segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Cocktail Party, T. S. Eliot

«EDUARDO: E onde irá dar isso tudo?
CONVIDADO DESCONHECIDO: Vai dar à descoberta
Do que realmente o senhor é. Do que realmente sente.
Do que realmente é, entre as outras pessoas.
A maior parte das vezes, damo-nos por certos e seguros,
Tem que ser assim, a lá vamos vivendo, pouco cientes
De nós próprios, do que fomos. Quem é o senhor agora?
Sabe-o tanto como eu, ignora-o talvez mais
Ainda. Não passa de um conjunto de obsoletas
Reacções. A única coisa a fazer
É nada fazer. Esperar.
EDUARDO: Esperar!
Mas esperar é o impossível.
Sobretudo, não percebe como isso me tornaria ridículo?
CONVIDADO DESCONHECIDO: Não lhe faz mal nenhum achar-se ridículo.
Resigne-se à condição de ser o bobo que é.
É o melhor conselho que lhe posso dar.
EDUARDO: Mas como posso esperar, não sabendo por que espero?
Deverei dizer aos meus amigos: "A minha mulher está fora."
E ouvi-los perguntar: "Para onde foi?" e eu dizer-lhes: "Não sei."
E dirão eles: "Mas quando é que ela volta?»
E eu responder: "Não sei se volta."
E eles: «Mas então o que é que você vai fazer?"
Respondo-lhes eu: "Nada." Hão-de julgar-me louco,
Ou pura e simplesmente vil.
CONVIDADO DESCONHECIDO: O que é excelente.
Acabará por descobrir que sobrevive à humilhação.
O que é uma experiência de valor incalculável.
EDUARDO: Escute: concordo que muito do que o senhor disse
É bem verdade. Mas ainda há mais.
A partir da hora em que a vi esta manhã, ao pequeno-almoço,
Não consigo lembrar-me como é a minha mulher.
Não tenho a certeza de ser capaz de a descrever,
Se tivesse de recorrer à polícia para a procurar.
Tenho a certeza de que não sei o que vestia
Quando a vi pela última vez. E mesmo assim quero
que volte.
Tenho que a fazer voltar, para descobrir o que aconteceu
Durante os cinco anos que fomos casados.
Tenho de descobrir quem ela é; descobrir quem eu sou.
E sendo assim, para que serve toda a sua análise,
Se acabo por continuar perdido em trevas?
CONVIDADO DESCONHECIDO: Claro que de nada serve viver mergulhado em trevas
A não ser o tempo suficiente para expulsar do pensamento
A ilusão de ter sempre estado em plena luz.
O facto de não poder dar qualquer razão para
Querer ter a sua mulher
É a melhor razão para crer que precisa dela.»

Cocktail Party, T.S. Eliot
*Tradução de José Blanc de Portugal

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Sagrada Família, de Jacinto Lucas Pires

«MARIA: Deixa ver se percebi. Queres fazer uma… religião? É isso? O mundo está manchado, desmanchado, como é que tu dizes?… “desapertado”, cheio de miséria e injustiça e medos, e por isso acreditas que há um “público-alvo”, que há um “nicho de mercado” para —
PEDRO: Estava a tentar falar de uma maneira que tu percebesses.
MARIA: Um novo “produto espiritual”, uma empresa que dê Deus —
PEDRO: Amor.
MARIA: …Que dê amor — perdão — às pessoas, a todas as pessoas, a toda e qualquer pessoa. É isso?
PEDRO: E esperança e ânimo e aconselhamento e paz e —
MARIA: Amor, que dê amor às pessoas. Que dê amor e que receba o quê em troca?
PEDRO: Nada.
MARIA: Nada?
PEDRO: Não pediremos nada, não exigiremos nada.
MARIA: Sim, mas… e depois?
PEDRO: Não, nada, nunca.
MARIA: …E depois cada um dará o que puder.
PEDRO: “De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades.”
MARIA: Isso é o quê, Marx? Jesus? Beatles? (PEDRO sorri sem vontade.) Pê, a tua área, não sei se te lembras, é Teoria da Literatura. Consegues mesmo imaginar-te como sacerdote ou pastor ou, nem sei como te chamar… faraó?
PEDRO: Não é questão de imaginar.
MARIA: Mas o que é que vais dizer às pessoas?
PEDRO: Serei eu próprio. Já me conheces. Palavras simples, bom senso.
MARIA (irónica): Ha, ha.
PEDRO: Frases curtas mas inspiradoras, uma entoação que apazigue e dê alento.
MARIA: “Alento”? “Apazigue”? Já estás a falar como um padre, meu Deus.
PEDRO: Estás a ver: “Meu Deus”.
MARIA: O quê?
PEDRO: “Meu Deus”, disseste. Mas, tudo bem, eu percebo o choque.
MARIA: A sério que estás a falar a sério?
(...)
MARIA: Qual é que é o nome?
PEDRO: O quê, o nome de quê?
MARIA: O nome da tua religião, Pê.
PEDRO: Da “nossa”. Da nossa religião, baby.
MARIA: Oh, não vais dizer, pois não? (Pausa. PEDRO desvia o olhar.)
PEDRO: Micro. Empresa. Religiosa. De. Amor. (Pausa.)
MARIA: MERDA? É esse o teu grande nome? É esse o grande nome da tua grande religião que vai salvar o mundo? MERDA? MERDA?
PEDRO: Não… gostas?»


