quinta-feira, 29 de março de 2012

E agora


E agora enquanto ledes estes poemas
- vós cujos olhos e mãos eu amo
- vós cujos olhos e boca eu amo
- vós cujas palavras e mentes eu amo -
Não penseis que estava a tentar defender uma causa
Ou construir um cenário:
Procurei escutar
A voz pública do nosso tempo
Procurei sondar o nosso espaço público
O melhor que pude
 - procurei lembrar-me dos pormenores e
Ser-lhes fiel, registar
Exactamente como o ar se movia
E onde estavam os ponteiros do relógio
E quem tinha a seu cargo as definições
E quem se limitava a acatá-las
Quando o nome da compaixão
Foi mudado para o nome da culpa
Quando sentir com um humano estranho
Foi declarado obsoleto.

Adrienne Rich (16 de Maio de 1929 – 27 de Março de 2012)
 

quinta-feira, 15 de março de 2012

A história

                                             Cindy Sherman (1971)

Ele não saía de trás da janela. Ele era eu. A rapariga devia estar a chegar. A rapariga… Por vezes, parecia uma menina, por vezes, uma mulher. Outras vezes… Que sei eu? Deixava-me as calças apertadas, até molhadas. Quando ouvia as suas gargalhadas ou os seus suspiros, ou mesmo frases banais que ela trocava com os outros clientes, meus vizinhos com os quais eu nunca falara, hoje está mais fresquinho do que ontem, o sol não aquece, choveu de noite, por mim, que chova tudo, mas de noite, a chuva entristece-me, e parecia alegre a falar da sua tristeza, até sorria, sim, até sorria, deus meu, e eu rezava ao sol para que aparecesse, que heresia… Quando a ouvia, fugia da janela e ia para o quarto aliviar-me. E quando ela não vinha, pior ainda. Recordava-lhe as pernas compridas, aquele ar de gazela amedrontada, de leoa esfomeada, de criança de dedo ou caneta na boca, chupando-os pensativa, concentrada nalguma coisa que só ela via ou pressentia. Concentrasse-se ela assim no meu corpo e eu estaria bem tramado. Porque iria querer mais. Eu. E mais. E mais. E ela tinha cara, que digo, cara, como se se lesse nos seus jeitos e trejeitos, nas suas expressões tão variáveis quanto imprevisíveis, nos seus gestos ora bruscos ora pausados, palavras subitamente interrompidas por risadas algo despropositadas, mas contagiosas, quanto contagiosas, tão contrastantes com a sua fragilidade, pelo menos delicadeza. Que digo eu? Ela tinha cara de quem não perde muito tempo com uma só coisa, ou procura, e descobre, em cada uma, outra à qual se dedicar logo de seguida com o mesmo entusiasmo, com o mesmo fervor. E assim sucessivamente. E, portanto, eu estaria desde logo condenado a ser trocado, traído, substituído. Era sem dúvida uma capitu encartada. Nunca me seria fiel. Era-se fiel a si própria desde criança, dir-se-ia. Se ao menos eu a tivesse conhecido criança… Devia ser adorável. Dizia-se que tinha sofrido, sofreria ainda, de um síndrome, de uma variante, uma falta de, uma carência, algo a menos ou a mais. A mim parecia-me perfeita, mais do que perfeita. Demasiado perfeita para mim. A mim, faltava-me ela. A ela, talvez tudo, talvez nada, mas nunca apenas alguém ou alguma coisa. De entre todos os outros, quantos poderiam gabar-se disso? Havia defeito, certamente, mas a tal ponto que a própria perfeição era superada. Quero dizer, a própria imperfeição reinava doravante incontestável.
Pois bem, abordei-a um dia sob um pretexto qualquer, bastante pateta, enfim, foi o que me ocorreu, planeara outro, entretanto claro que me esqueceu, ocorreu-me outro parecido, mas que surtiu o efeito pretendido. Ela sorriu-me como quem diz, meu aldrabão, já te topei, queres jogar comigo, alinho até ver, espero que disponhas de vários trunfos, porque eu não preciso disso. Trocámos algumas frases, e eu a pensar, está a correr bem, nem quero acreditar, está a correr melhor do que eu antecipara, graças a deus, está bem encaminhado, para onde já não me importa, seja o que ele quiser, ele ou ela, tanto faz, o pior já passou. No entanto, eis senão quando ela declarou, num tom que não admitia réplica: vou contar-lhe uma história. E eu, ah sim, balbuciando, ah sim, pensando, valha-me deus, mas nem vê-lo, valessem-me então os santinhos, todos aqueles de que me lembrei, tudo num piscar de olhos, e, confesso-o aqui, até invoquei o próprio diabo, eu, um católico assumido e praticante. Pois quanto à minha razão de homem maduro, há muito me abandonara. Ah sim, ah sim, diga então, ou conte, conte então, ou diga. E ela começou, com os olhos pousados nos meus como se percorressem palmo a palmo o meu corpo todo. Como se os seus olhos fossem providos de mãos, de narinas, de… Sim, até de papilas gustativas. Como se ela, falando embora, desarticulasse astuciosamente o esqueleto da língua portuguesa até reduzi-lo a pó.
Eis então narrada o mais fielmente possível a história que aquela marotinha me contou. Não era propriamente uma história de pôr os cabelos em pé, isso posso desde logo garanti-lo. Se é que me faço entender. E, quanto ao mais, pois bem, quanto ao mais, avaliai-o vós.

