sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Vida: Variações II






A Cotovia vai publicar o novo livro de poesia de Bénédicte Houart, Vida: Variações II em Novembro.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Versos que lembram (5) – José Duro



                José Duro, de quem hoje ninguém fala nem sequer recorda o nome, não foi um poeta consensual. Alguns riram-se mesmo dos seus poemas. É o ónus, talvez, de ser demasiado ingénuo e autêntico, ao mesmo tempo que artificial e empolado.
                Outros porém respeitaram a obra deste epígono satânico e decadente, que bebeu em António Nobre (tísico como ele próprio) o gosto por cadaverosidades, em Guerra Junqueiro o vezo do sarcasmo, da grandiloquência e do sensacionalismo, e em Charles Baudelaire o engodo pelas ‘flores do mal’. Por algum motivo a obra chegou à décima-primeira edição.
                Falemos claro: os críticos mais severos nunca o levaram muito a sério. ‘Poeta menor’, catalogaram, e passaram adiante. Mas uma certa mocidade académica, generosa e excessiva como ele, arvorou-o em poeta obrigatório. Isto nos finais do séc. XIX, princípios do XX (José Duro faleceu em 1899). Digo isto, porque havia lá em casa o Fel, sua segunda e principal colectânea de poemas: tinha sido comprado em Coimbra, nos seus tempos de estudante, por meu Pai, que foi sensível, como em geral a rapaziada menos exigente dos seus tempos universitários, aos quase sacrílegos arrebatamentos de José Duro, como o era aos de Guerra Junqueiro.
                De forma que um dia descobri o livro, que andava lá por casa mais ou menos oculto (et pour cause), e li-o. Fez-me muita impressão aos 15 anos. Até aí, de poesia, eu tinha lido o quê? Os textos bem-comportados das selectas escolares do Estado Novo, onde José Duro não tinha entrada e onde pontificavam Almeida Garrett, João de Deus e as intragáveis cogitações de Alexandre Herculano, uns patriotismos de Afonso Lopes Vieira e uns clichés popularuchos de António Correia de Oliveira. Agora o caso mudava de figura. Pela primeira vez lia coisas sobre mulheres em que estas não eram fadas do lar, nem pálidas castelãs, nem robustas camponesas namoradeiras ― e compreendia que a poesia não era só uma arca de bons sentimentos, de bons costumes e de boas intenções.
E impressionou-me tanto descobri-lo, que ainda hoje me lembram alguns versos deste poeta maldito, nomeadamente os alexandrinos da quadra final do poema “Bacantes”, que então aprendi de cor e ainda não esqueci:

                               E, ó prostitutas, sob os vossos espartilhos
                                Descubro as seduções de que os sentidos nutro…
                               E odiando a vossa carne, adoro o vosso útero,
                               Porque ele, sendo podre, é raro gerar filhos!


A.M. Pires Cabral

O livro de poesia mais recente de A.M. Pires Cabral, Cobra-d´Água, publicado pela Cotovia, vai aparecer nas livrarias em Novembro.


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

P.S

                                                                                                         © Gijs van Lith

Leitor,

Eclipsam-se

teus difusos pensamentos,

eclipsam-se

as palmeiras,

os retratos,

os ternos animais,

as casas, as mãos.



Leitor,

de mágoa e vento

são tuas mãos.



Condenado ao oco,

Breve, estás.



Luís Quintais


Post scriptum de “Poesia revisitada” (1995-2010), antologia da obra da Luís Quintais, publicada recentemente no Brasil pela editora 7Letras.







