segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Comer com os olhos #5


©Patrícia Azevedo da Silva


Ultimamente tenho sentido muito medo. Medo de tudo e muitas vezes. Todos os dias choro, mas é quase sempre com histórias fofinhas e de sucesso (agora mesmo foi com uma mãe elefante que entrou em pânico porque o seu bebé escorregou e caiu nuns carris de sacar água de um poço e alguns tigres estavam a aproximar-se, então uma outra família de elefantes voltou atras para distrair os tigres enquanto a mãe, à bruta, libertou o filhinho; correu tudo muito certo).
Só houve duas outras vezes na vida em que senti um medo que era tão real tão real que me paralisou. Das duas vezes fugi para o Brasil, o que me salvou, mas infelizmente essa senhora elegante que me alimentava estes golpes e agilizava as viagens entre 2 a 7 dias, a minha querida avózinha, já não anda por aqui (pelo menos não de forma a conseguir planejar tudo). Por isso fiz o melhor que sei, e fugi de férias para o mar. Works for me.
Antes das férias, assisti ao documentário da Paula Rêgo que passou no canal 2, e que em inglês se chama Secrets and Stories (já soube que não, mas na minha cabeça este título tem qualquer coisa de Mike Leigh/Secrets and Lies). Muitas coisas me impressionaram neste documentário: a relação dela com a mãe (Rêgo conta que, quando era pequena, costumava colocar um cavalete atrás do cavalete da mãe e pintavam as duas, e apesar da mãe nunca ter sido particularmente encorajadora, aquela era a sua tentativa de criar ali um bond qualquer); a relação com os filhos, claro, porque também é muito disso que o filme vai à procura (é realizado pelo seu filho, o mais novo de três), e fica mais ou menos claro (ficou para mim) que talvez a relação de Rêgo com eles não fosse assim a mais quentinha (também provavelmente alimentada pelasb expectativas e ideias sociais/contextuais do que deve ser uma mãe), e além do comentário da filha do meio, que diz que a sensação deles é que tinham sido sempre actores secundários dessa história de amor que era a dos pais, há ali um momento ackward quando o filho lembra Rêgo de que um dia comentou com ele que o trabalho era a coisa mais importante do mundo - o que me impressionou foi a forma como ele disse aquilo como se, agora com distância, estivesse à procura que a mãe reconhecesse que afinal talvez o mais importante fossem eles, os filhos, e ela, felicíssima, retorna: "Eu disse isso? Ainda bem que disse. Porque é a verdade". (Estou a escrever de cabeça, não sei se foi exactamente assim.); a relação com o marido, intensa e gigante, de cumplicidade e aquelas coisas meio twisted que acontecem quando pessoas que têm o mesmo craft se juntam; e, também e talvez acima de tudo (não porque me tenha impressionado mais mas porque é o mais importante para Rêgo, e nesse sentido para respeitar os seus desejos), a sua relação com o seu trabalho.
Aquilo era uma grande maluquice. Eu achei que era em bom. Sobretudo as imagens da casa da Ericeira, com ela a ir pintar para a adega ou celeiro ou que raio lá era, com os filhinhos espalhadas por ali a brincar no jardim, não vou mentir, era um pouco o meu sonho de vida agora. E no meio daquilo tudo a melhor parte foi quando conta que um dia (acho que nessa mesma casa) desceu as escadas e apanhou o marido a beijar outra mulher e correu a chorar a contar isso à sua melhor amiga. À medida que lhe contava, a sua amiga começou a chorar também, e aí ela percebeu que os dois, o marido e a melhor amiga, estavam a traí-la: aquele não era um choro de empatia. Rêgo descobriu então que essa amiga estava apaixonada pelo seu marido e que tentava imenso que ele deixasse a família para ficar com ela.
Então a Paula Rêgo pulled a Lemonade! Rêgo estava na altura a fazer o seu quadro "Cães de Barcelona" (Rêgo conta que ficou chocada porque descobriu que em Barcelona às autoridades andavam a espalhar carne envenenada pelas ruas, para matar os cães vadios – e pelo caminho, outros vadios) e não sabia o que colocar em cima (da pintura), e acabou por colocar uma figura monstruosa, que seria a sua "amiga". Até onde sei Victor Willing, marido de Rêgo, não respondeu em modo Jay-Z's 4:44 mas comentou, mais tarde, que aquele quadro representava aquela que tinha sido uma ameaça à sua família. O quadro, de alguma forma (ou de todas as formas) foi uma maneira de perceber o que "(Rêgo) pensava sobre si mesma, sobre ele, e sobre tudo". Acho que, aplicado a todo a sua obra, Rêgo diz que através do trabalho "pode sair a raiva toda que a gente tem". E esta raiva e esta forma de lidar com a vida pode servir para combater os medos: logo no início Rêgo diz que sempre foi deprimida e que se lembra, quando era pequenina, de ter medo de tudo. O que contrasta muito (e ela reconhece-o) com a forma como viveu o resto da vida: a ida para Londres, o romance com o marido, ter suportado uma gravidez e um parto (o primeiro) sozinha (com o apoio sobretudo do pai, dela, mas sem o apoio do pai da criança), os amantes, e sobretudo a sua relação com o trabalho.
Como mulher, e não sei se bem totalmente consciente, Rêgo foi um pouco punk. Nunca pensei que a Paula Rêgo e a Beyoncé pudessem ter tanto em comum. 




Patricia Azevedo da Silva nasceu em 1977 naquele que é, sem dúvida, o ano mais punk do século XX (serpente de fogo). Trabalha sobre a dádiva e a ideia de reciprocidade a partir da óptica do amor (a sua tese de doutoramento, “Pão é Amor Entre Estranhos”, ainda por terminar, aborda a ideia do alimento enquanto linguagem&afecto, a partir de trabalho de campo realizado em São Paulo). Na sua tese de mestrado, “Para lá do prejuízo”, trabalhou os temas de género, colonialismo e performance a partir da análise de experiências de mulheres brasileiras a viver em Lisboa.
Trabalhou com quase todas as produtoras de cinema em Lisboa (nos anos 2000) e foi aí que descobriu a importância da repetição (no sentido de repetir obras). Também foi ganhando outras relações com outras ideias de teatro e, actualmente, tenta fazer o mesmo com a dança (e, ainda remotamente, com as artes plásticas).
Cresceu em Queluz, Monte Abraão, e a ideia de periferia e subúrbio está presente em tudo o que faz, pela via da marginalidade e pela forma encantada como aprecia pracetas. É mãe.



Sem comentários:

Enviar um comentário