Bénédicte Houart      

terça-feira, 13 de março de 2012

Adalberto Silva Silva

                                                          
A peça Adalberto Silva Silva, escrita por Jacinto Lucas Pires para o Ivo Alexandre, estreou em Fevereiro no Teatro Académico Gil Vicente em Coimbra.

quarta-feira, 7 de março de 2012

O estatistiquês e a cobaia amestrada




Vivemos dentro de uma nuvem de números, tão diversos e em catadupa atirados pelas janelas informativas sobre os corpos indefesos dos cidadãos. Nada melhor que um número para lançar ondas de rigor sobre a realidade – os números não mentem, são omniscientes, mesmo que percentagem, parte de um todo, absolutamente parciais. A oportunidade da sua revelação e a sua importância de expressão numérica dependem apenas da conjuntura, do que a mentira organizada em poder pode utilizar para impor a política única. Os números, o seu rigor, é a desgraça anunciada de engolirmos os sapos como a sopa possível, a nossa desejada, inculcada, sopa dos pobres, a querida austeridade.
Mas a realidade nomeada pelos números existe? Ou a da crise é fabricada como a das vacas gordas foi? Gordas para quem? Crise para quantos e quais? Não se pergunta? Ou há virtualizações, paisagens de apocalipse, que os números pintam com terror e uma visão que se impõe porque martelada pela tropa dos economistas de serviço e jornalistas afins, repetida como única alternativa pelo mesmo e único sistema de produção da visão única? Quando quase todos cantam a austeridade em coro e quase todos argumentam o mesmo, os mesmos números infalíveis, em que espaço público vivemos? Que espaço de liberdade fica entre todos e quase todos? Não será o residual a fazer o papel do que deveria ser plural? No estatistiquês como a linguagem única, a dimensão crítica dos outros discursos sucumbiu, a verdade é um facto de seminários e debates exóticos, marginalizados uns, arcaicamente académicos outros, mesmo os mais pós modernos e tecnologicamente sustentados, ineficazes na acção real. A verdade não é útil o verbo, as palavras são retórica, os números indiscutíveis?
É extraordinário assistir ao consenso criado depois de conhecermos a falibilidade da opinião económica e o crime que perdura, originado pela especulação contra a economia real, na financiarização da economia, na história dos produtos tóxicos associada à falência de grandes instituições bancárias, grandes no negócio fraudulento das taxas fictícias e no roubo do dinheiro dos depositantes e accionistas, utilizado de modos ilegais numa vertente de pura economia de casino, lamentavelmente possível pela inexistência de mecanismos de controle mundializados e coordenados por regras de democracia económica e interesse público planetário.
A máquina da conformação mental é perfeita: por um lado esse discurso que passa por ser sério dos números – sempre a falhar e a ressurgir com novidades absolutas – por outro lado, o entretenimento. Relevância absoluta do número, verdade última, não somos como os gregos, esse discurso nojento, somos protagonistas pela positiva de uma austeridade salvífica e por outro a produção interminável da insignificância alimentada de tudo e em todos os terrenos, o sangue iraquiano, a Duquesa de Alba, a novela do real de mão dada com a política espectáculo.
Estamos desarmados perante o gang dos especuladores e suas armas? A táctica burra do aluno obediente leva onde? O bom comportamento faz eco na moral dos mercados? Mas estes têm ética ou são violência cega, guerra igual a guerra.
Esmifrar o povo, desesperá-lo ao ponto da desistência de melhores dias – o desígnio já nem é a Europa, é continuarmos Europa de segunda ou terceira, cavar a condição periférica e sermos do centro os criados alegres. Nunca fomos Europa de índices europeus, na saúde, educação, na produção qualificada com incidência determinante na capacidade competitiva, na generalização do acesso à criação e fruição cultural e artística, na literacia informativa e cultural e outras, apenas o fomos na gesta dos descobrimentos, na vanguarda científica náutica e na ciência, mesmo hoje e certamente na criação literária, Camões e Pessoa, na língua universal de base latina.
Que relação têm os portugueses com os números? Serão atirados e geridos diariamente pelos grandes meios mediáticos na base do conhecimento estudado da nossa aversão à matemática, trauma escolar anual e recorrente? O que é facto é que o governo está no caminho do êxito. Há mais desemprego, há menos saúde, há menos transportes públicos, há mais famintos, a qualidade educativa piora, os serviços públicos pioram, a gasolina aumenta, as hortas regressam por razões pouco ou nada verdes, os turistas são menos, a recessão é anunciada como boa e o fim almejado é claro: a luz que se vê no fundo do túnel é o regresso ao Portugal de Salazar sem as reservas, sem a independência e humilhantemente governados pelos que nos subalternizam. Somos, tal e qual como os gregos, um povo humilhado e ofendido. Não faz sentido ser parte da União quando a União usa o elo fraco como o seu saco de boxe, a sua cobaia amestrada.


