quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Versos que lembram (5) – José Duro



                José Duro, de quem hoje ninguém fala nem sequer recorda o nome, não foi um poeta consensual. Alguns riram-se mesmo dos seus poemas. É o ónus, talvez, de ser demasiado ingénuo e autêntico, ao mesmo tempo que artificial e empolado.
                Outros porém respeitaram a obra deste epígono satânico e decadente, que bebeu em António Nobre (tísico como ele próprio) o gosto por cadaverosidades, em Guerra Junqueiro o vezo do sarcasmo, da grandiloquência e do sensacionalismo, e em Charles Baudelaire o engodo pelas ‘flores do mal’. Por algum motivo a obra chegou à décima-primeira edição.
                Falemos claro: os críticos mais severos nunca o levaram muito a sério. ‘Poeta menor’, catalogaram, e passaram adiante. Mas uma certa mocidade académica, generosa e excessiva como ele, arvorou-o em poeta obrigatório. Isto nos finais do séc. XIX, princípios do XX (José Duro faleceu em 1899). Digo isto, porque havia lá em casa o Fel, sua segunda e principal colectânea de poemas: tinha sido comprado em Coimbra, nos seus tempos de estudante, por meu Pai, que foi sensível, como em geral a rapaziada menos exigente dos seus tempos universitários, aos quase sacrílegos arrebatamentos de José Duro, como o era aos de Guerra Junqueiro.
                De forma que um dia descobri o livro, que andava lá por casa mais ou menos oculto (et pour cause), e li-o. Fez-me muita impressão aos 15 anos. Até aí, de poesia, eu tinha lido o quê? Os textos bem-comportados das selectas escolares do Estado Novo, onde José Duro não tinha entrada e onde pontificavam Almeida Garrett, João de Deus e as intragáveis cogitações de Alexandre Herculano, uns patriotismos de Afonso Lopes Vieira e uns clichés popularuchos de António Correia de Oliveira. Agora o caso mudava de figura. Pela primeira vez lia coisas sobre mulheres em que estas não eram fadas do lar, nem pálidas castelãs, nem robustas camponesas namoradeiras ― e compreendia que a poesia não era só uma arca de bons sentimentos, de bons costumes e de boas intenções.
E impressionou-me tanto descobri-lo, que ainda hoje me lembram alguns versos deste poeta maldito, nomeadamente os alexandrinos da quadra final do poema “Bacantes”, que então aprendi de cor e ainda não esqueci:

                               E, ó prostitutas, sob os vossos espartilhos
                                Descubro as seduções de que os sentidos nutro…
                               E odiando a vossa carne, adoro o vosso útero,
                               Porque ele, sendo podre, é raro gerar filhos!


A.M. Pires Cabral

O livro de poesia mais recente de A.M. Pires Cabral, Cobra-d´Água, publicado pela Cotovia, vai aparecer nas livrarias em Novembro.


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