza um fim ao homem, o qual superiormente gerou e, se toda a estrutura recente custa a ruir, a velhice facilmente se desmorona por si. Não devem os velhos apegar-se ao último momento de vida nem desistir dele sem qualquer motivo.»


Da Velhice, Cícero
(Tradução do latim de Carlos Humberto Gomes)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Mortes Imaginárias, de Michel Schneider

A língua cortada
«Durante muito tempo pensei que estar vivo significava precaver-se da morte. Talvez tivesse acreditado demasiado em Montaigne: “A vossa morte é uma das peças que compõem a ordem do universo; é um dos elementos da vida do mundo… Não temas nem desejes o teu último dia”. Mas não estaremos a enganar-nos a nós próprios quando afirmamos que a morte é uma coisa da vida? Que o não ser ainda é uma forma particular de ser, e, como ainda escreve Montaigne, que a morte é um simples salto “do mal-ser [mal-être] para o não-ser”? Os Gregos chamavam-lhe a irmã do sono, a filha da noite. É uma mulher que faz parte da família. Tomamos as refeições com ela. Daí a achá-la simples, de boa reputação, ou mesmo amável! Um dia, abandonamos o festim saciados, recomendam ainda os Antigos. Partimos. É o que se conta às crianças. O teu papá está a viajar, longe, muito longe. E a criança sabe que a caixa negra o encerra no invisível, ali, ao lado. Mesmo ao lado. Partir? “É preciso estar sempre calçado e pronto para partir… Já que Deus nos oferece a possibilidade de organizar a nossa mudança, preparemo-nos: façamos as malas”, dizia-me o autor dos Ensaios. Mas não fazia muito sentido para mim. Não estou pronto para partir. Provavelmente, nunca estamos prontos. Não sou estóico. Desconheço se ainda existem estóicos. Sei bem que pensar na morte não é pensar na sua própria morte.»
Michel de Montaigne

Mortes Imaginárias, de Michel Schneider
*Tradução de Bénédicte Houart