Fernando Mora Ramos, encenador e actor, frequentou o Conservatório Nacional e fez uma Maitrise  em Estudos Teatrais em Paris III, Censier/Sorbonne Nouvelle. Como bolseiro da Fundação Gulbenkian estagiou com Giorgio Strehler no Piccolo Teatro de Milão. Tendo trabalhado em inúmeras companhias, encenou textos de Beckett, Tabori, Bernhard, Pirandello, Barker, Danan, Sarrazac e de muitos contemporâneos além dos clássicos, Vicente, Molière, Marivaux e Goldoni. Tem escrito sobre teatro e política cultural no jornal Público. Actualmente dirige o Teatro da Rainha, que fundou em 1985. Como ensaísta e tradutor, colaborou na edição de Quatro Ensaios À Boca de Cena (Cotovia, 2009) e Peças Escolhidas, vol. III, de Carlo Goldoni (Cotovia, 2011)



sexta-feira, 2 de março de 2012

Infância: instantâneos

                                                                      Josef Sudek (1924)


Passarinhos havia-os em abundância, mortos alguns, reduzidos a ossos e cartilagens. Outros, outros ainda não. E gatos, muitos também, miando desalmadamente, brigando por vezes, aparecendo feridos, arranhados, mas felizes. Ah como é altiva a felicidade dos animais. Mimi, minette, os nomes não variavam muito, eram nossos, os gatos, mas só um pouco, pertenciam ao jardim que era o seu mundo, connosco partilhado. Digo passarinhos porque para a criança que eu era a palavra pássaro ainda não fazia sentido. Petits oiseaux, tinha-me ensinado o meu avô, deitando-lhes migalhas no parapeito da janela da sala, frente à qual se erguia um cedro onde eles se recolhiam e aninhavam, era uma cantoria desenfreada. À direita da janela, na parede, um barómetro, uma fotografia dos reis da bélgica, baudouin e fabiola. Au pas, au pas, au pas, sur les genoux de bon-papa. Au trot, au trot, au trot. Au galop, au galop. E as exclamações das crianças competiam com o chilrear dos pássaros.
Passava-se tudo isto num jardim de múltiplos relvados, distinguíamo-los pelo tamanho, grande prairie, petite prairie, cercados por árvores e arbustos, onde quantas vezes me deitei de barriga para o ar, de olhos postos, não, qual olhos, não eram apenas olhos, ou sim, mas era o meu corpo todo que olhava, pois as crianças, sabe-se, sabêmo-lo-emos nós ainda?, têm olhos espalhados pela pele, tantos quanto os poros. Mais tarde, sim, haveria tal corpo de ser dividido em partes, aqui o estômago, ali os rins, a coluna, e etc. No e etc. sobrava talvez ainda esse primeiro corpo, cirurgicamente atento a tudo o que, rodeando-o, o penetrava. O que é que te dói, onde é que te dói, e já não podíamos dizer que tudo, que tudo doía como tudo alegrava, já parecia despropositado. Era preciso dividir, separar, analisar, decompor. Descompor. Em breve, seríamos adultos, não desejávamos outra coisa, não sabíamos ainda o quanto perderíamos, o quão pouco ganharíamos, olhos como setas, por que usais os vossos olhos como setas, pergunta blake. Por que andais armados até aos dentes? As palavras que usais, por que cortam, trituram, moem, despedaçam? O que vos aflige, o que receais?
E o baloiço, querem que vos conte? Horas por lá me entretive, sozinha, mas inteira, cada vez mais alto, até saltar em pleno voo e aterrar num monte de areia, os pés bem assentes, o coração aos saltos dentro do meu pequeno peito no qual cabiam já coisas tão grandes. Dessa imensidão guardo a sensação. A sensação de que o mundo era grandioso e aguardava por mim para torná-lo mais vasto ainda. Se não maior, pelo menos mais profundo. Mal eu sabia que essa profundidade, como dizer, essa intensidade, sofrida e amada, não a recuperaria, a não ser em certos dias que esqueceria por tão sentidos. Mais pressentidos do que sentidos. Pressentidos depois de vividos, se isso é possível. E é-o, não posso garanti-lo, mas posso escrevê-lo.
