sexta-feira, 30 de junho de 2017

Aborrecimento, quase poesia


VI: Autorretratos Sumários



            Se quiserem fazer uma imagem exata de como passo os meus dias, deverão antes de mais figurar um par de mãos torcidas sobre a guarda metálica de uma minúscula varanda.

            Umas mãos que entornam de mangas grossas, vermelhas, que entornam de janelas, que entornam de cortinas bastante finas, algo encardidas, cuja cor original não saberia precisar.

            Gostaria de ficar o maior tempo possível neste não saber precisar muito bem.

            Desentortando um pouco as coisas, umas mãos que entornam.

            (O aparelho vibrou, anunciando que dentro de três minutos o motorista William Wilson estaria à porta do edifício. Despedi-me de meus amigos, tomei o elevador, cruzei o jardinete a passos surpreendentemente decididos. Pensava comigo mesmo se aquilo seria o início ou o fim da minha desgraça).

            Deverão imaginar estas mãos entrelaçadas, os dedos entrelaçados, enformando novelo solene.

            Não deverão imaginar que pende do novelo um incensório. Não deverão imaginar que dele pende uma coleira, não havendo, ao extremo da coleira, nenhum cão, nenhum canário, nenhuma imagem de fidelidade inabalável.

            Deverão imaginar um sujeito a imaginar uma única gota de sangue finalmente posta em liberdade.

            Deverão imaginar um gesto, uma postura que prefacie anúncios volumosos. Ou então certa maneira de debruçar-se sobre os eventos, por mais insignificantes que sejam, que é como se ele estivesse sempre à boca de uma grande articulação, de um estalo, do encontrão com uma memória de há muito perseguida.

            Deverão imaginar esta iminência como uma espécie de constante, uma condição.

            Deverão imaginar um tipo a chafurdar, ainda que discretamente, em gestos e posturas. E portanto deverão imaginar gestos e posturas como poças, como pequenos charcos de profundidade insuspeitada.

            Deverão ser capazes de ler, na atitude das pequenas mãos, na postura algo cerimoniosa, o anúncio sempre prestes a ser feito, mas que nunca chega propriamente a articular-se, qual seja:

            a perda do fio da meada.

            (Vi ontem na rua um sujeito mudar de ideia. Uma bela visão, uma bela visão. O homem vinha descendo a rua na minha direção, deteve-se de repente à sombra, firmou o olhar na distância e deu meia-volta. Sim, foi positivamente de tirar o fôlego. Soube, no instante em que o homem dobrou a esquina pela qual há pouco havia surgido, que aquela imagem duraria um bocado, que sua simplicidade não era absolutamente confiável).

            Deverão imaginar o contato destas mãos com a poeira fuliginosa que há tempos vem se depositando sobre a guarda da varanda.

            E deverão ter presente a palavra mediania, sua profundidade (insuspeitada), o desmaiado de sua cor, como sempre nos soa como que pronunciada de muito longe.

            A palavra engolindo grandes distâncias, volatilizando-se, vindo cair em minúsculas partículas sobre a guarda metálica de uma minúscula varanda.

            Dela, vê-se uma espécie de beco onde pequenos grupos de jovens saídos de uma escola nas imediações vêm prosear e queimar uns charros nos grandes bolsões de sol de inverno.

            Este tipo de tempo que torna as narinas vibráteis, como se o ar – iluminado, frio – nos entrasse com cerdas metálicas.

            É bem verdade que este inverno nos tem presenteado com dias absolutamente estupendos. É mesmo difícil saber o que fazer deles.

            Observo os jovens no beco por longo tempo e com infinita ternura.

            Meu televisor não funciona direito.

            Agora deverão imaginar qualquer outra coisa, para fazer com que esta figura tome pés no mundo. Sim, qualquer outra coisa; uma jovem democracia terceiro-mundista ou um bingo clandestino, um açougue ou uma infância cercada de memorabilia militar, uma grande loja de roupas chamada Quo Vadis ou...

            (No início, eu sabia perfeitamente para onde estava indo. Agora já não tenho tanta certeza).


O autor desta coluna chama-se Ismar Tirelli Neto.

"Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados".

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