Sagrada Família, de Jacinto Lucas Pires

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Amores, de Ovídio

Aurora

«Já sobre o Oceano se encaminha para longe do velho marido
a loira deusa que transporta em seu carro enregelado o dia.
Para onde vais na tua pressa, ó Aurora? Espera! E, assim, às sombras de Mémnon
preste uma ave, em cada ano, com solene sacrifício, homenagens fúnebres.
Agora, o que me apraz é repousar nos braços meigos de minha amada,
porquanto, agora, bem aconchegada está ela ao meu corpo;
agora, mais ainda, é pesado o sono e fresca a brisa,
e, com suave gorjeio, entoam um canto cristalino os pássaros.
Para onde vais, na tua pressa, ingrata aos homens, ingrata às mulheres?
Essas rédeas húmidas do orvalho, segura-as em tua mão cor de púrpura.
Antes de nasceres, com mais segurança perscruta as estrelas
o marinheiro e não vagueia, incerto, no meio das águas;
à tua chegada, levanta-se, por cansado que esteja, o viandante,
e o soldado apronta para as armas os temíveis braços.
És a primeira a ver, sob o peso da enxada, aqueles que trabalham o campo;
és a primeira a chamar para debaixo da canga recurva os vagarosos bois;
tu arrancas as crianças ao sono e aos mestres as entregas,
para que sofram a dureza dos açoites suas mãos delicadas;
e és tu, também, que envias muitos a prestar garantia diante do tribunal,
para, de uma só palavra, virem a receber enorme dano.
Tu não dás prazer ao jurisconsulto, não o dás ao advogado;
um e outro são forçados a levantar-se para novas demandas.
Tu, quando os braços das mulheres poderiam descansar,
às suas tarefas tu chamas, de novo, as mãos fiandeiras.
Tudo eu seria capaz de tolerar; mas fazer levantar as amadas pela manhã,
quem, a não ser quem não possui amada, pode suportá-lo?
Quantas vezes desejei eu que não quisesse a noite ceder a ti,
que não fugissem as estrelas em movimento diante do teu rosto!
Quantas vezes desejei eu que o vento quebrasse em pedaços o teu carro
ou caísse, preso numa nuvem espessa, um dos cavalos!
Com que direito? Como se ela nunca ardesse de amores por Céfalo!
Julga, porventura, que não é conhecido o seu pecado?
Invejosa! Para onde vais, na tua pressa? Pois se tinhas um filho de pele negra,
era por ser essa a cor do coração da mãe.
Gostaria eu que a Titono fosse consentido contar os teus feitos;
mulher alguma haveria no céu mais desavergonhada;
enquanto dele te apartas, por ser de idade bem avançada,
tu ergues-te, pela manhã, longe do teu velho, em teu carro odioso;
mas se aquele que desejas, Céfalo, em teus abraços o retivesses,
havias de gritar: “Galopai devagar, ó cavalos da Noite!”
Porque hei-de eu ser castigado nos meus amores, se te murcha o marido com os anos?
Acaso foi com a minha ajuda que desposaste esse velho?
Vê quantas noites de sono terá concedido a seu jovem amado
a Lua; e não é menor que a tua a sua formosura.
O próprio pai dos deuses, para te não ver tanta vez,
ajuntou duas noites, na satisfação do seu desejo.
Havia terminado as minhas reclamações; era de crer que ela tivesse escutado; corava;
mas não nasceu mais tarde que de costume o dia.»