Um dia caminhávamos por entre as pedras escorregadias do leito de um ribeiro que o sol escaldante tinha secado. Nas suas margens, chorões e figueiras. Chorões que com certeza armazenavam as lágrimas para mais tarde, assim contribuindo para aumentar o caudal do ribeiro. Ou seriam lágrimas os seus ramos pendentes? Figueiras carregadas de figos maduros, alguns meio comidos pelos pássaros, porque entretanto já eram pássaros, já era portugal, outros ao nosso alcance, a caminho da nossa boca, pois os meus braços já tinham crescido e, no entanto, eram bem menos capazes do que antes porque agora braços apenas. Souberam-me outros figos tão bem como aqueles? Duvido, mas, de novo, não posso garanti-lo. Escrevo a dúvida, nem sequer a saudade, pois que sempre me inquietou mais a saudade do futuro, que continua a ser dúvida. E o futuro passou, passa ainda, são já tantos os anos que levo de futuro, e raramente correspondeu às minhas esperanças. Não posso retroceder, nem em pensamento, o que recordo agora vejo-o com estas lentes que são hoje os meus olhos. Lentes de aumentar, de diminuir, de desfocar sempre. Diz-se lentes de contacto, não é verdade? Pois bem. Eu digo lentes de afastamento. Nenhum país tenho como pátria. Nenhuma casa como morada. Nenhum quintal como esse jardim onde, por entre as filas de roupa estendida, lençóis e toalhas frequentemente manchados e remendados, jogávamos às escondidas. Esses lençóis onde outros envelheceriam, urinariam e suariam até morrer. Por entre as histórias quase inverosímeis de gente morta, em todo o caso sobrevivente, sobrevivendo à própria sobrevivência, crescíamos inventando as nossas próprias histórias, mais verdadeiras do que verosímeis, que nos importava isso de resto? A verosimilhança é uma ficção para descrentes. Uma peça de teatro que começava com os primeiros acordes da nona sinfonia de beethoven, paixão e morte adolescentes, mil vezes ensaiada no pátio coberto ao lado da capela onde as missas ortodoxas eram rezadas. Os mortos, velados. Estrangeiros tinham sido, arremessados de uma fronteira para outra, e assim sucessivamente, europa fora, vergonha nossa, deus reconhecê-los-ia porventura como seus já que os homens não. Vassouras e esfregonas transformadas em espadas e floretes. O odor a detergente e a lixívia, omnipresente mais do que deus. E a gravilha do jardim quantas vezes cravada nos meus joelhos ensanguentados. Os meus dedos picados pelos espinhos das rosas que o meu avô podava. As pernas ardendo nas urtigas dos caminhos do bosque a poucos quilómetros do jardim. Os pinheiros contra os quais me despenhava da minha bicicleta de duas rodas. Doía? Pois, sim, doía. Quem me dera que doesse assim de novo. Que de novo os meus olhos se arregalassem por coisa nenhuma, tão nada, tão pouca, tão tudo. E acreditai-me se lhes disser que a minha infância me sussurra por vezes palavras desconexas que nem que escrevesse pelo resto da minha vida seria capaz de reproduzir aqui. E acreditai-me de novo se lhes disser que ainda bem. Não quero, não irei, ainda que pudesse, não iria partilhá-las. Porque de tudo o mais que aparentemente ganhei em todos os anos entretanto decorridos, esses instantes são ainda aquilo que de mais precioso possuo. Mesmo se eu não estava lá, entregue a actividades tão absorventes que de mim própria me esquecia, ou porque nem sequer tinha ainda consciência de mim, um ser autónomo, é certo, mas limitado, e separado, para sempre separado dos outros por uma cerca eléctrica, tão invisível quanto intransponível, como aquelas que impediam os cavalos e as vacas de fugirem, e onde eu intrepidamente me comprazia em sentir a corrente arrepiando-me as mãos como se atravessando-me o corpo de lés a lés até à terra estrumada. De modo que entendereis, julgo, por que razão o odor a estrume é um dos meus perfumes predilectos. Entendereis também, julgo ainda, que por agora termine do seguinte modo: e etc. E etc. E etc.

Bénédicte Houart