sexta-feira, 19 de maio de 2017

Aborrecimento, quase poesia


III: Diante de quê?


               É sempre outro, o texto que se arma.

            Premeditava escrever uma lata de coisas sobre a questão do desaparecimento, convencido que está de que ele próprio desapareceu, de que está desaparecendo, de que – de alguma forma – veio dar a esta cidade com vistas a isso. Ocupa-se do assunto há algumas semanas. Espirala-se. De tanto ruminar, o tema por fim se externa, faz uma precipitação, conforma-se numa realidade independente e opressora. Agora é arrostar com coisa vasta demais, intricada demais, e que ele sente confusamente ter arremessado de si próprio.

            Houve momento em que este processo poderia ter sido interrompido? As ideias não caem bem, são como roupas que recusam o portador, saem andando.

            Sinistra ronda sem corpo.

            Reconhece, afinal, a autoridade diante da qual coça as barbas, apatetado, metido no roupão de microfibra bordô que há tempos adotou como pátria primeira: o texto que paira, rapinante, sobre o texto que se escreve; a reflexão gorada; um ror de improvisos elegantes e concisos que lhe escapa, e que lhe escapa exemplarmente.

            Retroceder da canção em vez de atacá-la.

*

            Sempre outro, sempre aquém, o texto a que chegamos. Sempre o mesmo adiamento, envio ao tempo seguinte, outra ocasião, o mesmo giro manco em torno do que deve ser exprimido.

            À volta, a mesma matilha de horas, cada vez mais próxima. E a razão, ao fim e ao cabo, dá-se a elas.

            Teve, em algum momento, certa identidade de porte com a ideia de desaparecer, mas este momento passou. Excedeu-se. Como, de resto, sempre fazem os momentos. Arrebentam o périplo, sangram por todos os lados, azul de realeza a manchar os carpetes.

            Processo pelo qual um pensamento agiganta-se até tornar-se impensável.

            Um gigante, como se derruba um gigante?

            Talvez com imagens.

            De todo modo, não será combate limpo. Tem a ideia por algo a sabotar com imagens, ritmos, música, trívia. Tem a ideia por algo a implodir por meios escusos, com a astúcia bastante baixa que foi obrigado a desenvolver ao longo da vida, por uma questão de sobrevivência.

            Que imagens arremessar contra a ideia do desaparecimento? Em que imagens resolvê-la?

            Há poucos dias, folheando uma coletânea de Sophia de Mello Breyner Andresen, leu um poema chamado “Praia”. Nele, através dele, chega bastante atônito a uns pássaros atirados contra a luz como pedradas.

          
*

            Posta-se diante da piscina pública em construção.

            (A piscina pública em construção é uma imagem do desaparecimento? Uma canção do desaparecimento?)

            A razão dá-se às horas.

            Sua sede, sua fome, sua desumanidade, em tudo isto não vê senão justeza, uma engrenagem em pleno funcionamento.

            É mesmo belo, quando pensa a fundo.

            Não se compreende a coisa. Não se compreende absolutamente. Sabe-se apenas que funciona.

            E o mundo não se reduz tão mole a uma série de atributos clássicos e signos essenciais. Estamos muito longe agora. Do mar, da luz, da areia, das paredes desadornadas e brancas, das vistas de clareza elementar.

            E no entanto, há estes pássaros, este itinerário violento contra a luz, as pedradas em que se mudam em pleno voo.

            Um pássaro-pedrada fere tanto a noção de pássaro quanto a de pedra.

            Segue despachando notícias de C..., a toca para a qual o conduziu seu caráter eminentemente roedor. Vai enviando circulares ao longo das quais enaltece a eficácia de seus perseguidores, que ainda não lhe apanharam sabe-se lá como.

            Apanharão. Em bom tempo apanharão.

            Relata progressos.
            “Puseram já as telhas e instalaram a eletricidade, mas a piscina segue vazia”.



O autor desta coluna chama-se Ismar Tirelli Neto.

"Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados".

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