terça-feira, 18 de outubro de 2011

Intercidades nº 830, carruagem 23, classe turística


Se lhe contasse a minha vida, dirigiu-se ele para mim, quase sussurrando, embora olhando-me sem rodeios. Se lhe contasse a minha vida, repetiu, e humedeceu os lábios, passou os dedos pelo cabelo ralo, pestanejou. A voz chata, neutra, sem inflexões, as palavras redondas, as sílabas bem destacadas, apesar do sussurro. A sua vida não me interessava nada, sabe, nada, nem a dos outros, sabem, nada, de resto, mesmo a minha, com franqueza, só me interessava porque não lhe podia fugir, não porque fosse minha, quero dizer, não porque a sentisse minha, mas porque não tinha outra, ou só às vezes, às vezes conseguia escapar-lhe, precisamente como agora, agora cada dia, de há muitos anos para cá, menos ao fim de semana, quando tomava o comboio suburbano para regressar a casa. Hoje, não. Hoje tinha vindo num intercidades, estava exausto, e a paisagem que desfilava perante mim, ou do meu lado esquerdo, dava-me o pretexto de que eu necessitava para devanear, deixar-me embalar ao ritmo do andamento, o corpo afrouxar, fechar os olhos de vez em quando, imaginar que isto e aquilo, se isto se aquilo, e outras coisas que tais. Cavalos, vacas, ovelhas, pastagens, vinhas, milheirais, oliveiras, velhas fábricas, armazéns em ruínas, faias, pequenos regatos, o tejo de quando em quando, bancos de areia lá pelo meio, quem me dera estender-me num, e outro que não eu, ora ali ora acolá, talvez fosse na realidade um espantalho abanando ao vento, parecendo acenar-me do lado de fora, desaparecendo por instantes, voltando a aparecer pouco depois, despedindo-se de mim, troçando de mim, despedindo-me a mim e à vida na qual, como se numa cruz, eu me encontrava pregado, eu me tinha deixado pregar sem dar por isso, nem dores nem exclamações, nem súplicas nem lamentos, ninguém me tinha abandonado, antes fora, antes fosse, provavelmente eu próprio me tinha encarregado disso, dos pregos, do madeiro, da lança perfurando o peito, sobretudo do abandono, sim, sem dúvida, pelo menos do abandono. Ia sair em santarém, meia hora de viagem, pouco mais. De modo que lhe disse, então conte lá, pensando, daqui a nada chego, ele cala-se, eu calo-me, de resto nem preciso de falar, basta-me ouvir, entra a cem sai a duzentos, que importa, outro de mim a ouvir, outro de mim a desobstruir, a deletar, que importa, venha então essa história. Conte lá, homem. Conte. Enquanto ele prosseguia repetindo monotonamente, sem qualquer ênfase, se lhe contasse, se lhe contasse. E os lábios, mais uma vez, e o cabelo, mais outra vez. E as pestanas irrequietas. Pois, conte. Conte, então. A minha vida não vale um chavo. Como, disse eu, como. A minha vida não vale um chavo. Bom, disse eu, como quem diz, quero lá saber, que raio. Não há nada para contar, percebe, nada, nada. Bom, repeti, num tom hipocritamente conciliador, alguma coisa haverá, algum detalhe… Não, não está a perceber, não há detalhes nenhuns, só generalidades, só generalidades. Bom, disse eu, meio agastado, meio intrigado, isso toda a gente pode dizer, generalidades, mas com certeza algum detalhe que mereça a pena… Acha que sim, acha, pois ouça, ouça e comprove: aquilo que fui, fui-o; aquilo que não fui, fui-o também; mas não me pergunte o quê, nem o que não fui, muito menos o que fui, não saberia dizer-lho; devo ter nascido, suponho, visto que cá me encontro, mas não me recordo; hei-de morrer, suponho, visto que cá me encontro, mas também disso não me irei recordar, e, entre uma coisa e outra, cinquenta anos de nada vezes nada… Homem, não diga isso, então e todos os anos que ainda tem pela frente… Não, não, pela frente não, atrás, de trás para diante, de frente para trás, exactamente o mesmo, tanto faz começar pelo princípio como pelo fim, acabo sempre aqui, parei aqui, está a perceber, nem sei quando foi isso, mas estou parado, aqui e há quanto tempo, nem sei, movo-me mecanicamente sem na verdade sair do mesmo sítio… Agora só intrigado, eu, pensando vagamente, mais um maluco que me apareceu, que azar, e mesmo assim intrigado, há maluquices para todos os gostos, e, de resto, o que o fulano diz até é sensato, eu próprio… Ouça, homem, eu próprio poderia dizer o mesmo, generalidades como o senhor, nada de novo debaixo do sol, que nasce, se desloca, mais alto no verão, mais baixo no inverno, se põe, e, depois da noite, em que também nada há a registar, felizmente aliás, torna a nascer e… E, mesmo assim, se eu lhe contasse a minha vida, alguma coisa de especial, pelo menos para mim, se para si não sei, mas o senhor havia de ser capaz de fingir que sim, que diabo, nisso estamos todos bem treinados, sim, alguma coisa acabaria por descobrir… Pela primeira vez, vislumbrei alguma hesitação no seu rosto. Ficou calado alguns segundos, fixou o olhar na janela. Depois, abruptamente, pediu, não, nem pediu, ordenou, sim, mandou, pois bem, conte-me então o senhor a sua vida. Já me tramei, pensei, mas por que não, pensei também. Vá, obedece-lhe.

