sexta-feira, 14 de julho de 2017

Aborrecimento, quase poesia


VII. Criaturas Fossoriais

 
            Minha mãe, ainda viva, quer ofertar-me uns limões.

            Venta por entre os cachorros de um canto a outro da cozinha, atrapalha-se com o dispensário de sacos plásticos.

            Digo-lhe que não há necessidade.

            Quando lhe digo que não há necessidade, minha voz surge estranha, acortinada.

            Minha mãe, ainda viva, diz que descobriu um canal de televisão que dá, ao longo do dia, imagens do histórico calçadão da Rua XV.

            A mesma imagem, em verdade. Mudam apenas as pessoas, as horas do dia, a iluminação.

            Ela diz que nunca provou limões como aqueles, que são diferentes de todos os limões que já viu, que os tem usado quase sempre para temperar o macarrão, que nunca provou limões como aqueles.

            Minha avó já não ingeria sólidos. Passou os últimos anos de sua vida a babar sobre a camisola uma concocção de aspecto horripilante, a mesma sopa aguada de feijão com macarrão por quase uma década.

            Mudavam apenas as horas do dia, a iluminação.

            Não havia pressa. Não, nenhuma pressa de morrer.

            Verifico as horas no celular, digo-lhe que não há necessidade.

            Por favor. Por favor, pare.

            Suas cores primárias. Vejo como se espalham.

            Ela dava berros na portaria, a troco de nada, berros tão potentes que eram perfeitamente audíveis no quarto piso.

            Meu avô, outro cretino, costumava dizer, “Há vinte anos ela ameaça se jogar da janela, até agora nunca passou do segundo andar”.

            Dou um passeio cinzento como a mente, como a marmita que vou buscar quase todos os dias no restaurante Varandas, a uns cem passos do edifício onde vivo.

            Mas onde você tem comido?, ela pergunta, venenosíssima, ao vasculhar minha geladeira.

            Habituei-me a chegar ao fim do horário do almoço, entre duas e três da tarde.

            Habituei-me a regrar a fome até duas ou três da tarde.

            Ainda não me habituei a ter os meus mortos.

            Já não há quase comensal no estabelecimento, preparam-me uma refeição tão lauta que com frequência dá também para a janta, o churrasqueiro tem sempre uma má notícia para dar.

            Também a ele me habituei, penso que me habituei.

            Quando soube que eu vinha do Rio de Janeiro, de imediato falou-me de um amigo seu que vivia lá e que se havia suicidado recentemente.

            Um tipo grande de avental, o rosto de um branco ceroso com manchas vermelhas, a mexer com facões e espetos por trás de um balcão. Conta, inexpressivo, de um amigo carioca que suicidou-se recentemente, devido a uma sucessão de infelicidades conjugais.

            “Morava na Glória”.

            “Sei bem”.

            Não sei o que há com minha cara, mas inspiro confidências deste gênero de todo tipo de gente.

            É bom que se sintam tão confortáveis na minha presença.

            É um pouco cansativo.

            Por vezes, permaneço na fome sem realmente me aperceber disto até um pouco depois das três. Dou-me conta do adiantado da hora, como os cem passos que me apartam do Varandas com pressa inabitual. É tempo de ver a porta de aço correr.

            Procuro outro restaurante.

            A palavra fossorial é achado recente. Impossível ouvi-la sem pensar na minha mãe, em mim. É o que somos, afinal. Criaturas fossoriais.

            Para ver o movimento no calçadão da Rua XV, o qual já atravessei tantas vezes em quefazeres pelo centro, a mãe põe a mesma trágica antiface que usaria para assistir a um episódio de Cops.

            Costumava ser seu seriado predileto. Cops. A bem da verdade, passava os dias assistindo a enlatados americanos numa espécie de transe malévolo.

            Trancava-se no quarto, sempre fungando alto, sempre com aspecto ofendido. Por qualquer coisa era aquele mesmo bater de portas, um par de grosserias e depois a televisão acionada no último volume.

            Por qualquer coisa, dava uns berros que perturbavam todos os cães da vizinhança.

            Digo-lhe que não há necessidade, que tenho um pouco de pressa.

            Não me ouve. Os cachorros – agora são quatro – se esgoelam por cima dela.

            Ela diz que não está aqui para falar de despesas.

            Ela diz que a aeromoça a tratou com muita grosseria.

            Ela diz que a senhora idosa que está comendo sozinha na mesa ao lado tem cara de megera. Peço-lhe que fale um pouco mais baixo. Ela diz: “mas não é você quem vive dizendo que nem todo velho é digno de piedade?”.

            Uma criatura indefensável, a avó. Um verdadeiro monstro. E como gritava.

            Quando eu era pequeno, lembro-me, exprimia-se até com alguma suavidade. Não era uma voz subserviente ou acanhada. Mas era suave.

            Ela diz que o professor de canto com o qual há pouco fez uma aula experimental a tratou com muita grosseria.

            Ela surge acortinada, baixa, intoleravelmente severa. Pare, por favor, pare, digo-lhe. Pare. Veja no que estamos nos tornando. Veja no que estamos nos tornando. Minha mãe se esgoela por cima da praça, por cima do disco, por cima dos tiros na televisão, por cima dos latidos.

            Ontem dormi por cima de um filme. Nele, uma moça conversava de maneira muito civilizada com um ex-amante. Depois de nossa separação, ela dizia, fui para a capital e lá passei quatro anos, dos quais não me lembro de nada.

            Com o hálito desabado das manhãs, beijo o menino à porta de casa, desejo-lhe um bom dia no escritório. Transporto-me momentaneamente para uma prazenteira fantasia de felicidade doméstica.

            Fica pouco, o homem projetivo.

            Termino o café sozinho.
 
 
 
O autor desta coluna chama-se Ismar Tirelli Neto.

"Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados".
 

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