sexta-feira, 5 de maio de 2017

Aborrecimento, quase poesia

2: No Café Agridoce


            Penso que vamos todos fartos dessas histórias de cafés. Conhecemos já suas fachadas, seus interiores, suas serventias. Mas não parece haver o que nos livre delas. Dizem-se ainda coisas cinzentas, coisas a meio, feridas de subtexto... Ou então coisas abobadas e doces que o futuro não conseguirá digerir plenamente, e empurrará de volta às nossas bocas em jatos os mais inoportunos...  É preciso, enfim, que tenham lugar, é preciso que estas pequenas misérias tenham lugar. Por ora, ao menos. Nossa impaciência nada pode contra o encapamento da poeira, os letreiros caindo de subliminaridade, os velhos cardápios encadernados em couro... Nada escapa ao significado, à sugestão. Não há descanso. Por onde quer que se olhe, a mesma gente melancólica a entrar em acordos melancólicos, demorando-se nas flores inanes sobre a mesa; pelas paredes, reproduções sensaboronas de cartazes de touradas, dir-se-iam originais, tamanho o desgaste...

            Bom, talvez tenhamos roçado agora numa virtude, afinal. Isto do desgaste ter o poder de mudar reproduções em originais. O tempo a tudo comprime. As mãos, simuladas ou não, destinam-se ao mesmo encarquilhamento. Como já não se pode fumar agora em canto nenhum, trabalharão distraidamente os guardanapos até formarem pequenos cilindros... Vejam: vazios. Engastam-se entre os dedos como que observando misteriosas direções de palco. Somos nós, então, que começamos a nos portar enfumaçadamente. Os braços passam a manifestar pretensões de melodia. De repente fica-se assim, vago, ralentado. Ao fim e ao cabo, é força admitir, pouca coisa nos moveu além de cálculo. A consciência – nada vaga – de um cerimonial. É sempre a última vez que alguém nos vê. É sempre a última vez que vemos alguém.

            É assim que entra uma cabeça. A minha, a princípio. Sobrenadando à pergunta: do que me despeço? Do que exatamente me despeço? À cata já do que memorizar, os olhos, a cabeça, certa de que tudo nestes lugares é dócil, certa de que tudo se prestará ao rapto, certa de que todos os objetos visíveis poderão ser apresentados no futuro como prova irrefutável de que algo extraordinário foi, de fato, vivido. Do que me despeço? De que venho me despedindo, seguidamente, há tanto tempo?

            Do extraordinário. Da noção de extraordinário.

            A cabeça entra. Acompanhada não muito de perto por um corpo, ambos pesados e saltitantes. Mas de maneiras diferentes. Segundo tempos diferentes. Este pequeno descompasso é o que entra.

*

            Entro, caminho conexamente até a uma mesa afastada. São poucos passos, não demoro o olhar nos cartazes. Percebo os arredores apenas o suficiente para constatar que não há mais nenhum cliente no local. Abancado, recuso polidamente o cardápio oferecido pelo garçom; peço-lhe só um café e o açucareiro.

            Ele some. Os garçons somem-se para o transcurso de histórias reais. Ficamos aqui, deste lado do balcão, reino de banalidade e xaropadas. Busco manter-me ereto no silêncio que se abre, enrijeço as costas, procuro colá-las às costas da cadeira, preenchimento completo.

            Tudo à minha volta deve reduzir-se a este contato puro e desarrazoado. Devo perder nisto tanto o corpo quanto as imediações.

            À cabeça, agora involuntariamente erguida, apresenta-se o desafio seguinte: ver da forma mais geral possível, olhar fixamente adiante e não enxergar, deixar isto talvez para os ouvidos, de todo modo, não reter, não isolar nenhum componente, não permitir nenhuma transmissão. Mas os matizes de chalé vão lentamente se comunicando a mim. Apesar dos esforços, sofro já as solicitações de um certo sentimentalismo.

            Concentro então todas as minhas energias em me tornar um couraçado. Até o café chegar, terei me transformado num navio de guerra em repouso. Posto melhor, no próprio repouso dos navios de guerra. Juntarei afinal o corpo à cabeça e será este o resultado. Concentro todas as minhas energias no verbo “torpedear”.

            Espero o café esfriar um pouco.

           Enquanto o café não chega, enquanto não esfria, enquanto não me torno nada, ligeira movimentação na outra extremidade me alerta para o fato de que não estou só, de que não estivera só em nenhum momento desde lá ter posto os pés. Há um rapaz, costas voltadas para mim; há uma moça que o fita, pálida, tão triste. Pergunto-me qual dos dois estará desmanchando as coisas. Isto se estende por alguns minutos até que, sentindo-se observada, a moça fixa os olhos em mim. “Crava” seria termo mais adequado. Sabemos de que tipo de gente se trata porque esta magnífica tristeza nunca dura de um rosto a outro, havendo, neste movimento, como que uma perda de divãs.

            É então que sorrio, sorrio monstruosamente, o rosto em brasa, também os dentes. Por nada neste mundo serei arrastado para dentro daquela memória. Nada me fará tomar parte nisso. Se me quiserem, terão de me apanhar à força. É a pequena resistência que coloco, tornar a cena inoperante, pôr uma trave ao mecanismo. Não, não será desta vez. Se tivesse mais presença de espírito, atearia fogo às barbas. Se tivesse dinheiro, mandaria para lá uma garrafa de Dom Perignon.

*

           Chama-se Café Agridoce. Foi aqui que vi o Mauro pela última vez. Foi aqui que ele me perguntou, o cabelo, como sempre, todo enevoado, se jamais me ocorrera explorar o mundo, ao que prontamente respondi: “Sim, é claro, o tempo todo”.

            Meses depois vim dar a este cu de Judas, de onde nunca mais saí.



O autor desta coluna chama-se Ismar Tirelli Neto.

"Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados".

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