Evitei com cuidado as generalidades. Ative-me a certos pormenores, por mais insignificantes, omiti outros, ou voluntariamente ou por esquecimento. Ele ouvia-me com avidez, sorvia-me as palavras, embevecendo-se, embebendo-se, a boca entreaberta, nenhum comentário, nenhuma pergunta, uma intensa admiração, inclinado para mim, tocando-me quase, agarrando-me por vezes inconscientemente a manga do casaco, sacudindo-a como um miúdo, incentivando-me com o olhar, continue, continue, como se a minha vida fosse algo de extraordinário. Como se comparação nenhuma. Apesar de todas as parecenças com cada outra vida uma qualquer. E, no fim, porque o comboio entrava na estação de santarém, limitou-se a dizer: o senhor acabou de contar exactamente a história da minha vida, tal e qual, sem tirar nem pôr, ou quase nada, em todo o caso eu não seria capaz de melhor. Omitiu certos detalhes, é certo, mas, em contrapartida, referiu outros de que eu já nem me lembrava. Humedeci os lábios, passei os dedos pelo cabelo ralo, pestanejei várias vezes, a custo contendo as lágrimas que me afloravam aos olhos. Porque só então o reconheci: era ele que de pé por entre as vacas, as ovelhas, as pastagens, os milheirais, os armazéns em ruínas, e até, sim, até estendido num banco de areia no meio do rio, era ele que me acenava do lado de fora do comboio, não como se despedindo-se, o que eu julgara, muito menos troçando de mim, mas antes como se reencontrasse um velho amigo perdido de vista há muito, e o saudasse efusivamente. E, portanto, ambos descemos em santarém, de braço dado, compondo desajeitadamente o casaco usado que me protegia da frescura daquele final de tarde de verão.

Bénédicte Houart



terça-feira, 11 de outubro de 2011

Diário de Berlim: O fotógrafo


Há cerca de dois meses, me ligou um sujeito querendo me fotografar. Queria saber quando podíamos marcar uma sessão na minha casa. Eu não sabia quem ele era, muito menos como tinha conseguido meu telefone, embora não seja difícil. Não sou um homem dado a formalidades, mas fiquei constrangido – e um pouco irritado – com a sem-cerimônia do fotógrafo. “Desculpe, mas eu nem sei quem você é”, tive que dizer a certa altura, para que ele entendesse. E foi quando, com alguma presunção, ele pediu o meu e-mail, para mandar o endereço do seu site. Ele ia me fazer entender com quem eu estava falando. 

Me esforcei para não ser antipático ou deselegante, mas a verdade é que não tenho o menor interesse em ser fotografado (não ganho nada com isso, além de não fazer o menor sentido prático se não for para ilustrar algum artigo ou para a divulgação de um livro, e não era o caso). Acho que tenho o direito de não querer ser fotografado, mas fiquei sem graça de dizer isso já de saída e depois descobrir que o fotógrafo tinha sido mandado pela instituição que financia a minha permanência em Berlim, por exemplo. Perguntei se ele tinha falado com a instituição. Claro, ele disse. Assim que desliguei, mandei um e-mail para os responsáveis pela bolsa e eles responderam que não estavam sabendo de nada. O fotógrafo não tinha nada que ver com eles. 

A mensagem com o endereço do site chegou logo depois. O portfólio do fotógrafo estava recheado de retratos de escritores célebres, entre um ou outro diretor de cinema. A maioria dos retratados era moeda corrente no mercado internacional. Alguns tinham vivido em Berlim com a mesma bolsa que eu. Estava explicado como ele arrumou o meu número. Os telefones das casas dos bolsistas permanecem os mesmos. Eu estava lidando com um profissional. 

Resolvi ser honesto, medindo as palavras, é claro, para não cometer nenhuma gafe. Com o advento do e-mail, ninguém mais pode terminar uma carta ou uma mensagem com um simples “abraço”, sem correr o risco de parecer irônico ou sarcástico. Tem que ser sempre “um grande abraço” ou “um abração”, para não deixar dúvidas. O e-mail é um dos meios de comunicação mais hiperbólicos e traiçoeiros – e um dos menos sutis. Qualquer ambivalência pode criar mal-entendidos e soar agressiva, de modo que tomei todas as precauções para não ferir os brios do fotógrafo, explicando que não me sentia à vontade sendo fotografado e que, portanto, se não havia um motivo prático e imediato para a foto, preferia declinar o convite. A resposta foi imediata: “Não me parece que você esteja pouco à vontade nas fotos que vi na internet”. 

