segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Grécia Revisitada, de Frederico Lourenço



«O alcance universal, a profundidade filosófica e a sofisticação artística da sua obra fizeram naturalmente de Platão um dos autores mais lidos e mais estudados de sempre. A exegese dos diálogos platónicos começou já na própria Antiguidade Clássica (o primeiro estudioso da obra platónica foi Aristóteles) e tem continuado até aos nossos dias, produzindo verdadeiras montanhas de bibliografia em línguas que vão desde o inglês e alemão (os idiomas tradicionais desde o século XIX para a hermenêutica platónica) até ao polaco e japonês. Sob certo ponto de vista, poderá parecer improvável que haja mais alguma coisa a dizer sobre Platão; por outro lado, é facto que os repertórios bibliográficos como "L'Année Philologique" precisam de cada vez mais páginas para registar tudo o que, em cada ano, se vai escrevendo sobre o filósofo.
Pois certo é que as características da obra platónica (enunciadas no parágrafo anterior) autorizam a afirmação de que, quando já não houver nada a dizer acerca de Platão, será essa a altura em que o perfil específico da nossa cultura ocidental deixou de existir, para dar lugar a uma nova cultura, divorciada das humanidades, que não se configura especialmente aliciante. É que imaginar uma cultura na qual as concepções platónicas relativas ao saber, à alma, à morte, à política (na acepção etimológica do termo), à arte e ao amor já não têm qualquer relevância directa ou indirecta é entrar no foro da ficção científica. Pelo menos, por enquanto, Platão ainda tem muito para nos ensinar acerca de nós mesmos.»

Grécia Revisitada, de Frederico Lourenço

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