sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O Livro Aberto: Leituras da Bíblia, de Frederico Lourenço

Papos de anjo

«Uma das razões pelas quais acreditar em Deus “dá luta” é o facto de Ele nos estar tão distante. O Antigo Testamento procura várias vezes criar uma ponte entre a esfera humana e a divina, descrevendo a interacção de mensageiros (ἄγγελοι, “ângelos” = anjos) de Deus com seres humanos. No primeiro livro da Bíblia, estes anjos até se sentam à mesa com homens e comem manjares feitos por mãos humanas (coisa que, em livros mais tardios, os anjos se recusarão a fazer). Sara, mulher de Abraão, merece ser lembrada pelos seus dotes culinários, pois o texto bíblico não regista que os três anjos do Senhor tenham desdenhado os bolinhos por ela confeccionados (“papos de anjo”, quem sabe? cf. Génesis 18: 6). Mais tarde na história bíblica, Gedeão oferece uns bolinhos ao anjo do Senhor no livro de Juízes (6: 20), mas o anjo, em vez de os degustar, pega-lhes fogo e desaparece — o que leva Gedeão a exclamar: “eu vi a face do anjo do Senhor!”
A excepcionalidade de os anjos terem aceitado comer à mesa de Abraão é sublinhada no livro de Tobite, quando o anjo Rafael explica que, durante todo o tempo que passou em companhia humana, apenas fingiu comer (como fazem tantas pessoas que sofrem de perturbações alimentares): “todos os dias que eu estava na vossa presença”, diz o anjo, “eu nada comia nem bebia na realidade, apenas vos parecia que o fazia” (Tobite 12: 19).
Decerto consciente, graças ao seu estudo das Escrituras, que não vale a pena oferecer bolos a um anjo, o velho sacerdote Zacarias nem se lembra de tal coisa quando lhe aparece o anjo Gabriel no início do evangelho de Lucas. E Maria, perante as palavras incríveis que Gabriel lhe transmite no mesmo evangelho, não está compreensivelmente com cabeça para pensar em lhe oferecer bolos. No final da Bíblia, é o autor do livro de Apocalipse que recebe algo para comer das mãos de um anjo: um rolo de papiro, de sabor inicialmente doce, mas depois desagradavelmente amargo (Apocalipse 10:10). Que pena o anjo não se ter lembrado da velha receita dos bolinhos de Sara, certamente mais saborosos.
Bom, mas seria errado dar a entender que, na Bíblia, os encontros com anjos giram em torno de doçaria. Um encontro bem difícil, que sublinha a asserção acima proposta de que acreditar em Deus “dá luta”, é narrado no livro de Génesis, quando Jacob passa a noite junto do rio Jaboc a lutar com um ser misterioso, primeiro referido como “homem” (ἄνθρωπος) na versão grega da Bíblia (Génesis 32:25) — ser esse que depois se nos afigura um anjo e, finalmente, é identificado pelo próprio Jacob como sendo nada mais nada menos que Deus em pessoa. Ou, pelo menos, é essa a conclusão a que chegam os leitores da Bíblia em grego (εἶδον γὰρ Θεὸν πρόσωπον πρὸςπρόσωπον) e em latim (vidi Dominum facie ad faciem). A tradução da Bíblia dos Capuchinhos põe Jacob a dizer “vi um ser divino, face a face”, o que não arreda a possibilidade de se tratar de um anjo. O resultado desta luta com Deus (ou com o Seu anjo) é que Jacob foi ferido no nervo ciático da coxa e ficou paralisado (Génesis 32: 33). Da luta com o Divino ninguém sai incólume.
Ou será que estamos a sobre-interpretar? No seu comentário a esta secção do livro de Génesis, Claus Westermann opinou que a luta de Jacob com Deus corresponde a uma re-elaboração da narrativa original: nesse estrato mais antigo do texto, Jacob não lutava com Deus, mas sim com um demónio (cf. p. 367 da tradução inglesa do comentário de Westermann). Essa possibilidade faz-nos pensar em seres como diabos e vampiros (ou as Willis no bailado Giselle) que têm de desaparecer ao raiar do dia: talvez por isso só quando nasce o sol é que acaba a luta de Jacob com o ser misterioso que lhe dá cabo do nervo ciático. Segundo Westermann, os redactores quem deram a forma final ao livro de Génesis não gostaram da ideia da luta com um demónio independente de Jeová e por isso deram ao texto a forma conhecida. “All the profound theological consequences drawn from Jacob’s supposed encounter with God have no basis...” (Westermann, p. 519).
A leitura de Westermann deste episódio da Bíblia está nos antípodas de outras, que tentam fazer sentido da luta com Deus (não esquecer aqui as congeminações algo inverosímeis de Roland Barthes, num texto incluído no livro Analyse structurale et exégèse biblique de 1971). Mas não é muito mais agradável responsabilizarmos um qualquer diabo pela lesão infligida ao nervo ciático de Jacob? Por que razão Deus ou o Seu anjo se lembrariam de uma tal crueldade? É certo que, no livro de Génesis, os anjos ainda comem comida oferecida por humanos. Teria sido possível adoçar a boca do anjo, antes que ele atacasse o nervo ciático? Talvez Jacob devesse ter pensado nisso e oferecido ao “ser divino” um dos bolinhos da sua avó, Sara.»


O Livro Aberto: Leituras da Bíblia, de Frederico Lourenço

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