Respirei fundo para não rebater (é o que todo mundo devia fazer antes de responder e-mails). Mas fiquei contente de ter recusado o pedido. Não podia dar certo. O fotógrafo estava inconformado. Não entendia como alguém podia esnobar aquele rol de celebridades. 

Melhor assim. Semanas depois, minha editora alemã me escreveu, de Munique, propondo uma sessão de fotos para uma futura divulgação na feira de Frankfurt, quando o Brasil for o país convidado, em 2013. É claro, eu respondi. Não podia imaginar que a ideia tivesse partido do mesmo fotógrafo. Não era possível que o orgulho ferido fosse capaz de anular a tal ponto qualquer resquício de amor-próprio. Ainda mais num adulto. 

Dias depois e alguns minutos antes da minha leitura no festival de literatura de Berlim, um homem com uma câmera pendurada no pescoço se aproximou e, depois de confirmar o meu nome, disse sarcástico (ou talvez – e foi disso que comecei a desconfiar – não fosse sarcasmo nenhum e desde o começo eu apenas estivesse lidando com um imbecil): “Me parece que você mudou de ideia!”. 

Constrangido, como se tivesse sido pego em flagrante roubando fruta na quitanda da esquina, tentei explicar, de novo, a razão por ter aceitado a proposta da editora. Tentei ser gentil. E já estava pronto para me deixar fotografar, repetindo que em geral não me sinto à vontade e que só aceito ser fotografado por motivos profissionais, quando ele me interrompeu, impaciente e mordaz: “Lamento dizer, mas você escolheu a profissão errada”. Foi o suficiente. Num instante, desapareceu todo constrangimento e o ódio me subiu à cabeça. Será que eu ia ter que explicar ao fotógrafo que literatura não é documento, como dizia uma poeta brasileira? Que literatura não é ser fotografado? Ou será que era eu que estava (estou), de fato, na profissão errada? Ele se espantou com a fúria. E se retraiu. Ainda queria fazer os retratos. Sei lá por quê! Por teimosia. Por um orgulho patológico. Ou por burrice. Porque já não era possível. “Qual é o problema? Você não viu meu portfólio?”, ele perguntava, choroso. “O problema não é você. O problema sou eu!”, eu repetia. Mas ele não era capaz de entender. Desde então, continua me mandando e-mails, para marcarmos uma hora. E é claro que eu já não respondo. Porque escolhi a profissão errada.

Bernardo Carvalho
O texto foi originalmente publicado no Blog do Instituto Moreira Salles

Na próxima sexta-feira, dia 14 de Outubro 2011, pelas 9h30, Bernardo Carvalho vai apresentar o seu paper  "A Morte da Obra" no Colóquio "Público e privado, o deslizar de uma fronteira", organizado pelo Centro de Estudos Comparatistas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
                                       
                                              14/11/2011 » 9h30 » FLUL » Anfiteatro III


Para mais informações, visite a página do Centro dos Estudos Comparatistas

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Murimuri, os paceiros longínquos

para o André Fernandes Jorge


penso nas grandes feiras de potlatch e nos pequenos
mercados dos pequenos editores de poesia da ilha de Woodllark
e na dádiva de não ter que decidir
penso no infinito comércio intertribal de elogios e nos pescadores
de pérolas antes da chegada dos homens de bigode
penso nas aldeias enfeudadas e na modéstia exagerada do seu clã
penso nas formas muito solenes de
dizer que sim
nos antropólogos em seus caderninhos
anotando poemas mais bonitos que o século
que esse inhame se precipite até eles como outrora
um inhame semelhante veio deles até
nós
penso na ostra-espinhosa-vermelha e nas fórmulas que
não falham nunca
um estado de excitação apodera-se do seu cachorro/crocodilo/cinto
penso nas coisas de ódio e de sossego
longamente repetidas
antes e depois
do almoço
o cachorro fareja a tua fúria


Laura Erber é escritora e artista visual brasileira. Em Junho publicámos no Blog da Cotovia o seu livro: “Bénédicte vê o mar” (Editora da Casa) e dedicado à poeta e tradutora Bénédicte Houart.