Amores, de Ovídio
*Tradução de Carlos Ascenso André

"Ovid Banished from Rome" (1838), William Turner

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Grécia Revisitada, de Frederico Lourenço



«O alcance universal, a profundidade filosófica e a sofisticação artística da sua obra fizeram naturalmente de Platão um dos autores mais lidos e mais estudados de sempre. A exegese dos diálogos platónicos começou já na própria Antiguidade Clássica (o primeiro estudioso da obra platónica foi Aristóteles) e tem continuado até aos nossos dias, produzindo verdadeiras montanhas de bibliografia em línguas que vão desde o inglês e alemão (os idiomas tradicionais desde o século XIX para a hermenêutica platónica) até ao polaco e japonês. Sob certo ponto de vista, poderá parecer improvável que haja mais alguma coisa a dizer sobre Platão; por outro lado, é facto que os repertórios bibliográficos como "L'Année Philologique" precisam de cada vez mais páginas para registar tudo o que, em cada ano, se vai escrevendo sobre o filósofo.
Pois certo é que as características da obra platónica (enunciadas no parágrafo anterior) autorizam a afirmação de que, quando já não houver nada a dizer acerca de Platão, será essa a altura em que o perfil específico da nossa cultura ocidental deixou de existir, para dar lugar a uma nova cultura, divorciada das humanidades, que não se configura especialmente aliciante. É que imaginar uma cultura na qual as concepções platónicas relativas ao saber, à alma, à morte, à política (na acepção etimológica do termo), à arte e ao amor já não têm qualquer relevância directa ou indirecta é entrar no foro da ficção científica. Pelo menos, por enquanto, Platão ainda tem muito para nos ensinar acerca de nós mesmos.»

Grécia Revisitada, de Frederico Lourenço

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O Lugar Supraceleste, de Frederico Lourenço

O Cravo Bem Temperado... em piano

«A Bíblia musical da vida e da espiritualidade humanas chama-se em português "O Cravo Bem Temperado" (CBT), mas na verdade Bach não compôs a obra especificamente para cravo. "Klavier", na época de Bach, tinha como referente qualquer instrumento de tecla (cravo, clavicórdio, órgão, o adventício forte-piano) e se há verdade irrefutável no campo da estética musical é que o CBT é uma obra que fica igualmente bem tocada em qualquer desses instrumentos. E fica magnificamente bem tocada num piano moderno, com todos os recursos de que dispõe o mais esplêndido de todos os instrumentos.
O piano traz várias vantagens à interpretação desta obra, constituída por 48 prelúdios e fugas que abarcam todas as tonalidades. Os 48 prelúdios são todos completamente diferentes uns dos outros e o piano consegue encontrar uma sonoridade própria para cada um destes 48 retratos de outros tantos estados da alma humana. Na sua maior parte, os prelúdios do CBT são peças que nas edições modernas não ultrapassam as duas páginas e têm, por isso, a força colossal que advém da sua síntese. Desde a tristeza mais profunda ao êxtase mais enlevado, os prelúdios do CBT percorrem toda a gama do sentir. Funcionam como espelhos dos nossos sentimentos, ao mesmo tempo que nos ensinam a lidar com eles.
(...)
Hoje em dia toca -se Bach no piano de uma maneira muito diferente comparativamente à realidade de há 30 anos. Pianistas como András Schiff e outros dão-nos hoje interpretações que, na sua estética, são bastante informadas do ponto de vista histórico. Antigamente, os pianistas conheciam apenas duas regras de articulação válidas para a música de Bach: ligar as semicolcheias e picar as colcheias. Onde isso já vai. No entanto, pessoalmente não morro de amores por um Bach historicamente informado no piano. Para se executar o discurso musical seguindo à risca a “pontuação” explícita e implícita na partitura, o piano está em desvantagem, porque não consegue todos os subtis sinais de pontuação que a própria mecânica do cravo permite. O piano domina à perfeição o ponto final e a mudança de parágrafo; a articulação possibilitada pela mecânica do cravo consegue juntar a estas pontuações a vírgula, o ponto-e-vírgula, os dois pontos e o travessão. Como lhe falta toda a paleta de dinâmicas que o piano permite, tem de ser com base nesta subtilíssima arte da articulação que o cravo consegue os seus efeitos. Aqui, não há András Schiff que possa competir com um Gustav Leonhardt.
Assim, ouvir Bach em piano será sempre um prazer maior quanto mais pontapés o pianista der na historicidade da interpretação. Por isso, a perfeição de "O Cravo Bem Temperado" em piano chamar-se-á sempre Sviatoslav Richter.»


