terça-feira, 18 de outubro de 2011

Intercidades nº 830, carruagem 23, classe turística


Se lhe contasse a minha vida, dirigiu-se ele para mim, quase sussurrando, embora olhando-me sem rodeios. Se lhe contasse a minha vida, repetiu, e humedeceu os lábios, passou os dedos pelo cabelo ralo, pestanejou. A voz chata, neutra, sem inflexões, as palavras redondas, as sílabas bem destacadas, apesar do sussurro. A sua vida não me interessava nada, sabe, nada, nem a dos outros, sabem, nada, de resto, mesmo a minha, com franqueza, só me interessava porque não lhe podia fugir, não porque fosse minha, quero dizer, não porque a sentisse minha, mas porque não tinha outra, ou só às vezes, às vezes conseguia escapar-lhe, precisamente como agora, agora cada dia, de há muitos anos para cá, menos ao fim de semana, quando tomava o comboio suburbano para regressar a casa. Hoje, não. Hoje tinha vindo num intercidades, estava exausto, e a paisagem que desfilava perante mim, ou do meu lado esquerdo, dava-me o pretexto de que eu necessitava para devanear, deixar-me embalar ao ritmo do andamento, o corpo afrouxar, fechar os olhos de vez em quando, imaginar que isto e aquilo, se isto se aquilo, e outras coisas que tais. Cavalos, vacas, ovelhas, pastagens, vinhas, milheirais, oliveiras, velhas fábricas, armazéns em ruínas, faias, pequenos regatos, o tejo de quando em quando, bancos de areia lá pelo meio, quem me dera estender-me num, e outro que não eu, ora ali ora acolá, talvez fosse na realidade um espantalho abanando ao vento, parecendo acenar-me do lado de fora, desaparecendo por instantes, voltando a aparecer pouco depois, despedindo-se de mim, troçando de mim, despedindo-me a mim e à vida na qual, como se numa cruz, eu me encontrava pregado, eu me tinha deixado pregar sem dar por isso, nem dores nem exclamações, nem súplicas nem lamentos, ninguém me tinha abandonado, antes fora, antes fosse, provavelmente eu próprio me tinha encarregado disso, dos pregos, do madeiro, da lança perfurando o peito, sobretudo do abandono, sim, sem dúvida, pelo menos do abandono. Ia sair em santarém, meia hora de viagem, pouco mais. De modo que lhe disse, então conte lá, pensando, daqui a nada chego, ele cala-se, eu calo-me, de resto nem preciso de falar, basta-me ouvir, entra a cem sai a duzentos, que importa, outro de mim a ouvir, outro de mim a desobstruir, a deletar, que importa, venha então essa história. Conte lá, homem. Conte. Enquanto ele prosseguia repetindo monotonamente, sem qualquer ênfase, se lhe contasse, se lhe contasse. E os lábios, mais uma vez, e o cabelo, mais outra vez. E as pestanas irrequietas. Pois, conte. Conte, então. A minha vida não vale um chavo. Como, disse eu, como. A minha vida não vale um chavo. Bom, disse eu, como quem diz, quero lá saber, que raio. Não há nada para contar, percebe, nada, nada. Bom, repeti, num tom hipocritamente conciliador, alguma coisa haverá, algum detalhe… Não, não está a perceber, não há detalhes nenhuns, só generalidades, só generalidades. Bom, disse eu, meio agastado, meio intrigado, isso toda a gente pode dizer, generalidades, mas com certeza algum detalhe que mereça a pena… Acha que sim, acha, pois ouça, ouça e comprove: aquilo que fui, fui-o; aquilo que não fui, fui-o também; mas não me pergunte o quê, nem o que não fui, muito menos o que fui, não saberia dizer-lho; devo ter nascido, suponho, visto que cá me encontro, mas não me recordo; hei-de morrer, suponho, visto que cá me encontro, mas também disso não me irei recordar, e, entre uma coisa e outra, cinquenta anos de nada vezes nada… Homem, não diga isso, então e todos os anos que ainda tem pela frente… Não, não, pela frente não, atrás, de trás para diante, de frente para trás, exactamente o mesmo, tanto faz começar pelo princípio como pelo fim, acabo sempre aqui, parei aqui, está a perceber, nem sei quando foi isso, mas estou parado, aqui e há quanto tempo, nem sei, movo-me mecanicamente sem na verdade sair do mesmo sítio… Agora só intrigado, eu, pensando vagamente, mais um maluco que me apareceu, que azar, e mesmo assim intrigado, há maluquices para todos os gostos, e, de resto, o que o fulano diz até é sensato, eu próprio… Ouça, homem, eu próprio poderia dizer o mesmo, generalidades como o senhor, nada de novo debaixo do sol, que nasce, se desloca, mais alto no verão, mais baixo no inverno, se põe, e, depois da noite, em que também nada há a registar, felizmente aliás, torna a nascer e… E, mesmo assim, se eu lhe contasse a minha vida, alguma coisa de especial, pelo menos para mim, se para si não sei, mas o senhor havia de ser capaz de fingir que sim, que diabo, nisso estamos todos bem treinados, sim, alguma coisa acabaria por descobrir… Pela primeira vez, vislumbrei alguma hesitação no seu rosto. Ficou calado alguns segundos, fixou o olhar na janela. Depois, abruptamente, pediu, não, nem pediu, ordenou, sim, mandou, pois bem, conte-me então o senhor a sua vida. Já me tramei, pensei, mas por que não, pensei também. Vá, obedece-lhe.

Evitei com cuidado as generalidades. Ative-me a certos pormenores, por mais insignificantes, omiti outros, ou voluntariamente ou por esquecimento. Ele ouvia-me com avidez, sorvia-me as palavras, embevecendo-se, embebendo-se, a boca entreaberta, nenhum comentário, nenhuma pergunta, uma intensa admiração, inclinado para mim, tocando-me quase, agarrando-me por vezes inconscientemente a manga do casaco, sacudindo-a como um miúdo, incentivando-me com o olhar, continue, continue, como se a minha vida fosse algo de extraordinário. Como se comparação nenhuma. Apesar de todas as parecenças com cada outra vida uma qualquer. E, no fim, porque o comboio entrava na estação de santarém, limitou-se a dizer: o senhor acabou de contar exactamente a história da minha vida, tal e qual, sem tirar nem pôr, ou quase nada, em todo o caso eu não seria capaz de melhor. Omitiu certos detalhes, é certo, mas, em contrapartida, referiu outros de que eu já nem me lembrava. Humedeci os lábios, passei os dedos pelo cabelo ralo, pestanejei várias vezes, a custo contendo as lágrimas que me afloravam aos olhos. Porque só então o reconheci: era ele que de pé por entre as vacas, as ovelhas, as pastagens, os milheirais, os armazéns em ruínas, e até, sim, até estendido num banco de areia no meio do rio, era ele que me acenava do lado de fora do comboio, não como se despedindo-se, o que eu julgara, muito menos troçando de mim, mas antes como se reencontrasse um velho amigo perdido de vista há muito, e o saudasse efusivamente. E, portanto, ambos descemos em santarém, de braço dado, compondo desajeitadamente o casaco usado que me protegia da frescura daquele final de tarde de verão.

Bénédicte Houart



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