quarta-feira, 7 de março de 2012

O estatistiquês e a cobaia amestrada




Vivemos dentro de uma nuvem de números, tão diversos e em catadupa atirados pelas janelas informativas sobre os corpos indefesos dos cidadãos. Nada melhor que um número para lançar ondas de rigor sobre a realidade – os números não mentem, são omniscientes, mesmo que percentagem, parte de um todo, absolutamente parciais. A oportunidade da sua revelação e a sua importância de expressão numérica dependem apenas da conjuntura, do que a mentira organizada em poder pode utilizar para impor a política única. Os números, o seu rigor, é a desgraça anunciada de engolirmos os sapos como a sopa possível, a nossa desejada, inculcada, sopa dos pobres, a querida austeridade.
Mas a realidade nomeada pelos números existe? Ou a da crise é fabricada como a das vacas gordas foi? Gordas para quem? Crise para quantos e quais? Não se pergunta? Ou há virtualizações, paisagens de apocalipse, que os números pintam com terror e uma visão que se impõe porque martelada pela tropa dos economistas de serviço e jornalistas afins, repetida como única alternativa pelo mesmo e único sistema de produção da visão única? Quando quase todos cantam a austeridade em coro e quase todos argumentam o mesmo, os mesmos números infalíveis, em que espaço público vivemos? Que espaço de liberdade fica entre todos e quase todos? Não será o residual a fazer o papel do que deveria ser plural? No estatistiquês como a linguagem única, a dimensão crítica dos outros discursos sucumbiu, a verdade é um facto de seminários e debates exóticos, marginalizados uns, arcaicamente académicos outros, mesmo os mais pós modernos e tecnologicamente sustentados, ineficazes na acção real. A verdade não é útil o verbo, as palavras são retórica, os números indiscutíveis?
É extraordinário assistir ao consenso criado depois de conhecermos a falibilidade da opinião económica e o crime que perdura, originado pela especulação contra a economia real, na financiarização da economia, na história dos produtos tóxicos associada à falência de grandes instituições bancárias, grandes no negócio fraudulento das taxas fictícias e no roubo do dinheiro dos depositantes e accionistas, utilizado de modos ilegais numa vertente de pura economia de casino, lamentavelmente possível pela inexistência de mecanismos de controle mundializados e coordenados por regras de democracia económica e interesse público planetário.
A máquina da conformação mental é perfeita: por um lado esse discurso que passa por ser sério dos números – sempre a falhar e a ressurgir com novidades absolutas – por outro lado, o entretenimento. Relevância absoluta do número, verdade última, não somos como os gregos, esse discurso nojento, somos protagonistas pela positiva de uma austeridade salvífica e por outro a produção interminável da insignificância alimentada de tudo e em todos os terrenos, o sangue iraquiano, a Duquesa de Alba, a novela do real de mão dada com a política espectáculo.
Estamos desarmados perante o gang dos especuladores e suas armas? A táctica burra do aluno obediente leva onde? O bom comportamento faz eco na moral dos mercados? Mas estes têm ética ou são violência cega, guerra igual a guerra.
Esmifrar o povo, desesperá-lo ao ponto da desistência de melhores dias – o desígnio já nem é a Europa, é continuarmos Europa de segunda ou terceira, cavar a condição periférica e sermos do centro os criados alegres. Nunca fomos Europa de índices europeus, na saúde, educação, na produção qualificada com incidência determinante na capacidade competitiva, na generalização do acesso à criação e fruição cultural e artística, na literacia informativa e cultural e outras, apenas o fomos na gesta dos descobrimentos, na vanguarda científica náutica e na ciência, mesmo hoje e certamente na criação literária, Camões e Pessoa, na língua universal de base latina.
Que relação têm os portugueses com os números? Serão atirados e geridos diariamente pelos grandes meios mediáticos na base do conhecimento estudado da nossa aversão à matemática, trauma escolar anual e recorrente? O que é facto é que o governo está no caminho do êxito. Há mais desemprego, há menos saúde, há menos transportes públicos, há mais famintos, a qualidade educativa piora, os serviços públicos pioram, a gasolina aumenta, as hortas regressam por razões pouco ou nada verdes, os turistas são menos, a recessão é anunciada como boa e o fim almejado é claro: a luz que se vê no fundo do túnel é o regresso ao Portugal de Salazar sem as reservas, sem a independência e humilhantemente governados pelos que nos subalternizam. Somos, tal e qual como os gregos, um povo humilhado e ofendido. Não faz sentido ser parte da União quando a União usa o elo fraco como o seu saco de boxe, a sua cobaia amestrada.


Fernando Mora Ramos, encenador e actor, frequentou o Conservatório Nacional e fez uma Maitrise  em Estudos Teatrais em Paris III, Censier/Sorbonne Nouvelle. Como bolseiro da Fundação Gulbenkian estagiou com Giorgio Strehler no Piccolo Teatro de Milão. Tendo trabalhado em inúmeras companhias, encenou textos de Beckett, Tabori, Bernhard, Pirandello, Barker, Danan, Sarrazac e de muitos contemporâneos além dos clássicos, Vicente, Molière, Marivaux e Goldoni. Tem escrito sobre teatro e política cultural no jornal Público. Actualmente dirige o Teatro da Rainha, que fundou em 1985. Como ensaísta e tradutor, colaborou na edição de Quatro Ensaios À Boca de Cena (Cotovia, 2009) e Peças Escolhidas, vol. III, de Carlo Goldoni (Cotovia, 2011)



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