sexta-feira, 2 de março de 2012

Infância: instantâneos

                                                                      Josef Sudek (1924)


Passarinhos havia-os em abundância, mortos alguns, reduzidos a ossos e cartilagens. Outros, outros ainda não. E gatos, muitos também, miando desalmadamente, brigando por vezes, aparecendo feridos, arranhados, mas felizes. Ah como é altiva a felicidade dos animais. Mimi, minette, os nomes não variavam muito, eram nossos, os gatos, mas só um pouco, pertenciam ao jardim que era o seu mundo, connosco partilhado. Digo passarinhos porque para a criança que eu era a palavra pássaro ainda não fazia sentido. Petits oiseaux, tinha-me ensinado o meu avô, deitando-lhes migalhas no parapeito da janela da sala, frente à qual se erguia um cedro onde eles se recolhiam e aninhavam, era uma cantoria desenfreada. À direita da janela, na parede, um barómetro, uma fotografia dos reis da bélgica, baudouin e fabiola. Au pas, au pas, au pas, sur les genoux de bon-papa. Au trot, au trot, au trot. Au galop, au galop. E as exclamações das crianças competiam com o chilrear dos pássaros.
Passava-se tudo isto num jardim de múltiplos relvados, distinguíamo-los pelo tamanho, grande prairie, petite prairie, cercados por árvores e arbustos, onde quantas vezes me deitei de barriga para o ar, de olhos postos, não, qual olhos, não eram apenas olhos, ou sim, mas era o meu corpo todo que olhava, pois as crianças, sabe-se, sabêmo-lo-emos nós ainda?, têm olhos espalhados pela pele, tantos quanto os poros. Mais tarde, sim, haveria tal corpo de ser dividido em partes, aqui o estômago, ali os rins, a coluna, e etc. No e etc. sobrava talvez ainda esse primeiro corpo, cirurgicamente atento a tudo o que, rodeando-o, o penetrava. O que é que te dói, onde é que te dói, e já não podíamos dizer que tudo, que tudo doía como tudo alegrava, já parecia despropositado. Era preciso dividir, separar, analisar, decompor. Descompor. Em breve, seríamos adultos, não desejávamos outra coisa, não sabíamos ainda o quanto perderíamos, o quão pouco ganharíamos, olhos como setas, por que usais os vossos olhos como setas, pergunta blake. Por que andais armados até aos dentes? As palavras que usais, por que cortam, trituram, moem, despedaçam? O que vos aflige, o que receais?
E o baloiço, querem que vos conte? Horas por lá me entretive, sozinha, mas inteira, cada vez mais alto, até saltar em pleno voo e aterrar num monte de areia, os pés bem assentes, o coração aos saltos dentro do meu pequeno peito no qual cabiam já coisas tão grandes. Dessa imensidão guardo a sensação. A sensação de que o mundo era grandioso e aguardava por mim para torná-lo mais vasto ainda. Se não maior, pelo menos mais profundo. Mal eu sabia que essa profundidade, como dizer, essa intensidade, sofrida e amada, não a recuperaria, a não ser em certos dias que esqueceria por tão sentidos. Mais pressentidos do que sentidos. Pressentidos depois de vividos, se isso é possível. E é-o, não posso garanti-lo, mas posso escrevê-lo.
Um dia caminhávamos por entre as pedras escorregadias do leito de um ribeiro que o sol escaldante tinha secado. Nas suas margens, chorões e figueiras. Chorões que com certeza armazenavam as lágrimas para mais tarde, assim contribuindo para aumentar o caudal do ribeiro. Ou seriam lágrimas os seus ramos pendentes? Figueiras carregadas de figos maduros, alguns meio comidos pelos pássaros, porque entretanto já eram pássaros, já era portugal, outros ao nosso alcance, a caminho da nossa boca, pois os meus braços já tinham crescido e, no entanto, eram bem menos capazes do que antes porque agora braços apenas. Souberam-me outros figos tão bem como aqueles? Duvido, mas, de novo, não posso garanti-lo. Escrevo a dúvida, nem sequer a saudade, pois que sempre me inquietou mais a saudade do futuro, que continua a ser dúvida. E o futuro passou, passa ainda, são já tantos os anos que levo de futuro, e raramente correspondeu às minhas esperanças. Não posso retroceder, nem em pensamento, o que recordo agora vejo-o com estas lentes que são hoje os meus olhos. Lentes de aumentar, de diminuir, de desfocar sempre. Diz-se lentes de contacto, não é verdade? Pois bem. Eu digo lentes de afastamento. Nenhum país tenho como pátria. Nenhuma casa como morada. Nenhum quintal como esse jardim onde, por entre as filas de roupa estendida, lençóis e toalhas frequentemente manchados e remendados, jogávamos às escondidas. Esses lençóis onde outros envelheceriam, urinariam e suariam até morrer. Por entre as histórias quase inverosímeis de gente morta, em todo o caso sobrevivente, sobrevivendo à própria sobrevivência, crescíamos inventando as nossas próprias histórias, mais verdadeiras do que verosímeis, que nos importava isso de resto? A verosimilhança é uma ficção para descrentes. Uma peça de teatro que começava com os primeiros acordes da nona sinfonia de beethoven, paixão e morte adolescentes, mil vezes ensaiada no pátio coberto ao lado da capela onde as missas ortodoxas eram rezadas. Os mortos, velados. Estrangeiros tinham sido, arremessados de uma fronteira para outra, e assim sucessivamente, europa fora, vergonha nossa, deus reconhecê-los-ia porventura como seus já que os homens não. Vassouras e esfregonas transformadas em espadas e floretes. O odor a detergente e a lixívia, omnipresente mais do que deus. E a gravilha do jardim quantas vezes cravada nos meus joelhos ensanguentados. Os meus dedos picados pelos espinhos das rosas que o meu avô podava. As pernas ardendo nas urtigas dos caminhos do bosque a poucos quilómetros do jardim. Os pinheiros contra os quais me despenhava da minha bicicleta de duas rodas. Doía? Pois, sim, doía. Quem me dera que doesse assim de novo. Que de novo os meus olhos se arregalassem por coisa nenhuma, tão nada, tão pouca, tão tudo. E acreditai-me se lhes disser que a minha infância me sussurra por vezes palavras desconexas que nem que escrevesse pelo resto da minha vida seria capaz de reproduzir aqui. E acreditai-me de novo se lhes disser que ainda bem. Não quero, não irei, ainda que pudesse, não iria partilhá-las. Porque de tudo o mais que aparentemente ganhei em todos os anos entretanto decorridos, esses instantes são ainda aquilo que de mais precioso possuo. Mesmo se eu não estava lá, entregue a actividades tão absorventes que de mim própria me esquecia, ou porque nem sequer tinha ainda consciência de mim, um ser autónomo, é certo, mas limitado, e separado, para sempre separado dos outros por uma cerca eléctrica, tão invisível quanto intransponível, como aquelas que impediam os cavalos e as vacas de fugirem, e onde eu intrepidamente me comprazia em sentir a corrente arrepiando-me as mãos como se atravessando-me o corpo de lés a lés até à terra estrumada. De modo que entendereis, julgo, por que razão o odor a estrume é um dos meus perfumes predilectos. Entendereis também, julgo ainda, que por agora termine do seguinte modo: e etc. E etc. E etc.

Bénédicte Houart      

Sem comentários:

Enviar um comentário