O Lugar Supraceleste, de Frederico Lourenço

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Estética da Dança Clássica, de Frederico Lourenço

«O texto coreográfico não é o único texto que nos é dado ler ao vermos um bailado a ser dançado no palco. O bailado é, como a ópera, uma forma de arte sincrética, por natureza uma síntese artística onde confluem várias artes e várias poéticas; aliás, eu diria mesmo que o bailado é a arte interpoética por excelência. O cenário e os figurinos são a manifestação mais evidente daquilo a que eu gostaria de chamar a dimensão “pictórica” do bailado. E, acima de tudo, temos a música que, juntamente com a dança propriamente dita, é aquilo que contribui de forma mais decisiva para o impacto estético recebido quando vemos um bailado dançado no palco. Claro que a música é algo que nos chega através dos ouvidos: portanto o texto que os nossos ouvidos dão a ler à nossa mente constitui um texto que é percecionado de forma diferente relativamente ao processo de perceção que está em causa quando contemplamos um quadro num museu. Seja como for, assistir a um espetáculo de bailado convida-nos a ler três textos diferentes em simultâneo: texto coreográfico, texto musical e texto pictórico, sendo todos os três parte integrante da experiência de ver o bailado.

"Sommarlek/Um Verão de Amor (1951), Ingmar Bergman
Comecemos por voltar brevemente ao mais conhecido bailado clássico, "O Lago dos Cisnes", cuja coreografia de 1895, que ainda hoje vemos nas melhores produções, é praticamente coeva da música. A dimensão pictórica deste bailado – conquanto se trate de uma encenação em que os cisnes correspondem à ideia oitocentista de como se deveria representar um cisne no palco balético – também concorre no sentido de proporcionar uma impressão de sintonia geral, na medida em que os diversos textos que estão a ser oferecidos à nossa leitura estão excecionalmente bem ajustados entre si e afiguram-se-nos partes harmoniosas de um todo dotado de notável unidade estética. Pois "O Lago dos Cisnes" é todo ele retintamente fin-de-siècle: a música começou a ser composta por Tchaikovsky em 1875; o enredo foi, possivelmente, invenção do próprio compositor; o coreógrafo que fez a versão de 1895, que está na base do que vemos ainda hoje, estava bem sintonizado com o imaginário tchaikovskiano, pois colaborara já com o compositor na "Bela Adormecida". No que toca ao texto visual e pictórico, podemos imaginar que os cenários e figurinos vistos pelo público da estreia não seriam muito diferentes dos que vemos hoje em encenações tradicionais, portanto seriam muito “da sua época”.»


Estética da Dança Clássica, de Frederico Lourenço

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O Livro Aberto: Leituras da Bíblia, de Frederico Lourenço

