segunda-feira, 22 de maio de 2017

Comer com os Olhos #2


Esta semana circularam várias notícias sobre o Brasil, não muito boas. Uma delas, sobre um raid policial feito na Crackolândia, li-a ontem mesmo antes de dormir. Foi uma escolha bastante estúpida, a de ler aquela notícia, porque como é óbvio não consegui dormir (consegui, mas demorou bastante).


“Crackolândia” é uma palavra inventada (como todas as palavras, acho eu, ou não) para designar aquilo que já lá está: um lugar na cidade conhecido pelo tráfico e consumo de crack. Só conheço a de São Paulo, mas acho que deve haver em todos os lugares onde o consumo de crack existe e é um problema.

Ninguém me preparou, nem poderia, para aquela armadilha (digo “armadilha” porque não foi intencional) que foi a primeira vez que estive na Crackolândia. Por coincidência (ou não) fui com aquela que foi a primeira pessoa que conheci da primeira vez que cheguei a São Paulo, em 1999. Foi horrível chegar a São Paulo. Eu vinha com a cabeça cheia de ideias de como seria o Brasil, todo um Brasil construído à volta das novelas e músicas tropicais e aterrei em Guarulhos, que visualmente era a linha de Sintra vezes mil, em escala mega-metrópole latino Americana, e foi horrível. Passámos de Guarulhos para Santana e aquela sensação do “que raios estou aqui a fazer?!?” não passava. Foram precisos dois dias e as Galerias do Rock (e também um retiro em Pindamonhangaba) para ganhar um sentido e uma impressão que nunca mais (acho eu) se vai embora: São Paulo é o meu sertão.

Quando chegámos a São Paulo, eu e “os portugueses”, fomos recebidos por um grupo de pessoas muito incríveis e conheci pela primeira vez o jogo “o que você prefere?”. Estas pessoas eram, quase todas, vegan como eu, e descobri logo ali um paraíso ao qual voltaria muitos anos depois: saída de um lugar onde só havia um Celeiro e uma fábrica (Cortegaça) onde nos podíamos abastecer eu, junk food lover e designated alarve, estava no paraíso - em SP chamavam “podrão” ao cachorro quente, que tinha TU-DO o que podemos imaginar E puré de batata (!!!) e eu conseguia comer três seguidos. A cidade cheirava a fritos, e isso não era uma coisa má. Havia um restaurante chinês, ao qual voltaria 10 anos depois (quase) todos os sábados, onde havia uma comida nojenta e óptima (era preciso ter sorte para acertar, ou já ter arriscado muito), e no cardápio liam-se coisas como “lulas de soja”, “frango de tofu” e por aí vai. Havia açai. Acho que só dois de nós, “dos portugueses”, curtiram esse sabor meio de terra/meio de whisky (na altura, soube-me assim) que mais ninguém suportou (alguns anos mais tarde, na Praia Grande, vários batidos foram jogados fora por um rapaz que, do outro lado do balcão, não acreditava que alguém escolhesse beber uma coisa com aquele sabor).

Mas também havia música e na verdade era por isso que lá estávamos e passávamos os dias (ou pelo menos muito tempo) nas Galerias do Rock, que eram assim uma espécie (eram mesmo) de um Centro Comercial DO ROCK. Ou seja, de música. Cada andar com o seu estilo, tinha gótico, punk, metal, e claro, hardcore straight edge vegan and whatnot.  Foi aqui, não sei se exactamente “aqui” nas Galerias do Rock mas aqui, em São Paulo, que conheci Racionais e me tornei die hard fã do Mano Brown, um dos poetas mais incríveis. Também passávamos muitas tardes em sebos, a comprar livros e discos, e trouxe para casa o “Ando meio Desligado” dos Mutantes porque um dos meus amigos me cantava (berrava) aos meus ouvidos “eu só quero/que você me queira” TODAS AS MANHÃS e eu achava delicioso (e que eu, à minha maneira idiota e pouco disponível para encarar de frente a dor emocional, gritei uns anos mais tarde aos ouvidos daquela que era a pessoa que eu amava na época, numa cilada afectiva/rejeição da saída daquela pessoa da minha vida).



Foi nesta viagem que fui pela primeira vez à USP e pensei, um dia vou estudar aqui.

