sábado, 4 de março de 2017

Semanário da Gata Livreira Maravilhas: 1


Era pequenina, por isso não sei ao certo como aqui vim parar, mas sei onde aqui guardam os rolos de papel branco dito “higiénico” onde, nos primeiros tempos, eu afiava as minhas unhas. A minha casa natural é o mundo, para abreviar esta conversa sobre o espaço em que me movo. Os humanos, porém, com as suas afeições geradoras de medos geradores de privações, entenderam confinar-me a estes quatro andares edificados, contando com o rés-do-chão. Conheço todos os degraus, são o meu ginásio privado. Não me deixam sair para a rua e quando alcanço essa proeza, desesperam com Ais Jesus. Afligem-se muito. Quem o Jesus dos ais é eu não sei, mas em contrapartida sei o que é atum, e estamos conversados.


(Minto. Sei quem o Jesus é. É o Cristo. Vem nas letras da capa do livro que um homem alto, bem-parecido, comprou na quinta-feira, “Voltar a falar de Jesus Cristo”. Um livro bom porque cá em casa os livros são sempre bons. Bons e bonitos. Especialmente bons. Saborosos. Mas já me deixei disso, estou de dieta.)


De que me serve gostar da calçada à portuguesa ou da sombra fresca, qual a das catedrais em dias de canícula, que os lugares debaixo dos carros estacionados aqui em frente proporcionam? Ou de que me serve o calor que os motores libertam nos dias mais gelados? Ou de que me serve a desafiadora presença dos telhados da baixa lisboeta que observo das janelas da salinha do quarto andar? Adivinharam: de nada. Estou confinada, aprisionada. Habito este edifício velho tornado novo por arquitectos notáveis. As obras não são do meu tempo, o que não significa que eu seja nova. Sou, aliás, gata velha. Mas velhos, como sabemos, são os trapos.


Prefiro o rés-do-chão apesar das visitas frequentes dos humanos. São das espécies mais maçadoras que conheço. Piores que os humanos só mesmo os cães e os donos dos cães. Tormento de criaturas. Prefiro o rés-do-chão, ainda assim, e no rés-do-chão prefiro o mezanino pois é de lá que enxergo a passagem das horas.


Tenho manhas de poeta, ou não vivesse numa livraria. Com isto da “passagem das horas” quero dizer os que frequentam a minha casa. Alguns a medo. Imponho respeito. Sou negra, sedosa, os meus olhos verdes encandeiam os homens como os da Joaninha. (Esse livro não sei se o tenho cá, mas adiante.) O meu nome é Maravilhas, a minha profissão: livreira.


Virei semanalmente escrever as minhas memórias, se houver quem as leia. De outra forma, para quê? E quando digo “semanalmente” significo “semanalmente ou coisa que o valha”. Nem sempre estou de maré. Há aborrecimentos, muitos cheiros no ar, muita preguiça. E há o bom que é dormir, também.


Peço-vos atenção. As minhas memórias mudarão o mundo, ainda que haja um cão russo que já tenha escrito as dele, e um nariz, entre muita outra gente. Mas as minhas serão melhores, primeiro porque são minhas, depois porque tem dias em que tenho manhas de poeta e tem dias em que tenho manhas de outros géneros. Dotada sou, e multifacetada. Ademais, ronrono maravilhosamente. Sou a Maria Callas das gatas, em suma.

Bien a vous.

3 comentários:

  1. Já há muito que admiro tanto o seu saracoteio calmo e pachorrento por cima da secretária, das estantes, das lombadas dos livros, como os seus donos que lhe permitiam essas liberdades. Por isso tem leitor. Não sei se felino, se canino.

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  2. Miss Maravilhas promete, e isso de ter manhas é coisa felina, homessa. Uma gata livreira é personagem a ter debaixo de olho, mas à socapa, que toda gata só pode ser olhada assim, de soslaio.

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  3. "Sou a Maria Callas das gatas, em suma." Quando vi a foto dessa gatinha logo vi que se tratava de uma DIVA.

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