Papos de anjo

«Uma das razões pelas quais acreditar em Deus “dá luta” é o facto de Ele nos estar tão distante. O Antigo Testamento procura várias vezes criar uma ponte entre a esfera humana e a divina, descrevendo a interacção de mensageiros (ἄγγελοι, “ângelos” = anjos) de Deus com seres humanos. No primeiro livro da Bíblia, estes anjos até se sentam à mesa com homens e comem manjares feitos por mãos humanas (coisa que, em livros mais tardios, os anjos se recusarão a fazer). Sara, mulher de Abraão, merece ser lembrada pelos seus dotes culinários, pois o texto bíblico não regista que os três anjos do Senhor tenham desdenhado os bolinhos por ela confeccionados (“papos de anjo”, quem sabe? cf. Génesis 18: 6). Mais tarde na história bíblica, Gedeão oferece uns bolinhos ao anjo do Senhor no livro de Juízes (6: 20), mas o anjo, em vez de os degustar, pega-lhes fogo e desaparece — o que leva Gedeão a exclamar: “eu vi a face do anjo do Senhor!”
A excepcionalidade de os anjos terem aceitado comer à mesa de Abraão é sublinhada no livro de Tobite, quando o anjo Rafael explica que, durante todo o tempo que passou em companhia humana, apenas fingiu comer (como fazem tantas pessoas que sofrem de perturbações alimentares): “todos os dias que eu estava na vossa presença”, diz o anjo, “eu nada comia nem bebia na realidade, apenas vos parecia que o fazia” (Tobite 12: 19).
Decerto consciente, graças ao seu estudo das Escrituras, que não vale a pena oferecer bolos a um anjo, o velho sacerdote Zacarias nem se lembra de tal coisa quando lhe aparece o anjo Gabriel no início do evangelho de Lucas. E Maria, perante as palavras incríveis que Gabriel lhe transmite no mesmo evangelho, não está compreensivelmente com cabeça para pensar em lhe oferecer bolos. No final da Bíblia, é o autor do livro de Apocalipse que recebe algo para comer das mãos de um anjo: um rolo de papiro, de sabor inicialmente doce, mas depois desagradavelmente amargo (Apocalipse 10:10). Que pena o anjo não se ter lembrado da velha receita dos bolinhos de Sara, certamente mais saborosos.
Bom, mas seria errado dar a entender que, na Bíblia, os encontros com anjos giram em torno de doçaria. Um encontro bem difícil, que sublinha a asserção acima proposta de que acreditar em Deus “dá luta”, é narrado no livro de Génesis, quando Jacob passa a noite junto do rio Jaboc a lutar com um ser misterioso, primeiro referido como “homem” (ἄνθρωπος) na versão grega da Bíblia (Génesis 32:25) — ser esse que depois se nos afigura um anjo e, finalmente, é identificado pelo próprio Jacob como sendo nada mais nada menos que Deus em pessoa. Ou, pelo menos, é essa a conclusão a que chegam os leitores da Bíblia em grego (εἶδον γὰρ Θεὸν πρόσωπον πρὸςπρόσωπον) e em latim (vidi Dominum facie ad faciem). A tradução da Bíblia dos Capuchinhos põe Jacob a dizer “vi um ser divino, face a face”, o que não arreda a possibilidade de se tratar de um anjo. O resultado desta luta com Deus (ou com o Seu anjo) é que Jacob foi ferido no nervo ciático da coxa e ficou paralisado (Génesis 32: 33). Da luta com o Divino ninguém sai incólume.
Ou será que estamos a sobre-interpretar? No seu comentário a esta secção do livro de Génesis, Claus Westermann opinou que a luta de Jacob com Deus corresponde a uma re-elaboração da narrativa original: nesse estrato mais antigo do texto, Jacob não lutava com Deus, mas sim com um demónio (cf. p. 367 da tradução inglesa do comentário de Westermann). Essa possibilidade faz-nos pensar em seres como diabos e vampiros (ou as Willis no bailado Giselle) que têm de desaparecer ao raiar do dia: talvez por isso só quando nasce o sol é que acaba a luta de Jacob com o ser misterioso que lhe dá cabo do nervo ciático. Segundo Westermann, os redactores quem deram a forma final ao livro de Génesis não gostaram da ideia da luta com um demónio independente de Jeová e por isso deram ao texto a forma conhecida. “All the profound theological consequences drawn from Jacob’s supposed encounter with God have no basis...” (Westermann, p. 519).
A leitura de Westermann deste episódio da Bíblia está nos antípodas de outras, que tentam fazer sentido da luta com Deus (não esquecer aqui as congeminações algo inverosímeis de Roland Barthes, num texto incluído no livro Analyse structurale et exégèse biblique de 1971). Mas não é muito mais agradável responsabilizarmos um qualquer diabo pela lesão infligida ao nervo ciático de Jacob? Por que razão Deus ou o Seu anjo se lembrariam de uma tal crueldade? É certo que, no livro de Génesis, os anjos ainda comem comida oferecida por humanos. Teria sido possível adoçar a boca do anjo, antes que ele atacasse o nervo ciático? Talvez Jacob devesse ter pensado nisso e oferecido ao “ser divino” um dos bolinhos da sua avó, Sara.»


