sexta-feira, 2 de junho de 2017

Aborrecimento, quase poesia

IV: Calçados


            Somos calçados. Calçados contornamos os corpos. Calçados contornamos a caiação das faces. Calçados contornamos os cães descarnados. Calçados contornamos clãs, calçados contornamos certo afã dinástico. Calçados contornamos casarões, câmaras de tortura, cameratas barrocas. Calçados contornamos cornijas, calhas que gotejam, síncopes nas sombrinhas. Calçados contornamos colônias e capitanias.

*

            “Eu não sou a guerra que vêm”. Colocamos-lhe este pensamento na cabeça à guisa de consolação. Estendemo-lo sob seu itinerário do dia. Pisando melhor. Amortecido. Aproveitamos para malear um pouco o pescoço; girar o crânio para cá, para lá.

            Entrevamo-lo numa frincha entre as nuvens, uma claridade circular. Entrevamo-lo na palavra escotilha. Na palavra olho-de-boi.

            Desviamos uma iluminação.

            O sol apanha o cinza, cobre-se. A cidade a dar voltas. Mas é tão grande e tão lenta que mal se faz notar.

            Deus a proteja.

            “Não, eu não sou a guerra que vêm”.

            Colocamos-lhe ruas tranquilas, vocábulos de boa hora, larga margem para rubricar. As contas, em sua grande maioria, pagas. Relações amistosas com o proprietário do apartamento, com quem costuma, com certa periodicidade, trocar endereços de antiquários e livrarias. Pusemos o corpo em marcha – não apenas o seu, não apenas o seu pequeno, precário corpo, mas o próprio corpo do bairro, dos dias, das horas. A tudo evidenciamos em pleno funcionamento. Cobrimos com C... as depressões metafísicas, as panes enunciativas. Fizemos o que se encontrava a nosso alcance para desatravancar este horroroso pátio cinzento entre manhã e noite. Desligamos o televisor. Iluminamos a garçonete, a qual não esquecemos de traçar em rosa quartzo, de modo que acionasse o rádio em volume discreto, numa destas estações inofensivas que levam apenas soft rock dos anos 1970.

            Carpenters, Carole King, America. I've been to the desert on a horse with no name, it felt good to be out of the rain. Que mais querem?

            Estes favores, passarão sempre em branca nuvem? “Cara de outono da porra”, disse-lhe um amigo quando passaram por um parque espetado de árvores nuas. Não há nevoeiro, e ele insiste: dizer o nevoeiro, dizer uma condensação, enunciar o esparso com concentração implacável.

            Colocamos diante de si a certeza de que, pouco e pouco, reaprende a falar, reaprende a escrever, reaprende a caminhar.

            Memórias? Não lhe arrojamos nenhuma específica.

            “Não sou um assassinato por honra. Não sou um atentado”.

            Colocamos na enumeração também uma piscina vazia – um elemento como qualquer outro, sem demasiada importância – mas é para lá que ele gravita, infalivelmente, gozando da mais perfeita incompreensão. Procuramos, mais uma vez, abrandar a musculatura do pescoço, recordamos-lhe um andar de força; tentamos torcê-lo ao de leve na direção de algum outro frequentador do café.

            People. People who need people.

            O tipo ao telefone ali no canto, o tipo de camisa azul, calças pretas, cabelos cacheados, do que estará falando? Ele atenta, afinal, mas para enunciá-lo socorrem-lhe apenas palavras para uma piscina vazia.
            Ele se abeira.

            Tentamos trazê-lo de volta.

            Não, está velando, de volta à Rodoviária da cidade onde nasceu, imaginando bombardeios, como se fosse preciso imaginá-los, fixa-se na grita entre labaredas e escombros, está preso por uma despedida. A quê?

            Está ouvindo, multiplicado pelos ladrilhos brancos, o grito que ressoava do vídeo: Parem a cavalaria! Parem a cavalaria!

            O tipo largou a papelada que estudava, gravíssimo, para atender a outro telefonema. Acaba de perguntar a alguém: “E aí, como vai a vida”? É para o costado oposto da pergunta, onde esboçam-se todos os poemas ainda por cometer, que devemos encaminhá-lo.

*

            Memória? Ocupação? Pertences pessoais?

            Não, nada.

            Por ora, apenas um paletó surrado sobre uma coçadíssima camisa vermelha, e esta eterna incerteza respeitante aos materiais. Diga-se o mesmo dos olhos, constantemente semicerrados sob a cabeleira seca, inconquistada. A respiração morosa, a voz imersa no coro da cidade, o corpo que não para de produzir bojos. Barba e bigode revestindo alguns vulcões adormecidos. A misericórdia de um nariz assim, nem-fede-nem-cheira.
            E ademais, aberto, revoltantemente aberto, ladrilhado de alto a baixo. Sem conteúdos. Um espaço onde as vozes reverberam, cada vez mais rombudas, sem nada que as dilua.




 

O autor desta coluna chama-se Ismar Tirelli Neto.

"Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados".

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