sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Os Papéis do Inglês, de Ruy Duarte de Carvalho



«Ao acordar de manhã procuro averiguar daquela sensação, algumas vezes experimentada mas quase sempre só recordação longínqua já, de encontrar satisfação por estar vivo e haver um dia à frente para viver. A memória que tenho disso, ou a imagem que ela projecta, remete-me a Londres: disponibilidade, ausência de culpa, um envolvimento exterior simultaneamente propício e distante que me poupava a confrontos maiores, o tédio, ainda assim, de alguma forma alheio, a certeza de quea intensidade e a densidade dos estímulos e dos recursos garantiriam, de alguma forma, contornos suportáveis à presença no mundo. Aqui, talvez, depois de tantos exílios interiores e de tanta auto-flagelação, estarei mais perto de uma experiência equivalente. O acordar é fácil e acompanha a emergência da luz, os pássaros anunciam o dia com folgada antecedência, nada oprime a perspectiva da movimentação, as hipóteses de trabalho são boas, há um jipe lá fora, tenho todas as razões para acreditar que nenhuma hostilidade me cerca, pelo menos num raio de 130 kms. Quando olhar para fora depararei muito provavelmente com silhuetas distantes de mulheres que se deslocam alheias, estou no meio de um espaço que me tem servido de referência pela vida fora, em plena vigência de uma hipótese duramente conquistada à força de determinação e vontade. Por isso me coloco mansa e cautelosamente perante mim mesmo e o que me cerca, não tanto, em consciência, para aproveitar, quanto para me entregar e não estragar, impedir, viciar ou destruir.»

Os Papéis do Inglês, de Ruy Duarte de Carvalho

2 comentários:

  1. Venha viver no Brasil e seu acordar já não dará tempo para refletir sobre se o dia será razoável. Há uma constante ameaça de perigo, tal a violência que se espalha, a falta de emprego, a bandidagem solta e barbarizando os cidadãos de bem, que já não há tempo nem para se espreguiçar e começar o dia com o espírito positivo.

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  2. Venha viver no Brasil e seu acordar já não dará tempo para refletir sobre se o dia será razoável. Há uma constante ameaça de perigo, tal a violência que se espalha, a falta de emprego, a bandidagem solta e barbarizando os cidadãos de bem, que já não há tempo nem para se espreguiçar e começar o dia com o espírito positivo.

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