Foi nesta viagem que escolhi São Paulo sobre o Rio porque o Rio foi tão desinteressante, e escolhi assim uma vida de comentários, “ah, mas o Rio, aquela cidade incrível e linda” e eu sempre, “São Paulo é que é”, agora mais por teimosia, para ser sincera, porque entretanto o Rio também aconteceu para mim, primeiro em Lisboa, go figure, quando por causa de um trabalho colaborativo entre artistas portugueses e brasileiros (não dava nada por isto) chegaram a Lisboa 4 artistas brasileiros e chegou a casa o Francisco Frazão a dizer, estes solos são incríveis e são numa piscina, vais gostar, dá uma chance” (ele não falou exactamente assim porque não diz coisas como “dá uma chance”, isso é meu, “Dá-lhe uma chance” e “Não nos sonegues”, que em bom rigor até hoje não sei o que quer dizer, só me lembro de nós, no mar de Copacabana, nós todos “os portugueses” abraçados e o Ricardo Avelino a rir e a gritar, e aquele mar meio mole e bom, e sim, é impossível não achar o Rio lindo).

E eu então levei o Francisco Frazão muito a sério e fui, e logo de caras amei o que vi porque vi o Filipe Rocha, que era um actor de teatro incrível já, mas que para mim era o namorado da Shirley Manquinha da “Torre de Babel”, e mais a Thiaré Maia, linda que dói, que era uma das meninas que vivia na casa da mãe do Cauã Reymond (não me lembro do nome desta novela), e havia Michel Blois, mais discreto, e depois havia Alex Cassal que se tornaria, muito rapidamente, num dos meus heróis, tanto tanto que o meu filho quase que nasce no mesmo dia do que ele, só à força da minha admiração. O Alex que me receberia depois na sua casa no Rio, generosidade pura, e todas as pessoas que por ele entraram na minha vida também: sobretudo a Clara, que me deixou ocupar o seu fogão e cozinhar feijão preto, tantas saudades que eu tinha de casa que a primeira coisa que fazia na casa de alguém era cozinhar, e que topou o meu lado noveleiro e aceitou sem julgamentos, fez mais do que isso: levou-me ao Projac, onde eu quase arrisquei fazer a maquilhagem da Malu Mader quando ela perguntou quem era a maquilhadora e eu quase levantei o braço, pensei “Vale a pena ser presa por isto” (mas depois oprimi-me, em boa hora). (Levou-me também ao Mineirinho e à Academia da Cachaça, lugares de máxima importância, onde comi escondidinho e tomei várias batidas de alguma coisa enquanto celebrava o encontro bonito com Luz.)

Muitos anos depois, de passagem por São Paulo, conheci outra “família do amor” que nos resgatou, a mim e à pessoa com quem viajava, de um cenário assustador num hospital privado em Guarulhos: internada de emergência e na iminência de ser operada antes mesmo de qualquer exame, parecia, a pessoa ao meu lado tremia enquanto eu, eu também tremia internamente com a cabeça a mil, e depois de um telefonema onde alguém gritava “Saia daí agora, Patrícia!” chega uma voz grave que eu, no meio do meu delírio, associei ao Tim Maia e que dizia, “Patrícia, você está calma? Fique calma, que tudo vai dar certo.” [entra “Imunização Racional” como banda sonora deste momento lindo]. Este alguém, esta família, tem um longo historial de acolher pessoas e tantas vezes me recebeu incluindo desta, neste detour forçado que me obrigou a recordar São Paulo e ter a certeza de que, um dia vou estudar aqui.