O Livro Aberto: Leituras da Bíblia, de Frederico Lourenço

terça-feira, 10 de novembro de 2015

O último Natal de guerra, de Primo Levi

Numa noite

«Estava muito frio e o ar imóvel. O sol tinha-se posto há poucos minutos, afundando obliquamente por detrás de um horizonte que a límpida atmosfera fazia parecer próximo, e tinha deixado atrás de si uma esteira luminosa verde -amarela que se estendia quase até ao zénite: do lado do oriente, ao contrário, o céu estava opaco, violáceo, ofuscado por cúmulos plúmbeos que pareciam pesar sobre o terreno gelado como bolas esvaziadas. O ar estava seco ou cheirava a gelo.
Em todo o planalto não se viam marcas humanas, feita excepção para os carris, que se estendiam, rectilíneos, a perder de vista, e pareciam convergir no ponto em que o sol tinha acabado de desaparecer; do lado oposto perdiam-se nas últimas ramificações do bosque. O terreno era ligeiramente ondulado, e marcado por pequenos carvalhos e faias que o vento dominante tinha inclinado para sul, ou mesmo, em alguns casos, vergado até ao chão; mas era um dia de bonança. Afloravam no solo rochas calcárias consumidas pela chuva e incrustadas de conchas fósseis: ásperas e brancas, pareciam ossos de animais sepultados. Das brechas sobressaíam ramos carbonizados num incêndio recente: não havia erva, só manchas amarelas e avermelhadas de líquenes colados à pedra.
Sentiu-se o estrépito antes que o comboio fosse visível: no silêncio do planalto, o som transmitia-se através da rocha e do gelo como um trovão subterrâneo. O comboio era rápido, e logo percebeu-se que era composto por apenas três carruagens de mercadorias, para além do motor. Quando se aproximou, ouviu-se o rumor agudo dos motores diesel em aceleração, juntamente com o assobio do ar lacerado pelo ímpeto da corrida. O comboio ultrapassou num relâmpago o ponto de observação, o que fez com que o zumbido e o assobio baixassem de tom, e investiu contra as bétulas e as faias esparsas à margem do bosque. Aqui os carris estavam cobertos por uma densa camada de folhas secas, frágeis e escuras: a onda de ar remexido atingiu-as antes que o comboio lhes tocasse, e levantou-as numa nuvem desarrumada, mais alta do que as árvores mais altas, rodopiando como um enxame de abelhas, que acompanhava o comboio na sua corrida e o tornava visível ao longe. As folhas eram ligeiras mas a sua massa era grande: apesar do seu ímpeto, o comboio foi obrigado a abrandar.
À frente da locomotiva foi-se acumulando um monte informe de folhas, que a própria locomotiva fendia em dois como a proa de um navio; uma parte acabava triturada entre os carris e as rodas, aumentando o esforço da locomotiva, que viu a sua velocidade diminuir mais ainda. Simultaneamente, o atrito entre o comboio e as folhas, as acumuladas e as que revoavam pelos ares à sua volta, provocou uma electrificação do ar, do comboio e das próprias folhas. Do comboio para o chão partiam longos clarões roxos, desenhando no fundo escuro da floresta um emaranhado mutável de luminosas linhas quebradas. O ar carregou -se de ozono e do cheiro acre do papel queimado.
O amontoado de folhas à frente da locomotiva fez-se cada vez mais volumoso e a aderência das rodas aos carris foi ficando cada vez mais fraca, até que o comboio parou, com os motores a funcionarem ainda à máxima velocidade. As rodas, que giravam no vazio, começaram a arder, e fez-se vagamente luminoso também o troço de linha que ficava por baixo de cada uma delas; destes pontos incandescentes saíram ondas de fogo que se alargaram em círculos sobre as folhas que jaziam, e que se apagaram a poucos metros. Ouviu-se um clique, os motores pararam, e o silêncio voltou a dominar. Na janela da locomotiva apareceu o rosto do maquinista, largo e pálido: estava imóvel e olhava fixamente para o vazio. As folhas entretanto caíram. Durante muito tempo não aconteceu nada, só se ouvia o leve rumor das folhas acumuladas à frente da locomotiva, que readquiriam a posição de repouso: o monte aumentava levemente, como uma massa durante a fermentação.»


O último Natal de guerra, de Primo Levi
*Tradução de Clara Rowland