Ontem voltei a São Paulo porque saiu esta notícia da Crackolândia; há uns dias já tinha circulado um vídeo em que vários moradores de rua se queixavam sobre a actuação da polícia: uns perderam (foram retirados) os documentos o que, para um morador de rua, é bastante mais horrível do que para outra pessoa, na minha opinião; a outro “levaram até a ração do cachorro”. [Lembro-me, já de regresso e a escrever sobre o meu trabalho, de ter lido a dissertação de Simone Frangella sobre moradores de rua (que se tudo der certo vai contaminar imenso a minha) e de ter achado que de facto a medida do avanço da inteligência das políticas “sociais” (acho que não será a palavra certa, mas não consigo pensar em outra) se traduzia (por exemplo) no facto de (alguns) abrigos em São Paulo terem uma espécie de cacifo para prender e guardar os carros em que os moradores de rua guardam as suas coisas, tinham sobretudo espaço para os cães dos moradores de rua. Para uma pessoa que mora na rua e que tem pouco ou nenhum contacto físico, ter um cão não é só um meio efectivo de estar alerta, descansando (o cão reage a surpresas e isso permite abandonar-se um pouco), é também um aconchego. Em São Paulo descobri que existia such thing as roubo dos cães que ficam presos à porta (do supermercado, do Banco, etc) por moradores de rua, pelo amor/protecção que trazem, e agora que escrevo isto penso que vêem sempre juntos, “amor” e “protecção”, pelo menos da forma como habitualmente os concebemos, não é apenas condição do morador de rua]. Ao ver aqueles vídeos e imagens, foi muito óbvio, aquele primeiro embate, naquele dia em que chorei durante dois só à pala das coisas que tinha visto, e vê-las foi mesmo importante porque estar visível é acontecer/concretizar (foi também em São Paulo que descobri que a híper-visibilidade, a in-yer-face visibilidade é sempre preferível ao esconderijo para os que são alvos (mais) fáceis, naquela que é uma tentativa de construir alianças com quem passa/com quem vê apesar de, infelizmente, esse acordo tácito nem sempre funcionar, e algumas pessoas estão dispostas a aceitar algumas coisas que vêm disfarçadas de “medidas de saúde pública” sem haver muita noção do perigo que é essa ideia de “saúde pública” e as maldades que já se fizeram/fazem em nome de). E nós a chegarmos ali, aos Campos Elíseos (quanta perversidade), nós com as nossas roupas e sacos de panos cheios de discos acabadinhos de sair das lojas da Barão Itapetininga, e depois já não éramos um nós, já era eu a chorar e a fazer força para disfarçar e o meu amigo em cool, vai ser pior se corrermos para trás agora, Pati, e a viramos uma esquina e depois outra e um mini-parque infantil e crianças a rir e eu agora a pensar no “Laughter Out of Place” da Goldstein sobre as favelas no Rio,  e a pensar que raio de título, porque é que ela acha que o riso está deslocado numa favela, este riso é real, e já nem me lembro de como saí dali (foi de táxi) e durante dois dias estava meio que em choque e percebi que não ia ser fácil.



E São Paulo ainda assim na minha memória, como o lugar em que se concretizou definitivamente a ideia comensalidade enquanto experiência de amor, mais, à la Bloch: como o lugar onde se materializa a consubstancialidade (o envenenamento) e o afecto.

Para mim São Paulo - a minha experiência de São Paulo - não é a esquina da Ipiranga com a Av. S. João (e se fosse já era lindo), mas é aquele cruzamento que fica na esquina da aceitação com a busca do novo. E também são (Paulo) todas as pessoas que conseguiram fazer da estranheza um lugar bom. Ontem voltei a São Paulo por um motivo horrível, e de bónus consegui transformar isso em flashback brutal de como encontrei o meu caminho para casa, como se estivesse novamente dentro daquele ônibus da Viação Gato Preto de cada vez que ia buscar alguém ao aeroporto e me animava com a chegada de (da) casa. É isto que São Paulo faz por mim. Não é pouco.



Patricia Azevedo da Silva nasceu em 1977 naquele que é, sem dúvida, o ano mais punk do século XX (serpente de fogo). Trabalha sobre a dádiva e a ideia de reciprocidade a partir da óptica do amor (a sua tese de doutoramento, “Pão é Amor Entre Estranhos”, ainda por terminar, aborda a ideia do alimento enquanto linguagem&afecto, a partir de trabalho de campo realizado em São Paulo). Na sua tese de mestrado, “Para lá do prejuízo”, trabalhou os temas de género, colonialismo e performance a partir da análise de experiências de mulheres brasileiras a viver em Lisboa.
Trabalhou com quase todas as produtoras de cinema em Lisboa (nos anos 2000) e foi aí que descobriu a importância da repetição (no sentido de repetir obras). Também foi ganhando outras relações com outras ideias de teatro e, actualmente, tenta fazer o mesmo com a dança (e, ainda remotamente, com as artes plásticas).
Cresceu em Queluz, Monte Abraão, e a ideia de periferia e subúrbio está presente em tudo o que faz, pela via da marginalidade e pela forma encantada como aprecia pracetas. É mãe.

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